24 de novembro de 2012

O Dia em que Meus Pais Ganharam na Loteria


Eu devia ter por volta de dez anos.

Nesta época, meu pai jogava religiosamente toda semana na loteria. Aliás, pelo que sei, ele ainda faz isso. E, a bem da verdade, eu não consigo me lembrar de uma época sem meu pai fazer sua aposta toda semana.

Como ainda não existia a Megasena, ele jogava sempre na Loto – que hoje, acredito, é chamada de Quina ou algo parecido – e na Loteria Esportiva. Na Loto, ele apostava sempre nos mesmos números; já na Loteria Esportiva, ele sempre trazia um volante da lotérica para mim. Como sempre gostei de futebol (paixão que, por sinal, devo a ele), ele fazia duas apostas: uma minha e a outra dele.

Mas nunca imaginei que iríamos ganhar nada. Claro que às vezes ele chegava a ganhar algum dinheiro – posso estar enganado, mas se não me engano ele chegou a fazer a “trinca” na Loto mais de uma vez – mas nada que mudasse a nossa vida.  Para mim, as apostas eram apenas um ritual do meu pai, um passatempo, e não uma forma de ganhar dinheiro.

Tudo mudou num domingo à tarde.

Com a combinação dos resultados da rodada, nós fizemos 12 pontos na Loteria Esportiva. E não fizemos os 13 pontos somente porque um dos jogos – eu não lembro quais os times, mas a memória insiste para mim que eram times do Nordeste – havia sido adiado. Ou seja, havíamos feito 12 pontos em 12 jogos.

Não sei como as coisas funcionam hoje, mas, naquela época, quando isso acontecia, o jogo adiado tinha um resultado sorteado, somente para não acabar com o concurso (para efeitos de campeonato, o jogo era disputado na primeira data possível). O sorteio normalmente era na segunda-feira, lá pela hora do almoço.

Não sei como meus pais foram dormir naquela noite. Mas eu, no meu quarto, não me continha de ansiedade.

Dentro da minha cabeça, estávamos a um ponto de ficarmos milionários. Isso significaria, para mim, brinquedos e revistas em quadrinhos novos todos os dias.  Com certeza, eu teria dinheiro para comprar minha carta de alforria e nunca mais precisar ir à escola – ou, ao menos, pagar para outras crianças assistirem às aulas e fazerem as provas em meu nome.

Provavelmente, devo ter lido meia dúzia de histórias do Tio Patinhas antes de dormir, para descobrir se ele ensinava como nadar em moedas, já que até o final da semana eu teria a minha própria caixa-forte.

No dia seguinte, perto da hora do almoço (cabe dizer aqui que não sei o que eu estava fazendo em casa a essa hora; o mais provável é que eu estava de férias, pois caso eu tivesse assumido que era milionário e decretado não ir nunca mais à escola, minha mãe teria me obrigado a comer o comprovante da aposta) minha mãe desceu as escadas sorrindo.

O sorteio havia acabado de acontecer e nós havíamos feito os 13 pontos.

Estávamos ricos. Estávamos milionários.

Ela ligou para o meu pai contando a notícia enquanto eu, ao lado dela, já pensava qual casa do bairro iria comprar para montar minha caixa-forte.

E passei a tarde pensando na minha futura vida. Em quais todos os jogos de videogame eu compraria na mesma noite, em quais todas as revistas em quadrinhos eu compraria assim que saísse de casa, em quais todas as bolas de futebol eu compraria. E imaginando minha caixa-forte, com uma sala de videogames, uma sala de histórias em quadrinhos e um campo de futebol oficial para eu jogar com meus amigos. E seguranças contratados para impedir que o dinheiro fosse roubado e que meu irmão colocasse os pés lá dentro.

Meus sonhos, claro, foram interrompidos quando chegou a notícia de que aquele concurso era o recordista de ganhadores. Pelo que lembro, mais ou menos 75% da população da galáxia havia feito os 13 pontos. E o prêmio, claro, seria dividido entre todos. Ô fase.

Lembro com exatidão do valor que cada um ganharia: CR$ 60.000 (se você é novo é não reconhece esse “CR$”, saiba que estamos falando de cruzeiros).

Isso, hoje, daria em torno de uns R$ 300,00. Sim, isso mesmo. Não me esqueci de zero nenhum. R$ 300,00.

