24 de maio de 2016

A Religiosa, O Poeta, O Gênio do Crime e o Rob Gordon

Nós temos três cachorros aqui em casa – além do Besta-Fera, que está muito bem, obrigado, na casa dos meus pais. Todos eles eram da Esposa e, como acontece com qualquer bicho, cada um tem uma personalidade diferente.

E essa história começa com uma das fêmeas, que é certamente uma das criaturas mais retardadas que já caminhou pelo planeta. E veja bem, não sou eu quem fala isso, pois quando ela era filhote um veterinário disse que ela tinha mesmo alguns problemas de desenvolvimento. Talvez fique mais claro se eu der um exemplo.

Às vezes, os cachorros começam a latir embaixo da janela do meu quarto. Então, ao invés de ir até o quintal, eu dou a bronca da janela mesmo. Eles não podem ver dentro do quarto por causa da tela – caso você seja novo, nós também temos três gatos – mas isso não faz diferença. Eles conhecem minha voz, eles sabem que sou eu que estou ali na janela, e já perceberam que se não calarem a boca eu vou até o quintal dar um esporro em todo mundo.

Quer dizer, pelo menos dois deles. A cadela que estamos falando não consegue pensar além da tela. O cérebro dela funciona assim: se tudo o que eu vejo é uma tela, não existe nada ali. Então o dono dessa voz deve estar em outro lugar. Talvez dentro da minha cabeça? Não, os outros cachorros também estão ouvindo. Eles estão olhando para a tela por algum motivo, mas estão ouvindo. De onde vem essa voz? Será que é do céu? Será que é Deus?

Sim, eu falo com ela pela tela e ela fica olhando para o alto. Não sei se ela está me procurando ou pensando em se ajoelhar e começar a gritar que “Senhor! Eu não sou digna!”.

E caso você esteja se perguntando... Sim, às vezes eu me aproveito da situação e assumo o papel de Deus. Começo a falar coisas como “Fui eu quem tirou você da terra do Egito” ou “Você vai construir uma arca e reunir um casal de cada espécie”, ou, quando estou me sentindo um deus mais autoritário, mando logo um “Você vai receber duas tábuas com os meus mandamentos, que deverão ser obedecidos por todos os animais dessa casa”. E ela ali, olhando para o alto com a fé queimando em seus olhos.

(Toda vez que a Esposa me vê fazendo isso ela pergunta se eu sou imbecil. Minha resposta é sempre apontar o dedo na direção dela para fulminá-la com meus raios, mas como nunca saiu raio nenhum, às vezes acho que ela tem razão).

Bem, vamos voltar à cadela. Aqui em casa, no quintal do fundo, existe uma laje que é um pedaço morto da casa. É um espaço enorme que fica em cima do covil do meu enteado e que é usado somente para estender roupas – eu às vezes subo ali para fumar um cigarro e pensar na vida.

E nós não deixamos os cachorros subirem ali porque um dos lados (justamente o que fica virado para o nosso quintal) é aberto, sem grade ou cerca nenhuma. Tínhamos uma tela na escada caracol que leva até lá e tudo funcionou muito bem... Até que a cadela do povo de Deus olhou um dia para a escada e pensou “será que esse caminho que leva para o alto me aproximará do Criador? Será que aqui começa minha jornada para o Paraíso?” e destruiu a tela que a mantinha afastada do seu Monte Sinai.

Então ela decidiu que aquela escada não leva para a laje onde as roupas são estendidas. Não, aquela estranha construção curva no canto do quintal é uma stairway to heaven, e sua missão é caminhar por aquele divino.

Assim, agora ela sobe naquilo sempre que pode – ou melhor, sempre que lembra que a escada existe. Só que ao invés de encontrar o criador, ela encontra o cachorro do vizinho e começa a latir. E o cachorro do vizinho late de volta. E aí ela precisa mostrar que a fé dela é a certa, só que ao invés de iniciar uma cruzada nas redes sociais atacando os membros da outra religião (ou de juntar um exército e montar uma cruzada, invadindo a casa do vizinho aos gritos de “Morte ao infiel!”), ela decide latir mais alto.

Ela faz isso o dia inteiro (e preste atenção nessa frase porque ela será importante no texto). Então a única alternativa é ir até o quintal e mandá-la descer – o que ela sempre faz de duas maneiras: ou fazendo festa porque você disse o nome dela, ou olhando você intrigada com uma cara de “desculpe, eu realmente me lembro do seu rosto, mas não do seu nome... De onde nós nos conhecemos mesmo?”.

Então, eu e a Esposa fazemos um rodízio aqui. Ela começa a latir lá em cima da laje, eu vou até lá manda-la descer. Uma hora depois, ela volta para a grade e começa a latir para o cachorro mouro do vizinho e a Esposa vai até lá...

E aí começa o inferno. Porque como eu disse, temos três cachorros e um deles – o macho – não pode ver a Esposa que explode de amor e começa a correr pelo quintal e latir sonetos. Só que, veja bem, não estamos falando de um yorkshire e sim de um cachorro que é uma mistura de qualquer coisa com dogue alemão. Ou seja, cada latido dele equivale, em decibéis, a um show do Manowar.

