15 de novembro de 2013

A Bolha Assassina

Toda bolha explode.

Bolhas, por definição, nascem, crescem – ou incham – e explodem. Basta entrar na internet e procurar algo sobre a bolha imobiliária. Todos juram que ela vai explodir em breve. Os mais velhos se lembram da bola da internet, que também explodiu depois de pouco tempo.

Toda bola nasce, cresce e explode.

Menos, claro, a bolha que está na sola meu pé há 36 horas. Ela decidiu seguir um novo curso natural: nasceu, cresceu, cresceu mais um pouco, viu que dava para crescer mais e aproveitou a oportunidade, se revestiu de titânio e está lá, feito impávido colosso.

Claro que a culpa é minha.

Eu a Esposa começamos a caminhar no Ibirapuera, todas as noites. No caso dela, é saudável. No meu caso, é para emagrecer. Decidi começar a me cuidar porque primeiro estou quase com 40 anos – e eu não fazia ideia do quanto isso era assustador até escrever esta frase.

Segundo, porque a primeira vez que fomos ao Ibirapuera, alguns dias atrás, reparei que as pessoas abandonavam a pista de cooper assim que me viam, e começavam a se exercitar correndo ao meu redor. Se eu colocasse um bambolê na cintura, era capaz dos seguranças me levarem de volta – junto com os esportistas que orbitavam à minha volta – ao Planetário, alegando que “olhe, esta miniatura de Saturno escapou aqui do prédio com todos os seus satélites, mas nós conseguimos capturá-la antes que ela chegasse à rua”.

Então, entrei numa dieta pesada e caminhada todas as noites. Ao contrário do que muita gente que me acompanha pode pensar, não tenho problema algum em fazer dieta. A Esposa é daquelas pessoas que parece uma alquimista na cozinha: se você der uma pedra, ela transforma em ouro. Claro que eu sinto falta da feijoada, da picanha, da linguicinha, mas dá para levar na boa.

Caminhar? Adoro. Para mim, é um dos maiores exercícios de higiene mental que existe. Muitas vezes estou escrevendo um texto e empaco em um trecho. Basta sair para andar que as ideias começam a desfilar na minha frente, todas de biquíni e salto alto, enquanto os neurônios levantam plaquinhas dando notas e escolhendo a campeã.

O problema é que, aparentemente, se tanto corpo e mente concordaram a respeito do novo programa de Saúde, a sola do meu pé direito não concordou com o fato de que não foi consultada e assumiu um papel de dissidente. Montou um exército guerrilheiro, se refugiou nas montanhas e decidiu que era hora de exprimir sua opinião política por meio de atos terroristas.

Na primeira noite foi tudo tranquilo. Na segunda noite, algo começou a incomodar na sola do pé. Era uma pequena bolha, mas nada demais. Típica bolha que desaparecia sozinha em poucas horas.

Dito e feito, ela sumiu.

Ou foi o que eu achei.

Na verdade, na terceira noite vi que ela não havia desaparecido, mas sim partido em busca de reforços. Voltamos para casa e eu não conseguia nem andar direito. Tirei o tênis e olhei para a sola do meu pé, mas não consegui encontrá-la. Sei que ela devia estar em algum lugar atrás da bolha, mas nem sinal dela.

Mas o que mais me assustou foi ver algo se movendo dentro da bolha. Alguma coisa estava viva lá dentro. Algo do tamanho de um cachorro pequeno.

A situação estava agora impraticável. Mancar pela casa era algo possível de lidar. Mas saber que meu pé provavelmente estava servindo de hospedeiro para um alienígena já colocava a coisa num patamar mais preocupante.

Resoluto, decidi que era hora de abortar o bebê alienígena. Peguei uma agulha, sentei na cama e, com cuidado...

Furei a bolha.

Não, minto.

A bolha continuou igual. Tudo o que consegui foi entortar a agulha. Tentei novamente, e consegui apenas outra agulha torta. Aparentemente, o ovo alien que nasceu na sola do meu pé era mais resistente do que imaginei.

