28 de fevereiro de 2014

O Último Tango na Vila Mariana

Alguns meses atrás, quando eu falei da Incrível Padaria de Brancaleone que funciona aqui na esquina de casa, eu fiz questão de dizer que a funcionária que ficava no caixa na parte da manhã era uma das pessoas com Q.I. mais elevado que eu conheci.

Enquanto todos os funcionários da padaria não parecem mostrar muita intimidade com a nobre arte do raciocínio lógico, a menina que ficava no caixa era capaz de atender os clientes ao mesmo tempo em que resolvia problemas administrativos da padaria pelo telefone, enquanto estuda – e aperfeiçoa – mentalmente as aberturas usadas pelo campeão de xadrez Kasparov nos jogos em que ele enfrentou o Deep Blue.

Entretanto, como é comum acontecer com pessoas competentes, ela foi demitida.

Tudo, claro, faz parte de um processo de modernização da padaria. Veja bem, esta padaria é um estabelecimento comercial que parou no tempo nos anos 70 e o dono, um gorducho que anda com as calças caindo (o que o deixa com quase meia bunda de fora) decidiu que era hora de renovar o lugar.

Assim, ele colocou uma catraca eletrônica na porta da padaria.

Agora, para entrar no lugar, você precisa apertar um botão e pegar sua comanda. Tudo será marcado nela. Na hora de ir embora, você entrega a comanda – antes era um pedaço de papel no qual os atendentes escreviam em hieróglifos – para a mulher do caixa, e vai embora passando pela outra catraca.

Nada mais foi feito. Agora, ao invés de ser uma padaria dos anos 70, ela é uma padaria dos anos 70 com uma catraca eletrônica.

E aparentemente o dono acha que aquilo resolveu, e que agora ele tem a padaria mais moderna do bairro. As catracas se tornaram o monólito da padaria – qualquer dia, vou descobrir o dono ajoelhado em cima delas, (ainda com meia bunda de fora) ouvindo Assim Falou Zaratustra e jogando uma das comandas para o alto, na esperança de que ela vire uma nave especial (a aurora do home mode: on).

O problema é que os funcionários não acompanharam a evolução que a padaria transformou, e não sabem como usar as comandas. De cada dez vezes que você vai à padaria, em pelo menos nove delas algo vai estar errado na sua comanda (a outra vez não vai tinha nada errado porque a padaria estava fechada).

Vou dar um exemplo. Você compra seis pães, um litro de leite e vai até o caixa. A mulher passa a comanda e confere o pedido com você.

- Seis pães. Um litro de leite. Um chevette 84.

- Oi?

- Seis mil e sete reais.

- Oi?

- Um litro de leite. Seis pães. Um chevette 84.

- São só os pães e o leite.

- Ah.

- Deve ser sete reais.

- O chevette não?

- O chevette não.

- Sete reais.

Aí você paga e não vai embora, porque a catraca da saída está sempre travada.

Agora, junte isso com a mulher que contrataram para ficar no caixa pela manhã, e o resultado é quase um dossiê sobre a ineficiência humana.

Antes de continuarmos, eu preciso apresentar esta mulher. No primeiro dia dela no trabalho, eu fui até lá comprar cigarro. Encostei ao balcão e pedi um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era maço ou caixa. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era Light. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era o Blue Ice. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era maço. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha. Ela perguntou se era um só. Eu respondi que era um Marlboro vermelho de caixinha.

E ela me deu um Trident de canela.

Suspirei e comecei tudo de novo. Na terceira vez, quando eu já estava debruçado no balcão apontando para o cigarro e implorando que por favor, eu tenho um monte de coisa para fazer e eu preciso ir embora, consegui ser atendido.

Curiosamente, este parece ter sido o ponto alto na carreira da mulher do caixa. Foi o ápice de sua vida profissional. Pois, de lá para cá, as coisas só pioraram.

Ontem eu fui comprar cigarro. Pedi um Marlboro vermelho de caixinha. Ela olhou ao redor procurando algo vermelho e fixou os olhos no Trident. Mas eu já estava pronto.

- Não, não quero esse Marlboro de mascar. Eu quero o outro, o de fumar.

E dei o dinheiro do cigarro e a comanda. Sim, porque graças à inovação tecnológica da padaria, você precisa de uma comanda mesmo que vá direto ao caixa. É uma comanda que serve apenas para você gastar mais tempo, já que a mulher precisa passar a comanda apenas para ver que não tem nada lá. Ou, ao menos, não teria mais nada lá.

Mas não é o que acontece.

E não é o que aconteceu ontem.

Ela passou a comanda e uma lista de produtos que parecia a compra do mês de uma família de quatro pessoas cujo pai acabou de receber um bônus no trabalho pulou na tela. A mulher olhou tudo com calma e olhou para o dinheiro que eu havia dado, suficiente para pagar o cigarro.

O cérebro dela detectou um erro. Algo ali não estava batendo. O dinheiro era suficiente para comprar o cigarro. O careca havia pedido um cigarro. Mas a comanda dizia mais coisas. A comanda dizia que eu estava mentindo. A comanda parecia estar certa. A comanda dizia o nome de produtos e mais produtos de forma confiante. Talvez fosse melhore ouvir a comanda. A comanda é uma máquina e máquinas não erram.

Ela já tinha a posição da comanda sobre o assunto. Com base nisso, era hora de me interrogar.

