20 de outubro de 2014

A Lenda do Cavalo na Estrada

Existe uma história na minha família sobre mim que não sei se é verdade. Quer dizer, eu sei que aconteceu de verdade, mas eu não me lembro dela. Entretanto, ela já foi contada tantas vezes que eu quase consigo visualizá-la – o que acho justo, visto que ela aconteceu comigo.

Estávamos viajando para algum lugar. Meu pai dirigia com minha mãe ao seu lado, e eu e meu irmão estávamos no banco de trás do carro. Eu devia ter uns dois ou três anos e tinha o comportamento típico de uma criança desta idade durante uma viagem: passava metade do tempo perguntando se “falta muito?” e a outra metade infernizando a vida do meu irmão.

De acordo com a história, em um determinado da viagem eu comecei a chorar por alguma que coisa que, como hoje ninguém lembra, não devia ser particularmente importante. O que é importante é que eu não parava de chorar.

Assim, minha mãe tentou desviar minha atenção do motivo-que-me-fazia-chorar, virou para trás e inventou uma mentira:

- Como você está chorando, você não viu o cavalinho que estava perto da estrada!

Eu parei imediatamente de chorar. O carro ficou em silêncio por uns dois segundos, que foi o tempo suficiente para eu perceber que o cavalinho era mais importante que aquilo que estava me fazendo chorar. Ainda dentro destes dois segundos, o cavalinho se tornou a coisa mais importante da minha. Tudo o que eu precisava na vida era ter visto o cavalinho. E agora o cavalinho estava perdido para sempre.

Imediatamente, comecei a chorar e gritar que queria ter visto o cavalinho, que temos que voltar para o cavalinho. Reza a lenda que fui chorando até chegarmos ao lugar por causa do cavalinho e, a cada cinco minutos, meu pai resmungava “agora arruma uma porra de um cavalo para o menino ver” com a minha mãe.

Sábado passado eu e a Esposa fomos até a casa de uns amigos. Mas fomos de carona com uma amiga dela. As duas na frente e eu atrás, observando a paisagem (é engraçado: hoje eu não fico perguntando para as pessoas se falta muito para chegarmos; por outro lado, eu estou sempre perguntando se falta muito para irmos para casa).

Sei que no meio do caminho, as duas começaram a gritar no carro, espantadas. Estávamos em plena Avenida 23 de Maio e um carro cortou todas as faixas em alta velocidade, fechando todos os outros veículos até passar por cima de um canteiro com grama, para desaparecer numa saída da avenida. Coisa de filme.

Ouvíamos sirenes atrás de nós. Elas começaram a discutir se o cara estava fugindo da polícia, se a polícia estava ali por coincidência e agora estava atrás do cara. As teorias eram muitas e tenho certeza que a mesma discussão estava acontecendo em todas as outras dezenas de carros ao nosso redor.

- Porra, eu não vi nada!

- Como não?

- Estava olhando um boteco embaixo de um cortiço lá atrás.

Esta foi minha contribuição para o debate. Não foi exatamente genial, mas foi sincera, porque eu não vi nada. Para variar, eu não vi nada. A diferença é que desta vez eu segurei o choro, porque não pegava bem abrir o berreiro ali no meio do carro com 39 anos nas costas.

Às vezes, acho que vou passar a vida inteira procurando pelo maldito cavalinho da estrada.

E, pior: olhando para o lado errado.

2 comentários:

Gabriela, disse...

Ah, me identifiquei tanto!
Mil e várias vezes perdi coisas ~importantes~ porque não estava prestando atenção. :(

been there, done that

Hally disse...

Hahahaha, também sou dessas que perde as cenas mais legais da estrada, ou porque tô olhando pro celular, ou pro outro lado. =/