Então ficamos assim: uma latindo lá em cima para o infiel. O outro latindo aqui embaixo para a Esposa. O terceiro cachorro – outra cadela – percebe que porque todo mundo está latindo então ela não pode ficar para trás e começa a latir para, sei lá, o oxigênio. Às vezes, quando tudo isso acontece, minha vizinha Lilha Three Times começa a gritar que está fazendo cocô.
E lembram que eu disse que isso acontece o dia inteiro?

Bom, o dia inteiro é um espaço de tempo que inclui a unidade “sete horas da manhã”. E isso acontece especialmente nos dias que fiquei trabalhando até quatro horas da manhã. Depois de três horas de sono, começa a guerra religiosa dos cães. Aí eu vou lá fora, bêbado, com a calça caindo, batendo nos móveis e mando parar com essa merda.

Silêncio. Volto para a cama e, sete e meia da manhã, nova jihad. E dessa vez quem vai é a Esposa... E aí o cachorro explode de amor ao vê-la e resolve recitar um poema com o tamanho dos Lusíadas que ele passou a noite compondo.

E eu ali, com três ou quatro horas de sono na cabeça, implorando na cama por uma morte rápida e indolor. Mas aí já é tarde. Aí eu já acordei e tudo o que me resta é levantar, pensando se algum dia eu vou conseguir dormir direito na vida.

Só que a última vez que isso aconteceu, eu reparei algo estranho na porta do quarto. A Esposa estava lá fora desaparecendo no meio dos latidos, e eu levantei... E vi algo me olhando da porta do quarto.

Era apenas um olho, bem próximo ao chão. Olhava diretamente para mim, estudando meus movimentos e com um brilho... Não sei, era diferente de tudo o que eu havia visto antes. Era a maldade encarnada. Mas, quando eu fixei meu olhar nesse misterioso olho, ele desapareceu e eu vi uma sombra pulando pelo corredor em direção à sala.

Gato Ridículo.

Era ele me observando. Conforme ele pulava na direção da sala, eu pude ouvir sua risada (tenho quase certeza que também ouvi um grito de “vitória!”, mas pode ter sido impressão minha, por causa do sono).

Tudo havia sido um plano dele para me acordar. De alguma forma ele convenceu a cadela a subir na laje e latir para o vizinho para que a Esposa fosse até o quintal e o cachorro-Camões começasse a recitar seu amor aos berros. Talvez até mesmo o cachorro do vizinho estivesse trabalhando para ele. Com todas essas peças cuidadosamente encaixadas, eu não consigo dormir. Sou obrigado a admitir: o plano é de uma genialidade invejável.

Passei o dia morrendo de sono e percebendo que o Gato às vezes olhava para mim e dava risadinhas escondido. Mas só horas depois eu descobri como ele fez isso.

Fui beber água e ele estava em pé na pia da cozinha, olhando fixamente para os cachorros. Mas assim, fixamente mesmo. Eu o chamei e ele nem olhou para mim. Foi quando eu entendi o que ele estava fazendo. Ele estava numa espécie de transe. Era um misto de telepatia e hipnose, que faz com que ele mantenha os cães sobre seu poder, usando-os para impedir que eu durma direito.

Lembram quando eu brincava com a cadela na janela do quarto dizendo que eu era Deus? Aparentemente, os cachorros descobriram que existe uma divindade mais poderosa e mudaram de fé. Eu fui abandonado pelos meus seguidores.


Agora eu sei como os deuses gregos se sentem. Mas, por outro lado, tenho certeza que o Monte Olimpo é muito mais sossegado que minha casa. Tenho certeza que, diferente de mim, pelo menos eles conseguem dormir. 

5 comentários:

disse...

Boa a citação do antigo Egito, talvez esteja em uma fase "revival", onde gatos eram adorados e santificados... está tentando dominar o mundo...um humano de cada vez...
Eu tenho a mana-monstrenga aqui, tento mostrar quem manda,mas ela teima em fingir que não entende...

Thiago Dalleck disse...

Hahahaha gatos sempre foram mais sagrados do que anões, Rob! Essa você perdeu mesmo. Você deveria adestrar um dos cães (ou gatos) pra ser a testemunha de Rob Gordon e tentar doutrinar os outros!

trottta disse...

Eu só acho que o fato de você poder ter 3 cães em casa e o Besta-Fera continuar ficando na casa dos seus pais é simplesmente injustificável.

Iury QUEIROZ MONTEIRO disse...

só vou dize uma coisa.... Rob, vc é um Gênio! Apenas ainda não aprendeu a hipnotizar os gatos assim como faz conosco ao leu seus textos.

Fernanda disse...

Que saudade do Besta Fera, viu... as histórias com ele eram melhores que qq uma da cachorra do povo de deus... (apesar dela ser engraçada tb) #voltabestafera