4 de maio de 2015

Rob Gordon X Família do Barulho

Quem me conhece sabe que meu principal termômetro para saber se estou cansado é minha tolerância (ou falta dela) a barulhos. Quanto mais cansado, maior a intolerância.

Funciona numa escala que seria mais ou menos assim:

0-2 – Eu não me importo com os vizinhos ouvindo música (ou aquele negócio que eles chamam de música) e fazendo um churrasco.
2-4 – Barulhos de rojões me irritam profundamente.
4-6 – A televisão precisa estar num volume menor que 15 (ela vai até 50). Se alguém coloca acima de 20, eu tenho o impulso de diminuir o volume com um martelo.
6-8 – Elejo os peixes como meus melhores amigos e fico sentado olhando o aquário e invejando o silêncio que deve estar lá dentro.
8-10 – Basta um carro passar na frente de casa ouvindo música no máximo (ou aquele negócio que ele chama de música, porque uma pessoa que ouve música num volume que faz os vidros tremerem dificilmente ouve Mozart) para eu ficar quarenta minutos pesquisando preços de bazucas na internet.

Isto posto, ontem eu escrevi doze horas seguidas, o que me coloca em algum lugar entre 7 e 9. E sim, eu sei que depois de escrever doze horas eu devia estar descansando e não escrevendo, mas eu sugiro que você pense nos seus vícios antes de falar mal dos meus.

Enfim, foi entre os graus 7 e 9 da escala que eu saí para comprar cigarros. Eu não entro mais na padaria ao lado de casa, porque cansei de entrar lá e nunca ter nada. Nunca tem cigarro, nunca tem refrigerante, e o dono sempre me diz que “ah, a entrega atrasou”. Aliás, eu comecei a desconfiar que ele estivesse me fazendo de idiota quando usou a desculpa que “a entrega atrasou” um dia que não tinha pão.

Eram nove e pouco da noite e não tinha pão.

- A entrega atrasou.

- Mas que entrega? Você é uma padaria. Você faz o pão.

- Atrasou. É uma pena.

Mandei tomar no cu e jurei que nunca mais entraria ali. Isso faz dois meses e estou há dois meses sem pisar lá. Cigarro, por exemplo, eu vou ao posto, que é na quadra seguinte. E foi lá que eu fui agora comprar cigarros.

E como o posto é perto de casa, não levei meu iPod (sim, porque as músicas que gosto não caracterizam barulho, logo não entram na escala). Afinal, eu iria e voltaria em menos de dez minutos. Era uma boa oportunidade para sair e não ouvir nada exceto o canto dos passarinhos, desde que eles não piassem muito alto e de preferência do outro lado da rua.

Cheguei ao posto e uma mulher estava sendo atendida.

Uma pessoa na fila. Uma pessoa eu consigo lidar. Basta ela não fazer barulho que eu consigo lidar.

E ela não estava fazendo barulho. Tudo bem, ela estava conversando com a menina do caixa sobre assuntos importantes como é o fato de que é mais eficiente varrer o quintal da esquerda para a direita e que quando ela acordou de manhã o céu tinha nove nuvens e nenhuma delas se parecia com nada e antigamente as coisas não eram assim.

Eu dei de ombros. Contanto que ela mantivesse aquele tom de voz de mais ou menos 20 decibéis, ela poderia falar sobre o que quisesse durante o tempo que desejasse. Eu iria esperar ali tranquilamente, comprar meu cigarro e ir embora.

Mas eu não contava com a Família do Barulho. Justificando seu nome de Sessão da Tarde, eram três pessoas que foram à loja de conveniência do posto para aprontar altas aventuras e viver muita confusão.

O primeiro a chegar foi o garoto. Ele anunciou sua chegada de forma efusiva, pulando para dentro da loja e aterrissando ao meu lado enquanto gritou um “IÁÁÁÁÁ´!”, provavelmente para aumentar ainda mais a força do golpe de arte marcial que ele desferia em algum inimigo invisível.

O grito entrou pelos meus ouvidos e começou a derreter meu cérebro. Eu olhei para o menino com a mesma expressão de alguém que teria ido passar as férias na Transilvânia, decidiu que seria bacana visitar um castelo no meio da madrugada, e agora estava no meio da cripta percebendo que os caixões escondidos ali estavam se abrindo. Comecei a rezar para que as cordas vocais do garoto explodissem, mas aparentemente Deus não trabalha com pedidos desse tipo e eu fui ignorado.

