1 de janeiro de 2010

Réveillôn-Fase

De todas as memórias que tenho da infância, uma das mais antigas está ligada ao réveillon. Eu devia ter uns quatro anos de idade, estávamos na casa de uma tia, família inteira reunida. E me lembro da minha mãe chegando perto de mim e avisando que logo, logo o tal do Ano Novo iria nascer.

Eu fiquei todo empolgado, e, dentro da minha cabeça, o Ano Novo seria uma espécie de nuvem colorida que passaria cobrindo tudo, com cores mais brilhantes e vivas. Sabe, como num desenho animado? Fiquei louco para ver aquilo acontecer. Minutos depois, minha mãe me pegou pelo queixo e me deu um beijo, desejando feliz ano novo. Quando eu descobri que já era o ano seguinte e que eu não tinha visto nuvem nenhuma, fiquei muito decepcionado.

Este foi o primeiro réveillon que me lembro, mas mal sabia eu que outros, mais catastróficos ainda, estavam pela frente.

Na verdade, não tenho muito do que reclamar da festa de Ano Novo. As minhas sempre foram tranqüilas, normalmente com família, quase no mesmo clima do natal. Mas, algumas vezes, fui viajar com amigos.

E uma delas foi inesquecível. No pior sentido.

Eu devia ter algo entre 18 e 20 anos e fomos passar o ano novo na casa do avô de um amigo, em Peruíbe. Estávamos eu e meus dois habituais companheiros de bandidagem – ambos já comentaram aqui no blog, mas como os dois são pais de família hoje em dia, é melhor manter o anonimato –, mais a família de um deles.

Antes de continuarmos, vale descrever meus dois amigos. Andávamos juntos na escola e no bairro. Ou seja, estávamos sempre para cima e para baixo, juntos, dividindo paixões (quadrinhos, bebida, cinema, bebida, música, bebida).

Um deles andava todo de preto e era cabeludo. Até aí, eu também. Mas eu era civilizado, enquanto esse meu amigo, cujo tamanho lembrava uma espécie de versão humana do Kilimanjaro, normalmente estava mastigando um pedaço de algum moleque menor que ele havia surrado. O outro era, ao menos no lay out, o mais normal dos três. Cabelos curtos, roupas normais, educado. Mas era uma das pessoas mais chatas, encrenqueiras, teimosas e azedas do reino de Deus.

Eu era... Bem, eu era eu.

Enfim, fomos para Peruíbe – a casa era do avô do Chato. No dia 31, a mãe do Chato, quase uma segunda mãe, começa a dar indícios de que não passaria a virada sem pular as sete ondas. Eu nunca entendi a lógica disso... Até entendo as ondas, mas nunca entendi porque sete. Ou seja, fiquei na minha.

O problema é que ela, festeira, queria que um dos moleques presentes fosse com ela. O Kilimanjaro, claro, jamais, faria isso. Além de ser difícil explicar os conceitos de “paz, amor e esperança” para uma pessoa que relaxava ouvindo Ratos de Porão, era capaz dele arrumar encrenca na praia, talvez com a própria Iemanjá, quando ela estivesse recolhendo as oferendas. E o Chato... Bem, um dos apelidos do Chato era Mumm-Ra, porque ele tinha uma espécie de alergia à luz solar: passava o dia no quarto lendo, e só saía de lá quando escurecia. Tudo bem, a virada é à noite, mas, convenhamos, quem consegue imaginar uma pessoa dessas pulando ondinhas?

Logo, sobrou para mim. A mãe do Chato, lá pelas 10 da noite, falou:

– Rob, você é o mais parecido comigo aqui. Vamos comigo.

– Hã...

– Vai ser divertido!

– Hã...

– Vamos!

– Hã... Ok.

Fomos.

O problema é que eu nunca havia pulado onda nenhuma em réveillon. Logo, eu não sabia que existe um código de etiqueta para isso. Para mim, o ano novo é uma festa na qual as pessoas precisam apenas usar branco, e olhe lá. Eu até uso, às vezes. Mas, no quesito pular ondas, eu era totalmente amador. Assim, coloquei minha camiseta branca, uma bermuda qualquer, meia, tênis e fui.

