26 de junho de 2013

Efedrina



Dia desses, a Esposa pegou uma gripe que...

Não. Comecei errado. Vamos tentar de outra forma.

Talvez a Organização Mundial de Saúde tenha uma escala de gripes. Eu acho que seria útil. Iria de zero a 10, seguindo um padrão de sintomas: se você está espirrando três vezes por dia, é porque contraiu uma gripe nível 01. Febre alta e tosse? Gripe nível 07. O zero, claro, representaria um estado completamente saudável; já uma gripe de grau 10 seria caso de internação iminente.

Bem, de acordo com esta escala, semana passada a Esposa pegou uma gripe nível 28. Passou dois ou três dias conseguir sair da cama, com todos os sintomas catalogados na história da medicina e multiplicados por 3. Assim, a cada seis horas eu precisava sair de casa para comprar um remédio diferente, já que nada parecia fazer efeito. Na quarta vez, cheguei a sugerir procurarmos um curandeiro, mas fui ignorado.

Assim, minha tarefa era comprar um remédio para sinusite que não contivesse efedrina em sua fórmula, já que a Esposa é totalmente alérgica a isso – o único que ela tomava era um tal Sinutab, que parece que deixou de ser fabricado.

Aceitei minha missão e fui à farmácia.

Fui atendido por uma garota de uns 25 anos, o que já me deixou preocupado. Se eu estivesse comprando jornal ou pão, não me incomodaria com isso. Mas como eu estava comprando remédios (e com condições especiais na fórmula), gostaria de ser atendido por alguém mais velho que eu. Acho que passaria uma segurança maior.

Talvez um sujeito na casa dos cinquenta anos, com cabelos um pouco grisalhos, algumas rugas ao redor dos olhos que lhe emprestavam um ar mais sábio. Um bigode branco seria legal, também. Transmitiria experiência. Mas o mais importante seria aquele olhar calmo de alguém que já cumpriu sua missão. Já casou um filho, está formando o outro e está apenas esperando os netos chegarem. Enquanto isso, passa seu tempo orientando da melhor forma possível pessoas que precisam de remédios para sinusite que não contenham efedrina na fórmula.

Este seria o farmacêutico perfeito. Mas tudo o que eu tinha era uma menina com cara de quem sai da farmácia e, antes de ir para casa, passa na banca de jornal e compra um poster do Luan Santana.

Olhei ao redor e vi que ela estava sozinha na farmácia – o único outro funcionário era o rapaz do caixa, que parecia ser o irmão mais novo dela. Ou seja... Resmunguei um “não tem tu, vai tu mesmo” e me encostei ao balcão.

- Oi. Eu estou procurando um remédio chamado Sinutab, mas parece que ele não existe mais. Isso é verdade?

- Sinutab? Sinutab eu não tenho.

- Sim, mas o que eu quero saber é se você não tem, ou se o planeta inteiro não tem.

- Ah, acho que ele está em falta.

- Certo. Bom, vamos lá. Eu preciso de um remédio parecido com ele. Preciso de algo que seja indicado para sinusite, mas que não contenha efedrina na fórmula.

- Olha, para sinusite, eu tenho esses dois aqui.

- Ok. Mas a nota de corte aqui não é “para sinusite”, é “sem efedrina”. Algum deles tem efedrina?

- Olha, eu não sei. Qual o nome do remédio mesmo? Fedrina?

De repente, eu senti um pouco de medo, percebendo que a probabilidade de eu sair com um remédio sem efedrina era menor que as chances de eu sair com uma garrafa de dois litros com suco de efedrina até a boca.

- Não, este não é o nome do remédio. Este é justamente o que o remédio não pode conter. Efedrina. Igual o Maradona, lembra?

- Maradona?

- Isso. Copa de 94. Maradona, efedrina, suspensão. Lembra, né?

- É... Não...

- Não?! E aqueles 4 x 0 na Grécia? Ele comemorando o gol daquele jeito que parecia teste de elenco para o Trainspotting! Lembra?

A esta altura, o farmacêutico de cabelos e bigode branco não apenas lembraria do que estou falando, como diria que aquilo foi tudo armação do Havelange, e que se não tivessem tirado o Maradona da Copa, talvez o Brasil nem fosse campeão. Daria de ombros, diria que é assim mesmo e me entregaria o melhor remédio-para-sinusite-que-não-contém-efedrina do mercado e perguntaria se eu preciso de algo mais.

Mas, ao invés disso, a garota me respondeu apenas:

- Oi?

- Bem, aquilo era efedrina. Quer dizer, de acordo com a Fifa. O mundo inteiro conheceu efedrina por causa daquilo.

- Entendi.

- Mas isso não tem importância. Vamos começar de novo.

- O senhor precisa de efedrina?

- Não. Olhe, eu preciso de um remédio para sinusite que não contenha efedrina. Nada de efedrina. Efedrina-free. Zero efedrina.

- Entendi.

- É mais ou menos assim: a minha mulher é uma bomba de sinusite. A única maneira de impedir que ela exploda é cortando um dos fios. Nós temos um fio com efedrina e outro sem efedrina. Se cortarmos o fio com efedrina, ela explode do mesmo jeito. Eu preciso que você me mostre um fio sem efedrina.

- Fio?

- Isso. O tempo está correndo. Onde tem um remédio para sinusite sem efedrina aqui nessa farmácia?

- Mas...

- E, um aviso: se ela explodir, todo mundo morre.