O garoto continuou gritando ao meu lado. Ele devia ter uns dez anos de idade e usava uma bandana com um emblema de metal na cabeça, provavelmente de algum anime. Era uma daquelas coisas que apenas dois grupos de pessoas podem usar: crianças de até quatro anos que sonham em ser um super-herói e pessoas com mais de quatro anos que já se conformaram que nunca farão sexo na vida.

Olhei para a mulher que estava sendo atendida. Agora ela estava conversando alguma coisa sobre o especial de cinquenta anos da Globo, enquanto o Serei Virgem para Sempre gritava e golpeava hordas de inimigos que apenas ele conseguia ver, com os superpoderes que apenas ele achava que tinha.

Olhei para um lado e vi uma geladeira de sorvetes. Estava pensando em como me esconder lá dentro de forma discreta, quando ouvi novas vozes e olhei para o outro lado.

Eram o pai e a mãe do menino. Isso ficou óbvio no momento que eles entraram na loja. E não porque o garoto se parecia com eles, mas sim pelo tom de voz. Imediatamente percebi que se tratava de uma daquelas famílias em que a televisão fica ligada o dia inteiro no máximo, e como eles não sabem qual botão do controle remoto controla o volume, eles adaptaram sua forma de comunicação rudimentar para essa realidade. Todos eles gritavam e cada um falava sobre um assunto diferente. A conversa foi mais ou menos assim.

Pai: Você comprou tudo?

Mãe: Menos o salgadinho.

Pai: Não podemos esquecer o vinho.

Garoto Boçal: IÁÁÁÁÁÁ! BANZAI!!!!

Mãe: O salgadinho custa oito reais o pacote.

Pai: Filho, você pegou o chocolate?

Rob: Por favor, Deus, me mate. Me mate aqui e agora.

Mãe: Só se pegarmos um pacote de salgadinho menor.

Garoto Boçal: Pai, você viu o meu golpe?

Mãe: Posso pegar de presunto.

Rob: Alguém me dê uma granada, por favor... Uma granada ou um copo de Rivotril.

Pai: Filho, eu não posso conversar agora. Estou falando sozinho.

Toda essa conversa não aconteceu perto de mim, e sim ao meu redor. Era um círculo de barulho e gritos desconexos e eu era o centro. Meu grau de cansaço já havia pulado para o índice 18 (o mais alto registrado em minha vida) que é o estágio onde eu ouço as formigas andando no quintal e sinto vontade de correr para lá com uma lata de querosene, uma caixa de fósforos e acabar logo com tudo.

A mulher que estava sendo atendida pela caixa não parecia se incomodar com isso. Nem parecia disposta a ir embora. Estava conversando, agora, sobre o regime que sua irmã estava fazendo. E a família continuando a gritar. Desta vez, eles resolveram interagir. O pai olhou o garoto pegando um sorvete e disse:

– Ah, você não esqueceu o sorvete. Que bom.

Ao ouvir isso, o garoto descobriu que a expressão “Que bom” dita pelo seu pai se pronunciava da mesma forma que o “Kibon” escrito na geladeira de sorvetes. Aparentemente, isso foi uma revelação para ele – mais ou menos comigo, quando consegui enxergar os dois pinguins do rótulo da Antarctica (para mim, aquilo era uma cabeça alien com dois olhos estranhos até minha adolescência). Mas o menino aparentemente não soube lidar com a empolgação da descoberta e subiu o tom de voz em mais uns cinquenta decibéis.

– Que bom! Kibon! Você falou que bom! E ali está Kibon! Kibon! Que bom! Você pegou o sorvete Kibon! Você pegou o sorvete que bom!

Eu comecei a ter dificuldades para respirar. Pelo que percebi, nem o oxigênio tinha aguentado aquilo e fugiu para a rua. E eu entendo essa decisão. Eu teria feito o mesmo. Ainda estava pensando sobre ficar sem ar, quando a mãe resolveu fazer uma pergunta que envolvia a palavra “serra”. Eu não lembro se eles iriam viajar para a serra ou algo parecido, mas, assim que o garoto ouviu a palavra serra, ele decidiu que aquela era a deixa ideal para que ele apresentasse ao mundo sua nova versão de um clássico infantil, e começou a dançar ao meu lado, cantando “serra, serra, serrador...” num ritmo que ficava entre pagode e sertanejo.

