21 de janeiro de 2014

Contos Proibidos do Pornógrafo da Vila Mariana



Existem mais mistérios entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia.

Mas claro que Shakespeare escreveu esta frase pensando somente nos mistérios que cercavam o palácio de Hamlet. Se o bardo vivesse aqui perto de casa, certamente ele teria conhecido o Pornógrafo e escrito uma peça inteira sobre isso – provavelmente, com todos os mistérios que existem entre e o céu e a Terra como personagens, debatendo e analisando o quanto o Pornógrafo da Vila Mariana é desconectado da realidade.

O Pornógrafo é uma das pessoas mais estranhas que eu já vi. E olhem que eu manjo de pessoas estranhas, especialmente depois de morar cinco anos em Pinheiros. Mas, o Pornógrafo é outro tipo de estranho. Ele não é estranho cool como as aberrações de Pinheiros, que usam roupas da moda atual de Madagascar, ou se alimentam de insetos alegando que é a mania gastronômica de Nova Delhi são besouros gourmet. Não, o Pornógrafo não lida para aparência. Em Pinheiros, ele seria estranhos mesmo entre os estranhos.

Não que aqui ele não é estranho. Sua estranheza é autossuficiente, e funciona em qualquer lugar. Mesmo se você colocá-lo sozinho dentro de uma sala, ele claramente será o elemento mais deslocado do local.

Evidentemente, ele foi uma das primeiras pessoas que vi quando vim morar aqui. Isso porque é impossível não vê-lo, já que ele fica o dia inteiro indo da sua casa – que é uma espécie de asilo na rua de baixo – para a padaria, e voltando para casa e indo para a padaria e voltando para a casa. Às vezes, me pergunto se ele não é uma pessoa, mas sim uma espécie de entidade condenada a vagar por este trajeto por toda a eternidade.

O fato é que ele está sempre perdido neste espaço entre asilo e padaria. Indo e voltando – ou, às vezes, os dois: uma vez fui até a padaria e ele estava voltando; comprei, paguei e, quando saí, ele estava entrando na padaria. Acabou de me ocorrer que talvez o Pornógrafo tenha sido clonado, ou se tratem de vários alienígenas semelhantes ao olho humano, infiltrados aqui no bairro.

Por outro lado, ninguém clonaria uma pessoa com as roupas do Pornógrafo. E uma espécie alienígena com conhecimento suficiente para viajar pelas estrelas jamais usaria as roupas do Pornógrafo. É fácil descrever as roupas do Pornógrafo, já que ele usa as mesmas desde que eu vim morar aqui. A saber:

- Uma camisa florida, ideal para um baile do Havaí.

- Calças brancas que vão até a metade da canela (sem meias), ideal para pular carniça.

- Sapato preto gasto, ideal para ficar indo do asilo até a padaria, da padaria até o asilo, do asilo até a padaria, da padaria até o asilo.

Caso você ainda não tenho conseguido visualizar o Pornógrafo, eu ajudo com um elemento essencial: ele é uma versão estragada do Karl Malden (Sindicato de Ladrões, Uma Rua Chamada Pecado, alguém?), com o mesmo nariz de batata, a mesma calvície que fica sempre na ameaça.

Mas serei sincero. Até aqui, o Pornógrafo é apenas uma pessoa feia, que se veste mal e fica andando pelo bairro, certo? Certo.

O grande detalhe do Pornógrafo é sua sacolinha. Seja indo ou voltando, o Karl Malden da Vila Marina está sempre com uma pequena sacola de plástico preto nas mãos. Sempre. Durante meses, eu cruzava com ele nas ruas e controlava a curiosidade de perguntar o que diabos ele carregava para cima e para baixo, segurando com cuidado como se fosse um tesouro.

Mas eu sempre olhava de relance para a sacolinha, tentando decifrar pelo tamanho e formato o que ele carregaria ali. Armas? Documentos secretos? Mapas da Vila Mariana com alternativas de trajeto entre o asilo e a padaria? Fotos comprometedoras dos habitantes do bairro? Recordações de seu planeta natal? Um pão?

Tudo o que eu pensei estava errado.

Dia desses, ele estava ali no ponto de táxi perto da padaria – o Karl Malden é um estranho bem sociável e faz amizade com diversas pessoas em seu trajeto – batendo papo com os taxistas e tirando coisas da sacola. Atravessei correndo – quase fui atropelado no percurso – para passar pelo lado dele. E, quando me aproximei, reduzi a velocidade para olhar com calma o que havia na sacola preta.

