18 de novembro de 2007

Desabafo

Einstein disse, certa vez, que Deus não joga dados. Eu acho que não apenas ele joga, como tem dados viciados. Ele só tira duplo seis, especialmente quando o adversário sou eu. O que prometia ser um feriado excelente, tornou-se um inferno pois, em questão de horas, percebi que minha dentista psycho-killer tem razão quando manda eu parar de fumar; briguei com a respectiva; e, completando com chave de ouro, fui assaltado.

Sim. Assaltado. Pela terceira vez na vida. O problema é que desta vez levaram meu ultra mega power celular que eu havia comprado poucos dias atrás. Estava na avenida Paulista, conversando com a Sra. Gordon, e um animal passou de bicicleta e arrancou da minha mão (dando uma porrada em mim no processo). Cansei. Resultado: fiquei sem celular e passei o dia de hoje assistindo aos dois primeiros Desejo de Matar e bolando maneiras de começar a eliminar trombadinhas pela rua.

Radicalismo? Pode ser. Vai passar com o tempo? Pode ser. Entretanto, no momento, me tornei totalmente extrema direita. Assumi minha opção pró-pena-de-morte e, na próxima eleição, voto no Maluf. E estou pensando seriamente em comprar o celular mais caro do mundo, pedir para implantarem uma bomba no aparelho e andar com ele na mão, na rua, com um detonador no bolso. Quando um trombadinha arrancar ele de mim, eu aciono aquela merda e vou fazer chover pedaços do moleque num raio de 10 metros. E, no mesmo dia, vou comprar outro celular e mandar instalarem outra bomba.

E, por favor, se estão pensando em comentar algo sobre direitos humanos dizendo que esses moleques não tiveram oportunidade na vida, façam isso em outro blog. Eles não tiveram oportunidades na vida e eu tive? Ok. Acontece que o Abílio Diniz teve mais oportunidades que eu na vida, e isso não me dá o direito de ir até a casa dele e roubar o carro do cara. Tenho consciência de que os mendigos que ficam na porta do Pão de Açúcar pedindo um trocado para comprar pinga realmente precisam de algo chamado “inclusão social”. Outro dia mesmo eu paguei um lanche no McDonald’s para uma mendiga, e quando o gerente veio reclamar que ela estava ali, eu respondi:

– Ela está comigo.

Agora, o moleque que enfiou a mão na minha cara, invadiu minha vida e arrancou algo que era meu como se eu fosse um idiota... Bem, nesse caso, inclusão social de cu é rola. Desculpem o termo, mas é verdade. O taxista que peguei na volta para casa tentou me acalmar, dizendo:

– Fique tranqüilo. Mais dia, menos dia, esse moleque morre numa quebrada por aí.

O que eu sentia na hora (e ainda estou sentindo) foi resumido na minha resposta:

– Não me importa. Para mim não basta ele morrer. Eu quero assistir ele morrendo.

Estou revoltado? Talvez. Exagerando? Talvez. Mas lembre-se que não foi na SUA cara que enfiaram a mão, nem o SEU celular, que você comprou com o SEU salário, que pegaram.

Aliás, a coisa está tão feia que, logo após eu ser assaltado, tentei ligar para a respectiva de um orelhão e não consegui. Liguei, então, para minha mãe, e pedi para que ela telefonasse para a Sra. Gordon avisando. Quando minha mãe atendeu, eu, chorando, de ódio, de humilhação, de impotência, ainda tive que me identificar antes que ela desligasse na minha cara. Sim, porque se você liga chorando para a sua mãe, você tem que dizer seu nome. Caso contrário, ela irá desligar achando que é um trote-seqüestro. Daqui a pouco a coisa vai estar tão feia que vai ser necessário eu confirmar meu CPF com a minha mãe antes de pedir ajuda.

E ninguém faz nada.

E não estou falando da polícia, ou da justiça, apenas. Nem dos políticos. Você, que lê esse blog, não faz nada também. E eu não te culpo, porque eu também não faço nada. Isso se tornou parte da nossa cultura. Quando uma pessoa é assaltada, encaramos aquilo como se ela tivesse ficado doente. É algo que pode acontecer com qualquer um, mas, “paciência, a vida é assim mesmo”.

