21 de dezembro de 2012

A Odisséia da Seleta de Legumes


Quando eu era solteiro, ia muito ao mercado – normalmente o Pão de Açúcar da Teodoro, como os leitores mais antigos devem se lembrar. Praticamente todos os dias (ou melhor, madrugadas) voltando do trabalho.

E confesso que minha vida era mais fácil. Apesar do tamanho do mercado, eu sabia de cor e salteado onde ficavam todos os produtos que um ser humano masculino, solteiro e de classe média precisava para levar uma vida saudável: os famosos 4C (Congelados, Carne, Coca e Chocolate).

Eventualmente, eu comprava um detergente ou um sabão, mas só. Acredito que nas prateleiras do outros corredores deveriam existir outros alimentos (tenho certeza de que vi uma padaria lá, certa vez), mas, assim que eu colocava os pés lá dentro, meu cérebro achava melhor ignorar estes detalhes e ir atrás de uma peça de picanha.

Agora, porém, a vida de casado me obriga a vasculhar os outros corredores do mercado, em busca de coisas que eu nunca ouvi falar, feito um estranho numa terra estranha. E as missões nunca são fáceis. É como se eu fosse um hobbit que precisa abandonar o aconchego do condado e cruzar a Terra-Média enfrentando todos os tipos de perigo, mas não para destruir um poderoso anel poderoso, e sim descobrir onde as cebolas roxas se escondem, com o que elas se parecem e – mais importante – se eu preciso pesar ali mesmo ou se a menina do caixa faz isso para mim.

Foi assim outro dia, quando a Esposa me chamou.

- Você pode ir ao mercado para mim?

- Sim. É para comprar o quê? Suflair?

- Uma seleta de legumes.

- Certo. Suflair. Quantos?

- Não. Uma seleta de legumes.

- Picanha também?

- Não. Uma seleta de legumes. E só.

- Bem... Ninguém pode dizer que eu não tentei. Enfim, o que é uma seleta de legumes?

- É uma embalagem que tem vários legumes juntos.

- Entendi. É tipo um Best Of. Deixa comigo.

Bom, parecia ser fácil.

Parecia ser tão fácil que nem me dei ao trabalho de perguntar a ela onde eu encontraria isso no mercado.

Na verdade, peguei minhas coisas e saí de casa pensando que um Best Of de legumes é quase um erro de conceito.

A meu ver, a importância de uma banda se mede justamente por um Best Of. Uma banda é realmente do primeiro escalão quando ela consegue lançar um Best Of duplo – e claro, somente com canções essenciais, sem nenhuma música colocada ali para encher o CD. Rolling Stones, The Who, Deep Purple, The Doors, Bob Dylan, Black Sabbath, Led Zeppelin, Iron Maiden, Eric Clapton. Todas elas têm material para lançar um Best Of duplo.

A propósito, Beatles fica em outro patamar. Beatles conseguiu a proeza de lançar dois Best Ofs duplos e ainda assim faltou muita coisa.

Agora, e os legumes? Legumes não têm material suficiente nem para lançar um Best Of comum, quanto mais um duplo. Claro, alguns são obrigatórios. Feijão sempre fez sucesso, então entra. Ervilha, cenoura, e cebola também. Batata? Batata é um clássico, merecia até uma versão ao vivo. Mas e o resto? Não tem mais nada que seja essencial. Certo, com boa vontade, podemos colocar um pimentão aqui, uma beterraba ali, mas só para encher o CD mesmo.

Concluindo: legumes não têm cacife para lançar um Best Of.

Na verdade, um disco simples já seria uma enganação.

Assim, lá estava eu, entrando no mercado para comprar algo com o qual eu não concordava. Mas, paciência. Eu tinha uma missão a cumprir – e parte disso é não questioná-la.

Dentro do mercado, olhei ao redor estudando o ambiente. Se eu fosse uma seleta de legumes e não quisesse ser achado, me esconderia longe dos legumes? Ou subestimaria meus adversários e me esconderia justamente entre os legumes, certo de que ninguém me procuraria ali, no lugar mais óbvio?

Sem respostas para isso, fiz o que qualquer pessoa na minha situação faria: comecei a andar a esmo pelo mercado, procurando alguma coisa que se assemelhasse a uma seleta de legumes. E, no meu caminho, passei pela seção de legumes e dei uma espiada de canto de olho, assim como quem não quer nada, e vi que a tal da seleta não estaria ali mesmo. Se a seleta de legumes é realmente um Best Of, a seção de legumes do mercado é feito a loja do iTunes, onde você compra as músicas individualmente.