Eu apenas observei aquilo com o canto do olho, torcendo para que o menino se aproximasse um pouco mais de mim para enfiar o cotovelo na boca dele e imediatamente pedir desculpas dizendo que “Meu Deus! Que acidente horrível! Eu não percebi que vocês estavam aqui! Nossa, sua boca está sangrando, espera que eu vou limpar com um murro antes de começar a bater com sua cabeça no chão enquanto grito desesperadamente para você calar a boca um  minuto, vem até aqui.”

– Próximo?

Olhei para o caixa e a Mulher que tudo falava havia ido embora. Encostei no balcão.

– Marlboro, por favor.

– Quantos?

– Todos.

– Todos?

– Rápido.

Dei o cartão para ela e percebi que minhas mãos não paravam de tremer. Paguei, coloquei tudo numa sacola e fui embora, sem conseguir andar direito – quase derrubei uma daquelas estantes de CDs vagabundos que donos de lojas de posto sempre deixam na porta. Voltei para casa tremendo e com meu cérebro coçando – você já se sentiu coceira no cérebro? É o primeiro sintoma concreto de insanidade irreversível.

Entrei em casa e não falei com ninguém. Peguei um fone de ouvido e liguei uma música do Slayer no máximo, me refugiando dentro dos meus próprios barulhos. Lágrimas desciam pelo meu rosto e eu deitei em posição fetal no chão da sala.

E, quando o Tom Araya começou a gritar que God hates us all!! God hates us all!!, eu finalmente entendi o que ele queria dizer. E concordei.

9 comentários:

Trotta disse...

Erga o punho em direção aos céus e grite: "eu desafio você a vir me enfrentar pessoalmente aqui embaixo"!
— GORDON, Rob

Eu conheço uma família barulhenta exatamente assim.

P.S.: A bandana era do Naruto.

Amanda Tracera disse...

Tive que pesquisar o rótulo da Antarctica no Google porque COMO ASSIM SÃO DOIS PINGUINS E NÃO DOIS OLHOS?????? e ri solenemente um minuto inteiro da sua ameaça pós-agressão ao garoto da Kibon (todo mundo já teve essa fase, ou só eu e as crianças com quem eu cresci que tínhamos esse retardo de ficar gritando KIBON KIBON KIBON pela rua?). Seus textos nunca param de ser sensacionais. :)

André Moraes disse...

Rapaz, que dureza! Já tive uma colega de trabalho assim. Tão barulhenta que entrando na sala em silêncio às nove da manhã já incomodava. Triste.

Numa nota não relacionada: acabei de ter espasmos aqui na sala lendo o texto em voz alta para a patroa! :D

Juba disse...

Entendo e me solidarizo. Imagine que tenho duas crianças pequenas, o que faz com que eu esteja, nos bons momentos, no nível 6, com o martelo a postos e sem possibilidade de usar fones de ouvido.

Também trabalho escrevendo e estou com medo das férias :O

Nelson disse...

Eu vim de uma família extremamente silenciosa, mesmo as discussões em casa eram em volume moderado. Tenho aversão a ambientes barulhentos.
Já a família da minha esposa é de italianos que não sabem que existe o botão de volume na televisão. Imagine o que eu passo quando vou lá.

Enfim, só vim aqui pra dizer que já desisti de um curso de inglês porque na minha sala tinha um cara que insistia em falar com o Caps Lock ligado. Era absurdamente irritante todo mundo conversando em volume decente e aquele fdp TEACHER EU NÃO ENTENDI. A sala só tinha 6 pessoas, não havia necessidade de falar naquele volume.

Desculpe a ausência nos comentários Rob, o negócio aqui anda meio doido e está difícil eu sentar no PC.

Abraço!

Juba disse...

Nelson, nasci em uma família igual à da sua esposa, mas tenho a impressão de que me trocaram na maternidade. Odeio barulho!

Celle Fonseca disse...

Te sigo no twitter, adoro as suas sacadas do cotidiano, essa coisa rabugenta. E sim, já tive coceira no cérebro. Fantástico!!!

Celle Fonseca disse...

Te sigo no twitter, adoro as suas sacadas do cotidiano, essa coisa rabugenta. E sim, já tive coceira no cérebro. Fantástico!!!

Kika Lindoso disse...

Rob, eu tenho certeza que a bandana do menino era do Naruto.

O quão triste eh isso? :P