26 de agosto de 2013

Sonhos de Kurosawa Gordon XII



Certa vez, no meio de uma sessão de terapia, eu aprendi algo sobre mim. Aparentemente, a divisão entre consciente e inconsciente nos meus sonhos é mais delimitada que com as outras pessoas.

Funciona assim: quando estou na luz, estou no meu consciente; quando o local é escuro, trata-se do meu inconsciente. É fácil assim. Ou, ao menos, deveria ser fácil assim.

Estava tudo escuro.

Era uma casa de campo e eu estava no quintal, que não tinha nada além de um gramado plano. A casa, acredito, estava atrás de mim, à minha direita. À minha frente, coisa de uns oito metros, o gramado terminava em um muro alto e branco.

E eu estava no gramado com uma missão: investigar os rumores sobre o fato de animais andarem ali durante a noite. Não sei de quem era a casa ou quem me mandou fazer isso, mas esta era minha tarefa. Olhei ao redor e não havia animal nenhum, mas algo me dizia que era questão de tempo.

Dito e feito. À minha direita, três gatos andavam pelo gramado. Mas andavam fazendo uma espécie de coreografia, alinhados e movendo as mesmas patas simultaneamente, como se estivessem imitando o pessoal do Genesis no clipe de I Can’t Dance, mas sem música.

Olhei com calma. Eram três gatos exatamente iguais, brancos e de pelo curto - talvez fossem angorás, talvez fossem siameses. Moviam-se em sincronia perfeita, olhando para mim. E eram idênticos, com exceção do último. O último era diferente.

Olhei com mais calma e vi que ele usava um chapéu. Não, não era um simples chapéu. Era um chapéu enorme, como se fosse um sombreiro e feito de plástico amarelo. Antes de eu pensar sobre porque o que um gato andado no quintal de madrugada usaria um chapéu, reparei que havia algo inscrito no chapéu.

Olhei com muito mais calma e identifiquei o que era. O sombreiro de plástico era amarelo e tinha a foto de um homem de terno, sorrindo. Ao lado dele, letras e números invertidos. Era uma bandeira de plástico de algum candidato a vereador ou deputado e transformada em chapéu. E o pior não é que isso estava sendo usado por um gato que fazia coreografias no quintal.

O pior é que aquilo me pareceu normal e deixei os gatos irem embora.

Mas talvez eu tenha parado de prestar atenção nos gatos porque de repente havia um coelho na minha frente.

Era um coelho enorme, talvez do tamanho de um cachorro de porte médio, talvez até grande. E não era um coelho muito bonito. Era todo preto – isso era bonito – mas seus dentes eram tortos.

Não era exatamente um monstro, mas estava longe de ser um coelho da Disney. Digamos que numa escala onde o Tambor equivale a 0 e o coelho do Donnie Darko equivale a 10, o coelho do meu sonho era uns 6,5.

E estava ali, parado no gramado, a menos de dois metros de mim, me olhando.

E, de repente, eu tinha um cano na minha mão. Acho que era um cano de metal.

Sem saber como reagir, estiquei o cano com calma, como se isso fosse me aproximar do coelho e deixar claro para o animal que eu não ia machucá-lo. O coelho apenas farejou a ponta do cano e o ignorou. Foi quando eu tive a ideia de abaixar um pouco o cano e colocar a ponta na altura do pescoço do coelho com os dentes tortos. Ele não se moveu. Comecei a esfregar o cano de leve no seu pescoço, e ele virou a cabeça, como um cachorro que recebe carinho atrás da orelha. Parecia que ele tinha gostado.

Puxei o cano de volta e o coelho deu um passo à frente, me olhando.

- Oi, disse o coelho.

- Oi, eu respondi.

- Eu sou um coelho.

- Sim. Eu havia reparado.

Seus dentes eram muito tortos.

Qual seu nome?

Eu respondi e ele pareceu sorrir.

- Meu nome é Adílson.

- Adílson?

- Isso.

Você é um coelho chamado Adílson?

- Isso. Muito prazer.

Imediatamente, me vi sentado na cama. Olhei para o lado. 3 e pouco da manhã. Respirei fundo e deitei novamente. Antes de adormecer, pedi baixinho que “eu não quero mais sonhar hoje, por favor. Amanhã meu dia vai ser cheio, e não posso me dar ao luxo de passar a noite encenando uma versão distorcida e terceiro-mundista de Rob no País das Maravilhas”.

Virei para o outro lado e dormi.

2 comentários:

Ana Claudia Savini disse...

Tinha certeza que ia virar post. :P

Rafiki Papio disse...

Ora como não, sonhar assim é tão legal. Eu não consigo montar meus sonhos assim para explicar, eles são estranhos demais. Eu queria sonhos mais concretos assim.