Após quase dez minutos andando pelos corredores do mercado, decidi que sozinho eu não iria conseguir nada. Assim, chamei um dos vendedores.

- Você está familiarizado com o conceito de seleta de legumes?

- Oi?

- Seleta de legumes. Isso existe, certo?

- Hã... Sim.

- E vocês têm isso aqui?

- Sim. Ficam ali no corredor de conservas.

- Certo.

A boa notícia: seleta de legumes é algo que existe dentro do universo, e – outra boa notícia – fica no corredor de conservas. A má notícia: eu não fazia ideia de onde era o corredor de conservas.

Assim, voltei a caminhar pelo mercado, procurando qualquer indício de conservas, especialmente potes de azeitonas, algo que eu reconheceria com facilidade.

E, em cada volta que dava ao mercado, eu inevitavelmente voltava ao açougue, o que me fazia ter vontade de comprar uma peça de cupim, voltar para casa e explicar que “o cara do mercado disse que isso aqui é uma seleta de legumes, por que não fazemos isso de almoço?”.

Depois de dar algumas voltas, olhei para o lado e vi uma lata de milho. Mais para frente, mas ainda no mesmo corredor, vi um pote de palmitos. Se aquilo não fosse o corredor de conservas, nada mais seria.

Agora, se existe algo que todo mundo precisa saber sobre um supermercado é que estar no corredor da mercadoria que você procura não necessariamente significa que o negócio está na sua frente, sorrindo e abanando os bracinhos, feito um filhote de cachorro em um centro de adoção. Não. Muitas vezes, as mercadorias se escondem dentro do mercado, ou ficam trocando de lugar nas prateleiras, somente para confundir os consumidores menos atentos (no caso, eu), os com pouca experiência (no caso, eu), ou aqueles que estão comprando determinada coisa pela primeira vez na vida (no caso, eu de novo).

Assim, fiquei cerca de dez minutos olhando as prateleiras. Tudo o que eu via eram potes de legumes individuais. Ervilhas, milho. Estava quase pensando em comprar um de cada e explicar a Esposa que eu trouxe tudo separado, se você misturar aí fica uma seleta, quando me lembrei de que eu poderia ligar para ela e resolver tudo.

- Alô?

- Eu estou aqui no mercado.

- Sim.

(Neste exato momento, uma senhora de aproximadamente 182 anos entro no corredor empurrando o carrinho com suas compras.)

- No corredor de conservas.

- Sim.

- Eu acho que não tem seleta de legumes. Quer dizer, não da forma que você explicou.

(A velha parou ao meu lado e começou a olhar os preços das azeitonas.)

- Sempre tem.

- Certo. Vamos tentar de outra forma. Com o que uma seleta de legumes se parece?

- Como assim? É uma lata! E está escrito seleta de legumes!

(A velha pegou um pote de azeitonas e conferiu a validade.)

- Uma lata?

- Sim.

- Porque você não me disse isso? Eu não sabia que era uma lata!

(A velha considerou se levava o pote maior ou o menor.)

- Bom, normalmente ela é vendida em latas!

- Olhe, eu vou explicar uma coisa. Eu sou um homem. Eu sou uma criatura visual. Você já deve ter lido sobre isso. Homens são visuais.

(A velha desviou sua atenção das azeitonas e começou a olhar para mim.)

- E...?

- E não adianta nada você me falar sobre a seleta de legumes. Eu preciso vê-la. Se você escrever um poema erótico sobre a seleta de legumes, o efeito no meu cérebro vai ser nulo. Eu não vou ficar imaginando a seleta, a textura dela, o perfume dela.

(A velha continuou olhando para mim, mas arregalou os olhos e recuou um passo.)

- Certo. Eu estou ocupada aqui.

- Agora, se você me mostrar um filme pornográfico com a seleta de legumes, eu nunca mais vou me esquecer dela. Porque aí eu vou saber como a seleta se parece. Ela vai estar cravada no meu cérebro. Eu sou homem! Eu preciso ver! Eu preciso ver ou ao menos saber como é a tal da seleta!

(A velha abandonou seu carrinho e está lentamente se afastando de mim, de costas, segurando seu guarda-chuva, pronta para se defender).

- Certo. É uma lata.

- Eu vou desligar. Tem uma velha aqui no corredor falando com um dos seguranças e apontando para mim. Depois eu te ligo.

