4 de abril de 2010

Cinema Vídeo Paradiso

Notícias ruins sempre chegam em horários estranhos. Normalmente são telefonemas no meio da madrugada, com alguém do outro lado da linha, ainda no hospital, dizendo que “só queria avisar”. E aí você custa a dormir de novo. Isso porque às vezes, é preciso colocar a primeira roupa que você encontra e correr para o hospital; mas, em outras, não há o que fazer. Você apenas se senta na cama e tenta absorver o que acabou de ouvir, pensando em como encaixar um velório e um enterro no dia seguinte.

E isso pode acontecer em qualquer dia da semana. Quando eu era moleque, brincava que existia um complô da revista Manchete para que as celebridades morressem no final de semana e, assim, a revista da editora Bloch (que era lançada às quartas-feiras), poderia furar a Veja. Passei muitas noites em botecos da cidade tomando cerveja e contando, a pedido dos meus amigos, minha teoria de que a revista Manchete estava por trás das mortes de Ayrton Senna, dos Mamonas Assassinas e até mesmo da Lady Di.

Mas claro que isso era apenas palhaçada minha. Noticias ruins não têm dia certo. Aliás, muito do caráter ruim delas vem de que elas costumam chegar quando menos se espera. Foi o que aconteceu ontem, quando recebi no celular, na parte da manhã, uma mensagem de texto escrita pelo meu irmão.

“A Mystic Vídeo fechou”

Evidentemente que estamos falando de algo que passa longe de uma morte na família.

Afinal, a Mystic Vídeo era apenas uma locadora de filmes que freqüentei na minha adolescência. Teoricamente, nada mais que isso.

Mas boa parte da minha história passa por dento desta locadora, que estava ali há anos, escondida no meio dos prédios, em Moema. Aliás, é seguro dizer que muito do que eu sou hoje teve influência direta dos VHS que eu loquei ali ao longo dos anos 90.

Eu sempre fui apaixonado por cinema. Sempre. Desde criança, quando descobri A Dança dos Vampiros numa madrugada, na Globo, com cerca de 6 anos de idade. Provavelmente eu já gostava antes disso, mas não me lembro com exatidão.

Daí, guiado pelo meu pai, comecei a assistir filmes obrigatórios para um menino, como Star Wars (me orgulho de ter visto O Retorno de Jedi num cinema decadente em Serra Negra) e Superman.

E foi também graças ao meu pai que comecei a caçar coisas mais clássicas, das quais ainda tenho um carinho enorme, como Fugindo do Inferno, Sete Homens e um Destino e 2001 – Uma Odisséia no Espaço (que eu assistia maravilhado, mesmo sem entender direito).

Assim, mesmo criança, eu era reconhecido pelos meus amigos como o especialista em cinema da turma. Passava o tempo todo lendo os antigos Guia de Vídeo, da Editora Abril. Assistia a filmes atrás de filmes, e procurava, depois, ler sobre eles.

Mas minha paixão por cinema, como toda paixão que acontece na infância, foi platônica. Isso, até os anos 90, quando ela desabrochou e virou amor de verdade. Foi aí que eu comecei a gosta de verdade, identificando atores, reconhecendo nomes de diretores, buscando filmes que a televisão não exibiria nem em sonho.

E muito disso aconteceu ali, nos corredores apertados da Mystic.

Não foi a primeira locadora da qual fui sócio. Existiram outras antes. Na verdade, eu era sócio de todas as locadoras do bairro. Assim que uma locadora abria perto de casa, eu ia investigar seu acervo, em busca de clássicos. Em uma delas, por exemplo, me associei apenas porque era a única perto de casa com Taxi Driver, Touro Indomável e Era uma Vez no Oeste no acervo.

E a Mystic, sejamos sinceros, não tinha de especial em seu acervo. Não era ruim, mas não tinha nada de muito especial. Na verdade, enquanto escrevo isso, me lembro de que o que me motivou a me tornar sócio era o fato de que eles possuíam três ou quatro VHS com episódios originais do Monty Python Flying Circus; eu tinha assistido apenas os longas-metragens.

Assim, me tornei sócio e comecei a freqüentá-la. Claro que às vezes eu atravessava o bairro atrás de um filme específico, mas quando eu queria apenas alugar um filme mais fácil de ser encontrado, eu ia até a Mystic.

E, por diversos motivos comecei a virar frequentador assíduo. Pouco tempo depois, ela mudou de dono, e eu continuei cliente.

