1 de setembro de 2015

A Maldição de Farelinho

– Essa batata frita não dá para comer.

– Por que não?

– Está toda queimada. Vou pedir para o garçom trocar.

– Não, dá aqui para mim.

– Mas está queimada.

– Eu adoro. Especialmente assim, quando fica preta.

– Você é demente.

Sim, sou. Quer dizer, se você analisar algumas das minhas bizarrices alimentares, é bem provável que eu seja. Batata frita queimada é uma delas. Outra – que acho que já mencionei no blog – é hambúrguer (ou melhor, X-Salada Bacon) com tomate verde. Adoro. O tomate verde tem um gostinho azedo que o meu paladar encara como a prova de que o Messias irá retornar um dia.

Mas hoje eu quero falar sobre a bizarrice que tenho com sorvete, que na verdade nem é tão bizarrice assim. Deve ter gente que, sei lá, gosta de tomar sorvete com atum (eu não duvido de mais nada desde que descobri que a irmã de um amigo comia abacaxi com ketchup), mas o meu caso com sorvete é mais simples: eu adoro sorvete derretido.

Evidentemente, não estou falando de picolé, mas sim de sorvete de massa. Adoro quando ele fica todo derretido, quase um caldo – e quando tem vários sabores, então, eu me delicio. E aposto que me sairia melhor que qualquer participante do MasterChef Brasil explicando como o morango do Napolitano derretido harmoniza com o chocolate e o creme faz a redução de qualquer coisa que eu pensar na hora que eu precisar falar. Enfim... Meu ponto é que tomo o sorvete muito devagar, para que ele derreta, porque eu gosto dele derretido e ponto.

E é por isso também que eu coloco o sorvete no microondas antes de servir. Calma, eu não sou débil-mental a ponto de esquentar o sorvete até ele ferver ou algo assim. Eu apenas pego o pote de sorvete, vejo que ele está duro como uma pedra e coloco 30 segundos no microondas para ficar um pouco mais mole. Tenho certeza que mais gente faz isso. Sim, eu também coloco o sorvete no microondas para ele derreter (e virar um caldo) mais rápido, mas a desculpa oficial é que “como ele está duro demais, eu não consigo servir direito”.

O que nos leva à noite de ontem. Depois do jantar, fui até a cozinha, peguei o pote de sorvete do congelador e coloquei no microondas. Enquanto esperava os trinta segundos, meu enteado apareceu me dizendo que havia escutado o disco novo do Iron Maiden, algo que estou cobrando há dias que ele faça.

Comentamos sobre a duração das músicas e eu tirei o sorvete no microondas. Falamos sobre os solos de guitarra e eu coloquei as bolas de sorvete na taça. Discutimos se é o melhor desta nova fase da banda e eu guardei o sorvete de volta no microondas. Com a taça de sorvete na mão, prometi que depois conversaríamos melhor sobre isso. E voltei para a sala.

Sim, você não leu errado. Eu não guardei o sorvete no congelador, e sim no microondas, porque estava distraído conversando. E ele passou a noite ali. Derretendo. Azedando. E gradualmente se tornando uma criatura viva e consciente, nutrida pelo ódio e jurando vingança contra a espécie humana.

Mas eu não vi nada disso acontecer, claro. Só descobri que o sorvete havia passado a noite no microondas quando a Esposa descobriu hoje de manhã e jogou fora – acabando com os planos de conquista e dominação mundial do sorvete antes mesmo que eles começassem.

Mas como essa história não é sobre o sorvete, vamos desejar boa sorte a ele num lixão da cidade e deixá-lo de lado.

Vamos falar sobre mim.

Desde a hora que fiquei sabendo o que aconteceu, estou me sentindo péssimo. Mais de um litro de sorvete jogado fora de graça. Passei horas andando de um lado para o outro da casa carregando uma rocha de culpa nas costas e pensando no desperdício e que agora não tem mais sorvete em casa porque eu sou um completo tapado.

Mas, paciência. Respirei fundo e tentei deixar a culpa de lado. Logo a Esposa saiu e eu fiquei sozinho em casa, começando a cuidar das minhas tarefas.

