15 de maio de 2014

O Devorador de Mundos



Eu sempre precisei de outros mundos.

Desde que eu me conheço por gente, eu divido o meu tempo entre o mundo real e algum outro mundo que frequento. Faço isso o tempo inteiro.

Para explicar melhor, vou usar como exemplo o mundo que vivo atualmente. Ele está ao lado da minha cama, na minha coleção de quadrinhos. Então, eu passo o tempo inteiro no mundo real, trabalhando, comendo, resolvendo coisas...

Mas, no primeiro momento que tenho, eu corro para o quarto e me refugio naquele outro mundo. Lá, eu balanço pelos prédios, tenho força e agilidades descomunais, uso aparatos tecnológicos. E passo a viver dentro deste mundo. Estou no banco pensando em enfrentar criminosos nas ruas, vou até a padaria arriscando minha vida para proteger os outros, almoço desafiando alienígenas no espaço.

E, de repente, me canso deste mundo.

Mas não consigo viver somente no mundo em que vivemos, e corro para outro. Qualquer outro, como o mundo que se esconde no meu iTunes. E, de repente, estou mergulhado em solos de guitarra e capas de discos. Estou colado na grade de shows que aconteceram do outro lado do mundo ou até antes mesmo de eu nascer. E vivo entre amplificadores e cordas de baixo durante semanas...

Aí me despeço e vou para o espaço. Posso pegar um sabre de luz e enfrentar o Império, como posso me sentar na ponte da Enterprise e explorar a galáxia. Talvez eu vá para o passado, mergulhando em aventuras de alguns guerreiros gauleses, ou participando de tramas de espionagem dos anos 60. Ou, quem sabe, vou para o futuro, viver no meio de rebeldes que desafiam as máquinas que tomaram o poder do planeta ou numa galáxia habitada por um alienígena que é uma verdadeira máquina de matar.

Talvez eu fique no presente mesmo. Mas precisa ser um presente diferente da fila do banco ou do mercado. Preciso de um presente com mortos vivos, ou fantasmas.

Eu vou de um mundo para o outro. E, quanto estou num dos meus mundos, respiro aquele lugar o dia inteiro. Não penso em outra coisa, não leio sobre outra coisa, não falo sobre outra coisa – na vida real ou na virtual. Aprendo tudo o que posso sobre esse mundo, me torno não um especialista, mas um habitante daquele mundo. Eu devoro tudo o que encontro pela frente sobre o assunto.

Eu devoro o mundo. Até me cansar dele e partir para outro mundo. E deixo o universo inteiro ali, na estante do quarto, no armário da sala, no HD do computador, pronto para ser visitado mais uma vez daqui a algumas semanas. Porque eu sempre volto.

Porque eu preciso sempre estar em outro mundo.

Esta é uma das chaves para me conhecer. Eu vivo o tempo inteiro na fronteira entre o mundo que você existe e o mundo que eu quero que exista. Eu caminho com um pé na fantasia e outro no real. Amo tudo o que tenho no mundo real – mas amo também a minha paixão por poder viajar para outro mundo. E conhecer sua geografia, sua história, seus habitantes, sempre que possível. E devorar este mundo, até partir para outro.

E, quanto mais eu penso, mais me convenço de que é por isso que eu escrevo.

3 comentários:

Varotto disse...

E depois ainda querem que a gente trabalhe...

Adriano T. disse...

E a pergunta é: Qual é o mundo de hoje?

Giovana disse...

Sabe de uma coisa? Vc é um menino, e isso é um elogio!