Porém, eu era um cliente diferente. Enquanto a maioria dos clientes ia até lá de sexta e sábado, procurando os grandes lançamentos, eu ia todos os dias da semana, atrás dos filmes de catálogo. Lançamentos – a não ser um ou outro específico – não me interessavam. Eu queria ver os filmes cuja sinopse e elenco sabia de cor, de tanto ler a respeito deles; queria ver os filmes que marcaram a história do cinema. Eu era como um garoto de 14 anos que entrava numa loja de CD e pedia por Beatles e Rolling Stones.

E justamente por isso eu era bem atendido na loja. Porque seus proprietários já me conheciam e sabiam como eu gostava de ser tratado: em silêncio. A primeira vez que entrei numa Blockbuster quase dei um soco no atendente, quando ele veio me avisar que o “novo Van Damme” tinha chegado.

Na Mystic, não. Eu ficava quase uma hora lá dentro, lendo sinopses, caçando filmes, revirando todas as prateleiras. Algum outro cliente poderia achar que eu estava indeciso, mas, na verdade, eu estava estudando – talvez nem eu mesmo soubesse que estava fazendo isso. Só depois de, no mínimo, meia hora, eu ia até o balcão com o título que eu havia escolhido.

E isso, por anos a fio. Em determinados momentos, eu ia todos os dias e não saía de lá sem um filme. De qualquer gênero, de qualquer época, de qualquer país. Foi lá que conheci alguns dos meus filmes preferidos; foi graças a Mystic que assisti a filmes cujos diálogos eu sei de cor e salteado. Certamente não foi graças a ela que hoje eu trabalho com cinema e vídeo, mas os seus VHS empoeirados certamente contribuíram para isso.


Aos poucos, os proprietários e atendentes perceberam que aquele meu autismo deveria servir para alguma coisa. Assim, não era difícil eu entrar lá num final de semana e ser convocado para ajudar outro cliente a escolher um filme. De repente, minha opinião passou a contar mais que a dos atendentes da locadora. E nunca fiz isso de má vontade, ou pedindo algo em troca. Fazia por prazer. Talvez minha primeira crítica de cinema não tenha sido escrita, mas falada, em alguma tarde dentro da Mystic.

Contudo, o tempo foi passando e eu comecei a procurar coisas que o acervo da Mystic não tinha. Cinematograficamente falando, eu evoluí, e ela não. E nem era o papel dela me acompanhar nisso. Seria o mesmo que você querer que a professora que o alfabetizou continuasse dando aula para você até o colegial. Comecei a querer ver coisas que a Mystic não possuía: Kurosawa, Fellini, Romero etc. E desenvolvi outros gostos e hobbies também. Aí, em 2000, veio o DVD e minha febre em comprar filmes, e a pequena locadora de Moema ficou, definitivamente, para trás na minha rotina.

Por outro lado, ela nunca ficou para trás na minha vida. Muitas vezes em que eu ia visitar meus pais, gostava de passar na calçada da Mystic e vê-la ali, com as luzes acesas e os posters decorando as janelas.

Era um pedaço inteiro da minha vida e que, agora, se foi. Agora, aqueles corredores pelos quais caminhei tantas vezes, escolhendo como eu iria sonhar na frente da televisão ou que iria aprender naquele dia, estão desertos, provavelmente ainda cercados de prateleiras vazias e com o piso empoeirado, aguardando alguém alugar o imóvel e iniciar outro negócio ali, e atender outros clientes.

E agora ela fechou suas portas, para sempre. Era apenas mais uma locadora de bairro, mas não posso negar que me sinto um pouco órfão.

Afinal, estamos falando da locadora que me possibilitou assistir aos três O Poderoso Chefão pela primeira vez. E, na história da minha vida, isso está longe de ser pouca coisa.

Mystic Vídeo: descanse em paz. E obrigado por tudo.


Alfredo: Vivendo aqui todos os dias, você acha que este lugar é o centro do mundo. Você acredita que nada irá mudar. Então, você vai embora, por um ano ou dois. Quando você retorna, tudo mudou. O que você veio procurar não está aqui. O que era seu, se foi. Você precisa se afastar por muito tempo, por muitos anos, antes que você possa retornar e encontrar sua gente e a terra que você nasceu. Mas não agora. Agora é impossível. Neste momento, você é mais cego que eu.

Salvatore: Quem disse isso? Gary Cooper? James Stewart? Henry Fonda?

Alfredo: Não, Toto. Nenhum deles disse isso. Desta vez, sou eu que estou falando. A vida não é como nos filmes. A vida... É muito mais difícil.

14 comentários:

Bia disse...

Serra Negra? No interior de SP? Moro do lado.

rbns disse...

Sim. Bons tempos.