E, enquanto Nova York praticamente reduziu a sua criminalidade a zero em dez anos, graças ao programa Tolerância Zero, com o qual a população resolveu combater o crime, aqui no Brasil se discute se o Corinthians roubou ou não o título brasileiro de 2005, ou se alguém caiu na merda da Dança do Gelo essa semana. E um cara como o Luciano Huck é assaltado, reclama publicamente e é tachado de burguês, como se o fato dele ter dinheiro fizesse com que ele merecesse ser assaltado. Não, eu não gosto dele, mas não acho que ele mereça sofrer uma violência dessas. E um filme como Tropa de Elite é acusado de ser facista, simplesmente porque mostra o ponto de vista da polícia (em outras palavras: não romantiza a vida do bandido) pelos mesmos alunos da USP que invadem a reitoria e ficam queimando mesas para não ter aula, atrapalhando a vida de quem quer estudar;

Está tudo errado. O conceito está errado.

Não estou pedindo um justiceiro eliminando bandidos na rua de madrugada, ou um super-herói combatendo o crime. Também não estou pedindo para que alguém comece uma guerrilha urbana. Não estou pedindo para que me dêem um celular novo, eu trabalho e faço questão de comprar com o meu dinheiro.

Aliás, quer saber? Eu não estou pedindo por nada.

Estou apenas desabafando, porque é isso que me resta fazer nesse país. Desabafar. E você nem precisa se preocupar com meu desabafo. Daqui a quatro meses tem carnaval, e aí, todos os problemas deixam do país deixam de existir e tudo fica lindo e maravilhoso. E a Globo vai falar da alegria do povo brasileiro, desse povo sofrido que arruma tempo para celebrar sua alegria e sua malandragem no sambódromo. E aí, ninguém lembra mais de Renan Calheiros, de CPMF, de apagão aéreo, nem de babacas como eu, que têm o celular arrancado das suas mãos na rua. O carnaval é o feriado que dá um control+alt+del no país e “conserta” tudo o que está errado.

Sinceramente? A humanidade não deu certo. Hoje eu vou ser mais específico: a humanidade realmente não deu certo. Já o Brasil deu errado, mesmo.

Aos habituais leitores, peço desculpas pelo tom do post. Provavelmente vocês entraram aqui esperando dar uma ou outra risada, mas hoje não rola. Estou revoltado demais para isso. Mas, para não deixar vocês na mão, aviso que, na minha relação com a TIM, esse assalto teve o mesmo impacto que o assassinato do arquiduque Ferdinando em 1914. Ou seja, é guerra. Prometo que no próximo post conto tudo e faço o blog voltar à programação normal, comentando também o programa de rádio sobre o blog. Além disso, prometo que em alguns dias colocarei novos textos no Champ Review – não consegui fazer isso antes por causa do trabalho.

Isso, claro, se não roubarem meu computador.

21 comentários:

ianslater disse...

"O carnaval é o feriado que dá um control+alt+del no país e “conserta” tudo o que está errado."

Genial, cara, muito bom esse seu texto.

Electronic Music Freak disse...

Eu já fui assaltado mais de 5 vezes... heheheh... bem que eu queria matar todos os trombadinhas que existem no mundo q nem voce.. mas se eu fizer isso acabo no minimo em um manicomio...
Sussa.... a vida continua

MaxReinert disse...

....pior é que eu rí em alguns momentos...... :0
desculpe... principalmente no começo... mas depois, quando vc falou sobre ninguém fazer nada... me identifiquei completamente....

Estamos vivendo um espetáculo Beckettiano!... Tú tá indo por água abaixo.... todo mundo sabe, mas ninguém faz nada!!!

Braga disse...

é realmente uma porra, e ninguém realmente pode fazer alguma coisa, o Brasil se submeteu à isso, e como tu mesmo disse, já faz parte da cultura, e encaramos como mais uma coisa do cotidiano.

Se só o carnaval, que acontece todos os anos já faz a imprensa esquecer que estamos num país de 3º mundo, com pessoas passando fome, frio, sofrendo com o tráfico, imagina como vão ser as coisas na copa de 2014...

Johnny M. disse...

Gostei da idéia da mini-bomba no celular ativada por controle remoto. Excelente. Bom, eu nunca fui assaltado na vida. Mas imagino como vc deve estar se sentindo. Eu já desisti do Brasil. O pior do Brasil é o brasileiro e tenho dito.

Felipe disse...

Em primeiro lugar, é uma merda ser assaltado. Eu já fui 2 vezes. Mas nunca me levaram o celular. Minha mãe teve 3 celulares roubados, um foi na frente de nossa casa.

Em segundo lugar, a tese que "bandido bom é bandido morto" não funciona. Quer dizer, poderia funcionar se fôssemos colocar TODOS os bandidos nessa lista. O que sabemos que não acontece. É muito mais fácil o cara que roubou um mercado ser morto do que o filho da puta lá do congresso que desviou milhões.

