14 de maio de 2013

Algo a Dizer Sobre não Ter o Que Dizer



Eu não me recordo ao certo de quando comecei a escrever. Ainda na escola, adorava as aulas de redação – e fiz algumas das quais me orgulhei bastante, à época. Sempre subvertendo os textos, sempre brincando com as regras e expandindo as regras do trabalho. Hoje, anos depois, sou jornalista, publicitário, redator, roteirista... Na verdade, acredito cada vez mais que eu seja tudo isso, hoje, apenas porque talvez eu tenha sido escritor sempre – eu apenas desdobrei isso em outras atividades.

Só escrevo? Não. Faço outras coisas. Mas acredito de verdade que sou escritor em tempo integral. Passo a maior parte do tempo pensando em textos. Ando pela rua pensando em textos, imagino textos antes de dormir, experimento diálogos dentro da minha cabeça enquanto estou escrevendo outros textos. É por isso que eu tenho uma necessidade quase vital de escrever. Eu preciso tirar a ideia da cabeça e colocá-la na tela, somente para abrir espaço para ideias novas.

Escrevo apaixonado ou não escrevo. É assim que defino em relação não apenas ao ato de escrever, mas aos meus textos em si. Sou apaixonado por cada um deles. Alguns fizeram sucesso, outros foram lidos por somente algumas pessoas; alguns foram esquecidos pelos leitores, outros são lembrados até hoje; alguns mereciam melhor chance, outros conseguiram romper a ditadura das piadas-com-foto-do-Chapolim-e-erro-de-concordância e se espalharam pela internet. E eu me orgulho de todos eles.

Quando escrevo, trato meu texto com o cuidado que ele merece. E não estou falando de querendo saber “quem leu”, “quem não leu”, “o que acharam”. Faço isso? Faço, mas sei que nessas horas estou cuidando de mim, como escritor, e não do texto. Cuidar do texto é pensar nele antes de digitá-lo, não publicá-lo se não saiu bom, procurar fazer com que ele seja diferente dos outros textos que fiz. Basicamente, cuidar de um texto é escrevê-lo como se fosse o último que você irá redigir na vida. Pois, você é apenas tão bom quanto seu último texto. Especialmente na internet.

Tenho para mim que escrever é uma atividade nobre. Respeito quem faz. Não é fácil montar ideias inteiras tendo somente 26 letras para isso. É bastante difícil, na verdade. E é por isso que eu cuido do meu texto, como disse acima. Jamais faço um texto “gratuito”. Sim, eu tenho necessidade de escrever, como disse. Mas, apesar de escrever a maior parte do tempo para a internet, não me sinto obrigado a escrever sobre o assunto do momento (o que parece ser a regra nas redes sociais hoje em dia). Se eu percebo que não tenho nada a acrescentar sobre o grande assunto do dia, ou que o tema simplesmente não me interessa, me dou o direito de preservar meus textos e mantê-los longe disso.

Algo no assunto precisa me interessar antes de eu começar a escrever. Posso, sim falar sobre polêmica do dia – mas é preciso o assunto me me interesse, independente de todo mundo estar falando sobre ele ou não. E faço isso muitas vezes do meu jeito (subvertendo as regras dos textos nas aulas de redação, lembram?). Não se espante se a grande polêmica do dia virar, no meu teclado, uma crônica. Agora, se a polêmica do dia não me atrai - ou é um assunto que não domino -, não me sinto na obrigação de escrever sobre ela. Prefiro rabiscar algo sobre o casal que se beijou no metrô, sobre a velha que arrumou confusão na padaria, sobre a briga que tive com meu cachorro – coisas do meu mundo, que os leitores se identificam e percebem que também fazem parte do mundo deles.

A bem da verdade, a internet se torna, cada vez mais, o lugar onde o essencial é descobrir qual assunto desnecessário se torna, de repente, absurdamente necessário e deve ser discutido. E, claro, muitos se aproveitam do assunto desnecessário-que-virou-essencial para criar textos inflamados ou vazios, humorísticos ou analíticos, apenas para ganhar seus 15 acessos de fama. Eu não. Eu preciso ter algo a dizer antes de começar a escrever. Se eu não tenho, corro para o meu mundo, para as minhas crônicas, e minha vida segue normalmente. Faço isso por mim, faço em nome dos meus leitores e - principalmente - faço em nome dos meus textos. E, nos meus blogs, vai ser sempre assim. Não se trata de buscar fama, mas sim de saciar uma paixão.

