22 de outubro de 2013

A Incrível Padaria de Brancaleone

Eu sempre gostei de padarias.

Desde criança, sempre gostei de entrar em padarias, seja para comprar algo e levar para casa ou comer lá dentro mesmo. Um exemplo: sou rato de churrascarias, mas confesso que algumas das melhores carnes que comi foram feitas em PFs de padaria, especialmente depois que você se torna freguês (e, claro, amigo do cara que fica chapa, o que pode ser conseguido facilmente com educação e um jornal de esportes abandonado como presente no balcão após o almoço).

Mas meu casamento com padarias está em crise, já há alguns meses. Isso porque a padaria ao lado de casa assumiu, de mais ou menos um ano para cá, que não é uma padaria: é apenas um boteco que, por coincidência, vende pão (aliás, enquanto escrevo isso, me ocorreu que eu não faço ideia de qual o nome da padaria, já que eu me refiro a ela como “aquela bosta”).

Enfim, o problema não é a política de se transformar em boteco. Gosto de botecos também. O problema foi que, desde que esta estratégia foi assumida, a redistribuição dos cargos na padaria foi, no mínimo bizarra, já que a área botequim se tornou o core business da coisa.

Pelo que pude constatar, o dono do estabelecimento fez um teste de Q.I. com todos os funcionários. Os dois ou três que tiveram resultados superiores a 80 foram realocados para servir pinga no balcão. Os demais, que tiveram resultados abaixo de 80, foram designados para a área do pão.

E uma menina em especial (que parece uma formiga e certamente entregou o texto incompleto, obtendo -30 pontos) foi rebaixada e transferida para o caixa, onde ela faz coisas sem importância, como reabastecer os chocolates que foram vendidos, abrir os pacotes com maços de cigarro e mexer com todo o dinheiro do estabelecimento.

(Em tempo: uma das funcionárias aparentemente teve, como resultado, 210. É a típica pessoa que com, recursos e apoio do governo, descobriria a cura do câncer e estabeleceria um plano de colonização de Marte até o final do ano. Mas como na padaria ninguém sabia o que fazer com ela, ela foi escalada para ficar no caixa, mas de manhã, quando tem menos movimento, assim ela não atrapalha muito).

Assim, depois destas mudanças, algumas situações se tornaram corriqueiras na minha vida, como ter que apelar mímicas, desenhos e qualquer outro recurso para conseguir algo no balcão.

- Oi, tudo bom? Estes folhados são de aliche?

- Quais?

- Estes aqui.

- Mas qual?

- Só tem uma forma de folhados.

- Sim, mas qual deles você quer saber?

- Os folhados da mesma forma não têm o mesmo sabor?

- Não sei. Preciso perguntar.

- Cara, esquece. Vamos fazer assim. Eu quero 200 gramas destes folhados aqui.

- Certo.

- Aonde você vai?

- Pegar seus folhados. 200 gramas, né?

- Sim. Mas você está com uma peça de presunto na mão.

- Não é presunto que você pediu?

Aí eu sou obrigado a entrar atravessar o balcão, pegar a forma de folhados e colocar na mão do sujeito, explicando que é isso que eu quero. E ele fica me olhando com pontos de interrogação no lugar das pupilas, claramente se segurando para não perguntar “mas e o presunto?”, alegando que como ele já pegou o presunto ele precisa ser cortado.

Este, claro, é um dos funcionários do balcão de pães. O outro consegue ser pior. Pouca gente sabe, mas depois que Alfred Hitchcock morreu, ele reencarnou no corpo do atendente da padaria aqui ao lado. Mas, carregando a herança de outra vida, ele acredita que o sucesso de seu trabalho está em surpreender as pessoas.

- Cara, me vê dois pães italianos?

- É para já. Somente dois?

- Isso.

- Dois pães italianos saindo no capricho.

Aí você volta para casa, pega a manteiga, abre o saco de pães e descobre que se tornou o feliz proprietário de uma torta de morangos. Ele sempre consegue entregar a coisa errada (e ele coloca tudo em sacos fechados, para você só descobrir em casa). Ou seja, sempre que você abre o saco para comer, descobre uma surpresa arquitetada pelo Mestre do Suspense.

É quase um híbrido entre Hitchcock e Kinder Ovo. Você pede seis pães, volta para casa e pode encontrar qualquer coisa (um quindim, uma rosca de torresmo, um bonequinho do Mancha Negra, um pneu, uma obra de artesanato asteca), menos seis pães.