Em terceiro lugar, o filme Tropa de Elite não mostra a visão da polícia. Ele mostra uma "realidade" do BOPE. E não é nada romântico em sua demostração. Esse filme é uma chinelada na classe "MÉRDIA" que só fode com esse país. Sim, não é o chinelão da vila que estraga o Brasil. É essa zona da nossa população que aspira ser rica, mas NUNCA conseguirá.

Em quinto lugar, não queira comparar uma sociedade como a Americana com a Brasileira. Por mais que eles tenham diversos problemas existe uma coisa chamada VALORES. Eles estão mais próximos dos europeus do que a gente. E quem já morou na Europa sabe, lá as pessoas se respeitam. Ou seja, medidas de segurança ou qualquer uma que beneficie o COLETIVO tem muito mais chances de dar certo.

Em sexto lugar, é óbvio que eventos como Copa do Mundo e Carnaval aliviam as coisas por aqui. Assim como uma simples "guerra" deixa as coisas mais tranquilas lá pelas bandas dos EUA. O que tu prefere?

Em sétimo lugar, muito bom blog.

An@Lu disse...

normal essa revolta. normal querer matar todo mundo. já senti o mesmo. só quem nunca ficou desesperado sem carteira e celular no meio de um lugar desconhecido é que ainda consegue ter pena dos trombadinhas.

Arthurius Maximus disse...

Bem-vindo a realidade!
Para mim, o único "direito humano" a que ladrões e assassinos covardes deveriam ter, é o de morrerem em profunda agonia. Lenta e democraticamente.
O grande mal de nossa sociedade e "coitadonizar" os bandidos. "São vítimas de condições sociais precárias".
Se fosse assim, todo pobre era ladrão e rico era só "gente boa".
Porrada! Cadeia! E Tiro nos córnos! Isso resolve.

PS: Com todo o respeito, é claro.

J. disse...

Olha, eu concordo com vc. Assalto, roubo é errado e não existe situação social que justifique. É tanta violência que a gente perde o foco.

Devia era resolver o problema de quem rouba por fome. Isso é falta de oportunidade. De resto, do celular ao senado, não dá para justificar.

E é engraçado q o pessoal defende os "dois lados", mas... dependendo do lado é fascismo. Modernidades, enfim...


Adorei seu blog!

Tyler Bazz disse...

NUnca tive a sorte de ser assaltado... E quando penso no assunto, são várias coisas que passam pela cabeça..

Mas uma coisa é certa: tem MUITA coisa errada.

Luh disse...

Você se preocupou em estudar?
Você é competente?
Você ganha seu dinheiro honestamente?
Você tem vontade de trabalhar?
Você tem mais de 3 dentes na boca?
Você tem menos de 13 filhos?

Se respondeu "sim" a qualquer pergunta acima, lamento dizer que você nasceu no país errado. A República Federativa das Bananas não é o seu lugar.

"E um cara como o Luciano Huck é assaltado, reclama publicamente e é tachado de burguês, como se o fato dele ter dinheiro fizesse com que ele merecesse ser assaltado."

Mas é verdade. "Ah, você é competente e tem dinheiro sobrando, não vai fazer falta se eu enfiar uma arma na tua cara e pegar tudo que você conquistou com o suor do seu rosto. Perdeu, preibói"

Como eu disse no review do tropa de elite: tem que ser muito ingênuo pra achar que o taficante vai descer do morro pra estudar e trabalhar honestamente se alguém der essa chance pra ele.

Pra mim, o único direito que um filho da puta desses tem é o direito de levar um tiro na boca.

(ps: eu já tinha pensado na idéia da bomba de controle remoto, mas na carteira e no volante do carro. Nesse último caso, misturaria pregos ao explosivo, pro filho da puta ficar bem "estragado")

CapinaremosRH@gmail.com (Zanfa) disse...

Compartilho com a sua opinião.

Se não resolve com programas sociais, tem que partir pro Nascimento Style da coisa.

=/

Gilgomex™ disse...

eu nunca fui assaltado...

mas já entraram na minha casa enquanto eu não estava... acho que a polícia chama isso de furto.

roubaram um celular velho e ... uma caixa de Maionese Quero Longa Vida!!!

eu ía fazer um post sobre isso.
mas depois que li seu post, vi que ficaria muito próximo disso... fora a porrada na cara, claro.

mas tive que botar trancas de ferro na porta agora... que saco!

o moleque (provavelmente um adulto não riria roubar uma caixa de maionese, com meu computador, cds, a tv e mais um monte de coisa dando sopa) tá por aí comendo minha maionese... e eu com trancas nas portas... saco!!!

