17 de dezembro de 2012

Scanners - Sua Mente Pode Destruir


Uma criatura vive, nos dias de hoje, após sobreviver a milhões de anos de evolução, sem alterações. Sem paixão. Sem lógica. Ela vive para matar. Uma máquina de comer desprovida de cérebro. Ela irá atacar e devorar qualquer coisa.

É como se Deus criasse o demônio... E lhe desse presas.

(Tubarão - Trailer original de 1975)

Existem dias em que tudo parece bem. Na verdade, são dias comuns, em que a paz reina dentro da minha cabeça. São dias tranquilos, em que coloco meus textos em dia, arrumo minha coleção de músicas, ou me esqueço da vida com um livro.

Mas o Mal está sempre à espreita.

Enquanto estou vivendo, um monstro horrendo passa seu tempo escondido nas trevas. Planejando. Ruminando restos de ódio e rabiscando meu nome com suas garras, na parede de uma caverna, escondida por trás de uma cachoeira de lodo pegajoso. Em silêncio. Escondido. Mastigando restos de ossos, se fortalecendo. Longe da luz, longe dos olhos.

E, então, ele ataca.

E o campo de batalha é o meu cérebro.

Aos poucos, ele começa a deixar um rastro de destruição por onde passa. Vai se arrastando pelas ruas, enfurecido, derrubando prédios e arremessando destroços para todos os lados. Nas ruas, uma multidão de neurônios corre desesperada, tentando encontrar um modo de salvar suas vidas! O pânico se alastra. Não há mais ordem. Há apenas o caos, a destruição e os gritos dos inocentes.

- Corram! Corram pelas suas vidas!

- A Enxaqueca voltou!

- Os maias haviam previsto isso! Os maias estavam certos!

- Fujam! A Enxaqueca está escalando aquele edifício!

- Alguém viu meu filho? É um neurônio loirinho, ele estava aqui agora! Socorro! Onde está meu filho?

- Arrependam-se, pecadores! O monstro veio nos punir!

Meus neurônios correm para todos os lados, evitando serem atingidos pelos destroços dos edifícios ou pisoteados pela criatura. Neste momento, no mundo em que conhecemos – e que os neurônios mal suspeitam existir – eu esfrego meus olhos com as duas mãos e penso que “não estou legal, minha cabeça está pesada”.

A cidade está destruída. Em minutos, escolas, igrejas, prédios comerciais são reduzidos a destroços pela criatura, que mastiga carros e pedaços de edifícios sem distinção. Corpos de neurônios se estendem pelas vias públicas. Alguns gemem e se arrastam sem direção, nos últimos minutos de vida. Outros estão irreconhecíveis, e muitos decepados de forma violenta.

Mas, enquanto a criatura selvagem caminha pelo seu reino de destruição, os neurônios planejam um contra-ataque. Os civis estão abrigados fora da cidade, em escolas e celeiros. Há pouca água e a comida é escassa. Mas os militares sabem que todas estas vidas serão perdidas se a criatura não for derrotada.

A esta altura, o cenário é de destruição. Mas eu não tenho consciência disso. Eu não tenho consciência de nada mais, na verdade. Esqueci meu nome, o que faço, o que sou. Tudo o que sei é que a minha cabeça a) está doendo; b) a dor cresce em progressão geométrica; c) a luz do Sol aumenta a dor; d) barulhos aumentam a dor; e) o fato de existir aumenta a dor.

Horas depois, as Forças Armadas enviam tropas para derrotarem o monstro. Neurônios pilotando tanques de guerra disparam à distância; batalhões de neurônios com fuzis tentam cercar a criatura e encurralá-la; caças, pilotados por neurônios aviadores, metralham a criatura sem piedade.

- É inútil! Nossas balas não perfuram sua pele!

- Líder Ouro, aqui é Ouro 2. Fui atingido. Fui atingido. Câmbio.

- Vá para casa, Ouro 2, não há mais o que você possa fazer aqui. Câmbio.

- Senhor, a Enxaqueca arremessou um prédio em nossos tanques. Três veículos foram destruídos e outros dois estão inutilizados.

A esta altura, eu senti cada um dos três tanques que explodiram. E é quase um distúrbio na Força. Além de escutar os tanques explodindo, eu ouvi a voz de cada soldado falecido no ataque gritando em agonia. Tudo num volume altíssimo, como se os berros fossem dados ao lado do meu ouvido, com um megafone instalado na aparelhagem de som usada nos shows do Slayer.

Enquanto eu berro de dor, fazendo as pessoas ao meu redor olharem para mim, os bravos soldados continuam lutando. Entretanto, a infantaria não está tendo sorte melhor.

- Nós estamos encurralados na praça central da cidade! Precisamos de reforços! Repito: Precisamos de reforços imediatamente!

- Cuidado! A Enxaqueca percebeu que estamos aqui!

- Sargento, o Tenente foi atingido! Não temos para onde correr!

Sabendo que a extinção de sua raça é algo possível, os neurônios concentram seus esforços em sobreviver, e localizar seus entes queridos. Assim, é inútil esperar que algum deles sequer saiba que, neste exato momento, a batalha está tendo sérias consequências na minha vida, e na vida de todos ao meu redor.

