3 de outubro de 2016

Sobre Guarda-Chuvas e Caixas Eletrônicos

Depois de um longo e tenebroso inverno sem postar nos blogs por absoluta falta de tempo, vamos começar a colocar a vida em ordem. Além disso, eu sempre defendi a ideia de que os posts estão na rua esperando para serem escritos, e acabei de comprovar isso voltando do banco.

Fui até lá sacar um pouco de dinheiro e já entrei na agência emburrado. Isso porque está chovendo e fui obrigado a andar com o guarda-chuva, algo que abomino completamente.

Sério, já passou da hora da humanidade inventar outro modo de se proteger da chuva, porque guarda-chuva é algo arcaico demais. É desconfortável, é meio inútil porque você não fica completamente seco...

E o problema é que as pessoas acham que, com o guarda-chuva o problema de não tomar chuva já está resolvido e a humanidade pode se preocupar com outras coisas. Eu admito que ele seja uma evolução. Antes, quando começava a chover, nós tínhamos que correr para dentro de cavernas. Mas agora nós podemos sair na chuva: basta usarmos essa vareta com uma capa em cima dela.

Não, o problema não está resolvido. O guarda-chuva é uma primeira solução, mas precisamos de algo mais eficiente. Especialmente no meu caso, já que quando cheguei ao banco quem estava saindo era o pessoal daquelas empresas de segurança que leva dinheiro para o banco.

Você já viu a cena? Um deles entra no banco carregando dinheiro, e os outros ficam na calçada, portando armas capazes de derrubar o governo de alguma micronação africana e olhando para os lados, como se fossem agentes de segurança no seu primeiro dia de trabalho no Asilo Arkham.

Então, lá está o sujeito segurando uma escopeta com o dedo no gatilho e olhando para os lados. E o que ele vê? Um casal andando de mãos dadas. Um homem de meia idade passeando com o cachorro. Um carequinha a poucos metros dele, de costas e mexendo em um guarda-chuva fechado, como se estivesse tentando puxar algo que está escondido ali dentro.

E a culpa não é minha. Eu não sabia como o guarda-chuva daqui de casa fechava. Tentei fechar, e ele abriu. Tentei fechar e ele abriu. Tentei fechar e ele abriu. E o sujeito com a escopeta me observando. Felizmente eu tateei o negócio e descobri que existia uma trava ali, antes que o segurança se convencesse de que a qualquer momento eu puxaria uma granada lá de dentro e me atiraria para dentro do carro gritando “VIVA LA REVOLUCIÓN!” e que a única maneira de impedir isso seria disparando sua arma e fazendo metade do meu corpo desaparecer.

Enfim... Entrei no banco e fui para o final da fila do caixa eletrônico.

Cinco minutos depois, eu estava no mesmo lugar.

Comecei a ficar impaciente. Lembra quando eu disse que o invento guarda-chuva precisa ser melhorado? Bom, isso pode esperar. O que precisamos aprimorar mesmo são os caixas eletrônicos. Porque poucas coisas são mais idiotas que isso.

A meu ver, o caixa eletrônico precisa ser algo rápido. Porque vamos pensar uma coisa: durante alguns minutos, você está demonstrando para o mundo que A) você possui dinheiro no banco; B) está com o cartão do banco na mão; C) está ao lado de uma máquina onde o cartão de B pode ser usado para retirar o dinheiro de A. E, a não ser que você seja o sujeito com a escopeta do lado de fora do banco, se alguém se aproximar e colocar uma arma na sua cabeça, a primeira coisa que você vai fazer é entregar sua senha.

Então, o que os bancos deviam pensar? “Olha, a pessoa que está usando o caixa eletrônico está exposta e desprotegida. Precisamos fazer com o que processo seja o mais rápido possível”. E eles pensam assim, mas só na primeira frase. A parte que nós estamos expostos ali eles entendem. O problema é que a solução encontrada... Bem, eu consigo imaginar até a reunião em que decidiram isso.