Nunca fui sócio da Mystic, mas vivia lá dentro. Peguei muito filme lá na sua conta, a maioria assistimos juntos (com o Léo). E de noite as reuniões do nosso clã sempre começavam por perto daquela calçada.

O tempo é implacável.

Flores do Aslfato disse...

Estou orfã da minha locadora também. Fechou faz umas duas semanas. Sinto falta dos VHS.

=(

Natalia Máximo disse...

Aaah, então deve ser por isso que você tava desaparecido da minha timeline nesse fim de semana. Muito justo, sr. Gordon.

Ainda em tempo, descanse em paz, Celfat, a locadora do meu bairro, que fechou no começo desse ano. Foi triste ter que consolar meu amigo (filho do dono da locadora) que, sem dúvidas, aprendeu muito mais sobre cinema ali do que eu.

Ana disse...

Eu frequentei essa locadora nos anos 90 e lembro de ter alugado The Wall lá. O_o
Não era a minha locadora oficial e sim a do eu marido, namorado na época.
Minha mãe mora no mesmo lugar faz 30 anos e é punk quando a paisagem e os lugares que nos trás tantas lembranças fecham. Ainda mais quando são lugares que de alguma forma ajudaram a "formar" quem nós somos hoje.

Alexandre Inagaki disse...

Belo tributo. Eu, que fui sócio da Hobby Vídeo, e anos depois vim a ser atendente e depois gerente de uma loja da Blockbuster, sinto falta dos tempos em que fuçava títulos novos por entre prateleiras de fitas VHS.

Dragus disse...

Descanse em paz.

Essa durou muito... Nenhuma das locadoras a qual fiz parte durou muito.

A cultura carioca enjoa fácil de locadoras. =/

Mari Hauer disse...

Eu tenho boas lembranças de uma locadora de Porto Alegre. Era pequenininha, mas tinham todos os filmes que eu nunca nem sonhei em assistir. Argentinos (adoro alguns filmes argentinos), europeus não-franceses (não sou mto fã do cinema francês, com poucas exceções), iranianos e aqueles super antigos. Quase não tinha lançamentos... Eu ia pra lá pra fugir dos meus problemas e tomar o melhor capuccino que eu já tomei na vida... Tinha um café no fundo da locadora (ou uma locadora no fundo do café, nunca soube direito!) e eu ficava lá horas...
As funcionárias viraram amigas e já sabiam mais ou menos o meu gosto e me ajudavam a não pegar duas vezes o mesmo filme... Elas já sabiam que eu tinha problemas sérios pra nomes de filme e sempre acontecia de eu pegar filmes repetidos sem querer...
Também rendeu histórias engraçadas... Foi lá que uma vez eu conheci um moço super interessante e eu estava com os meus trapos, do tipo: uma calça com listras verticais e uma blusa com listras horizontais. Ele parou para falar comigo quando eu estava com um DVDs na mão, falando sozinha...
Bom, eu não lembro o nome de lá... Mas ainda acredito que nada mudou, mesmo sabendo que nada deve estar igual. Nem eu, nem as ruas, nem a vizinhança daquele lugar... mas acredito que tudo dura o tempo suficiente e ocupa espaço enquanto ele existir. Aí, algumas coisas passam, outras mudam e quando nos damos conta, está tudo diferente... Mesmo quando insistimos em fazer tudo sempre igual.
Linda a citação de Cinema Paradiso no final.

Irmão do Rob disse...

Foi nessa locadora que eu (o Irmão do Rob) junto com o já lendário, Pai do Rob, assistimos vários filmes de arte ( O Homem da Linha, começou e terminou sem entendermos nada) ou aqueles terrores trash....

Bel Lucyk disse...

Rob, a minha Mystic foi a Videostar, uma locadora que tinha em frente a casa dos meus avós. Foi lá que aluguei filmes inesquecíveis... e foi lá que minha mãe iniciou sua coleção de DVDs, quando a locadora decidiu fechar e colocou vários clássicos a venda. E foi lá também que aluguei Cinema Paradiso, um dos filmes que mais adoro e que por coincidência, foi um dos vários filmes que vi nesse feriadão.
Adorei o texto, amo o filme e imagino o que a Mystic representa pra vcs.
=)

marcelo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=wEFugVbzsSo

todos devem ver

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Nunca tive nada parecido com nenhuma locadora... Bonita homenagem ^^

Lua Durand disse...

São tantas lembranças construidas há tempos atrás, que ficam agora guardadas não?
Dialogo impagavel de Cinema Paradiso.
=)

Otavio Oliveira disse...

esse é o tipo de post que, se o blog fosse pago, valeria cada centavo.
velho, esse menino aí do post que decorava até a posição das capas das fitas nas prateleiras sou eu tb.