Sim, tênis e meia. E só percebi a cagada que tinha feito quando cheguei à praia e vi todo mundo descalço ou de chinelo. Ou seja, todas as pessoas fazendo contagem regressiva, bebendo champagne, e eu sentado na areia, tirando o tênis e a meia. Tive a impressão que todas as pessoas que passaram o ano novo em Peruíbe, naquele ano, começaram o ano dando muitas risadas. Todas elas, claro, da minha cara. Se eu estivesse de terno, talvez chamasse menos a atenção.

Enfim, tênis e meia na mão, o ano novo havia começado – de novo, a maldita nuvem colorida não deu as caras – hora de pular as ondas. E, claro, elegi a mãe do Chato como minha instrutora.

– O que eu faço? É só pular?

– Sim, vamos!

– Mas quando eu paro? Porque eu tenho 1.60, se eu pular muitas ondas, eu me afogo logo. Não vai dar pé para mim.

– São apenas sete, vamos!

– Ah, sete? Sete acho que dá.

– Mas não esquece que tem que sair do mar de costas!

– Como assim?

– Para deixar as coisas ruins no mar.

Fiquei pensando sobre isso. Todo mundo vem ao mar fazer oferendas para Iemanjá, com presentes, flores, e eu vou deixar logo as coisas ruins? Isso não vai dar certo. Mesmo assim, afastei os pensamentos da minha cabeça e, segurando meus tênis e minhas meias com força, coloquei os pés na água.

Ou melhor, tentei. Aparentemente, todas as pessoas da América Latina haviam combinado de pular as ondas naquela praia. Eram milhares de pessoas se espremendo e se empurrando para pular as ondas.

– Eu não posso vir aqui amanhã sozinho e pular as ondas quando estiver mais calmo?

– Não, Rob, tem que ser agora!

– Mesmo se eu pular umas dez amanhã, para compensar?

– Vamos!

Fui.

Dei uma cotovelada ali, um empurrão aqui e entrei no mar. No começo, me atrapalhei todo, porque uma gordinha roubou uma onda minha – me empurrando para isso – e fiquei tentando a passar uma rasteira nela. Já que eu já ia deixar as coisas ruins no mar, pensei em deixar a gordinha junto, tinha tanta gente ali que ninguém iria reparar. Mas resolvi me concentrar nas ondas, já estava com a água na altura da coxa.

– Eu pulei uma onda que dividiu logo embaixo de mim. Conta como uma ou como duas?

– Pule logo, Rob. Conta como uma e pule!

Pulei as sete. Estava com água na cintura – as pessoas normais, com água na altura dos joelhos.

– E agora?

– Agora vamos voltar até a areia, mas tem que ser de costas.

Comecei a andar de costas, deixando tudo de ruim no mar. Ou, ao menos, acho que deixei, porque não estava sentindo nada de diferente. Pelo menos, eu não havia deixado meus tênis no mar.

O problema é que tudo de ruim que eu havia deixado no mar não era nada em comparação a tudo que estava vindo na minha direção.

Imagine a cena: eu andando de costas, me esforçando para não cair no mar, e aquela turba vindo na minha direção, metade totalmente bêbada e cada um preocupado com as suas próprias sete ondas, e mais nada.

Assim, fui andando, com cuidado. Dava umas olhadas para trás e ia desviando dos saltadores. Lembro de procurar a gordinha nesse momento, para ver se eu podia atrapalhá-la de alguma forma, mas não a encontrei. Provavelmente, ela era tão coisa ruim que tinha ficado no mar mesmo.

Estava na metade do caminho quando meu corpo assumiu uma posição de defesa. Por reflexo, levantei os braços, me encolhi e gritei algo como “que porra é essa?”

Um negrão de cerca de quarenta anos, gordinho e de regata, que estava ali pulando as ondas na minha direção com a mulher e os filhos, sem querer (quer dizer, espero que tenha sido sem querer e que ele não tenha me visto) literalmente se encaixou em mim.

O termo é esse: se encaixou. Literalmente. Se o autor do Kama Sutra estivesse pulando ondas ali e visse aquilo, na mesma hora ele pensaria que “é melhor lançar uma edição ampliada do livro, o pessoal está ficando bastante criativo”. Sem sacanagem (quer dizer, com sacanagem): mais uns cinco segundos naquela posição e eu sairia da praia grávido.

