22 de setembro de 2020

A Esfinge e o Espaço-Tempo

 

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

O quê? Você não sabia que nós mudamos para um apartamento?

Bem, claro que você não sabia, já que minha rotina deixou de aparecer aqui nesse blog há alguns anos. Mas, enfim, ao invés de explicar as dezenas de motivos que me fizeram desaparecer daqui, creio que o melhor a fazer é simplesmente voltar a escrever, certo? E isso nos leva de volta para a frase que abre esse texto:

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo.

Para isso, tivemos que ir até a imobiliária, paramentados com máscara, álcool em gel... Oi? Não, eu realmente não quero explicar porque parei de escrever aqui. Desculpa, como? Não, o blog é meu, eu não quero ter que ficar dando explicação. Combinado? Vamos continuar?

Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

Certo. É a última vez que vou tocar nesse assunto. Tem vários motivos para eu ter parado de escrever aqui, e um deles é falta de tempo, porque eu tenho escrito muitas coisas para trabalho, então quando consigo um momento de folga, prefiro descansar fazendo outras coisas. Mas agora eu tenho uma história legal para contar e estou tentando colocar ela aqui. Então, pela última vez: alguém tem algo mais para falar?

Não?

Ninguém?

Posso contar a história?

Ótimo. Então vamos lá.

Aconteceu um dia desses, quando fomos buscar a chave do apartamento novo. Chegamos na imobiliária por volta das 17 horas. É uma imobiliária pequena, então é apenas uma casa com um plaquinha na frente, sem estacionamento ou aquele entra-e-sai de clientes, motoboys e corretores. Toquei a campainha e encharquei a mão com álcool em gel.

A recepcionista abriu a porta e eu entrei. Avisei que estava ali para pegar uma chave e dei o endereço do apartamento. Ela começou a procurar dentro das gavetas. Tudo parecia normal até ela erguer os olhos na minha direção e decidir que seria bacana estraçalhar com as leis da Física.

“Se você tivesse chegado cinco minutos atrás, não encontraria ninguém aqui.”

Certo. O que essa informação faz você pensar? Que cinco minutos antes não havia ninguém na imobiliária, certo? Bem, foi isso mesmo que eu pensei. Aliás, eu não só pensei como falei em voz alta.

“Ah, então, você acabou de chegar aqui?”

“Não. Eu quis dizer que já estava indo embora”, ela respondeu, ainda procurando pela chave.

Fiquei em silêncio pensando no que ela havia dito. Repassei a frase inteira na minha cabeça, palavra por palavra, tentando encontrar o sentido daquilo e falhei miseravelmente.

“Olha”, eu disse, “mas eu só não encontraria ninguém aqui se você não estivesse aqui cinco minutos atrás”.

“Sim, você deu sorte”.

“Mas meu ponto é que você estava aqui cinco minutos atrás, certo?”

“Sim.”

“Então você concorda”, eu disse, tentando parecer o mais claro possível, “que se eu tivesse chegado cinco minutos atrás, eu teria encontrado você aqui?”

“Mas eu já estava me preparando para ir embora.”

Tentei respirar fundo, mas a máscara me atrapalhou um pouco. Paciência, faz parte. Apoiei as mãos no balcão, fazendo uma nota mental de passar álcool em gel depois, e tentei me fazer claro.

“Olha, o que importa para a gente é que você estava aqui cinco minutos atrás. Você estava neste espaço neste tempo determinado. Se eu aparecesse neste mesmo espaço ao mesmo tempo, eu teria encontrado você”.

“Mas eu iria embora daqui a cinco minutos. Você deu sorte”.

“ISSO NÃO É SORTE! Desculpe, às vezes eu grito mas é porque a máscara me atrapalha. Juro. Então, isso não é sorte. É Física. O tempo é uma seta. Você não consegue mexer o passado. O fato de você decidir que vai embora daqui a cinco minutos não significa que você não estava mais aqui cinco minutos atrás.”

“É que tem dias que a gente fecha mais cedo”.