E consegui, por um tempo. Até eu começar a ver coisas estranhas pela casa. Eu estava indo para o quarto e vi uma espécie de vulto no final do corredor. Olhei rapidamente, mas ele havia desaparecido. Pouco depois, estava fumando no quintal e tive a sensação de que alguém estava ao meu lado. Virei a cabeça, mas não vi ninguém.

No começo, achei que fosse impressão minha. Alguma sombra ou algo assim. Não demorou até eu perceber que não era minha imaginação. Eu estava usando o computador, sentado exatamente onde estou, e a criatura se materializou ao meu lado. Era um menino de idade indefinida – ele podia ter entre cinco ou dez anos – e me olhou com uma expressão triste e totalmente vazia de esperança. Ele tem uma canequinha de metal na mão.

Foi quando eu percebi o que estava acontecendo.

Eu havia despertado o Farelinho.

Talvez eu já tenha falado aqui sobre o Farelinho, mas vamos contar a história dele. O Farelinho é algo que, acredito, foi criado pela minha avó, mãe da minha mãe. E, evidentemente, minha mãe passou a tradição para meu irmão e para mim.

Como vocês devem imaginar, o Farelinho é um garoto que não tem o que comer – o que é meio óbvio, já que dificilmente uma pessoa de alto poder aquisitivo teria um apelido como esse. Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, bastava não querer comer alguma coisa do almoço para minha mãe contar a história do Farelinho. Ela me falava que o Farelinho não tinha nada para comer, porque ele era muito pobre e tudo o que ele gostaria na vida era comer um prato de verdura para que a barriga dele parasse de doer de tanta fome que ele sentia.

Claro, se fosse hoje, eu responderia que sinto muito, mas a vida é assim mesmo e por mais que eu seja solidário, acredito que quem tem que ser responsável pelo Farelinho é o governo e se você quiser podemos discutir isso enquanto eu me entupo com aquele pudim que tem de sobremesa. Aliás, tenho certeza que meu irmão, já com uns doze anos, respondeu para a minha mãe certa vez que “então pode mandar meus legumes para o Farelinho porque eu não vou comer isso”.

Mas quando eu era criança, a história me partia o coração. Minha mãe contava sobre o Farelinho e eu olhava para aquele prato cheio de legumes e me sentia um oligarca opressor que não dava valor para nada. Bastava o Farelinho ser citado e eu passava a me enxergar como um filho da puta sórdido que passava os dias recusando vegetais e gritando do alto do castelo que “se ele não tem cenoura, que coma brioches!”, e rindo da cara dos camponeses.

Sério, eu queria morrer. Meus olhos começavam a se encher de água e, como eu não podia dar um tiro na minha cabeça para acabar logo com a minha existência egoísta e nociva, eu enchia a boca de chuchu ou qualquer outra merda verde que estivesse no meu prato para aplacar a dor.

Mas nunca era suficiente.

Por mais que eu limpasse o prato, ficava ainda um bom tempo me sentindo péssimo e pensando em como o Farelinho não tinha nada do que eu tinha na floresta onde ele morava.

Ah, sim. Na minha cabeça, o Farelinho morava numa cabana caindo aos pedaços na floresta – o que, pensando hoje, faz eu me perguntar se o Farelinho não era burro feito uma porta, porque não é possível que ele não encontrasse umas frutas para comer ou não conseguisse caçar um coelho.

Mas eu não via nada disso. Tudo o que eu sabia era que ele não tinha dinheiro, não tinha o que comer, não podia ir para a escola. E nada disso era culpa dele. Ele era um menino bonzinho – nessas horas eu desatava a chorar – que queria apenas poder ter as mesmas coisas que eu, pelo menos uma vez na vida.

Sim, era horrível, acredite em mim. Foi um terrorismo puro, que pautou minha infância e fazia com que eu sentisse uma culpa nível Igreja Católica toda vez que sentava para almoçar e descobria que tinha alguma coisa que eu não gostava.

