7 de dezembro de 2016

Feios, Sujos e Geniais

Eu sou da opinião que os grandes shows das nossas vidas acontecem na hora certa.

Mês passado, aconteceu o show do Guns N’ Roses no Brasil. Caso você tenha lido minha resenha sobre o show – ou mesmo me siga nas redes sociais – sabe que foi com Guns que eu comecei a ouvir hard rock no final dos anos 80. E, como aconteceu com todos meus amigos que estavam ao meu lado, daí para o heavy metal foi um pulo.

Meus dois primeiros foram do Guns. O terceiro foi de outra banda que estava estourando na época: Faith No More. Enquanto o LP rodava em casa pela primeira vez, percebi que uma das músicas não era da banda. Ela se chamava War Pigs e era composta por Osbourne / Iommi / Butler / Ward.

E parece ser fácil dizer isso hoje, mas era de longe a música mais sombria do disco. Intricada, pesada, cheia de paradas. Eu não sabia quem eram aquelas pessoas e, na falta de um Google (estamos falando de 1989) apelei para meus amigos mais velhos. Dez minutos depois, eu sabia que aquilo era Black Sabbath, uma banda que eu já havia ouvido falar – e talvez conhecesse alguma música sem saber.

Mas, mais importante, aprendi que Black Sabbath deve, antes de tudo, ser respeitado. Isso não foi falado pelos meus amigos, mas eu senti o respeito nas respostas. E, no auge do meu conhecimento nulo sobre música, eu concordei que uma banda que escrevesse uma canção como aquela devia ser respeitada.

Os anos se passaram e eu comecei a aprender mais sobre Black Sabbath. Como todo moleque – bem, ao menos como todo moleque daquela época – eu descobri primeiro que era a banda que o Ozzy tinha sido vocalista. Segundo, eu descobri – e isso não pelos meus amigos, mas por ler sobre outras bandas – que o Black Sabbath era uma espécie de pedra fundamental do heavy metal.

 Sim, muita gente diz que o heavy metal nasceu antes disso, com algumas gravações do final dos anos 60. Mas, vamos ser sinceros: é gostoso demais dizer que o heavy metal é o único gênero musical com data de nascimento exata, que seria 13 de fevereiro de 1970, data que o primeiro disco deles chegou às lojas inglesas.

E, ao ouvir o disco, fica claro que não é coincidência o fato de que, na Santíssima Trindade do chamado "rock pesado", formado também por Deep Purple e Led Zeppelin, eles eram vistos como os freaks, os perturbados, os excluídos. E poucas coisas soam mais atraentes que isso para um moleque que está usando o heavy metal para atravessar a adolescência.

Mas confesso que mesmo ouvindo Sabbath com meus amigos – o respeito era total e a única discussão que era razoavelmente permitida era a respeito das fases Ozzy e Dio – só fui começar a ouvir "de verdade" na faculdade. Talvez tenha sido meu primeiro caso de maturidade musical (o outro foi quando comecei a ouvir blues “de verdade” depois dos 30 anos, por finalmente me sentir pronto para aquilo).

Mas veja bem... Eu ouvia Sabbath mesmo quando não estava ouvindo Sabbath. E isso é algo que poucas bandas podem ser orgulhar. Ouvindo Iron Maiden, eu estava ouvindo Sabbath. Ao colocar um disco do Metallica, eu estava ouvindo Sabbath. Judas Priest? Tinha Sabbath no meio. Eles estavam em toda a minha coleção de discos.

Hoje eles possuem uma prateleira inteira da minha coleção de CDs. Discos de estúdio, discos ao vivo, até mesmo os discos da fase em que a banda trocava seus integrantes uma vez por semana. Aí sim eu deixava os discos rolando e ia ouvindo enquanto trabalhava ou fazia qualquer outra coisa.

Até o dia, muitos anos atrás, em que decidi ouvir Black Sabbath de verdade. Afinal, direta ou indiretamente, a banda estava comigo há tanto tempo que eu me sentia como se conhecesse os discos de cor e salteado. Mesmo assim, separei todos os discos dos anos 70, coloquei um fone de ouvido e comecei a escutar.

Como se estivesse ouvindo pela primeira vez. Como se eu não fizesse ideia do que é aquilo. Como se eu estivesse num estádio vendo a banda tocar na minha frente.

