9 de abril de 2015

Aristogatas from Hell

Existem dias em que eu não sei quantos gatos existem na minha casa. Não é exagero. O dia que passar a mulher do censo por aqui e perguntar quantos animais existem em casa, eu vou ter grandes dificuldades para responder. Capaz de eu ter que precisar pensar um pouco, fazendo contas nos dedos.

Oficialmente, temos três gatos. Mas isso contando somente aqueles que ficam dentro de casa. Porque, quando você atravessa a porta da sala, a coisa muda de figura, já que os gatos do vizinho não moram mais no vizinho, e sim aqui (acredito que eles ainda não mudaram o endereço de correspondência para minha casa, mas deve ser questão de tempo).

O primeiro deles é o Siamezinho do Vizinho, cujo nome é autoexplicativo, já que ele é um siamês pequeno que mora na casa do vizinho.

Assim como o Nermal, do Garfield, ele sofre de alguma doença que o mantem como filhote durante a vida inteira – a única parte de seu corpo imune a essa doença parecem ser seus órgãos sexuais, que são bizarramente adultos (e isso pensando não em um siamês adulto, mas em um leão adulto e bem dotado, o que certamente faz com que ele seja extremamente popular na comunidade felina aqui do quarteirão).

E ele não é filhote somente no tamanho, mas também em suas atitudes. Basta eu ir fumar no quintal que ele aparece do nada – o que não é exagero, já que ele parece ter também a habilidade de teletransporte. Eu estou fumando sozinho e de repente o siamês está nos meus pés, se enroscando no meu tornozelo e brincando com meu cadarço.

Também temos os dois detentos de Oz. São dois gatos pretos exatamente iguais que estão sempre aqui ao redor, praticando seu esporte favorito: estuprar o outro. Enquanto escrevo isso, me ocorre que talvez somente um seja o estuprador e o outro seja a vítima, mas como eles são exatamente iguais – provavelmente irmãos, o que deixa a coisa ainda mais doentia – eu nunca sei quem é quem.

Na verdade, está me ocorrendo aqui que eu nem mesmo sei se são machos ou fêmeas. Claro que o mais provável é que seja um macho e uma fêmea, mas nada impede que sejam dois machos (e não, eu não tenho problemas com isso, e sim com o fato deles serem irmãos). Claro que também podem ser duas fêmeas. Dado a quantidade de estupros que eu escuto acontecendo aqui todo dia, isso é improvável, mas possível – mas apenas se os vizinhos comprarem os brinquedos dos gatos numa sex shop, e não na Cobasi.

E, por fim, temos o Gato do Telhado – que apareceu aqui emcasa alguns meses atrás. É o rei do quintal e sabe disso, tanto que passa o dia inteiro no telhado observando seus súditos com ar de superioridade. Acredito que não tem muita coisa para ver, já que seus súditos se resumem a um gato com um pênis categoria “flagelo de Deus” e dois irmãos que passam o dia fazendo troca-troca. Mas, mesmo assim, ele mantém a dignidade do alto das telhas – afinal, é melhor reinar no inferno que servir no céu.

Eu o chamo, por motivos óbvios, de Coronel Telhada. E ele se tornou uma espécie de xodó da minha vida: todas as noites eu desço até a garagem, coloco comida para ele e troco sua água – quando estou viajando a trabalho, fico lembrando a Esposa de fazer o mesmo. Ele desce e come, e os súditos respeitam isso, esperando ele estar satisfeito antes de avançar na ração.

Três gatos dentro de casa. Quatro gatos fora. Sete gatos, o que praticamente me classifica como uma versão felina do Flautista de Hamelin. E os gatos parecem gostar muito da gente, tanto que deixaram um presente para nós no meu aniversário de casamento. Era um rato morto que estava na garagem, ao lado do carro, mas o que vale é a intenção, certo?

Agora, de uns dias para cá, as coisas mudaram um pouco. Outro dia eu desci para dar comida para o Coronel Telhada. Eram quase onze da noite e a garagem estava escura. Ao lado do pote de ração, tem uma caixa de papelão com um pano velho dentro – algo que coloquei na garagem no inverno passado, quando cismei que estava frio demais para um gato que mora no telhado. Ele nunca usou, mas a caixa continua lá.

