10 de novembro de 2013

O Colecionador

Eu estou fazendo uma coleção. Faz algumas semanas que...

Não. Comecei errado. Eu não “estou fazendo” uma coleção, eu “faço” coleções. Desde que me conheço por gente, eu coleciono tudo que gosto. Era moleque e colecionava chaveiros, times de futebol de botão, adesivos, tampinhas de garrafa... E, claro, quadrinhos.

Minha paixão por quadrinhos começou antes de eu descobrir as HQs de super-heróis. Começou quando eu era criança, com os quadrinhos da Disney, que eu organizava com cuidado em casa. Na verdade, até hoje eu suspeito que aprendi a contar somente para poder deixar meus quadrinhos organizados por data de lançamento.

E naquela época já não era difícil eu descer a escada da casa dos meus pais aos berros:

- Onde está o meu Almanaque Disney 136?

- Oi?

- O meu Almanaque Disney 136! É aquele que tem a história em que o Tio Patinhas vai para a Patagônia! Onde está?

- Sei lá. Você lembra onde você deixou?

- No único lugar onde ele deveria estar! Depois do Almanaque Disney 135 e antes do Almanaque 137! Na pilha que fica ao lado da minha pilha de Disney Especial!

Ou seja, como todo colecionador, eu já sofria de algum grau de TOC desde criança.

Mas o problema mesmo era quando eu inventava alguma coleção nova e precisava correr a cidade atrás de números atrasados. Foi assim com Homem-Aranha. A primeira edição que li foi a de número 73, da editora Abril (sim, eu me lembro dessas coisas, como todo colecionador lembra). A paixão foi imediata e comecei a comprar todos os meses.

O problema, claro, é que eu tinha um enorme buraco de 72 edições a ser tapado. Porque, claro, eu queria ter todos. Não ter todos era algo impensável. Assim, comecei a rodar o bairro atrás de números antigos, achando um esquecido numa banca ali, outro abandonado em outra banca ali.

Como estamos falando de uma época sem internet e Mercado Livre ou afins, era tudo no peito. Com uns doze anos de idade, eu cheguei a desenhar um mapa do bairro numa folha de cartolina, com todas as bancas de jornal assinaladas. Com isso, eu planejava minhas andanças para garimpar revistas que faltavam na minha coleção.

Quando as bancas do bairro acabavam, eu ia para outros bairros, em busca de sebos, com listas dos números que eu precisava dentro da carteira. O dia que eu encontrei o Homem-Aranha 1 num sebo no Anhangabaú foi quase uma vitória pessoal, me senti como um arqueólogo que, após anos sendo chamado de louco, finalmente havia conseguido provar a existência de uma civilização antiga.

Entretanto, colecionadores, por definição, não são pessoas exatamente éticas. Veja bem, coleção é fetiche e com fetiche não se brinca. Nunca cheguei a roubar por causa de uma coleção, mas certamente contei uma mentira ou outra.

Afinal, quando um amigo seu que não coleciona quadrinhos está se livrando dos gibis que ele tem em casa e você descobre que lá no meio tem um Homem-Aranha 13, você não vai gritar dizendo que “este quadrinho vale uns cinquenta reais em qualquer sebo, eu preciso disso e serei seu escravo!”.

Claro que não. Você vai falar que “isso é um gibi velho, troco por uma Coca”. E se ele reclamar que é muito pouco, você ainda diz que “olha, a capa ainda está um pouco amassada. Essa merda é velha e deve ser ruim. Quer a Coca ou não?”. E, com a transação feita, você se controla para não gritar de emoção na frente do seu amigo. Vai para casa, coloca o Homem-Aranha entre o 12 e 14 e fica admirando a coleção, cada vez mais completa, por alguns minutos.

Já menti valores, já atravessei a cidade, já chamei de gibi velho (e pedi desculpas ao gibi quando o levei para casa), já briguei com gente que chegou perto demais da minha coleção sem autorização.

Pois uma coleção não é feita de quadrinhos, CDs, filmes, livros. Uma coleção é feita de pequenas vitórias pessoais. Você passa todos os dias da sua vida em busca de oportunidades e maneiras de aumentar sua coleção. E, quando sua coleção está completa, você se sente realizado... Pelo menos, por alguns meses, até você descobrir que adora Hulk e que não vai fazer mal algum começar a colecionar Hulk também. E começa tudo de novo.

