17 de fevereiro de 2016

O Espírito que Anda

“O que ele está falando aqui?”

Eu fiz essa pergunta muitas vezes para o meu pai. Apontava para o sujeito de roupa vermelha e olhos brancos, escondidos por uma máscara, querendo saber cada palavra daquele balão cheio de símbolos estranhos acima da sua cabeça.

Meu pai me explicava e, por alguns minutos, eu podia voltar a apenas olhar os quadrinhos, entendendo a ação do meu jeito – e provavelmente inventando as lacunas que eu não podia compreender. Alguns minutos depois, porém, eu atravessava a sala novamente e apontava para outro quadrinho.

“E aqui? O que ele está falando?”

Pouco depois, eu comecei a aprender a entender aqueles símbolos. Acho que fizeram um bom trabalho, já que hoje eu trabalho com eles. Mas, antes disso, tudo o que eu podia fazer era olhar os quadrinhos. E isso devia me encantar, já que eu fazia isso o tempo inteiro.

Não eram os únicos desenhos que eu olhava. Além do homem vestido de vermelho, eu também tentava decifrar as aventuras de um guerreiro baixinho gaulês e seu amigo de traços ruivos. Isso sem falar nos livrinho infantis que me cercavam, normalmente estrelados por um camundongo e um pato com roupa de marinheiro.

Mas quem eu queria mesmo saber o que estava falando era o sujeito de vermelho. Queria entender o que ele falava para o bandido que apontava uma arma em sua direção e que ordem ele havia dado para o seu cachorro. Aliás, quando meu pai me explicou que não era um cachorro, e sim um lobo, eu fiquei com isso dias na cabeça. Afinal, na cabeça de um menino de cinco anos que combatia o crime no chão da sala, a ideia de ter um lobo é certamente uma das coisas mais legais do mundo.



Quando eu atravessei a fronteira que dividia os mundos “ver os quadrinhos” e “ler quadrinhos”, o homem de vermelho veio comigo. Mas, graças ao meu pai, eu já sabia que o nome dele era Fantasma, que ele morava na África, numa caverna em forma de caveira, que era a segunda coisa mais legal que um menino de cinco anos poderia querer (porque a primeira, como vocês devem imaginar, era um lobo) e combatia a pirataria.

Porém, quando eu comecei a ler de verdade, entendi que as pessoas achavam que ele era imortal (“por isso que ele chama Fantasma!”), mas na verdade ele era um homem comum, como eu e como meu pai. O segredo é que sempre que um Fantasma morria, seu filho assumia seu lugar, então todos achavam que era sempre o mesmo sujeito há quatrocentos anos.

Também descobri que o lobo chamava Capeto, que seu cavalo se chamava Herói e sua namorada, Diana. E mais importante, aprendi que seu nome era Kit Walker e que nunca víamos seu rosto sem a máscara, pois “aquele que olha nos olhos do Fantasma morre” (velho ditado da selva).

E eu descobri isso porque era uma época em que ele ocupava um bom espaço nas bancas. Fantasma. Almanaque do Fantasma. Superalmanaque do Fantasma. Hiperalmanaque do Fantasma. Fantasma Especial. Fantasma Extra. Arquivos Secretos do Fantasma. Todas essas revistas iam para casa, e sempre havia briga para ver quem ia ler primeiro. Eu, meu pai, minha mãe, meu irmão. Todos nós queríamos ver a nova aventura.

Os anos passaram e eu nunca mais consegui só olhar os quadrinhos. Depois que se aprende a ler, olhar não satisfaz mais. E eu nunca mais parei. Fui para Patópolis, brinquei com a Turma do Bairro do Limoeiro, briguei com a Turma da Zona Norte. Um dia, já na adolescência, caí no meio de uma Nova York habitada por outros heróis fantasiados. Aquele que escalava paredes, aquele que arremessava o escudo, os quatro que eram uma família.



Eu ainda estou em todos esses lugares, até hoje.

Mas, conforme o tempo avançou, eu descobri que um pedaço do meu coração ficou na costa de Bengala, no território habitado pelos temíveis pigmeus bandar e suas flechas envenenadas. Eu ainda me surpreendo, às vezes, vasculhando as salas dos tesouros, visitando a cripta ou folheando os arquivos. Ou apenas correndo pela floresta ao lado de Capeto. E ainda me surpreendo querendo um anel da caveira e outro com a marca do bem.

Fiz tudo isso desde a hora que acordei, quando descobri que o Fantasma está completando 80 anos – sua primeira tira foi publicada em 17 de fevereiro de 1936. São 80 anos de vida e quase 40 na minha vida, já que, como eu disse no começo desse texto, eu lia Fantasma antes mesmo de aprender a ler.

E o Fantasma está comigo até hoje. Quando eu era criança, eu precisava entender o que acontecia nos mundos que visitava; hoje, adulto, eu trabalho criando mundos e descobrindo o que acontece dentro deles. Nada me deixa mais feliz que ter uma ideia para escrever. Abro a tela em branco e começo a escrever, sabendo que vou descobrir o que acontece nesse mundo e com as pessoas que moram dentro dele.

É por isso que sempre que eu me olho no espelho eu enxergo o rosto da minha mãe, mas também a alma do meu pai. Ao seu modo, ele também precisa de aventuras em mundos diferentes o tempo inteiro, seja na África ou a bordo de uma nave espacial. É isso que o deixa feliz.

Assim como o Fantasma, eu sou igual ao meu pai.

A única diferença é que eu não precisei pegar uma caveira e fazer um juramento para me tornar meu pai. Eu precisei apenas atravessar a sala com uma revista em quadrinhos na mão e perguntar:

“O que ele está falando aqui?”

Pois, assim como meu pai, eu não sobrevivo sem esses mundos fantásticos e seus heróis maravilhosos. É a minha vida.

É o que eu sou.

“E meus filhos, e os filhos de meus filhos, me seguirão.”


3 comentários:

Sil disse...

Amei seu texto!
E me vi nele (eu tinha um pouco mais de cinco anos, claro)e me lembrei de como eu era apaixonada pelos quadrinhos do Fantasma.
Parabéns para ele pelos 80 anos e para todos nós que tivemos a oportunidade de conhecê-lo.

Eduardo Cabrini disse...

Porra! Sem mentira: chorei! Mesmo sem muitas lembranças do Fantasma! Meu pequeno tem 1 ano e 10 meses e fiquei imaginando se conseguirei transmitir pra ele essa minha paixão por outros mundos e por histórias, fantásticas ou nem tão fantásticas. Acho que por enquanto estou conseguindo, pois ele adora um livrinho! Também lembrei de minha falecida mãezinha, que me transmitiu essas paixões!abs

Varotto disse...

O fantasma roxo que ficou vermelho na brasilândia. Tenho até hoje essa reimpressão comemorativa do número um, que você usou para ilustrar o texto. Uma coisa que nunca me esqueci das revistas era como sempre que se referiam a ele como Walker, vinha com um asterisco e a explicação "de espírito que anda".

P.S.: Não sei como até hoje ninguém fez uma sátira disso com o espírito que caga e anda...