E, anos depois disso, eu estava. Com uma capa de chuva colada no corpo, o rosto encharcado de uma tempestade cujos maiores trovões vieram do palco, quando eles decidiram abrir o show com a música que começou tudo.

Assim como naquela semana em que eu resolvi ouvir Black Sabbath com a mesma atenção que tenho quando ouço música clássica, minha reação foi de espanto. A genialidade de tudo aquilo chega a ser assustadora. Talvez seja isso que diferencie shows bons de inesquecíveis: no show inesquecível, você é impactado como se estivesse ouvindo pela primeira vez músicas que conhece de cor.

Eu sei que a cara e a voz e o humor da banda está na figura de Ozzy. Mas, por alguns motivos (especialmente o fato de eu já ter visto um show) eu queria centrar minha atenção em Tony Iommi. Afinal, estamos falando do homem que dez entre dez músicos de heavy metal apontam como o inventor do estilo.

E ele estava lá. Como sempre ao lado do palco, como sempre discreto com sua roupa preta e seus óculos, como sempre mostrando não apenas o que é heavy metal, mas também o que é possível fazer com uma guitarra. Mas é impossível ouvir apenas Iommi quando, do outro lado do palco, está Geezer Butler.

Poucas vezes eu vi um baixista tocar tão bem ao vivo, mas nunca tinha visto um baixo com o volume tão alto – alto a ponto de fazer o Morumbi inteiro tremer com apenas quatro cordas e mostrando que peso e classe podem sim andar juntos.

No meio, Ozzy, claramente envelhecido, mas ainda Ozzy – e parte essencial do conjunto. Desequilibrado, imprevisível, provocando e declarando amor à plateia, abençoando e amaldiçoando uma multidão inteira.

Falar sobre as músicas seria perda de tempo. Mesmo com o show começando com a “música institucional” da banda (aquela que eu sempre falei para meus amigos que, “se um dia eu pudesse ver uma única música do Black Sabbath ao vivo, eu veria essa”), seria perda de tempo. Dizer que não estavam todos os clássicos da banda – apenas porque Black Sabbath é daquelas bandas que é impossível fazer um show com todos os clássicos – seria perda de tempo.

Black Sabbath está acima de qualquer setlist. A banda é um monumento.

Certa vez, eu li em algum lugar que, na vida, existem apenas duas coisas que você pode confiar: você mesmo e os seis primeiros discos do Black Sabbath. Ao sair do show, eu tive certeza que isso está correto.

Mas tive mais certeza ainda da primeira frase desse texto: os grandes shows das nossas vidas acontecem na hora certa. Um mês atrás, eu vi a banda que me abriu as portas para todo um estilo musical. Agora, eu vi a banda que inventou esse estilo musical.

Quem me conhece, sabe que eu tenho uma relação muito emocional com isso. Meus filmes e quadrinhos, meus seriados e discos são mais que cultura pop. Eles contam a minha história. Eles me lembram de quem eu sou.

Foi o último capítulo na história deles. Mas eles escreveram um capítulo enorme na minha vida. E poucas vezes tive tanto orgulho da minha história ao, ainda com o rosto encharcado, ver a banda se despedir do palco e as luzes se acenderem.

E, já na rua, eu ainda tentava entender o que havia visto, com o baixo de Geezer Butler ressoando nos meus ouvidos. Como sempre. Para sempre.

2 comentários:

Elise Garcia disse...

War Pigs é daquelas que me empurram pra frente... Eu sempre soube que nunca ia ver o Sabbath ao vivo, mas essa bem que eu queria ter visto. :)

Leonardo Lopes Carnelos disse...

Comecei ouvindo Black Sabbath com o disco Reunion. A voz do Ozzy já me era familiar. Fiquei maluco. Consumi os discos do Sabbath da era Ozzy e os discos da carreira solo de Ozzy em menos de um ano.
No último domingo cheguei bem em cima da hora no Morumbi. Ele estava lotado. Acabei ficando num lugar muito lateral ao palco. A visibilidade e a qualidade do som estavam sofríveis. Quando a chuva apertou não teve como não ficar emputecido. Já na segunda música eu já havia abstraido tudo aquilo e estava cantando e pulando enlouquecido. Era o Black Sabbath ali na minha frente praticamente repetindo o setlist do Reunion.
Simplesmente inesquecível.