- Esses coisa nas comanda é seu?

Eu precisei de alguns instantes para entender o que ela estava falando. Se existisse um mundo povoado somente por erros de concordância, a frase dela seria o correspondente a Pequim, com uma densidade demográfica absurda e erros de concordância amontoados um em cima do outro, sem a menor qualidade de vida.

- Oi?

- Esses coisa nas comanda é seu?

- Não. Eu quero apenas o cigarro.

- Aqui diz um monte de coisa.

Certo. Agora era a palavra da comanda contra a minha. Assim, resolvi usar o fato de que a catraca fica exatamente na frente do caixa, a menos de um metro de distância de onde a mulher fica.

- Olhe, eu acabei de entrar na padaria. Você me viu entrando na padaria?

- Vi.

- Você viu que eu peguei a comanda, entrei na padaria e vim direto para cá falar com você?

- Vi.

- Você viu que eu dei a comanda para você assim que encostei aqui e pedi um cigarro?

- Vi.

- Essas comandas não dão problema o dia inteiro?

- Vi.

Eu não esperava um “vi”, mas um “sim”. Entretanto, achei que discutir isso a esta altura do campeonato seria preciosismo e serviria apenas para distrair a atenção da mulher do caixa, que já se agarrava ao meu raciocínio com dificuldades, como um alpinista que se segura a uma corda debaixo de uma nevasca.

- Então... essas coisas não são minhas. Eu quero apenas o cigarro.

- E a manteiga?

- Que manteiga?

- Aqui tem uma barra de manteiga.

- Não. Olhe, eu não tenho manteiga alguma. Eu nem trouxe carteira ou celular. Eu só quero o meu cigarro e ir embora.

- Mas e a manteiga?

- Eu não comprei manteiga alguma.

- Você consumiu isso aqui?

- Isso o quê?

- O que está na comanda. A manteiga. Você consumiu?

- Você enlouqueceu? Quem consumiria uma barra de manteiga assim?

- A comanda diz que sim.

- Olhe, eu não comi uma barra de manteiga.

- Mas a comanda...

- Você conhece alguém que comeria uma barra de manteiga?

- É que a comanda diz...

- Esquece a comanda. Olhe para mim. Se eu tentasse consumir uma barra de manteiga aqui na padaria, eu estaria deitado no chão e sofrendo um ataque cardíaco neste momento. Mas não, eu estou vivo e de pé.

- É.

Tenho certeza de que o “é” dela se referiu somente à parte mais visível da minha frase (“estou aqui de pé”). O arquivo com a imagem do Rob Gordon deitado no meio da padaria, sofrendo uma parada cardíaca e com o rosto lambuzado de manteiga, se perdeu e nunca foi sequer renderizada no cérebro dela. Aproveitei e joguei mais confusão na frente dela.

- A não ser, claro, que eu não tenha exatamente comido a manteiga. Você nunca assistiu a O Último Tango em Paris?

- Oi?

- Marlon Brando. Sabe?

- Oi?

Era hora de simplificar as coisas.

- Nada. Esquece. Vamos começar de novo. É só um Marlboro vermelho de caixinha.

- Você consumiu a manteig...

- Não.

- Nem a torta de coc...

- Não.

- Os oito pão.

- Não.

- A comanda então está errada.

- Sim. É só o cigarro.

Ela estava com o cigarro na mão. Ao invés de me dar, largou a comanda e virou de costas para procurar onde ficam os Marlboro vermelhos de caixinha. Eu resolvi ajudá-la.

- Pode me dar esse mesmo que está na sua mão.

- Ah.

Ela deu, eu agradeci e saí da padaria, onde me encostei a uma parede e fiquei meia hora rindo. Ela certamente está até agora pensando que foi enganada em algum momento, mas não faz ideia de onde.

A próxima vez que eu for até à padaria, vou pedir uma manteiga vermelha de canela e ver o que acontece.

5 comentários:

Elise Garcia disse...

"- A não ser, claro, que eu não tenha exatamente comido a manteiga. Você nunca assistiu a O Último Tango em Paris?

- Oi?

- Marlon Brando. Sabe?

- Oi?"

Rob, eu não assisti esse filme e rolei de rir pensando na cara de "tela azul da morte" que ela deve ter feito, porque eu saquei na hora que diabo de cena deve ser essa!

E POR FAVOR, peça uma manteiga vermelha de canela e poste aqui o resultado depois... :D

Lilian Silva disse...

E eu só consigo pensar na música que o Didi Mocó cantou dizendo que o Marlon Brando 'mantegô a Maria Xinaida'. HAHAHAHAHAHAHAHAH

Carolina Azevedo disse...

" O arquivo com a imagem do Rob Gordon deitado no meio da padaria, sofrendo uma parada cardíaca e com o rosto lambuzado de manteiga, se perdeu e nunca foi sequer renderizada no cérebro dela. "

HAHAHAHAHAHAHAAH

E POR FAVOR, peça uma manteiga vermelha de canela e poste aqui o resultado depois... :D [2]

Varotto disse...

Eh, bicho ruim!

Fernanda disse...

Dei muita risada aqui com a história, mas sinceramente, SETE REAIS por seis pães e um litro de leite é um assalto, um absurdo!!! Agora, esse chevetinho aí, de que ano era mesmo?