E agora voltamos ao começo do post. Estou fazendo uma coleção nova. É aquela coleção de graphic novels da Marvel, que a Salvat lançou. Comprei o primeiro por curiosidade – não, minto, comprei o primeiro sabendo que eu compraria todos, mas gosto de me enganar às vezes – me apaixonei pelos volumes e estou comprando todos os meses.

Isso, claro, até eu perder o Número 5. Comprei o quatro, fiquei umas semanas sem ir à banca e, quando voltei, só tinha o 6. E um monte de números 4. Aí a mulher da banca explicou que o vol. 5 acabou. Isso, claro, porque a história é o primeiro arco dos Supremos, famosa, adorada.. (eu tenho a história original aqui, mas como estou fazendo esta coleção específica, preciso deste novo volume).

Passei dias rodando bancas de jornal feito um débil-mental, sempre ouvindo uma negativa e xingando as pessoas que só compraram este volume, que elas não respeitam quem comprou os quatro primeiros, que todas elas deveriam morrer, que não merecem ter esta história. E, em uma das bancas, a pessoa me disse que “olha, você não vai conseguir isso. Só daqui a alguns meses, quando for possível pedir”.

E este é o tipo de coisa que não se fala para mim. Dizer que “você não vai conseguir este item da sua coleção” automaticamente faz com que conseguir o negócio seja a razão da minha existência. A partir daí, comecei a intensificar a busca. Ninguém diz o que eu posso ou não ter na minha coleção. Todo colecionador sabe isso.

Dia desses, passei numa praça e vi a banca em que comprei o primeiro volume. É uma banca pequena e apertada. A dona é uma japonesa de uns 70 anos de idade, sempre acompanhada do seu tataravô, um japonês de 1300 anos que fica sentado em uma cadeira olhando a rua. Certeza que se você fuçar ali você encontra o Gizmo ou as escamas dos replicantes do Blade Runner sendo vendidas.

Fui direto falar com a japonesa, já que o tataravô dela parece todas as bruxas dos filmes do Kurosawa.

- Oi. Esta coleção da Marvel... Você tem o número cinco?

- Não. Não saiu ainda.

- Saiu sim. Eu já comprei o seis, mas perdi o cinco.

- Já está no seis?!

- Sim.

- Eu não tenho recebido! O último que eu recebi foi o quatro!

- Bom, já está no volume seis.

Virei as costas e fui embora. E ela começou a falar em japonês com o velho – que também me olhou indignado quando eu disse que a coleção já estava no seis. Começaram a discutir, em japonês mesmo. Eu entendi apenas a palavra “Marvel” uma duas vezes e fui embora, até outra banca...

Onde achei um volume cinco esquecido. Provavelmente, o último volume cinco que sobrou perto da minha casa. Peguei a revista, soquei o ar, fiz a dancinha da vitória, pedi licença ao dono da banca, levantei a revista e dei a volta olímpica ao redor da banca, paguei e fui embora.

E, no meio do caminho, passei pela banca dos japoneses.

Estava fechada.

Ao lado, uma placa: “vende-se esta banca”. Juro.

Já menti valores, já atravessei a cidade, já chamei de gibi velho (e pedi desculpas ao gibi quando o levei para casa), já briguei com gente que chegou perto demais da minha coleção sem autorização.

Mas eu nunca tinha acabado com o negócio de uma família. Mesmo.

Bom, paciência. É coleção. E quando é coleção... Bem, pergunte a qualquer colecionador.

Agora eu vou embora. Vou até a banca da mulher que falou que eu jamais conseguiria encontrar o número cinco e ficar chutando a banca dela até ela sair e reclamar. Quando ela fizer isso, vou esfregar o livro na cara dela e gritar “chupa!”. E voltar correndo para casa e colocar ele com os outros volumes da coleção.

Mas vou esfregar o livro na cada dela com cuidado, porque, vocês sabem... É de coleção.

9 comentários:

Varotto disse...

