5 de julho de 2016

Ferrão +3

Você já foi picado por uma abelha?

Eu confesso que não sabia responder a essa pergunta até uns dias atrás. Minha resposta era sempre “sei lá, acho que sim”. Porque eu encaro minha memória como um computador. Ela tem espaço limitado e saber se eu fui ou não picado por uma abelha não é exatamente um ponto marcante da minha vida.

Mas sim, eu sei que tem gente que sabe isso. Gente que se você perguntar “você já foi picado por uma abelha?”, vai responder que:

– Sim. Foi em 13 de agosto de 1996. Eu tinha dezoito anos e estava voltando da escola, quando ela me pegou aqui atrás do braço. Ainda tem a marca, olha.

Para algumas pessoas, ter sido picado por uma abelha é uma espécie de troféu na vida. Eu já conheci gente assim. Quando ela descobre que você nunca foi picado por uma abelha, apenas suspira e olha com desdém, como se você fosse uma criança que ainda não aprendeu a andar com as próprias pernas. É como se existisse um ritual de passagem e, pela expressão da pessoa, você ainda não chegou a ele – e, quando isso acontecer, os olhos do sujeito mostram que você vai se ferrar como aconteceu com o Macaulay Culkin em Meu Primeiro Amor.

E aí fica aquele clima pelo resto do jantar. O assunto já mudou, as pessoas estão falando de política, mas você percebe que o Senhor Já Fui Picado por uma Abelha fica encarando você em silêncio. Provavelmente pensando em como você é uma criatura inferior e que nem devia estar ali, na presença de alguém que já foi picado por uma abelha. E o tempo inteiro se segurando para não interromper a conversa e perguntar “vai me dizer também que nunca pisou num caco de vidro?”.

Sim, existem três tipos de pessoas no mundo. As que nunca foram picadas por uma abelha; as que já foram picadas por uma abelha; e aquelas cuja vida mudou pelo fato dela ter sido picada por abelha.

E, bem existia o quarto tipo, que era eu, a pessoa que não fazia ideia se havia sido ou não picado por uma abelha na vida.

Agora isso mudou. Rolou alguns dias atrás, mas podia ter sido hoje.

Acordei e, como em todos os dias, fui até a frente de casa fumar. Sentei no meu local de sempre (por escolha minha), acendi o cigarro do jeito de sempre (por escolha minha), abri o Twitter no celular (por escolha minha) e passei os olhos pela TL vendo as mesmas mensagens sobre os mesmos assuntos de sempre (essa parte é escolha dos outros).

E eu estava na terceira tragada quando alguém enfiou um estilete na parte de trás do meu braço. Assustado, olhei para o local da dor e vi uma abelha indo embora e algo enterrado na minha pele. Finalmente entendi porque a palavra “ferrão” se escreve automaticamente no aumentativo já que, pelo tamanho, podia ser o cabo de uma Espada de Duas Mãos +3.

Dor filha da puta.

Abelha filha da puta.

Vida filha da puta.

Segurei o ferrão com os dedos e puxei. Devia ter mais ou menos meio metro (e se você acha que estou exagerando, lembre-se que eu coloquei um “mais ou menos” na frase, que me dá salvo-conduto).

Então, agora eu sei. Eu já fui picado por uma abelha. Se você é daquelas pessoas que acha que isso é um momento importante na vida de alguém, considere-se feliz. Agora eu faço parte do seu grupinho e você não precisa mais me desprezar.

Mas... Lembre-se sempre que o que eu fiz é para poucos.

Porque eu desafio qualquer um aqui a repetir a façanha de acordar às 09h32 e ser picado por uma abelha, sem motivo algum e numa cidade grande, às 09h34.

Aí eu voltei para a cama. Porque um dia que começa com a abelha tomando o café dos campeões com seu braço não pode ser um bom dia. É matematicamente impossível.


Em tempo: enquanto escrevia esse post, me lembrei de já ter escrito sobre abelhas. Assim que terminei o texto, fui ler o post antigo e... Adivinhem: eu já tinha sido picado por uma abelha. Ou seja: eu ser picado dessa vez não foi apenas ridículo, foi inútil. 

7 comentários:

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Apenas um comentário: Espada de Duas Mãos +3 me fez ter vontade de mestrar RPG pra você, hahahahaha!!!

Abraços!

trottta disse...

Quando criança, eu uma vez pisei descalço numa abelha que eu julgava estar morta e, veja só, não estava! Lembro da dor, e não lembro do que eu fiz pra melhorar. Existe pomada anti-abelha?

Agora, não dá pra abelha tomar o café dos campeões com seu braço, porque ela não te pica com a boca, ela te pica com a bunda!

Dudu disse...

Eu fui picado. Foi em um ensaio do Império da Tijuca. Eu peguei meu tamborim pra tocar, e a fila da puta, no ar, me atacou. Senti um choque na hora. Fdp.

Sidney Alencar disse...

Quando era pequeno estava caminhando com um primo embaixo de uma árvore, quando ele, que era louco por futebol, deu de dar uma cabeçada numa colméia que estava postada num galho mais baixo.
Já viu né?
Pernas pra que te quero!

Leonardo Carnelos disse...

Fui picado já velho e só depois disso entendi que aquela dor ardida tem o potencial de traumatizar uma criança.
De qualquer forma, esse raciocínio de diminuir alguém por que ele nunca foi picado por uma abelha vale pra diversas coisas: se você nunca brigou na escola é frouxo; se nunca soltou pipa é criança mimada criada em apartamento; e assim por diante.

Leonardo Carnelos disse...

Fui picado já velho e só depois disso entendi que aquela dor ardida tem o potencial de traumatizar uma criança.
De qualquer forma, esse raciocínio de diminuir alguém por que ele nunca foi picado por uma abelha vale pra diversas coisas: se você nunca brigou na escola é frouxo; se nunca soltou pipa é criança mimada criada em apartamento; e assim por diante.

Thiago Dalleck disse...

Hahahahahaha. Cara, o pior de tudo é que ela morre logo em seguida da picada, né. Você foi o alvo do atentado terrorista de uma abelha às 9h34, aleatoriamente.