- Como assim?

- Bom, se ela tomar algo com efedrina, ela morre. Se ela morrer, você morre, porque eu vou voltar aqui e incendiar essa farmácia com você dentro. E se eu incendiar a farmácia, eu morro também, porque vou ser preso e com o meu tamanho, não vou durar muito tempo na cadeia.

- Ai, moço...

- Vamos resumir: você não sabe se existe um remédio para sinusite sem efedrina, certo?

- É. Acho que não.

- Bom, deixa para lá. Eu vou até outra farmácia.

- Certo. Boa sorte.

Atravessei a rua e entrei na farmácia que fica bem em frente. Fui atendido por uma mulher, esta com uns 40 e poucos anos e cara de quem já ouviu o nome “Luan Santana”, mas não sabe direito do que isso se trata.

- Oi, você tem Sinutab?

- Não. Não existe mais.

- Certo. Você tem algum remédio para sinusite que não tenha efedrina na fórmula?

- Tenho este aqui.

- Não tem efedrina?

- Não. O composto é outro.

- Vou levar.

- Algo mais?

- Sim. Você já pensou um deixar crescer um bigode branco? Acho que ia ficar bem em você. Aí eu volto aqui e a gente conversa sobre a Copa de 94.

- Como?

- Nada, esquece. É só ir direto ao caixa?



Nota aos leitores: no último post, afirmei que passei alguns dias sem postar no blog por estar cheio de trabalho. Alguns dos textos que fiz, por exemplo, eram roteiros para vídeos. Fiz várias opções e, claro, algumas acabaram não sendo utilizadas (o cliente preferiu outras ideias que produzi, acreditando que elas atendiam melhor o briefing ou eram mais facilmente realizável ou etc).

Assim, vou começar a postar alguns destes textos que não serão usados no Chronicles – sempre deixando de lado o cliente e agência, claro – para que os leitores tenham acesso a outro tipo de texto que escrevo, já que muita gente já manifestou curiosidade sobre isso. O primeiro deles já está no ar, aqui.

19 comentários:

Ana Claudia Savini disse...

E graças ao meu marido herói - que me trouxe um ótimo remédio sem efedrina, mas que possui um nome Organizações Tabajara: Descongex - estou bem melhor. <3

Adriano disse...

Rob, eu diria que você tá a meio passo de virar o velho da fila do banco que fica falando coisas da Copa de 94 com estranhos.

Rafiki Papio disse...

Nessas horas a gente sempre quer encontrar o velho bode sábio das montanhas para nos ajudar.

Irmão do Rob disse...

Seu sobrinho toma descongex.

Fernanda disse...

Ahn... mas se vocês morassem no meu bairro aqui em Belo Horizonte, iam adorar o farmacêutico mais legal da cidade! Ele tem 60 anos, bigodudo, cabelo branquiiiinho, adora contar caso de futebol, política ou coisas cotidianas antigas. Ir na farmácia do bairro é mais que ir fazer uma comprinha, é quase uma aula de história! Do jeitinho que o Rob tá desejando de ter como melhor amigo! hehehe

(e Descongex salva vidas, Ana, eu sei disso!)

silvana pedrini disse...

Muito bom! É a primeira vez que acesso seu blog, estou um pouco sem palavras, entende? Vou seguir você e já conhecer o blog da sua esposa também!
Voltarei mais vezes!

Adriano disse...

Legal ver novos leitores no Robverso. :)

Varotto disse...

Quando você descreveu seu farmacêutico dos sonhos, eu só conseguia pensar no Coronel Mostarda, do Detetive.

http://simonedrago.com.br/siblog/wp-content/uploads/2013/04/clue_suspects_cards_dark_background-e1365704819137.jpg

Pri disse...

Achei o maior preconceito com garotas com menos de 25 anos! rsrsrsrs

Marcus Vinicius disse...

Bem por ai, não costumo ir muito para a farmácia, mas só sinto segurança com pessoas mais velhas atendendo, elas entendem bem mais do riscado.

A menção ao Maradona foi espetacular, hahaha.

raquel marciano disse...

Kkk boa...

Marcus Darius S Vasconcellos disse...

Ola , boa, mas PARA FINALIZAR COM CHAVE AUREA , VOCE DEVE PROCURAR POR `EBASTEL`tem efedrina e curou minha filha de sinusite...alias o capitalismo nao permite medicos receitarem remedios que curam definitivamente...pensem bem...

Anônimo disse...

SINUTAB tem efedrina desfaçada se chama pseudoephedrine
Você deu efedrina para sua esposa hahahah

Ana Claudia Savini disse...

Anônimo, a composição do Sinutab é maleato de clorfenamina, ácido acetilsalicílico e cafeína. Não tem efedrina e nem pseudoefedrina.
E ele não deu porque nem fabrica mais. ;)

Mark M disse...

http://www.weldricks.co.uk/product/2874691

Não sabe nada na vida

Mark M disse...

http://www.weldricks.co.uk/product/2874691

Não sabe nada na vida

Mark M disse...

http://www.portaldasaude.pt/Portal/servicos/prontuario/detalhe/?medicineID=7907

Mark M disse...

http://www.portaldasaude.pt/Portal/servicos/prontuario/detalhe/?medicineID=7907

Ana Claudia Savini disse...

Mark, os links que você postou não são nacionais.

O Sinutab que eu tomava era esse:
http://www.medicinanet.com.br/bula/4729/sinutab.htm

;)