Meus pais, claro, continuaram felizes com a novidade e começaram a planejar o que fariam com o dinheiro: se levariam a família para jantar, se comprariam algo para casa. Eu sugeri que comprássemos uma arma e matássemos todos os outros ganhadores, mas sequer me ouviram (caçula mode: on).

Alguns dias depois, meu pai foi buscar o prêmio, em alguma agência da Caixa. Entrou no banco, pegou o dinheiro e voltou para o carro. Era um Gol branco (uns dois anos depois, meu pai quase morreria num acidente com esse carro) e começou a manobrar, de ré, para sair do estacionamento.

Mas no meio do caminho havia um toco de árvore.

Havia um toco de árvore no meio do caminho.

Não deu outra: sem ver o toco de árvore no retrovisor, meu pai enfiou o carro no tronco, amassando toda a traseira do pequeno Gol branco. Ali mesmo na porta do banco, com o dinheiro da loteria no bolso.

No dia seguinte, levou o carro para o conserto, que foi orçado em CR$ 80.000.

Dias depois, o carro estava novo em folha. E nós estávamos CR$ 20.000 mais pobres.

Então, se você lê meu blog e às vezes se pergunta de onde vem meu azar, pense nisso: a única vez que minha família ganhou na loteria, nosso prêmio foi perder CR$ 20.000.

Azar não está ligado a destino, karma, acaso.

Nada disso.

Azar é genético. 

23 comentários:

Ricardo Wagner disse...

Penso que tenha relação com a pimenta.

Bia Nascimento disse...

Demais, Rob! hahahahah

Ana Claudia Savini disse...

Preocupada com nossos futuros filhos...

Juliana Canoura disse...

Hahaha mas a história com certeza não seria tão boa se vocês tivessem ficados ricos! rs

Muito bom,Rob

Adorei

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Ai Rob, não sei nem o que dizer, mas não consigo parar de rir!!! hahahahahahahahah

Eu estou com tanta história de azar, que acho que além de genético, é transmissível, porque sério, desde que voltei de SP, ta feia a coisa!!!

lol

Varotto disse...

Ô coisa sem futuro!

Lu disse...

nossa! deve ter sido o mesmo sorteio que meu avô ganhou então! haha
alguns anos mais tarde ele ganhou mais uma mixaria com uns números que eu marquei pra ele... e ele se considerava um sortudo, por passar tão perto duas vezes! :)

Michele disse...

hahaha

é, azar é genético

Sil disse...

Desculpe - me querido mas eu ri mito agora ;)

Juju disse...

hahahahaa, acho que meu pai tb ganhou esse meu sorteio aí! =P

Carol Campos disse...

Muito bom! kkkkkkkk Aí eu lembro da frase que a minha mãe sempre diz: Sorte ou azar? Só o tempo dirá! hahhhaha
http://www.doceilusao.com/

Rob Gordon disse...

Ricardo Wagner:

Olha, talvez. Quem sabe?

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Bia Nascimento:

Valeu!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Ana:

Não tem o que se preocupar. Eles serão azarados, ponto.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Juliana Canoura:

Isso é verdade. Já que acabamos perdendo grana, ao menos ganhei uma boa história.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Pedro:

Sorry - eu já ouvi falar que é transmissível, mas jamais quis contaminar algum amigo.

Abraços!

Rob

Rob Gordon disse...

Varotto:

Sem futuro e com um passado desses.

Abraços

Rob

Rob Gordon disse...

Lu:

Olhe, se bobear, é o mesmo concurso, sim, porque teve MUITA gente que ganhou dessa vez.

Rob

Rob Gordon disse...

Michele:

Não tenha dúvidas disso.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Sil:

Não tem problema. Não é a primeira vez que alguém pede desculpas por rir de mim, e duvido que seja a última.

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Juju:

Mas espero que ele tenha conseguido buscar o prêmio sem perder grana no meio do caminho!

Beijos!

Rob

Rob Gordon disse...

Carol Campos:

Olhe, não sei se foi sorte ou azar (quer dizer, eu sei que foi azar - ou, ao menos, acho), mas pelo menos o tempo transformou isso em uma boa história.

Beijos!

Rob

Adão Filho disse...

hahahahaha MEU DEUS QUE HISTÓRIA