10 de fevereiro de 2015

Alien - O Oitavo Caixa do Supermercado

Leitores mais antigos sabem que um dos pontos fortes deste blog sempre foram as histórias de supermercado.

Isso porque basta eu colocar o pé dentro de qualquer supermercado para os loucos que vagam pelos corredores detectarem minha presença e começarem a me perseguir incansavelmente com o objetivo de me arrastar para a insanidade deles - que pode ser tanto me envolver numa briga por causa de uma fatia de presunto quanto tentar me obrigar a beber água sanitária.

Ou seja, enquanto as pessoas normais vão fazer compras sem saber se irão encontrar tudo o que precisam, eu normalmente saio de casa para ir até o mercado sem fazer a mínima ideia se vou conseguir voltar vivo para casa.

E isso tem piorado nas últimas semanas, por causa de uma menina que trabalha como caixa no mercado aqui ao lado de casa. Eu falei dela rapidamente neste post aqui (corra os olhos até o sétimo parágrafo e procure pela menina alienígena que dança) e sempre imaginei que ela entraria no blog. Mas eu realmente estou ficando assustado, pois eu estou cada dia mais convencido que ela é realmente um extraterrestre.

Aliás, eu estou cada dia mais convencido que ela não apenas é um extraterrestre, mas sim um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos.

Não. Podemos ir além. Na verdade, ela não é um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos, mas sim um extraterrestre com sérios distúrbios psicológicos e cuja missão, seja lá qual for, diz respeito a mim.

Na verdade, às vezes eu acredito que ela é uma espécie de mercenária espacial. Eu devo ter feito alguma coisa que ofendeu algum milionário de um planeta distante, que contratou o alienígena para me enlouquecer. Assim, ela pesquisou toda a minha vida e, ao ver que vou ao mercado quase todo dia, se infiltrou ali.

À primeira vista, ela se parece humana. Cabeça, tronco e membros. Mas basta bater o olho nela para perceber que algo está errado. Quanto mais você olha para ela, mais você chega à conclusão que algo ali está errado. Num dia parece que é a proporção entre os braços e o tronco; no dia seguinte, você tem a sensação de que talvez as pernas sejam grandes demais; aí você vê que esqueceu o sabão em pó, volta ao mercado e percebe que ela tem a cabeça larga demais. Você nunca sabe o que está errado, mas tem algo ali que está errado.

E os problemas só aumentam quando ela começa a se mover. Os movimentos dela não são naturais, é como se ela estivesse sendo manipulada por controle remoto (eu já pensei em cordas penduradas no teto, como uma marionete, mas não são, porque eu chequei um dia). Imagine um boneco de Olinda andando pelas ruas enquanto tenta não ser notado pelas outras pessoas e você tem uma amostra dos movimentos dela.

Bem, isso prova que ela não é deste planeta. Certo. Não é a primeira vez que sou abordado por alienígenas na rua, mas o problema é que ela parece sofrer algum surto psicótico toda vez que eu me aproximo. Eu não sei se emito algum tipo de radiação, mas eu sou uma das únicas duas coisas que parecem ativá-la (mais tarde eu falo sobrea outra coisa). Então, basta eu me aproximar do caixa para ela sofrer uma espécie de sobrecarga, como se os sensores dela indicassem que sua presa está por perto.

E ela começa a dançar. A se mover. E a falar incontrolavelmente, sobre qualquer assunto. Sem lógica, sem contexto. E sem piedade. É mais ou menos assim.

– Você vai querer CPF na nota?

– Sim.

– É bom esse negócio de CPF né?

– Oi?

– Esse negócio de CPF.

– É. Acho que é.

– Porque você paga aqui e recebe ali. Esse xampu é bom?

– Não sei, foi minha esp...

– Olha! Tem cebola! Você vai comer esta cebola?

– Você não precisa do meu CPF?

– Minha tia adora cebola. A gente chama ela de Cebola em casa. A Tia Cebola. Mas só nos natais.

– O Meu CPF é...

– Porque ela só gosta de cebolas nos natais. Na festa junina, ela odeia cebola. Você acredita em Deus?

– Oi?

– Deus. Você acredita?

– Bem...

– Eu não sei se acredito. Mas estamos na frente de uma igreja, melhor mudar o assunto. Você vai querer CPF? No liquidificador?

– O CPF onde o quê?

– No liquidificador. Você tem liquidificador em casa?

– Olhe, eu esqueci meu cartão. Depois eu pego as compras. Eu vou embora.

– Mas não vamos falar sobre isso, porque liquidificadores não gostam que falem deles. Você já descobriu quantos milímetros choveu hoje?

E sim, é sempre assim. Toda vez que eu me aproximo, ela sofre um surto psicótico. É como se o cérebro dela fosse invadido por centenas, milhares, milhões de janelas popup que ela precisa ler em voz alta e falar para mim. E tudo isso fazendo dancinhas e se movendo de forma estranha. Quando não consegue ligar um assunto no outro, dá gargalhadas histéricas e tenta novos passinhos de dança.

Isso acontece na maioria das vezes. Mas, em algumas outras, eu vou esperando pelo pior e acontece exatamente o oposto. Ela está prostrada na cadeira – quando ela está na cadeira, você tem certeza de que tem algo errado com o corpo dela, pois ela consegue ficar sentada e deitada ao mesmo tempo – olhando fixamente para o nada, com cara de assassina.