– Porra, você me encoxou!

Para meu alívio, o negrão não estava excitado, mas constrangido.

– Pô, não vi você aí. Foi mal.

– Foi péssimo! O ano nem começou e eu já estou me fudendo? Literalmente?

– Porra, cara, mal aí.

– Tá, vai pular suas ondas.

E fui embora, mas não totalmente de costas. Fui andando meio de lado, para evitar novos incidentes sexuais. E a coisa não acabou: como eu estava molhado, não podia colocar o tênis e a meia. Pensei em procurar o negrão e me prostituir, soltando algo como “se eu te der um abraço, você me dá seus chinelos?”, mas seria baixo demais, até mesmo para mim.

Assim, comecei o ano encoxado e andando de volta para casa descalço, e aquele andar gracioso de um paulistano que não anda sem tênis nem para ir do quarto para a sala, pulando (e pisando em todas pedras e galhos de Peruíbe), ao som de “ai!”, “ai!”, “ai!”, “merda!”, “ai!”.

E não lembro se este ano, em particular, foi bom ou ruim. Mas, por via das dúvidas, nunca mais pulei ondas. Eu tenho uma mesinha em casa e coloco as coisas ruins lá mesmo, dentro da gaveta. Quando ela encher, vou para Santos numa madrugada e vou jogar a gaveta inteira no mar, é muito mais fácil.

17 comentários:

Gabriel Alex disse...

Haha, começar o ano se fudendo é foda em :p
Ano(s) Novo(s) em geral são uma catástrofe, e o pior e receber os votos sinceros de felicidades de alguém que nunca te viu na vida (na praia acontece muito isso).

Do mas, que você tenha um bom ano Rob. Com sinceridade (: rs

Lua Durand disse...

ai ai Rob! ô Fase em?
hehehhe
Ouvi dizer que o que se faz no primeiro dia do ano, é o que se vai fazer no ano inteiro! :X
hehehe
Bom eu nunca fui dessas coisinhas de ano-novo não, mas gosto de tomar o primeiro banho de mar do ano, na mesma praia que vou praticamente desde que nasci, ai pronto.
Bom, acho que sou o primeiro comentario do champ, do ano!
êêê!
Rob, te desejo um monte de coisas boas, e que 2010 seja melhor do que o ano que passou, e que venham mais e mais textos, nos champs... não vejo a hora do texto sobre a emoção de ser tio! :D
bom, feliz ano novo pra sua namorada, pra sua familia, e também pro Besta-Fera!
au revoir!

Lua Durand disse...

bah, não fui a primeira, passei um tempo digitando, chegou um na minha frente, hehehe, no problems.
tudo de bom Rob.
e to rindo até agora, com essa tua pulada de onda ai!

Lilian disse...

Primeira risada do ano! MUITO obrigada, Rob. Essas coisas só acontecem com vc, mesmo...
(Tou tentando parar de rir pra continuar.)
Então, não que eu seja grande entendedora dessas coisas, mas se não me engano, Iemanjá é divindade feminina. Se quiser corrigir depois... ;]

Beijos e feliz ano novo, sem negão e sem ondinhas, ok?

Pedro disse...

É Rob, tem gente que não dá sorte em viradas de ano na praia.

Passei aqui em Copacabana esse ano, primeira vez, pelo menos não fui de tenis, mas tinha uma boa galera de calça jeans e tenis... Não entendi eles...

Esse post mostra que o ano será bom para o Champ, hein.

Tudo de bom e que o Hepta venha.

Abraços.

Li disse...

Oi Rob! Faz tempo que não comento aqui e como promessa de ano novo resolvi ser uma leitora mais agradecida. Já passei por situações inusitadas assim mesmo, mas não tenho tanta certeza que no meio dessa muvuca toda esses 'encontros' entre corpos são despropositais ou não. Um beijo pra você! E um bom (ou mal) ano novo, mas que seja cheio de histórias!

Amanda Ullmann disse...