Dizer aqui que nunca vou escrever sobre uma polêmica seria mentir. Claro que vou. Já fiz e certamente farei de novo. Mas, como eu disse, meus textos são algumas das coisas mais importantes que fiz – e faço, e farei – na vida. E eu jamais vou prostituí-los em nome do assunto do momento, somente em busca de acessos relâmpagos e efêmeros. Como qualquer pessoa que escreve, meus textos são quase como filhos. Minha obrigação é que ensiná-los a falar somente quando puderem acrescentar algo. Jamais escrevo em nome de acessos, especialmente de forma inflamada. Se você escreve, sempre que ficar em dúvida sobre isso, volte sempre a este texto. Calma, você não precisa reler o texto inteiro. Escrever é a arte de cortar palavras: leia apenas a primeira palavra de cada parágrafo que já vai estar bom. Confie em mim.

16 comentários:

George Marques disse...

Simplesmente genial.

Esse texto me inspirou e também me fez entender porque não consigo escrever sobre um assunto: porque não me interessa.

Alan (FFC) disse...

Sabe aqueles traumas de infância? Então, entre outros um deles era com redação. Detestava escrever. Um dia na oitava série fiz uma sobre a invenção da roda e para a minha surpresa, o professor elogiou e toda a sala olhou para mim. Senti-me orgulhoso. No segundo grau, vagabundo nato andava junto com outros iguais a mim e novamente fui elogiado por outra redação, então me dei conta que se me esforçasse podia fazer algo legal.

O tempo passou, a internet chegou na minha vida e descobri o blog. Um lugar onde eu podia escrever o que eu quisesse e adorei isso. Sou lido por pouco, uns 3 ou 4, mas gosto de escrever lá o que me dá vontade. Faço isso no FB e no tuiter mas não é a mesma coisa.

Tenho textos arquivados no PC que são só meus, estão com senha e só eu sei qual é... rs

Escrever para mim é uma terapia...rs

Abs

Marcus Vinicius disse...

Também te entendo, peguei gosto pela escrita ainda na época do colégio e também segui a área de comunicação, tentando dar o máximo de ênfase na redação.

Mas nesses tempos internéticos onde muitas pessoas preferem "humor no face" (que de humor não tem nada), é realmente mais difícil achar quem escreva pelo puro tesão de escrever. E se colocarmos na conta o fato de que as pessoas hoje querem opinar (muitas vezes de modo intolerante) sobre absolutamente tudo nas redes sociais, fica ainda mais difícil.

Admiro muito quem escreve com o coração, como é feito por aqui, e isso por si só já faz do texto excelente e que vale a pena ser lido.

Tuíla disse...

Me chamou atenção quando vc falou de 'acessos-relâmpago'. E é exatamente assim.
Quando se tem algo a dizer, vc conquista leitores. Eles voltam.
Eu venho aqui há anos.
E to comentando pela primeira vez.

Parabéns, Rob, você é genial!

Leonardo Gedraite disse...

A sacada das palavras iniciais foi muito legal.

O que faltas no mundo de hoje é isso, pessoas que fazem as coisas por tesão e não por qualquer outro motivo

Rafiki Papio disse...

Eu não sei qual é a pergunta, mas se a resposta for "eu sou escritor" imagino que a sensação seja boa.

Eu nunca gostei muito das aulas de redação, sempre achei que me dava muito trabalho.

Valeu a dica no final, eu não iria perceber.

Varotto disse...

Meu herói...

Elaine disse...

E é por isso que amo vir aqui.

Rob Gordon disse...

George:

Obrigado, cara. E é isso mesmo. Se não interessa, não interessa. E não importa quantas pessoas estão falando a respeito disso.

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Alan:

Sim, escrever é - entre outras coisas - terapia. No momento que você escreve sobre algo que não quer, é porque virou trabalho. E aí, ou você está sendo pago por isso, ou você está a) sendo babaca, ou b) querendo aparecer e sendo babaca.

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Marcus:

Valeu, cara! O lance de você "competir" com os "humor no face" da vida é algo que ainda vai virar post aqui.

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Tuila:

Obrigado pelo elogio!

E é bem isso. Como eu disse certa vez aqui no blog, existe uma grande diferença entre ser lido e ter leitores.

Beijos,

Rob

Rob Gordon disse...

Leonardo:

As pessoas, hoje, fazem para os outros. Seja escrever, fotografar, cozinhar, desenhar... 99% delas se pautam pela atividade que está na moda.

Nunca vai haver tesão de uma pessoa dessas.

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Rafiki:

A sensação - ao menos para quem escreve por tesão - é maravilhosa. :)

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Você errou. A palavra que está procurando é "amigo". :)

Abraços,

Rob

Rob Gordon disse...

Elaine:

Obrigado!

Beijos,

Rob