– Precisamos garantir que nosso cliente não seja roubado no caixa eletrônico.

– Sim. Mas como faremos isso?

– Vamos fazer a máquina perguntar dezenove coisas pessoais para o cliente. Assim, será impossível que alguém use o cartão fingindo ser ele.

– Mas isso não é demorado?

– Nós somos um banco. Ninguém espera que a gente seja rápido.

– Mas e se nesse tempo alguém entrar e colocar uma arma na cabeça do cliente, e mandá-lo dar a senha do cartão?

– Bom, nós somos um banco. Segurança pública não é trabalho nosso.

Essa é a ideia genial do banco. Você entra e coloca seu cartão.


DIGITE SUA SENHA

RETIRE SEU CARTÃO


Até aí, tudo bem. Mas basta você dizer que quer sacar vinte reais para começar o questionário.


QUAL É O NOME DA SUA MÃE?


QUAL SEU ÚLTIMO NOME?


QUANTOS NÚMEROS PRIMOS EXISTEM NO SEU CPF?


QUAL É A TERCEIRA MÚSICA DO LADO B DO OITAVO DISCO DOS BEACH BOYS?


ASSINALE VERDADEIRO OU FALSO NAS SEGUINTES FRASES SOBRE A HISTÓRIA DA ESPANHA.

Sem exageros, toda vez que eu vou sacar dinheiro me sinto como se estivesse disputando uma versão pobre do Show do Milhão. Não posso consultar universitários, não posso consultar as cartas e o prêmio máximo é cinquenta reais. Sim, definitivamente o caixa eletrônico tem mais urgência que guarda-chuva.

E, de uns tempos para cá, o caixa eletrônico piorou ainda mais. Como eu disse, eu estava no banco e a fila não andava. Quando eu percebi, todos os caixas eletrônicos estavam ocupados por idosos. E eles não estavam mais tentando sacar dinheiro. Já haviam se organizado em um grupo terrorista da terceira idade – uma espécie de Cocoon do Mal – e, pelo que ouvi, estavam planejando derrubar um caixa eletrônico e atear fogo no negócio.

Eu comecei a bufar, impaciente. Veja bem, eu me solidarizo com pessoas que não sabem usar o caixa eletrônico, mas eu realmente estava com pressa. Se eles fossem sacrificar um dos caixas eletrônicos ao deus deles e deixassem outro livre para eu usar, eu não teria me importado. Mas eles estavam debatendo alguma coisa ao mesmo tempo em que ocupavam todos os caixas.

Mas, ao verem que eu estava ali esperando na fila, eles enviaram uma emissária para me explicar a situação. E fizeram a coisa mais esperta do mundo: escolheram uma mulher igual a Nicette Bruno para isso.

E, convenhamos, não existe nada mais gentil que a Nicette Bruno. Se eu fosse secretário da ONU, mandaria a Nicette Bruno em todas as reuniões envolvendo os problemas do Oriente Médio. Nada no mundo é mais bondoso que a Nicette Bruno. Eu consigo ver a Nicette Bruno servindo café e bolo para representantes do Estado Islâmico – e fazendo dois deles sorrirem ao mostrar um vídeo do neto que ela tem no celular.

Então, os idosos terroristas já me ganharam quando a Nicette veio falar comigo.

– Você vai sacar dinheiro?

– Sim. As máquinas estão com problema?

– É a biometria que não está funcionando.

Ao falar isso, a Nicette se aproximou de mim e me contou algo como se fosse um segredo.

– Sabe, nós já temos idade. E, não sei se você sabe, mas depois de certa idade, nossa impressão digital começa a desaparecer.

Eu não fazia ideia disso. Tentei me lembrar de algum episódio de CSI em que isso pudesse ter sido comentado, mas não me ocorreu nenhum. Mas desisti logo porque eu estava indignado.

– Espere. A biometria não funciona com vocês?

– Não.

– E o banco obriga vocês a usarem a biometria para sacar o dinheiro?

– Sim. Eu vim sacar dinheiro para fazer compras e não consigo. É sempre assim.