Sim, muitas vezes esta situação altera a vida das pessoas ao meu lado – sendo que muitas vezes, eu nem as conheço. As pessoas olham para mim e desviam o caminho, se perguntando qual droga eu devo ter tomado para estar abaixado na rua, usando as mãos para esconder os olhos da luz do Sol e gritando desesperado de dor, feito um híbrido entre Renato Villar e Nosferatu.

Contudo, os generais têm coisas mais importantes para se preocupar que os vexames que eu passo em público por causa de sua guerra. Assim, decidem que chegou o momento de uma decisão radical. Só há um modo de exterminar o monstro: destruir tudo ao seu redor.

- Senhor Presidente, basta o senhor dar a ordem.

- A cidade foi completamente evacuada?

- Sim, senhor. Os civis estão abrigados fora da área urbana e nossas tropas recuaram. Não haverá mais perdas de vidas.

- É uma decisão difícil.

- Sim, senhor. Mas é necessária.

- Jogar uma bomba atômica no coração da cidade... Vá em frente, general. E que Deus ajude a todos nós.

Mas Deus não está ouvindo. Ele está ocupado demais tentando entender porque aquele humano baixinho e careca está se contorcendo com as mãos na cabeça e gritando “Deus, tenha piedade de mim! Tome minha vida de uma vez por todas!”.

Assim, o avião é enviado, carregando uma bomba do tamanho de uma casa, feita de metal prateado (e com a inscrição “A Morte Vem Dos Céus” feita com tinta vermelha por um dos soldados). Sobrevoa o centro da cidade de uma distância segura.

- Águia 1 para base. Tenho contato visual com o alvo. Câmbio.

- Águia 1, aqui é base. O presidente deu sinal verde. Prossiga com a missão.

- Entendido. Pacote disparado.

- Bom trabalho, Águia 1.

- Retornando à base.

A destruição é terrível. Os poucos prédios que permaneciam em pé são desintegrados imediatamente pela explosão. Cientistas afirmam que a região será inabitável por décadas, devido à radiação. Nada crescerá no local. É uma terra arrasada.

Mas a Enxaqueca desapareceu.

E, com ela, minha vontade de viver. No momento da explosão, eu me arrastei até a cama e, apesar de pedir para morrer, consegui apenas dormir. Dolorido, machucado, com sequelas, mas sorrindo pelo fato de estar num quarto silencioso e escuro.

E, enquanto os neurônios reconstroem seu mundo e sua sociedade, velam seus mortos e cuidam dos feridos, eu durmo. Mas não em paz, porque eu sei que é apenas uma questão de tempo.

Mais cedo ou mais tarde, a criatura irá voltar.

E não vai estar nada contente.

18 comentários:

Elise Garcia disse...

Eu nunca vi alguém descrever com tanta maestria uma crise de enxaqueca. Eu nunca tive uma, e depois de ler esse texto, mesmo sendo ateia, eu dou graças a Deus por isso... o.O

Michele disse...

pior que é por aí mesmo. vc sente que vai morrer e isso é pouco pra descrever.

Adriano disse...

Minha bomba atômica chama neosaldina dupla!

PinkPaulaS disse...

Uma bomba de Amitriptilina e nunca mais comi queijo. Daí, quando o monstro retorna, vem fraquinho. Nem derruba tantos prédios como antigamente...

Varotto disse...

Eu ia desejar melhoras, mas se o texto chegou, é porque o monstro se foi. Se eu fosse você, já começava a planejar as próximas táticas de defesa...

Claudia Iarossi disse...

Quarto silencioso e escuro.....não tem outro jeito!

Até falando de enxaqueca vc arrasa.

Beijos

P.S. Continuo com dificuldades de postar comentários...humpf!!

Ricardo Wagner disse...

Lembrei de Godzilla.

Ele sempre volta para destruir Tóquio.

Ou seria Alameda dos Anjos?
(risos, muitos)

Matheus disse...

pqp... enxaqueca é a pior coisa do mundo... realmente se assemelha muito ao godzilla destruindo tóquio... hahahahahaha
quando moleque, eu tinha umas crises que eu até vomitava... era o cão chupando manga... deu uma melhorada boa depois que eu tomei zoloft, um remédio ansiolítico e anti-depressivo... as crises rarearam bem...

Matheus disse...

o cara que falou aí em cima da neosaldina não conhece a enxaqueca... pfff... neosaldina não faz nem cosquinha nesse monstro... só uma soneca desesperada num quarto extremamente escuro e silencioso... é a única solução depois que ela vem...

Rob Gordon disse...

Elise Garcia:

Agradeça aos céus todos os dias por estar livre disso. Sem exageros, a pessoa fica imprestável pelo resto do dia.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Michele:

É pior. Você sabe que não vai morrer, vai só se transformar em dor.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Adriano:

Aqui é Cefalium. Mas nem sempre resolve.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

PinkPaulaS:

Aqui, quando vem, vem furioso. E enorme.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

A boa notícia é que ele sempre vai. A má notícia é que ele SEMPRE volta.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Claudia Iarossi:

Obrigado pelos elogios! Poxa, não sei mais como te ajudar. Comigo e com os outros leitores está funcionando bem...

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Ricardo Wagner:

Godzilla. O próprio. Infelizmente, eu sou Tóquio.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Matheus:

Quando eu era moleque, eu não tinha. Começou uns 10 anos, 12 anos atrás.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Matheus:

Mas nem sempre o sono ajuda, e o mesmo vale para o remédio. Muitas vezes, é a combinação dos dois.

Abraços!

Rob