Quem em sã consciência não relacionaria "pular ondas" com "estar sem tênis"?
Já começar o ano rindo, ainda que da desgraça do nosso pobre blogueiro (malz aí, Rob) é sempre bom. Obrigada por dividir mais essa (divertida pra mim, fodida pra você) experiência. Feliz 2010 pra toda a família Championship Vinyl.

Varotto disse...

O engraçado é que entra ano sai ano, o pessoal continua pulando ondinha, vestindo branco pra isso, vermelho praquilo ou amarelo praquilo outro, o ano seguinte continua sendo a mesma merda, você não fica mais rico ou mais em paz por conta de nada disso, e mesmo assim ninguém faz a matemática de que isso não adianta porra nenhuma!

Ou quem diz que não pode ter estátua de pato em casa porque "empata" sua vida. E estátua de vaca, envaca? Ou de porco, emporcalha?

E o que dizer do cara que veste sempre a mesma cueca da sorte para assistir a seu time, só porque um dia o time ganhou enquanto ele usava aquele pedaço de pano poído?

Como diz a voz do povo, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano sempre terminava empatado.

Cordialmente,

O Chato

P.S.: "...a mãe do Chato, quase uma segunda manhã...". É isso mesmo?

O Chato ataca novamente.

Rob Gordon disse...

Lilian:

Vivendo e aprendendo. "A" Iemanjá, então. Corrigido! Valeu pela dica!

Beijos

ANDERSON PRATES disse...

Rob as risadas que eu não dei na virada do ano porque eram exatamente 12h20 eu ja tava roncando porque alguem nao quis ir comigo na avenida sete (erechim/rs) ver a queima de fogos entao so tomei champagne e blum dormir
mas voltando ao assunto eu ri agora com o seu post me imaginei nos diversos ano novo que passei frustamenteo
abraços querido

rbns disse...

E vc. lembra, nesta mesma viagem, quando voltamos bêbados de madrugada e, para não acordar ninguém, pulamos para dentro da casa, pelos arames e pisamos nas tartarugas sem querer?

Eu lembro do estado que ficaram esses seus tênis quando vc. caiu dentro de uma poça de lama pulando esta cerca.

Bons tempos. Feliz Ano Novo.

Rbns.

Nadia disse...

Assim... não rolou nada assim comigo... mas saindo de costas do mar depois de ouvir um "vai lá pular ondinhas pra ver se seu mau humor por causa da areia grudenta passa", ou algo muito parecido com isso, eu cai no mar, fui paquerada por um gordinho sem 3 dentes e, como choveu o dia todo, um carro pasou numa poça e jogou aágua da rua em mim. Mas não secompara a ser encoxado.

xD

May. disse...

Ah vai, não fala assim das ondinhas. É mó bom. Pode ser que não mude nada mesmo, que a única coisa que dê resultado é o Merthiolate depois no machucado causado pelos espinhos das flores, mas eu não consigo me revoltar. Eu sempre pulo errado, é sempre umas 11 ondinhas, porque quebra embaixo de mim, ou eu desequilibro e tal. Mas depois, o primeiro mergulho do ano, sempre compensa.

=)

Felipe Lima disse...

Melhores e mais engraçadas partes do post:
1 - "Já que eu já ia deixar as coisas ruins no mar, pensei em deixar a gordinha junto"
2 - A encaixada no negão.

Só vc para me fazer rir tanto assim.

leonardo disse...

Lembro quando chegamos e fomos comer a feijoada do vo loredano as 2 da madrugada, 1 cumbuca para cada.....e tambem teve um cara que ficou nervoso comigo achando que eu tinha ficado com a namorada dele enquanto o ornamento vinha de outro lugar....foi divertido.....

....kilimanjaro???"era tão sociável quanto um homem de neanderthal"....???

Kel Sodré disse...

hahahahahahahahahaha

Acho que você não se lembra desse ano por um motivo que Freud certamente explicaria. Dizem que o que você faz na virada do ano, você acaba fazendo o ano inteiro. Acho que você recalcou a imagem de você sendo encoxado um ano inteiro...

COLÉGIO TERRA MATER disse...

Sabe que eu não me lembro dessa passagem? Mas de qualquer forma me lembro muito bem desse trio massa que vcs formavam... bjs