Já te falei, uma vez, que tenho montes de HQs da Marvel, da época que comprava tudo com meus irmãos, perdidos na casa dos meus pais, lembra? Certamente tem muita coisa boa, inclusivo do Homem Aranha, e certamente o número 1. Já pensei em absorver esse material em minha casa, mas já tenho muito coisa e ocupo muito espaço. Queria achar alguém que quisesse esse lote porque me recuso a vender para um sebo a R$0,01 a tonelada e não tenho saco de vender o negócio direito. Só o que eu queria era dar isso para alguém que eu saiba que vai cuidar e dar valor. Enquanto isso, as caixas estão lá. Tenho até de dar uma olhada para ver em que estado está isso.

Ricardo Wagner disse...

Comecei essa coleção da Salvat também.

E estou com as mesmas dificuldades em encontrar os números, principalmente esse.

Ainda vou encontrar.

E aqui no Rio de Janeiro o mercado editorial é terrível.

Elise Garcia disse...

Claro que não chega nem perto do que você fazia/faz para incrementar suas coleções, mas quando eu tinha uns 12 ou 13 anos eu tinha uma revista TodaTeen com uma reportagem especial sobre o Leonardo DiCaprio - vale lembrar que quando eu tinha essa idade, Titanic havia acabado de estrear, então estávamos todas enlouquecidas pelo loirinho "romântico" - que vinha com um pôster dele, mas não lembro por que o pôster estava faltando. Pois eu juntei dinheiro uns dois meses - isso era uma pré-adolescente quase no fim da década de 1990, né? -, fui no correio, comprei um vale postal, preenchi e pedi uma revista nova porque eu PRECISAVA daquele pôster.

Pior que se você me perguntar onde ele está, agora, eu não vou saber responder, porque eu doei tudo quando tinha uns 18 anos...

Acid disse...

Os japoneses provavelmente cometeram sepukku. Uma desonra dessas não acontece duas vezes numa família. Vc é parcialmente culpado.

Rayssa Lira disse...

Eu não coleciono nada, acho que sou a pessoa mais chata do mundo. Vai, coleciono cartões postais gratuitos legais, sou muito coxinha.
Enfim, como já sabe o Lucas é colecionador doente de Hot Wheels e ele tá passando isso pra mim, não consigo mais ir ao shopping ou qualquer lugar que tenha uma loja de brinquedo sem insistir pra vendedora pra abrir uma caixa ou ficar perguntando "não tem mais nenhum carrinho, mesmo?". Acho foda pra caralho o amor da coleção. Tenho uma teoria que os velhinhos japoneses fecharam a banca porque não receberam a número 5 e abriram um processo contra o distribuidor e ficaram ricos (pode acontecer, vai que...)
Eu duvidaria de todas as suas histórias se não conhecesse você pessoalmente e soubesse que você é realmente assim.
Saudades suas e da Ana.
(Escrevi uma carta aqui, meu deus)

Ana Claudia Savini disse...

Coleções?

Dele: DVDs, HQs, pocket books

Minhas: livros de culinária, ingressos de shows e cinemas

Dele + Eduardo (meu filho, pra quem ainda não sabe): jogos de ps3

Dele + minhas: bichos, livros, blu-rays, miniaturas, garrafas de cerveja

Nós precisamos mudar de casa. Será que tá fácil achar uma onde dê pra organizar tudo isso?

Elise Garcia disse...

Ana, acho que é mais fácil vocês alugarem um galpão, reformar e botar uma plaquinha escrita "Lar, doce lar" =P

Gilmar Gomes Gilgomex disse...

No meu caso, quando comecei a colecionar Homem-Aranha (número 100 da Abril, a edição do casamento, que foi a edição que me fez começar a colecionar, e tb foi a que me fez parar, já que como o Peter fez um pacto com Mefisto e o casamento não existia mais, então não existia mais o gibi que tinha me feito iniciar uma coleção, logo não existia uma coleção, logo o que eu tinha ali eram fantasmas e não gosto de fantasmas, foram todas... quase todas... vendidas ou doadas), em minha cidade não tinha, e obviamente que hoje em dia tb não tem, bancas, somente livrarias que nem ligavam pros gibis que vendiam, e em vários meses não vinham as edições, simples assim, daí minha coleção nova, além de ter os furos antigos, começava a ter novos furos. Era dura a vida naquele tempo.

Rafiki Papio disse...

Eu nunca fui um bom colecionador, não tenho o TOC, já tentei colecionar uma coisa ou outra, mas não tenho a paixão para me motivar.