Eu sempre detestei o lance da biometria. Eu acho meio arrogante a humanidade não ter a capacidade de aprimorar um guarda-chuva e, ao mesmo tempo, cismar de inventar coisas que pareciam legais apenas nos anos 60, quando eram usadas nas fortalezas dos vilões dos filmes do 007.

E eu já tinha me ferrado com essa biometria. Uma vez fui usar e a pessoa na frente de mim estava comendo aqueles sacos de batatas chips cancerígenas que vendem na rua e deixou o negócio engordurado a ponto de ninguém conseguir usar. Outra vez o sujeito na fila assoou o nariz com a mão – sim, sem lenço e sem documento – dentro do banco e limpou na calça antes de usar a biometria e eu desisti e fui embora vomitar e sacar dinheiro em outro lugar.

Então, sim, eu odeio a biometria. Mas dessa vez eu não senti ódio e sim meu coração se despedaçando. Porque não era uma velhinha qualquer falando isso para mim, e sim uma velhinha igual a Nicette Bruno.

Eu quis morrer ali.

Estava quase sugerindo que “olha, eu ouvi vocês falando que pretendiam incendiar um caixa eletrônico, e eu tenho um isqueiro aqui, vocês podem ficar com ele”, mas a Nicette não participa de atos terroristas. Ela não prega a violência de forma alguma. A Nicette apenas me disse:

– Aquele ali está livre, você pode tentar.

E eu fui. Morrendo de medo do negócio não funcionar comigo. Porque se a biometria não funcionasse, o que eu iria dizer em casa? “Não consegui sacar o dinheiro porque sou velho e não tenho mais impressões digitais”. Pronto. A Esposa iria me levar em todos os médicos possíveis e eu teria que dizer que a última vez que comi salada a moeda ainda era cruzado novo e ouvir que meu colesterol está no mesmo nível de uma pessoa clinicamente morta.

Minha vida iria acabar.

Coloquei o cartão rezando, respondi as dezenove perguntas rezando e a máquina me mandou colocar o dedo. Obedeci da forma mais delicada do mundo e...


TRANSAÇÃO APROVADA


Respirei fundo e peguei meu dinheiro. Quando me virei, estava disposto até a pedir desculpas para a Nicette pelo meu sucesso, mas ela apenas sorriu de forma sincera e disse:

– Que bom que você conseguiu!

Eu sorri de volta e dei boa sorte. E saí do banco me sentindo... Não sei. Jovem. Como se eu tivesse a vida inteira pela frente, e tempo suficiente para deixar minhas impressões digitais – que eu ainda tenho – pelo mundo.

Mas isso durou menos trinta segundos, até eu perceber que não estava mais conseguindo abrir o guarda-chuva. Porque talvez eu seja jovem o suficiente para ter minhas impressões digitais, mas já sou velho o suficiente para não conseguir aprender coisas novas.

Aliás, pensando agora, acho que a Nicette estava até mais inteira que eu. Certeza que até o final da semana minhas impressões digitais vão desaparecer.

3 comentários:

trottta disse...

Pô, eu adoro a biometria! Me sinto o Maxwell Smart! Mal posso esperar pra termos scanner de retina!

Melhor do que inventar outro apetrecho pra substituir o guarda-chuva, deviam inventar uma substância química que seria jogada no ar e parasse totalmente a chuva. Porque até capas de chuva, compridas até a canela, não nos deixam totalmente secos.

Agora, você precisa dar um jeito nessa sua velhofobia aí, hein!

Abração, Rob!

Caio Dias disse...

Hahahaha ri muito com o grupo Cocoon do Mal. Muito bom! Sinta-se jovem, meu caro Gordon. O que importa é a alma e o espírito jovem que move seus dedos para contar tantas histórias legais. :)

Rafiki Papio disse...

Eu nunca tinha pensado nessa questão da biometria para idosos. Quando você pensa que as coisas estão evoluindo é quando percebe que é só outra forma escrota do mundo excluir alguém.