9 de maio de 2015

A Trágica História do Porquinho que Foi ao Mercado

Existem vários porquinhos. Existe o porquinho que comeu rosbife. Existe o porquinho que ficou em casa. Existe o porquinho que gritou alguma coisa. Mas o mais famoso entre eles é o primeiro: o porquinho que foi ao mercado.

E essa é a sua história.

Este porquinho foi ao mercado...

Junto com sua Esposa, porque eles precisavam compra ração para os cachorros. No meio do caminho, o porquinho sugeriu que já deveriam aproveitar e decidir o que iriam jantar. Conversaram alguns instantes e decidiram comer hambúrguer. O porquinho ficou feliz porque adora comer hambúrguer em casa, já que a Esposa faz maionese caseira e ele come com batatas – o que fica ainda mais gostoso que o sanduíche. Entraram no mercado, pegaram tudo o que precisaram para o hambúrguer e foram ao caixa. Só então o porquinho percebeu que tinha esquecido a carteira. Assim, saiu do mercado correndo e voltou para casa.

Este porquinho foi ao mercado...

Agora com a carteira no bolso. E correndo. Você já viu um porquinho correndo? É deprimente. Esse porquinho corria muito quando era mais jovem, mas agora ele não sabe mais correr. Aliás, existe um motivo para o poema não ter um verso com “esse porquinho foi correndo até tal lugar”, porque ninguém quer ver um porquinho correndo pelas ruas com a barriga tremendo e jogando o bundão – porque todo porquinho tem bundão, e não qualquer bundão, é um bundão suficiente para dançar em uma banda de axé – para um lado e para o outro, reclamando de dor nas pernas e fazendo o final do percurso meio torto porque está começando a sentir dor no baço.

Mas, enfim, o porquinho voltou ao mercado a tempo de pagar suas compras com a caixa alienígena que fez comentários sobre a bolacha Toddy que o porquinho comprou – porque porquinhos sempre compram algo doce no mercado – e sobre o hambúrguer, dizendo que quando faz hambúrguer em casa coloca babata palha dentro do pão (algo que o porquinho ainda esbaforido resmungou que “não, aqui no planeta Terra a gente não faz isso”). E voltaram para casa, apenas para abrir a porta e o porquinho dar um tapa na própria testa gritando “esquecemos a ração dos cachorros!”. Mas, ainda cansado de ter que correr porque esquecer a carteira, o porquinho pediu ao enteado que fosse comprar a ração. Problema resolvido... Até que meia hora depois – já com a ração em casa – o porquinho deu outro tapa na testa e gritou “esqueci a merda da batata!”.

Esse porquinho foi ao mercado...

Reclamando da vida e com vontade de chutar tudo o que encontrasse pela rua. Sua Esposa havia falado que “nós comemos sem batata mesmo”, mas o porquinho foi resmungando que ele gosta mais da batata com maionese que do hambúrguer, que na verdade quando tem hambúrguer em casa ele usa isso como desculpa para se entupir de batata com maionese e jurou que compraria um saco de batata do tamanho de uma pequena cidade para nunca mais ter que sair e comprar batatas novamente.

Entrou no mercado, percebendo que todos os funcionários o olharam com cara de “ih, o porquinho esqueceu algo” e foi até outro caixa para fugir da menina alienígena. Resmungou para a menina do caixa que não precisa do CPF, eu só quero ir embora e ficar em casa e voltou com o saco de batata na mão, sem sacola nem nada, maldizendo a vida. Algumas pessoas que passaram pelo seu caminho devem ter pensado que o porquinho era louco, pois ele não era um porquinho carregando um saco de batatas, ele era um porquinho que carregava um saco de batatas, olhando diretamente para o saco e fazendo ameaças como “se vocês não ficarem no mínimo maravilhosas eu vou esmigalhar todas vocês com uma pá, e depois tacar fogo em cada uma de vocês”.

Assim, o porquinho entrou em casa e voltou ao computador... Até que sua Esposa apareceu na sala e perguntou se ele se incomodaria em comer o hambúrguer sem ketchup e ele perguntou como assim e ela explicou que lembra que eu comentei essa semana que o ketchup tinha acabado, então, nós esquecemos de comprar e o porquinho se levantou e calmamente foi até a janela e olhou para o céu e ergueu um punho gritando coisas como se vocês fossem machos, desceriam aqui e me pegariam pessoalmente ao invés de fazer essas coisas. Sem dizer para a esposa que “eu não fui trinta e cinco vezes até aquela bosta de mercado para comer hambúrguer sem ketchup” (ao invés disso, ele disse apenas “vou lá comprar essa merda”) pegou a carteira e saiu de casa.

Esse porquinho foi ao mercado...

Se perguntando por que a vida é assim. E pensando também nos outros porquinhos, que provavelmente estavam coçando o saco e esperando a sua vez de fazer alguma coisa, já que o poema não saía da primeira linha. Toda a saga dos porquinhos se resumia ao porquinho que foi ao mercado e depois precisou voltar ao mercado e chegou em casa e percebeu que precisava ir ao mercado, eternamente preso dentro disso como se o seu pedaço do poema tivesse se transformado em um filme do Luis Buñuel.

Entrou no mercado pronto para chutar qualquer pessoa que ousasse passar pela sua frente, foi até a prateleira de ketchup e pegou o primeiro que encontrou – lendo com cuidado o rótulo inteiro para se certificar de que se tratava de ketchup mesmo, assim ele não chegaria em casa apenas para descobrir que precisava voltar ao mercado porque ao invés de comprar ketchup comprou sem querer um pote de terra – e foi até o caixa pagar, escolhendo um terceiro caixa que ainda não tinha visto o porquinho por ali nas outras vezes. Antes de pagar, resmungou que “não, pode enfiar o CPF no cu” para a funcionária e fingiu que não viu a caixa alienígena olhando para ele de longe, com um sorrisinho no canto da boca e um ar de “quem é o retardado agora?” e voltou para casa.

E ficou sentado na cadeira olhando para o relógio por quinze minutos até ser dez horas em ponto. O porquinho então suspirou. Agora o mercado estava fechado. A maldição havia se rompido, e ele podia começar a reconstruir sua vida.

Essa é a história do porquinho que foi ao mercado.

Os outros porquinhos ainda estão rindo dele.

4 comentários:

Trotta disse...

Mas eu pensei que você fosse são paulino!

Blzag Zvlig disse...

"barriga tremendo e jogando o bundão – porque todo porquinho tem bundão, e não qualquer bundão, é um bundão suficiente para dançar em uma banda de axé – para um lado e para o outro" Ai eu imaginei um bundão fazendo "dump" pra cá e "doimp" pra lá conforme você corria e cai na risada, hhahahahahahahahahahaahahahaha gasp, hahahahahahahaahahaha....

Anônimo disse...

Ah... comentei logada com o e-mail de outra pessoa... desculpe... não correspondo a este login - fotinho adolescente. Meu nome mesmo é Ana.

Varotto disse...

Ahh, porquinho, meu porquinho mercadista...

Você não gostaria de estar agora (ao menos só um porquinho) no lugar do porquinho que grita?