Mas o pior é no final, quando é preciso passar pelo caixa. Quando eu era criança, me lembro de notícias que contavam sobre como as crianças em Cubatão nasciam sem cérebro. Mas para mim isso sempre foi sensacionalismo, até conhecer a garota do caixa.

Primeiro, eu não sei como ela consegue fazer isso, mas toda vez que eu me aproximo o telefone toca. Não sei se ela tem algum botão no pé que dispara o telefone, mas basta eu encostar o peito no caixa que o telefone toca e ela atende. E a ligação nunca é para ela, é sempre para o funcionário que está o mais longo possível no momento.

- Oi. Boa noite. Eu quero também...

- ROBERCLÉÉÉÉSON!

- Oi. É isso aqui é mais...

- ROBERCLÉÉÉÉSON! TELEFONE!

- Olha, você está ocupada, mas...

- ROBERCLÉSON! É SUA MÃE! QUER SABER ONDE ESTÁ O REMÉDIO DO PÉ DELA!

- Não tem problema. Eu espero.

- Oi. Desculpe. Era o telefone. Posso ajudar?

- Sim, é isso aqui, mais esta Coca e...

- ROBERCLÉÉÉÉÉÉÉSON! VEM ATENDER SUA MÃE NO TELEFONE! EU ESTOU COM CLIENTE AQUI!

- Pronto. Qual seu pedido?

- Oi?

- Seu pedido?

- Desculpe, eu me distraí. Estava pensando sobre a vida. Sobre certas coisas que acontecem comigo.

- ROBERCLÉÉÉÉÉÉÉSON!

- Estava só me perguntando se um dia isso vai acabar.

- Seu pedido?

- Não, deixa. Eu esqueci uma coisa no balcão da copa. Depois eu volto.

- ROBERCLÉÉÉÉÉÉÉSON!

Aí eu vou até à copa, sento no balcão e fico quieto. Não demora muito até um dos servidores de pinga vir falar comigo e pergunta o que eu quero.

- Me dá uma pinga.

- Dia difícil?

- Bastante.

- Por isso que eu gosto de ficar aqui, só servindo pinga, sabe? É mais tranquilo.

- Imagino. Cara...

- Diga.

- Eu pedi quatro pãezinhos, mas estou olhando no saco que me deram. Ao invés de pães, tem um jogo de xadrez completo. Quer jogar?

- Pode ser. Quem joga com as brancas?

- Tanto faz. Põe mais uma pinga aqui.

9 comentários:

Ricardo Santos disse...

Essa padaria é, na verdade, uma franquia.

Há várias com o mesmo atendimento no meu bairro...

Felipe Goulart (Santos, SP) disse...

Então "as crianças em Cubatão nasciam sem cérebro"? Agora percebo que isso faz muito sentido....

Fernando Santos disse...

E a franquia é grande. Aqui em Belo Horizonte também tem!

Leo B. disse...

Aqui perto de casa tem uma padaria que segue mais ou menos as mesmas diretrizes, com funcionários que nunca sabem direito como atender o cliente e de uma má vontade para trabalhar enorme.

Brasileirinha disse...

Franquias de tudo...kd o atendimento humanizado? a msm coisa está acontecendo com a educação e as franquias, tudo tem q ser padronizado e msm parecendo incrivel, acabam perdendo a qualidade tanto do produto quanto do atendimento. o que importa é a quantidade e não a qualidade. triste.

Adriano disse...

Não quero nem ver o dia que você pedir carolinas!

Fagner Franco disse...

Roberclééson foi foda...rs
Eu moro numa região onde padarias assim é o padrão. Então, já me acostumei a não esperar nada delas. E palmas para "um quindim, uma rosca de torresmo, um bonequinho do Mancha Negra, um pneu, uma obra de artesanato asteca". Tive que parar de ler pra rir. Abraço.

Pri disse...

Cara, depois o povo diz que quem mora na ZL de SP é que é infeliz, mas no quesito padaria posso me considerar sortuda! Sem querer fazer inveja... rsrsrs

Rafiki Papio disse...

Por aqui só há problemas com os caixas. Certa vez eu fui a padaria com o amigo e na hora de pagar eu não sei, acho que conversando com meu amigo eu, acidentalmente, disse alguma palavra que estava associada a alguma hipnose prévia que a menina do caixa havia sofrido, pois ela ficou parada, quase congelada olhando para gente, enquanto eu movia freneticamente uma dúzia de ovos na sua frente, na esperança de acordá-la do seu transe.