2 de outubro de 2014

'eba'e 'olí'ico

Estava no boteco, bebendo uma Coca, quando começou a gritaria.

Aliás, gritaria em boteco é um negócio estranho, que não obedece às leis da Física. Toda gritaria normal tem um momento inicial definido. Numa gritaria na rua, no escritório, ou em casa, existe um Grito-D específico que dá início a outro grito, que leva a outro grito, formando a gritaria. Não importa o assunto, ela começou com um berro.

Mas, num boteco, não há um grito inicial. As pessoas estão conversando, mas os ânimos esquentam, o tom começa a subir e de repente você está no meio de uma gritaria que há dois minutos não existia, mas que ao mesmo tempo parece que sempre esteve ali e você que não tinha reparado.

A do boteco foi assim. Quando eu me sentei, o bar estava em silêncio. Quando eu estava na metade da lata de Coca, percebi que as pessoas estavam gritando sabe-se lá há quanto tempo no bar. E o assunto era política.

- Então vota no PT! Quer fazer merda? Então vota no PT e não enche o saco!

Quem disse isso foi um sujeito que, com alguns minutos, aprendi que atende pela alcunha de Alemão. Suas propostas eram claras: Alemão é daquelas pessoas que é “contra tudo isso que está aí”, mas seu tom raivoso mostrava que se estourasse uma guerra civil, ele seria o primeiro a pegar em armas. Mas não para derrubar o poder, e sim nocautear seu adversário com uma coronhada e beber em paz.

Seu adversário permanece um mistério para mim. Tinha uns 60 anos. Negro. E foi só o que consegui decifrar. Não consegui entender seu nome, muito menos quais propostas ele defendia, e não porque seu raciocínio era confuso, mas sim porque ele era fanho, e parecia ter alguns problemas com os “r”, os “t”, os “d” e os “p”.

- Eu vo’o em que eu quise’! Eu ‘enho esse ‘i’eito! E mesmo assim vota’ não a’ian’a na’a! Que se fo’a-se!

(Sim, que “se foda-se”.)

- É porque você pensa assim que o país tá uma bosta! Sabe como as pessoas votam? Elas pegam o santinho no chão e escolhem o candidato assim!

- E o que você que’? Vai vo’a’ em quem?

Achei a pergunta bem colocada. Bem colocada e objetiva.

- É tudo uma bosta! O país tá uma bosta!

Bom, o Alemão aparentemente conhece a primeira regra da política, que implica em não responder com clareza. Numa situação normal, isso o colocaria em vantagem. Mas, como o problema fonético do seu adversário fazia com que ele nem mesmo perguntasse com clareza, o debate prometia ser equilibrado. Aliás, naquele momento eu apostaria no Fanho.

- O que você ‘efen’e?

- Como assim?

- O que você ‘efen’e?

- Não entendi!

Eu também não.

- O que você ‘efen’e? O que você que’?

Ah! “O que você defende?”. Entendi. Mas como não era comigo fiquei quieto – caso seja do seu interesse, naquele momento eu defendia que aquele debate durasse horas – e deixei a resposta para o Alemão.

- Como assim, o que eu quero?

- Se eu p’ome’’e’ aqui que vou a’’uma’ sua vi’a, vou ‘a’ ‘inhei’o! Você vo’a nimim?

- Não!

- Eu vou ‘a’ ‘inhei’o p’a você! Vai vota’ nimim?

Se a pergunta fosse para mim, provavelmente eu perguntaria se posso pegar minha parte em quadrinhos. Mas o Alemão não gostou do rumo que a conversa estava tomando. Sua integridade estava sendo discutida.

- Não! Porque é dinheiro sujo! E dinheiro sujo eu não quero!

Em sua réplica, o candidato Fanho elaborou uma reposta que provavelmente estabeleceu o recorde de maior número de letras “d”, “t”, “r” e “p” reunidos no mesmo lugar, porque eu não entendi absolutamente nada (entendi apenas um “i-i-ica”, então desconfiei que ele estava imitando um rato). Mas o alemão me ajudou ao gritar:

- Tiririca!?

I-i-ica. Tiririca. Eu devia ter pensado nisso.

- I’i’ica! Isso mesmo!

- Você vota no Tiririca!

O tom do Alemão era claro: ele estava tentando desqualificar seu adversário, com aquele ar de “você vota no Tiririca, então sua opinião não vale”. Eu continuei bebendo minha Coca, escutando e torcendo para que o Fanho não tentasse trazer a Petrobras para a conversa. Não por causa da situação da estatal, mas sim porque ele cuspiria no bar inteiro ao falar o nome da empresa.

- Ele fez seis ‘’oje’os!

- Tiririca!

- Seis ‘’oje’os! Mais que você!

- Tiririca!

- ‘i’i’ica sim!

- Esse país não é sério!

Bom, nisso eu concordo com o Alemão.

- O que você que’? O que você que’ ganha’?

- Eu quero igualdade!

- Igual’a’e não exis’e”!

- Eu quero igualdade!

- Po’ exemplo, eu sou Á’ies! E você?

Oi?

- Oi?

- Seu signo! Eu sou Á’ies! E você? Você é de á’ies?

- Não!

- Tá ven’o? Nunca vai ‘er igual’a’e!

O argumento foi demais pra mim. Levantei e fui até o caixa pagar a Coca. Paguei e o dono do boteco resmungou que:

- Esses imbecis ficam discutindo política no bar. Enche o saco isso.

Sorri e agradeci.

E saí do bar disposto a me informar mais sobre o dono do bar e suas propostas. É sempre bom ter uma terceira via. Especialmente uma que parece enxergar a realidade de trás do balcão.

2 comentários:

Adriano T. disse...

Qualquer fã de quadrinhos sabe que o candidato negro é com certeza o pirata fanho das histórias do Asterix!

Hally disse...

Esse debate foi mais legal que o da globo!