23 de setembro de 2014

O Primeiro Ano do Resto da Minha Vida

Desde crianças aprendemos que o homem “nasce, cresce, evolui e morre”.

Entretanto, qualquer pessoa que já cresceu e evoluiu descobre que a frase é incompleta. Entre o “evolui” e o “morre” existe um “envelhece” que não aparece na frase porque provavelmente está escondido atrás do “evolui”, reclamando do frio. E, claro, morrendo de medo de ser vista pelo “morre” que permanece ali, orgulhosa do seu posto, logo ao lado do ponto final.

Talvez o “envelhece” esteja fora da frase por delicadeza. Mas, mesmo assim, trata-se de um erro. Se estivesse na frase, o “envelhece” ocuparia a maior parte dela. Uma pessoa nasce em um instante; cresce e evolui na primeira metade da vida (e isso sendo bastante generoso com algumas pessoas); e morre em outro instante. O “envelhece”, que não está na frase, ocuparia toda a segunda metade da vida e da frase.

Agora, o problema da palavra “envelhece” é que, por não estar na frase, ela se sente no direito de ficar aparecendo o tempo inteiro, em todos os lugares. E não adianta ignorá-la. O “envelhece” é teimoso e não desiste de aparecer. Tenta conversar com as pessoas na rua sem fazer muito sentido, pede ajuda para mudar o canal da TV ou contar as moedas do bolso, fica puxando assunto em ônibus e filas de banco.

Eu sei disso porque o “envelhece” tem falado bastante comigo nos últimos meses.

A primeira vez foi quando eu estava assistindo a um jogo de futebol na Copa. O lateral direito pegou na bola e eu comentei que “esse menino joga muito bem”. Foi só depois de alguns minutos que eu percebi que havia dado um grande passo rumo à melhor idade.

Quando você é jovem, você se refere ao jogador de futebol como “cara”. “Esse cara joga muito”. “Esse cara não devia estar no time”. Porque o “cara” tem, no máximo, a mesma idade que você.

Mas chega um dia que o jogador de futebol deixa de ser “cara” e se torna “menino”.

Quando isso acontece, é porque seu cérebro está reconhecendo oficialmente que uma pessoa que tem condições de praticar esporte é mais nova que você. Você não tem mais condições de jogar bola. Você não pode mais sonhar em ser um jogador de futebol quando crescer. Tudo o que você pode fazer é ficar na arquibancada vendo os jovens jogarem e torcendo para que não vente muito no estádio.

Mas chamar jogador de futebol de “rapaz” ou “menino” não foi meu primeiro passo rumo à velhice.

Isso começou já há anos, de forma discreta, em frente às bancas de jornal.

Quando eu era moleque, estava sempre em bancas de jornal. E sempre que encontrava a Playboy, prestava atenção em duas coisas: quem era a mulher da capa e se eu fazia ideia de quem era o entrevistado – porque quando você é moleque, conhecer o nome do Ministro da Fazenda não está exatamente na sua lista de prioridades, especialmente quando tem um par de seios pulando ao lado do nome do sujeito.

Hoje, a coisa mudou: em 100% das vezes, eu conheço o entrevistado. Ministros, escritores, artistas, presidentes de outros países... Conheço todos.

Mas, na maior parte das vezes, eu não faço ideia de quem é a mulher da capa. Não sei se é atriz, cantora, apresentadora. É desanimador demais saber que “a nudez mais esperada do ano” (porque a cada três meses a Playboy publica a nudez mais esperada do ano) é de uma mulher que eu nunca ouvi falar.

Com isso, fica claro que a Playboy não é mais para mim. A Playboy tem um público alvo muito bem definido: são as pessoas que estão ali na primeira metade da frase, no “cresce e evolui”. Eu não estou mais lá, e aquele bando de desconhecidas seminuas na capa fica jogando isso na minha cara todos os meses.

Chamar jogador de futebol de “menino”? Check.

Não fazer ideia de quem seja aquela mulher na Playboy? Check.