Dei uma volta até o corredor de Coca para disfarçar, enrolei um pouco e voltei para o local das conservas. Nada de velha, nem de segurança. E lá estava ela: a maldita lata de seleta de legumes.

Peguei nas mãos. Ela brilhava. Vitória! Só não a ergui para os céus e dei uma volta olímpica pelo mercado, pois a velha e o segurança podiam estar ali por perto, e certamente se lembrariam de mim.

Assim, coloquei o negócio debaixo do braço e caminhei pelo corredor, em direção ao caixa, deixando para trás latas de milho, latas de ervilha, latas de abacaxi em calda, latas de feijoada, latas de pêssego em cald...

Latas de feijoada?

Quando percebi o que havia visto, quase deixei a lata de seleta cair e voltei dois passos. Lá estavam elas. Latas e latas de feijoada, tristes e aprisionadas entre ervilhas e abacaxis em calda.

Fiquei horrorizado.

Que mente sádica e doentia aprisionaria uma pobre feijoada num corredor assim? Para os milhos e ervilhas, tudo bem ficar num local assim, eles estavam acostumados. Mas para uma feijoada, aquilo não era o corredor das conservas. Estava mais para corredor da morte.

Olhei ao redor. Estava sozinho. Abaixei e fiz carinho de leve em uma das latas. E, sussurrando, prometi que assim que possível eu buscaria ajuda e voltaria para salvá-las. Eu iria salvar todas elas. Pedi que aguentassem um pouco que em breve eu as salvaria daquele inferno de legumes em conserva.

Ainda relutando, paguei a seleta de legumes e voltei para casa.

Agora, estou aqui, tentando convencer a Esposa de que a crise econômica vai aumentar ainda mais, e precisamos estocar comida em casa, e que devemos começar por feijoadas em lata. Mas ela nem me ouve, está ali fazendo alguma coisa com a seleta de legumes na cozinha.

E eu aqui, decidindo se fundo uma Ong para ajudar as feijoadas ou se cavo um túnel até o mercado e entro ali de madrugada para salvá-las.

15 comentários:

Hydrachan disse...

Muito bom!!! Muito bom mesmo!

Mas, por favor, não dê a ideia de tentar trocar seleta de legumes por cupim para o meu namorado, ou nunca mais eu terei comida em casa. XD

Alan (FFC) disse...

Hahhahahahhaha, lembrei-me de quando fui em um hortifruti comprar verduras para os meus pássaros. Pqp... kkkkkkkkkkkk

Renata Gonçalves disse...

Muito bom! E na verdade vc deu foi muita sorte que ninguém te avisou que também existe seleta de legumes congelada...

Marina disse...

Muito bom, Rob!

Eu teria ido na área de congelados. Só conheço seleta de legumes congelados.

Ana Claudia Savini disse...

Na verdade eu queria a da Vapza ou a congelada, mas achei melhor pedir a da lata mesmo porque, teoricamente, seria mais fácil de encontrar, já que fica junto das ervilhas e do milho. Enfim...

Brunín Assis disse...

E esse foi o dia em que o Rob se transformou em uma das estranhas criaturas que ele encontrava no Pão de Açúcar. Aposto que a velhinha tem um blog e escreveu sobre você com a tag "A humanidade não deu certo".

frostbr disse...

Pobre feijoada :/

Juba disse...

Brunín, e não é?

Rob Gordon disse...

Hydrachan:

Obrigado! E, em nome dos amantes de carne, torço para seu namorado ler este post e adotar essa ideia!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Alan (FFC):

Verduras são algo que eu nem me atrevo a chegar perto. Deve ter algum curso ensinando as pessoas a comprarem isso.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Renata Gonçalves:

Agora que você falou, me lembro de ter visto algo parecido com isso um dia na seção de congelados, mas meu cérebro não registrou direito o que era.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Marina:

Se eu fosse na seção de congelados, certamente levaria uma lasanha para casa.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Ana:

Não complica ainda mais, estou dando apenas os meus primeiros passos no "maravilhoso" (aspas bem grandes) mundo das seletas de legume.

Rob Gordon disse...

Brunín Assis e Juba:

Sinceramente? Eu adoraria ler este post!

Rob

Varotto disse...

Também concordo que as feijoadas deveriam poder correr livres pelos prados, sentindo o vento correr por suas orelhas, paios e carnes secas...

Free! Free! Feijoada, free!