30 de dezembro de 2012

Coisas da Vida XV

Estava dia desses no mercado, com a Esposa.

E mercado, no final do ano, é um assunto que sozinho renderia um blog. Aparentemente, entre os dias 20 e 31 de dezembro, os mercados fazem uma seleção de tudo o que de pior andou pelos seus corredores ao longo do ano.

São famílias de vinte pessoas que fazem compras de mãos dadas – sim, todos os vinte; a alma penada da senhora de idade que vaga pelos corredores e, sem saber que está morta, tenta puxar papo com as pessoas vivas; a mulher que faz compras com o cãozinho no colo (e descobre que levar o cachorro talvez não tenha sido boa ideia ao passar pela seção das carnes); o casal de namorados que resolve celebrar a paixão quase copulando na parte mais discreta da seção de vinhos.

E, no meio disso tudo, eu e a Esposa, com as compras de Ano Novo, tentando arrumar um lugar na fila de um dos caixas. Missão cumprida, precisávamos apenas escolher na fila de qual caixa entraríamos. Decidimos por uma fila um pouco mais vazia, que tinha somente duas pessoas – que aparentemente, estavam juntas – e começando a ser atendidas.

Assim, pedi a Esposa que esperasse um pouco na fila enquanto eu fosse fumar um cigarro na calçada. Mais que fumar, eu queria um pouco de ar e alguns minutos longe do barulho, visto que poucas horas antes eu havia sofrido uma crise de enxaqueca violenta – o que me fez fazer compras de óculos escuros.

Chovia aos cântaros em São Paulo. Parei num canto coberto, na porta da loja e acendi um cigarro, deixando meu cérebro descansar um pouco da multidão de pessoas do mercado. E, aos poucos, minha mente decidiu ir um pouco mais longe – algo que acontece sempre que eu fico mais de dois minutos sozinho.

Comecei a pensar a respeito da ceia de Ano Novo, no que eu espero para o próximo ano, quais as minhas resoluções e desejos para 2013. Pensei sobre meus planos, sonhos e expectativas, sobre como eu gostaria de estar dentro de um ano, sobre o velho com cara de bêbado que estava parado ao meu lado olhando fixamente para mim.

Sim. Havia um velho com cara de bêbado parado exatamente ao meu lado, olhando exatamente para mim. Aproveitando que estava de óculos escuros, olhei para ele sem mover a cabeça (o que fez a enxaqueca ranger dentro de mim). Carregava uma sacola do mercado que continha uma garrafa – que não devia ser de Fanta Laranja ou de água – e usava uma camisa azul de algum time de várzea (com aqueles nomes que somente times de várzea possuem, tipo Associação Esportiva Jardim Roberto ou Bar Ferreira Futebol Clube).

Decidi ignorá-lo. Tudo o que eu não queria era um maluco cutucando minha enxaqueca. Assim, novamente aproveitando meus óculos escuros, fingi que era cego e que nem havia percebido sua presença ali.

Fiquei imóvel, alheio a tudo. Na verdade, eu usei totalmente o pinball wizard mode: on e decidi que além de cego, eu também era surdo e mudo também. Para mim, a mensagem que eu passava ao sujeito era clara: se quiser falar comigo, arrume uma máquina de fliperama.

- UTIDI!

Quase enfartei quando o velho gritou do meu lado. E o problema é que, como não tenho muita experiência em enfartos, eu acabei demonstrando meu susto (pulando e quase jogando o cigarro para o alto). E assim terminaram meus planos de ignorar o velho.

Imediatamente, meus neurônios começaram a celebrar a presença de um maluco ao meu lado da sua forma tradicional: todos pararam o que estavam fazendo e correram para o meio do cérebro, entoando Can I Play With Madness, do Iron Maiden, e dançando.

Tentei ignorar a música que vinha de dentro da minha cabeça e me concentrei no velho.

O que mais me incomodou foi ele ter falado comigo na língua dos jawas. Sim, os jawas gritam “Utidi” nos filmes de Star Wars. Eu sei isso, e qualquer pessoa que, como eu, assistiu à Trilogia Clássica dezenas de vezes, sabe disso.

Enquanto meus neurônios ainda celebravam, eu fui obrigado a estabelecer contato com aquela forma de vida – mesmo porque o sujeito continuava parado ao meu lado, esperando por uma resposta.

- Perdão?

- UTIDI!

Can I play with madness? The prophet stared at his crystal ball! Can I play with madness? There's no vision there at all!”, meus neurônios responderam, enquanto eu considerei um pouco as opções.

Veja bem, eu tenho 1.60m. Se eu estivesse de capuz, me tornaria praticamente um jawa e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim. Além de baixinho, eu sou gordo. Ou seja, caso estivesse com uma roupa azul e branca, me tornaria uma espécie de R2-D2 do 3º Mundo, e entenderia perfeitamente alguém gritar Utidi para mim.

Mas não era o caso. Eu estava sem capuz e com uma camiseta preta dos Beatles. Não fazia sentido.

- Desculpe, mas...

- UTIDI!

(Can I play with madness? The prophet looked and he laughed at me! Can I play with madness? He said you're blind, too blind to see!”)

Definitivamente, era um jawa. Lá estava eu, conversando com um jawa perdido na porta do Walmart da Avenida Jabaquara (que, agora estou pensando, deve ficar nas imediações de Tatooine). Não era uma situação das mais confortáveis, mas admito que poderia ser pior. Poderia ser um membro do Povo de Areia.

Contudo, isso não tornava minha vida mais fácil. Afinal, tudo o que eu falo na língua dos jawas é “utidi”, que eu nem sei ao certo o que significa. E o jawa com cara de bêbado parecia ansioso por uma resposta

Assim, decidi usar o único truque que comprovadamente funciona em todos os cantos do universo. Cavaleiros Jedi, vulcanos e os tripulantes da Galactica sempre se utilizam deste macete com sucesso. O velho e bom truque do “sorri e concorda”.

Olhei para o velho e sorri para ele.

- Sim. Utidi.

- UTIDI!

- Isso aí. Utidi.

O velho pensou um pouco, sorriu para mim e foi embora, ignorando a chuva. Eu terminei de fumar, enquanto meus neurônios terminavam sua canção e voltaram aos seus afazeres comuns. E, quando tudo parecia terminado, apaguei o cigarro e olhei para cima, em direção às nuvens negras.

- Vocês não desistem nunca, certo?

Tudo o que eu ouvi foram risinhos abafados vindo por trás das nuvens. Olhei ao redor, para as outras pessoas, e ninguém havia escutado nada, por causa da chuva. Somente eu. E eu sabia o que aqueles risinhos significavam.

Traduzindo em palavras, seria algo como um “O nosso 2013 promete, Rob Gordon”.

Ô fase.




3 comentários:

Elise Garcia disse...

Eu não devia dizer isso, mas ainda bem que você é um para-raio de maluco. A vida fica muito mais divertida lendo suas desventuras - que dá até pra dizer que são em série...

Adriano disse...

Os jawas que eu conheço falam UDINI.

Michele disse...

mas os do Rob falam UTIDI. deixa ele =P