Eram DVDs.

Não. Eram DVDS piratas.

Não. Ainda não. Eram DVDS piratas de filmes pornográficos.

Ele estava mostrando os DVDs aos taxistas, contando que este aqui é bom porque tem aquela loira. Este aqui tem a loira de novo, e com dois caras. Este outro aqui tem um anão, não sei se você gosta. E este aqui tem a loira, mas tem uma cena com outra mulher e um pônei.

Pornografia pura. Em alguns casos, em níveis fellinianos. Em casos mais extremos, parecem ser filmes que Calígula iria preferir a edição de colecionador, com extras, comentários em áudio e cenas excluídas.

É isso. O Karl Malden, na verdade, é um Marquês de Sade vilamarianístico, que anda pelo bairro disseminando seus Contos Proibidos pela população, sempre com suas roupas estranhas, suas calças pula-brejo e seu nariz de batata.

Eu tenho certeza que, em séculos, o Pornógrafo da Vila Mariana será lembrado como um gênio, quase um Larry Flint do Terceiro Mundo. Isso, claro, se o padre da Igreja na frente da padaria – e cujo ponto de táxi fica ao lado – não descobrir que o Pornógrafo está ali, contribuindo com a divulgação de pornografia bizarra.

Mas, se o padre ficar sabendo...

Olhe, eu juro que quero estar perto para ver. Vai ser divertido. Prometo postar aqui.

Atualizado: atendendo a diversos pedidos no Facebook e Twitter, consegui uma foto do Pornógrafo. Evidentemente, ele está de costas (esta banca fica ao lado da padaria), já que mesmo ele sendo um clone, um alienígena ou somente um louco, o advogado dele deve ser melhor que o meu. Mas já dá para ter uma ideia.

Clique para ver inteira, e repare nas calças de pular brejo. Peço desculpas pela ausência da camisa "Baile do Havaí", mas foi o que deu para conseguir. Aparentemente, esta será a camisa que ele usará este ano. E como a Esposa lembrou bem, nos comentários, vale dizer que ele usa sempre os três botões de baixo abertos.


A sacolinha mudou de cor - agora é verde - mas seu conteúdo é o mesmo, com produções audiovisuais mostrando criaturas de diferentes espécies mantendo relações sexuais com deformidades diversas.


5 comentários:

marcio sibucks disse...

Muito bom. Em todo lugar que se vá, sempre existe alguma figura peculiar e curiosa - na minha cidade tem o Paulao, esquizofrênico, de quem todos ou sentem medo, ou dó, ou os dois.

Ana Claudia Savini disse...

Faltou você contar que entre a padaria e a casa dele fica a nossa casa, ou seja, dar de cara com ele em frente de casa é básico.
E que antes da camisa florida ele usou durante anos, e digo anos porque ele já morava por aqui quando vim pra cá há 8 anos atrás, uma camisa branca fechada do pescoço até o peito. O resto estava sempre aberto mostrando a barriga (ele é magro). E era sempre a mesma camisa branca (a calça branca era a mesma de hoje.
E que uma vez na padaria, antes da descoberta dos filmes pornôs, ele quis ser galanteador me ajudando a pegar uma garrafa de coca na geladeira (iiiiiiiiiiiiirrrrc mode:on),

Ricardo Wagner disse...

Provavelmente é saudades dos tempos em que a pipa do vovô subia.

Agora só pode ver em DVD, pois evidentemente é "viúvo" daquelas coleções de pornô que saíam em VHS nas bancas anos atrás.

(só de mencionar VHS percebi que são muitos anos...)

Juba disse...

Rob, lembrei de um micão: há alguns anos, fui com um bando de amigas conhecer um sex shop. Era um bem trash, todo roxo, em Moema. Daqueles que tem cabine de ver filme, ambiente mega estranho. Dei de cara com um vizinho, pai de uma amiga. Ele perdeu completamente a cor, ficou paralisado. Eu fingi que não o tinha reconhecido, chamei o bando para ir embora. Mas fiquei meses constrangida quando o via.

Luciana disse...

nooossa, que mundo pequeno. Por uns bons anos morei na casa do lado dessa padaria, quase em frente à banca. Sempre vi esse tiozinho circulando por ali, achava a figura estranhíssima (sempre de calça branca! hehe), mas pornografia nunca imaginei, imaginava que ele fazia jogo do bicho ou algo assim. Tenho saudades desse lugar, é um bairro muito bom.