Foi quando eu comecei a perceber que o tempo naquela imobiliária não funciona direito. Todo o espaço-tempo ali é distorcido por causa das atração gravitacional de um buraco negro, cuja singularidade é a vontade infinita da recepcionista de ir embora mais cedo.

Aparentemente, sua vontade de ir embora do trabalho causa um rombo no espaço-tempo: a sua vontade de ir embora do trabalho é tão grande que faz com que ela nunca esteja realmente no trabalho. É quase a Teoria da Relatividade aplicada a funcionários públicos. Ou isso, ou eu estava em alguma espécie de spin-off de Dark e vai saber se aquela recepcionista não é minha filha que ainda não foi concebida.

Eu tomei fôlego e me preparei para pedir a ela um papel e uma caneta para traçar uma seta e explicar como o tempo funciona, mas ela me interrompeu.

“Olha, a chave não está aqui. Está com o porteiro do prédio.”

E isso era verdade. Quer dizer, eu sabia que o porteiro tinha uma chave, mas não fazia ideia se a imobiliária estava com outra cópia. Além disso, eu precisava assinar o recibo de entrega das chaves, então eu teria que ir para a imobiliária de qualquer maneira. Mas mesmo se eu tivesse perdido a viagem, sem pegar chave nem ter nada para assinar, a mudança de assunto foi mais que bem vinda.

“Certo. Então eu pego com ele”.

“Você pode assinar o recibo? Que diz que a chave foi entregue?”

“Claro”.

Ela colocou dois papeis na minha frente. Na verdade, eram duas cópias do mesmo papel. Tudo o que eu precisava fazer era assinar e deixar aquela falha no espaço-tempo para trás.

“Eu preciso que você assine todas as vias. Uma é nossa, outra é sua e outra precisa ser entregue para a síndica.”

“Como?”

“Uma é nossa, outra é sua e outra da síndica.”

Eu olhei para as folhas, para a recepcionista e de volta para as folhas. Comecei a me sentir como se participasse de alguma dinâmica de grupo para poder visitar um universo paralelo. Primeiro, eu havia tomado pau em Física porque o tempo não funciona como imaginei; agora, era hora de tomar pau em História, tentando decifrar o enigma de uma pequena Esfinge Imobiliária.

“Mas tem só dois papeis aqui”, respondi.

“Sim. Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“Exato. Eu, você e a síndica. Somos três. Mas tem só dois papeis aqui”.

“É que é uma cópia para cada um”.

Respirei fundo de novo e quase engasguei com a máscara.

“Olha, eu juro que estou tentando jogar de acordo com as suas regras. O problema é que parece que a situação aqui não tem regras e elas, mesmo não existindo, mudam o tempo inteiro”.

“Quer uma caneta?

“Sinceramente? Não sei.”

“Mas você precisa assinar.”

“Eu não estou discutindo isso. O meu problema é que o que você falou não faz o menor sentido. Aliás, nada do que você disse desde que eu cheguei aqui faz qualquer tipo de sentido”.

“Uma via fica aqui, outra vai para a síndica e a terceira é sua.”

“EU SEI DISSO! Desculpe, é a máscara de novo. Olha, faz o seguinte, me dá a caneta. Pronto. Onde eu assino?”

“Aqui”, ela apontou um papel, e “aqui”, disse, apontando a folha de baixo.

“Certo”, respondi assinando. “Isso é uma via”.

“Isso”, ela falou. “A outra você leva”.

“E a da síndica?”

“É a sua.”

“Você sabe que eu e a síndica não somos a mesma pessoa, certo? Que neste universo, onde o tempo funciona como uma seta, duas pessoas não podem ser a mesma pessoa. Você consegue enxergar isso?”

“Como assim?”

“Nada. Esquece. Eu... Eu estava pensando em outra coisa. Olha, eu estou com um pouco de pressa, só preciso levar esses papeis, certo?”

“Isso.”