Eu coloco minhas compras, e ela não olha para mim. Sem exageros, ela não move os olhos. Não pergunta nem se eu quero CPF na nota. Apenas pega as compras, passa no leitor do código de barras e arremessa todas elas em direção às sacolas. Quando termina de jogar as compras ali, permanece imóvel, esperando eu tomar alguma atitude. Aí eu olho o valor na tela, estico o cartão e digo.

– Débito.

Ela arranca o cartão da minha mão, enfia na máquina e continua olhando para o nada. Eu digito a senha, a notinha é impressa. Eu pego o cartão e vou embora. A notinha continua ali, na máquina, e a alienígena permanece olhando para o nada. Eu não sei se ela está recebendo mensagens do planeta natal, ou se está em uma espécie de transe, ou se pelo fato de estar em um planeta bipolar ela também se transforme em uma criatura bipolar e tome litros de lítio no gargalo todas as manhãs... Mas é como se eu não existisse.

Sim, eu já pensei na hipótese de serem dois alienígenas diferentes, um feliz e outro raivoso, como se fossem a extraterrestre Ruth e a extraterrestre Raquel. Mas não gosto desta ideia porque isso me aproxima perigosamente de ser uma espécie de Tonho da Lua. E por mais que eu adoraria ser um personagem de uma saga de ficção científica, eu não quero ser o Tonho da Lua das Galáxias.

Então, parto do princípio que é um alienígena só, mesmo porque na maior parte do tempo ela está surtada dentro daquilo que é o normal para ela: dançando de forma estranha, falando de forma estranha, vivendo de forma estranha.

Aliás, seja qual for o problema que ela tem comigo, também envolve minha família. Dia desses, a Esposa foi ao mercado e a alienígena estava olhando fixamente para umas oitocentas moedas de um real espalhadas no balcão. Parecia ser um dia daqueles em que ela perde o contato com a realidade – ou com a nossa dimensão – pois ela apenas olhava as moedas, ignorando os clientes que queriam passar a compra. De repente, ela agarrou uma moeda que estava no meio, gritando “uma moeda da Copa!” e começou a fazer suas dancinhas e falar sobre pneus e depois sobre pelicanos.

Por isso que eu tento evitar ir ao mercado agora. Porque basta eu me aproximar dela que o surto psicótico-espacial começa. Afinal, como eu disse, eu sou uma das duas coisas que desperta isso nela. A outra é Alceu Valença.

Aliás, não é Alceu Valença. É especificamente a música Anunciação.

Ela simplesmente não sabe lidar com a existência da música. Não sei se faz a lembrar do seu planeta natal, não sei se se a música é um portal galáctico que ela usou para viajar até nosso planeta, não sei se algum som ali faz com que seu cérebro produza algum tipo de enzima alienígena que causa um surto. Sei que apenas que a música Anunciação parece ser algo grande demais para ela suportar.

E acontece que, às vezes, neste mercado, toca música. Nem sempre toca, mas às vezes o sistema de som está ligado e está tocando música.

E é sempre Anunciação. Sempre.

Às vezes é a versão original, mas às vezes é algum cover. Eu nem sabia que Anunciação tinha tantas versões, mas todas que foram gravadas até hoje estão registradas num CD que toca constantemente no mercado. Acaba a versão do Alceu Valença e começa a versão do Coral das Crianças de Campinas. Acaba a versão do Coral das Crianças de Campinas e começa o tributo das bandas de heavy metal japonesas à música Anunciação.

E a alienígena do caixa enlouquecendo e dançando. E enlouquecendo enquanto dança. Eu me aproximo e tento acabar logo com aquilo.

– Bom dia.

– Adoro essa música.

– Sim, eu gosto também. Eu vou quer CP...

– Ela gruda na cabeça. Gruda e não sai. Gruda e não sai.

– Sim, você me disse isso ontem. Olhe, eu estou com um pouco de p...

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

– Meu Deus do céu.

– EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS!

– Olhe, eu sei que talvez o pessoal do seu planeta esteja mandando sinais, mas é que está todo mundo olhando, e eu preciso...

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

– Deixa. Depois eu pego as compras. Eu vou embora.

– Você vai querer CPF?

– Oi?

– CPF. Vai querer CPF?

– Sim.

– Pode falar.

– Um dois três. Quatro cinco...

– QUE TU VIRIAS NUMA MANHÃ DE DOMINGO!

– Falta o resto do CPF.

– EU TE ANUNCIO NO SINO DAS CATEDRAIS!

– Esquece. Depois eu pego as compras.

– TU VEEEENS! TU VEEEENS! EU JÁ ESCUTO OS SINAIS!

– Tchau.

– TU VEEEENS! TU VEEEENS!

3 comentários:

Elise Garcia disse...

Lembrei daquela bounty hunter que persegue o Anakin e o Obi Wan em um daqueles prequels de Star Wars - acho que no Episódio II. Talvez você seja uma versão masculina da Padmé e o Palpatine esteja querendo acabar com a sua vida, mas como é você, a transmorfa tinha que estar no supermercado...

Adriano T. disse...

Essa com certeza toma remédios bem terrestres!

Fagner Franco disse...

Esses textos (sinto muito, esses que vc se fode) são os que mais me divirto. Valeu! :)