Durante muito tempo, bastava eu me lembrar de como o Farelinho não podia comer a merda da abobrinha para me sentir culpado como o Marlon Brando de Apocalypse Now. Ficava horas no sofá, em choque. Lembrava tudo o que o Farelinho não tinha e ficava resmungando que:

– Eu vi o horror... O horror... E eu chorei... Eu chorei como uma vovozinha... Eu queria arrancar meus dentes... Eu não sabia o que fazer. E eu percebi... Como se eu tivesse levado um tiro... Um tiro de diamante bem no meio da testa... Meu Deus... O gênio de tudo aquilo...

Mas o tempo passou e o Farelinho ficou para trás. Porque, convenhamos, eu sou um homem adulto e pago minhas contas. Não vou começar a comer beterraba só por causa de uma fábula comunista que minha avó inventou e minha mãe transformou em tragédia grega.

Mas o problema desta vez é que é uma situação diferente de “eu não quero comer o sorvete”. Não. A coisa é mais grave. Veja bem:

Eu joguei o sorvete fora.

Eu deixei o sorvete estragar e ele foi para o lixo. E agora a culpa voltou com força total. Agora, o menino-vulto-faminto fica andando atrás de mim com a canequinha de metal (sim, porque ele é tão pobre que não tem uma taça de sorvete; ele precisa tomar numa caneca de metal que provavelmente achou na rua e é o único utensílio doméstico que possui) me lembrando, o tempo inteiro, de que eu deixei um litro de sorvete ir para o lixo.

Não importa o que eu faça, o Farelinho continua aqui, me olhando com aquela cara de “eu queria saber como é o gosto do sorvete, porque eu nunca tive dinheiro para experimentar”. E eu estou aqui em casa querendo morrer.

Eu nem vou almoçar hoje.

Não. Tenho uma ideia. Vou comer só legumes. Eu lembro que legumes faziam a dor passar.

Eu preciso comer legumes.

Eu preciso me libertar da culpa.

5 comentários:

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Esse tipo de personagem não existiu na minha vida - minha mãe contava as histórias dela mesma, quando mais nova, pra traumatizar a gente (meu irmão e eu) quando deixávamos comida estragar ou jogávamos fora comida.
Sobre o sorvete: também sou assim... Isso sem contar aqueles sorvetes com tanto aroma de baunilha que mascaram os outros sabores, não acha?
Abraço!

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Esse tipo de personagem não existiu na minha vida - minha mãe contava as histórias dela mesma, quando mais nova, pra traumatizar a gente (meu irmão e eu) quando deixávamos comida estragar ou jogávamos fora comida.
Sobre o sorvete: também sou assim... Isso sem contar aqueles sorvetes com tanto aroma de baunilha que mascaram os outros sabores, não acha?
Abraço!

Fagner Franco disse...

Já me peguei contando história do Farelinho (não com esse nome, aliás, não daria nome para uma coisa tão pesada, ainda mais pra crianças de 6 e 3 anos), acho que é padrão. Não sei se um bom padrão. O meu trauma é deixar resto no prato. Ainda hoje, é zero a chance (sem nenhum exagero) de deixar algo no prato. Uns dois parágrafos especiais aí, que me fizeram rir em voz alta, fazia tempo que isso não acontecia. Obrigado! :)

Trotta disse...

Qualquer dia eu conto a história do japonezinho que morava dentro da minha barriga, e precisava de legumes pra construir sua casa. Invenção de vó também.

Mario Cau disse...

Brother, que texto bacana!
Eu lembro de me sentir muito mal tbm, com essa sensação (talvez certeza?) de que tinha esse garotinho que não tinha nada e eu era um jerk por desperdiçar, desobedecer, mentir, etc...
É um terror psicológico, que, convenhamos, funcionou... E ainda me corta o coração, especialmente por saber que o Farelinho existe aí fora, e ele é um monte de gente. Muito mais gente do que eu gostaria de admitir como membro dessa espécia falida.
Mas olha, acidentes acontecem, e foi um erro honesto. Pior seria se vc tivesse deliberadamente deixado o sorvete estragar :)