Era hora de uma atitude mais drástica.

Afinal, não se tratava mais de uma simples bolha, mas sim do meu dever cívico de impedir que o alienígena concretizasse seus planos de conquista interplanetária. Mesmo porque, na pior das hipóteses (uma invasão bem sucedida) as pessoas poderiam descobrir que eu fui o Paciente Zero. E, pior ainda, se soubessem que eu não fiz nada para arrancar o alienígena do meu pé quando ainda era tempo, eu poderia ser acusado de ter colaborado com o inimigo, sendo julgado e condenado por traição em tribunais clandestinos montados pela resistência humana.

Entre a Terra que conhecemos hoje e a Terra colonizada por alienígenas que se reproduzem dentro do pé de pessoas que desejam emagrecer havia somente eu.

Ou seja, nada muito animador.

Eu precisava de mais recursos.

Fui até a caixa de ferramentas. Minutos depois, entre a Terra que conhecemos hoje e a Terra colonizada por alienígenas que se reproduzem dentro do pé de pessoas que desejam emagrecer não havia mais somente eu, mas sim eu, um prego e um martelo.

Posicionei o prego com cuidado no meio da bolha e me preparei para dar uma pancada, seca e certeira, que encerrasse de vez aquela história. Entretanto, antes que eu pudesse dar a primeira martelada, vi o prego sendo absorvido pela bolha até desaparecer completamente dentro do meu pé.

O que se seguiu foi algo aterrador: a bolha começou a se mover alucinadamente, fazendo ruídos que deixaram claro que o alienígena lá dentro estava mastigando o prego. Segundos depois, a bolha cresceu.

Ao invés de matar o alien, eu o alimentei. Perfeito.

Assim, descartei usar metal – a furadeira, que era meu plano C, continua guardada e longe do meu pé – para evitar que o alien a consuma e cresça novamente. E como não é exatamente fácil você encontrar clínicas de aborto num país onde o aborto não é reconhecido por lei, localizar um médico que faça abortos alienígenas é ainda mais difícil.

Com isso, tudo piorou. Continuo andando pela casa com a elegância e o gingado do RoboCop depois de ser metralhado e cair de um prédio de seis andares. E tenho cada vez mais certeza de que sou hospedeiro de um alien que está se desenvolvendo na sola do meu pé.

Na hora do almoço, a bolha começou a doer ainda mais. Coloquei um clipe de papel perto dela, e vi o pedaço de metal ser absorvido e mastigado. Logo em seguida, a dor melhorou um pouco – provavelmente porque o alien, depois de almoçar, resolveu aproveitar que é feriado e foi dormir um pouco.

Estou escrevendo isso enquanto ele dorme, mantendo qualquer pedaço de metal afastado do meu pé. Mas isso é o máximo que vou mudar da minha rotina. Ainda hoje vou andar novamente e o alien que se vire com isso.

Mas claro que vou me preparar para o pior.

Afinal, no espaço ninguém pode ouvir você gritar. Mas no Parque do Ibirapuera, especialmente num feriado de Sol, a história é outra.

4 comentários:

Ricardo Wagner disse...

Hoje chegará em casa e ao encarar a bolha terá um olho te encarando.

E se sentirá em Army of Darkness.

Prepare suas armas, porque depois que o clone nascer virá o exército zumbi.

Rafiki Papio disse...

Pelo que eu entendo de bolhas assassinas, o único modo é congela-la, aí depois você dá uma marretada.

Bel Lucyk disse...

ahahahahahahhahaha
excelente!

Fernanda disse...

Mas o que eu chorei de dar risada ao ler na primeira vez não chega perto da inabilidade da pessoa aqui ao tentar ler pro marido sem cair na gargalhada, ou de chorar de tanto rir, pq claro, ainda era muito engraçado e eu não conseguir enxergar as letras... E sinceramente a cena de um Rob-Robocop no Ibirapuera foi demais pro meu pouco auto controle!