Dos três sinais clássicos da velhice, eu já podia riscar dois. Faltava apenas um: não conseguir mais usar o Mc Donald’s, algo que todo velho que se preze tem que fazer. Na verdade, alguns velhos mal sabem falar o nome da lanchonete, pronunciando “máque donald’s” ao invés de “méc donald’s”, mas isso é algo que já classifico como exibicionismo. Enfim, faltava apenas um sinal da velhice.

Não falta mais. Semana passada entrei em um Mc Donald’s e fiz meu pedido.

– Me dá um número quatro.

O atendente – um menino de vinte e poucos anos – olhou para mim sem entender direito.

– Qual é o número quatro?

– Como assim, você não sabe? Você não trabalha aqui?

– Sim, mas não sei o que é número quatro.

– Isso é um absurdo!

Foi quando a Esposa me cutucou e disse, discretamente, que as promoções de números não existem mais há um bom tempo. Talvez anos.

Comecei a resmungar, dizendo que no meu tempo era mais fácil fazer o pedido, que quero um Cheddar, mas também quero saber aonde esse mundo vai parar já que ninguém respeita mais nada. Peguei a bandeja e voltei para a mesa, deixando a Esposa pagar porque tive medo de não conseguir entender como passar o cartão e roubarem todo meu dinheiro, e é sempre bom ter dinheiro porque a gente nunca sabe quando vai precisar comprar remédio.

E, na praça de alimentação, descobri que estou na pior fase da velhice, que é o começo dela. Sou velho o suficiente para não saber como as coisas funcionam, mas não sou velho o suficiente para alguém me oferecer um lugar para sentar. Fiquei ali, com a bandeja na mão, velhinho, procurando um lugar para sentar e poder comer meu sanduíche que no meu tempo chamava “número quatro”, reclamando que quero ir embora, que meus pés estão doendo, que eu vou perder meu programa na TV. E praguejando que é cada dia mais difícil pedir as coisas no Mc Donald’s.

Dos três itens da “to do list – velhice”, agora sim estavam todos cumpridos.

Estou oficialmente naquele limbo entre o “evolui” e o “morre”.

E assim vou vivendo meus dias. Hoje, por exemplo, entrei num táxi e o sujeito (que, anos atrás, eu diria que era um velho de 102 anos de idade, mas hoje enxergo como uma pessoa normal) estava ouvindo sambas antigos. Comecei a prestar atenção na letra – por causa das semelhanças com o blues, falando sobre falta de dinheiro e falta de amor – e perguntei causalmente quem estava cantando.

– Francisco Alves, ele respondeu.

Eu ouvi mais um pouco e concluí.

– Isso que era música de verdade. Essa molecada de hoje em dia só escuta bobagem.

O taxista olhou para mim e respondeu:

– É verdade. Concordo com o senhor. Antigamente, as coisas eram melhores.

E abri um sorriso.

Acho que me encontrei. Este é meu clube.  Esta é a minha vida – ou, ao menos, o que resta dela.

Ainda hoje vou comprar um cachecol e meias de lã.

8 comentários:

Fernando Santos disse...

E um gorro, é claro!

Dread disse...

Tô velho, tô muito velho.

Chamo meus amigos de meninos, sendo que eles tem 6 ou 10 anos a mais que eu. Sempre falo "Vou sair com os meninos" ou "Os meninos estão me esperando lá no bar"

Continuo não sabendo quem são os entrevistados na playboy... mas não compro playboy mesmo. rs

E.. tá me zoando que não tem mais promoção de números... Não dá pra pedir mais o número 1? Tudo bem, não tem máque donald’s aqui na cidade.. mas isso aí tá errado

Varotto disse...

Também em relação à Playboy, um marco para mim foi quando notei que era mais velho do que as coelhinhas.

P.S.: Agora você vai poder dizer com gosto um "vai colocar um gorro, jovenzinho!".

Varotto disse...

Acabaram os números? Logo agora que me deu a maior vontade de partir para um número 2...

Varotto disse...

E no meu tempo, com dez centavos eu comprava um saco de balas, vinte suspiros e uma maria-mole!

Adriano T. disse...

Não esquece de comprar também as polãinas!

Juba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juba disse...

Boina. Compra boina.

Como foi que o sujeito dos cinquenta reais em jalapeños foi parar no méqui?