Agradeci e fui embora. Só quando olhei papéis na calçada eu descobri o que havia acontecido. Eu assinei a folha A e a folha B; a segunda via tinha uma cópia da folha A (para mim), e uma da folha B (para a síndica). Ou seja, não era exatamente o que ela falou. Aliás, era bem diferente do que ela falou.

Olhei para trás e pensei em entrar na imobiliária novamente para explicar isso. Mas mudei de ideia, afinal, haviam se passado trinta segundos e a recepcionista já poderia ter ido embora. Ou talvez ela tivesse acabado de chegar. Ou talvez ela nunca tenha estado ali e, ao mesmo tempo, esteja sempre ali.

Bem, eu é que não ia ficar mais ali, esperando alguma criatura de outra dimensão aparecer no portão perguntando se eu vim pegar as chaves e que está há horas me esperando.

Encharquei minhas mãos com álcool em gel e fui embora.


15 comentários:

Elise disse...

Eu não tô nem aí com quantos anos, ou décadas, ou frações de segundo faz que você não escreve nesse blog, porque eu sempre me divirto quando você resolve usar alguns Parsecs da sua vida pra escrever - e como escreve bem, puta merda! :D

Paulo Esdras disse...

Como a falta de lógica acaba com as pessoas lógicas! kkkk Muito bom!

Symathon R. Rangel disse...

Muito bom, Rob kkkkkkk sabe o que seria mais estranho que a recepcionista ser a sua filha? A sua esposa ser sua tia kkkk

Unknown disse...

O senhor voltou em grande estilo. Texto foda!

Diego Matias disse...

A clássica situação de conversar "A" com o uma pessoa que está conversando "B".

Muito comum ultimamente.

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Ê saudades dos seus textos!

Alexandre Rigotti disse...

Estou com meus livros antigos de relatividade procurando pelo "Paradoxo da Imobiliária", ainda não achei...

Vou começar a procurar em teoria de campos relativístico.

Adônis DT disse...

Hahahaha excelente, Rob, como sempre! Só contigo mesmo que acontecem essas coisas...

Marina disse...

Saudades dos seus textos!
Uma vez, o pessoal do seu trabalho foi ao meu trabalho para conversar, obter material. Fiquei sabendo depois e pelo que entendi você tinha ido também. Aí me falaram que vocês iam voltar e eu fiquei aguardando ansiosamente o dia que eu iria te encontrar e dizer que os seus textos me ajudaram muito em tempos bem difíceis! Eu me divertia muito!
Porém, vocês não voltaram haha. Mas cá estou eu falando o que não pude falar ;)

Obrigada! Abraços!

Mike Wevanne disse...

Minha pressão subiu só da raiva de imaginar passar por uma cena assim... Deuzulivre!

Aliás, uma vez passei por algo parecido. Eu fiz a pessoa repetir comigo:
— Você sabe que horas são? (5min antes do horário encerrar)
— Você sabe que horas que o horário encerra? (a hora do horário encerrar)
— E quantos minutos de tolerância? (15min depois do horário encerrar)
— E que horas eu cheguei? (5min antes do horário encerrar)

Eu fiquei olhando pra pessoa, a pessoa ficou olhando para mim, ambos com cara de tacho, mas acho que só eu estava refletindo sobre a inutilidade daquela conversa.

Junio da Silva Damasceno disse...

Ri do início ao fim com esta história Rob Gordon, estou até achando que o tempo realmente sofre distorções naquela imobiliária.

Fagner Franco disse...

Saudade disso aqui. Obrigado por voltar.

felipe disse...

Isso é demais kkkkkkk

vinicius disse...

Muito bom entrar aqui e ver um texto novinho, hehehe

Varotto disse...

Pô, cara, quase perdi essa porque essa sua ausência (por que você não tem escrito amais aqui?), fez com que meu servidor de email te estranhasse e mandou o aviso para a caixa de spam. Foi como voltar no tempo. Há quanto tempo não escrevia em uma sessão de comentários de um blog. Fico feliz por voltar a ser arrastado em direção às suas singularidades.