PS: direitos humanos? e nós?

Mau disse...

Texto bom demais para estar apenas num blog, publique-o, Rob.

Ale disse...

É Robbs... concordo plenamente com tudo o que vc escreveu... e com o que a maioria dos que comentaram também.
É triste ver como esse país não vai pra frente, e por culpa do povo, que tem seus valores deturpados.
Você citou o "Desejo de Matar", mas acho que o "Um dia de fúria" seria o filme ideal.

Anônimo disse...

Realmente esse pessoal de Direitos Humanos é ridículo com esse papo de "não tiveram oportunidades na vida".

Fico imaginando quanto tempo vai levar para perceberem que o homem NÃO é produto do meio.

Thais disse...

entendo sua revolta...

fodaaaaa

Larissa Bohnenberger disse...

Não diga isto, Rob!
Mesmo irritado você ainda consegue arrancar algumas gargalhadas. Rsss!
Mas falando sério agora, entendo perfeitamente a sua revolta. Agora pelo menos no seu caso foi um trombadinha. Eu tive que lidar a pouco tempo atrás com roubo dentro do meu ambiente de trabalho. Uma COLEGA estava rapelando as carteiras dos demais funcionários. A humanidade não deu certo, tenho certeza disso.

Júlio disse...

Cara, eu penso igual a ti. Uma vez andando na rua o guri meteu a mão na cabeça da minha ex roubando o boné Nike dela(velho) sai correndo atrás e o guri jogou o bone. Na volta tinha mais 3 que falaram algo "se a gente fosse racista você ia apanhar agora" só não voei em todos (sim, raiva me dominou) porque a mulher tinha ficado lá atrás sozinha. Eu odeio esse discurso e tapado que não compra coisa boa com medo de ser assaltado, vsf! Eu posso, eu compro é meu, eu uso! Não vamos ficar com medo de comprar coisa boa por causa de ladrõeszinhos fdp, pra mim também fuzilava tudo, sempre.

Pena que esses são os menores. Mas ia adorar fuzilar um politico. Tropa de Elite só fez confirmar o pensamento de quemfuma maconha ilegalmente tem mais que se fuder mesmo. Contanto que não me foda.

Tati BMB disse...

Me desculpe, mas eu faço sim. Atendi na FEBEM durante quatro anos, atendo pessoas em situação de risco social num hospital psiquiátrico agora e, acredite em mim, muita gente poderia ter uma vida diferente se nós exercêssemos um pouco mais a nossa cidadania. Não estou falando de esmolas nem de ongs, mas de combater o verdadeiro crime, que está acabando com o país. Existe na câmara há anos um projeto de lei para dar prioridade na justiça ao crime organizado, e acabar com a corrupção, colocando casos como os das operações da polícia federal para serem julgados na frente de roubo de galinha e briga de casal, que não foi votado por falta de interesse político e pressão da população. Quer melhorar a violencia? Vamos começar impedindo de passar o projeto de lei do deputado páulo maluf, que pune funcionários do ministério público que fizerem denúncias de corrupção "com má-fé". Você sabia que toda a rede pública de saúde está sendo privatizada? Agora o estado paga empresas privadas para atenderem (e lucrarem) em postos de saúde, ps, etc. O mesmo que o Serra quis fazer com as universidades públicas no ano passado. Se a operação mãos limpas deu certo na itália e a tolerancia zero em nova york, é porque não atingirm apenas peixez pequenos.

Kel Sodre disse...

Uns cinco anos atrás arrombaram a porta da minha casa e fizeram uma limpeza geral em tudo o que a gente tinha e o que não tinha. Levaram computador, pulseira de ouro (a única coisa de ouro que tinha!) que tinha sido da minha avó, máquina fotográfica. Mas o pior de tudo foi o sentimento de invasão que veio quando vi a casa revirada. Meu armário inteiro jogado no chão, meus cremes no banheiro revirados, até na cozinha os caras mexeram. Senti uma revolta sem tamanho e um sentimento horrível de impotência.
Com esse post você conseguiu colocar em palavras mais ou menos tudo que passava pela minha cabeça naquela época, e que eu mesma não tinha conseguido verbalizar.
E entendo perfeitamente como você se sentiu na ocasião. Realmente, devo te dar razão e reiterar que a humanidade, olhando por esse ângulo, não deu certo mesmo.