E, neste dia, quando me aproximei do pote de ração, vi que dois olhos me observavam de dentro da caixa. Atrás dos olhos, um gato branco. Era o Siamezinho do Vizinho, provavelmente brincando dentro da caixa, e eu me abaixei para brincar com ele.

Foi quando eu percebi que havia algo errado.

– Você não é o Siamezinho do Vizinho!

Como se querendo concordar comigo – ou, pior, conversar mais de perto – ele saiu da caixa.

Aliás, ele não saiu da caixa. Ele primeiro começou a desdobrar e colocar as pernas para fora. Só depois de uns dez segundos o seu corpo terminou de sair da caixa de papelão. Era uma criatura branca, com olhos vermelhos e com um tamanho que ficava entre um urso polar e uma morsa.

– O que você quer comigo? Onde está o Siamezinho do Vizinho?

– GRRRRRAUUUUUUURRRRRRRR!

– PUTA QUE PARIU!

Eu não sei se algum animal selvagem resolveu migrar para a caixa de papelão na garagem, ou se ela ficou tanto tempo que se tornou uma espécie de portal para o inferno, e um dos demônios resolveu invadir nosso planeta (talvez atraído pelos ruídos pecaminosos dos dois detentos de Oz).

Mas eu não tinha tempo para pensar sobre isso. A criatura avançou na minha direção e eu saí correndo, largando a ração no chão e torcendo para que isso desviasse a atenção do bicho. Não deu certo. Eu estava no meio da escada, correndo pela minha vida, quando ele rugiu mais uma vez.

– GRRRRRAUUUUUUURRRRRRRR!

Senti uma pontada no tornozelo e caí no chão. Minha perna queimava e olhei para trás apenas para descobrir um enorme tentáculo, de quase três metros de altura, que saiu da boca do bicho e me agarrou pelo tornozelo, tentando me puxar de volta para a garagem.

Tudo o que consegui fazer foi sacudir as pernas, mas aparentemente deu certo. Consegui fazer o negócio desgrudar da minha perna, junto com meu tênis. Assim, aproveitei para subir o resto da escada – enquanto ouvia os barulhos do monstro mastigando meu tênis – ao mesmo tempo em que a Esposa, curiosa com os barulhos, abria a porta.

Era minha chance. Entrei correndo na sala.

– O que você está fazendo com os gatos?

– FECHE A PORTA! FECHE A PORTA!

– Dá para ouvir o barulho da sala.

– FECHE A PORTA! ELE VAI ENTRAR AQUI!

Antes que ela fechasse a porta, vi a criatura no final da escada, olhando para mim. Era uma espécie de Mugato, e seus olhos me disseram que ele não iria esquecer isso tão cedo.

Mas a porta se fechou e eu estava em segurança na sala.

E não saio mais daqui. A vida lá fora também mudou. O Coronel Telhada não aparece mais com tanta frequência, e os gatos do vizinho estão sempre desconfiados, como se pressentindo o mal que emana daquela caixa de papelão.

Meu tênis continua lá embaixo. Se o Mugato não o destruiu completamente, os dois detentos de Oz devem estar o usando para algum de seus jogos pervertidos de sedução.

E já disse para a Esposa que é melhor pararmos com esse negócio de colocar ração no quintal. Ao menos, até as coisas se acalmarem.

5 comentários:

Adriano T. disse...

Coronel Telhada é sensacional! Hahaha!

Agora, qual seria a origem desse tal de Mugato (o original)? Ele é amigo da Chaka do Elo Perdido?

Varotto disse...

Cara, você não é o velho do espelho. É a velha maluca dos gatos.

Varotto disse...

Cara, você não é o velho do espelho. É a velha maluca dos gatos.

Renata Schmitd disse...

coronel telhada é tão legal que fico ainda com mais dó do siamezinho. por conta do nome, claro. e aristogatas era meu filme preferido da infância :)

Anônimo disse...

Nós alimentávamos um gato, que aparecia no fundo do quintal. Era um tanto cego ou um tanto vesgo, nunca nos decidimos e o chamávamos de Magoo, ou Mr., em situações formais.

As vezes ele brigava com um gato negro, nestas ocasiões triplicava de tamanha e juntava as patas como um coelho, não sei, parecia uma mesinha de centro, com uma única pata.

Este gato sumiu, deixando em nossa geladeira um estoque de salsichas congeladas.