27 de dezembro de 2010

Feitiço Havaiano - Parte I

Vou explicar a vocês a diferença entre propaganda e realidade.

Imagine a Giovanna Antonelli ou o Reynaldo Giannechini entrando numa loja de havaianas à beira da praia. As paredes do estabelecimento são cobertas por havaianas, de todas as cores e modelos. O(a) vendedor(a) é lindo(a) e atende a pessoa maravilhosamente bem. Logo, uma pequena gracinha dá um toque de humor ao filme, e o logo das havaianas explode de forma multicolorida na sua frente.

Isto é uma propaganda.

Antes de continuarmos, deixe-me dizer que vou viajar no réveillon. Vou para Paraty, destino que dez entre dez personagens ricos de novelas da Globo passam os finais de semana. Vamos em quatro: eu, Sra. Gordon e um casal de amigos. Promete ser o máximo – especialmente em termos de risadas – mas, toda viagem, os preparativos são a pior parte.

No meu caso, os preparativos incluem comprar coisas para a viagem, arrumar as malas e deixar o Besta-Fera na casa da minha mãe, onde ele passará o Ano Novo ao lado dos meus pais e do gato da minha mãe. De acordo com as bolsas de aposta da família, uma vitória do Besta-Fera no duelo vindouro está pagando 4 para 1 (uma vitória do gato, que também não é nenhum exemplo de coragem, mas conta com a vantagem de conhecer o território, para 3 para 1).

E, claro, comprar o maldito chinelo.

Isso porque faz semanas que a Sra. Gordon está falando que eu preciso comprar um chinelo para a viagem. Veja bem, eu não uso chinelo, eu sou bicho de cidade. Eu uso tênis. Ah, e dentro de casa? Dentro de casa eu fico descalço (quando está calor, porque quanto está frio, fico de tênis). Expliquei isso para ela.

– Mas nós vamos até a praia. Você não vai de tênis na praia.

– Eu vou descalço.

– Mas a areia é quente.

– Aí eu refresco os pés na água. Se eu não me engano, toda praia tem água. Lembro de ter escutado algo assim na escola. E a água serve para isso.

– Rob?

– Eu.

– Você vai comprar um chinelo.

Se fosse um debate político, o tom de voz dela não teria dado possibilidade de o mediador falar algo como “candidato Gordon, sua tréplica?”. Pelo contrário, ele teria se virado para mim e dito algo como “é, candidato: fudeu”.

Resignado, comecei a pensar sobre chinelos. A minha implicância com chinelos é histórica. Eu tive uns dois ou três pares quando criança, e só. Assim, comecei a pensar sobre chinelos e descobri que minhas opções não eram muitas.

A primeira delas era aquele modelo tipo Rider, que eu descartei logo de cara. Existem dois tipos de pessoas que usam chinelos Rider: aposentados e gordinhos losers. Preste atenção na rua. Todo gordinho loser que você vê na rua – aquele que tem cara de quem apanha do resto da turma o dia todo e que vai dar o primeiro beijo na boca com uns dezenove anos usa aquele chinelo Rider.

Ou seja, eu, como sou gordinho e velho, poderia muito ser confundido tanto com um loser quanto com um aposentado.

Não, o Rider definitivamente estava fora.

O que me deixava com somente outra opção: as malditas havaianas.

Em primeiro lugar, eu acho aquilo desconfortável demais. Não me conformo com aquelas pessoas que dizem que havaianas são confortáveis. Não são. Você tem que andar pela rua com uma tira de borracha enfiada no meio dos dedos, em algo que contraria totalmente a natureza (alguém realmente acha que Deus pensou algo como “vou deixar um espaço maior entre estes dedos aqui, por causa do chinelo”?).

E, em segundo lugar, eu tenho 35 anos. Qualquer pessoa da minha idade sabe que hoje em dia as modelos internacionais usando havaianas quando passam suas férias em St. Barth é fruto de uma jogada de marketing genial da empresa, já que, coisa de vinte anos atrás, as sandálias havaianas eram usadas somente por pedreiros, e vendidas em supermercados. E mesmo os donos de supermercado não pareciam muito felizes em vender aquilo, deixando os chinelos expostos num local não muito visível – sempre na parte inferior das prateleiras, no corredor menos visitado do local.

Tentei argumentar isso com a Sra. Gordon, mas foi em vão. Inclusive, este ano eu nem escrevi carta alguma para o Papai Noel, pois era capaz de ela pegar a carta escondida, rabiscar todo o texto e escrever “ELE QUER UM PAR DE CHINELOS!!!!!” por cima.

Ou seja, derrota total.

Assim, hoje pela manhã acordei, peguei meus tênis pretos, ideais para se andar na cidade, e disse a eles que precisávamos conversar. Sentei-me com eles no sofá e expliquei que eu vou ter que comprar chinelos para a viagem, mas que eu ainda gosto muito deles, e que eles vão comigo na viagem, e sempre que possível vou dar uma escapadinha com eles em Paraty, para eles conhecerem a praia.

E, como agora à tarde eu estava no Shopping Paulista, resolvi comprar os chinelos. Dei uma olhada nas vitrines e não vi chinelo algum. Na verdade, vi um par, mas desisti de comprar porque a etiqueta de preço que estava ao lado dele não se referia aos chinelos em questão, mas provavelmente a todos os produtos da vitrine somados.

Sério, como um chinelo pode custar isso?

Desta forma, tentando fazer a conta de quantos meses um pedreiro precisa trabalhar para comprar uma havaiana, fui embora do shopping, certo de que resolveria o problema antes de voltar para casa.

Realmente, em menos de cinco minutos, encontrei um lugar que vendia havaianas.

Lembrem-se do exemplo de propaganda que apresentei no começo do texto?

Então, agora imagine o Rob Gordon entrando numa loja para comprar o maldito chinelo. A loja está lotada, e cada pessoa segura uma sacola em uma mão e uma criança na outra. As crianças berram, choram e mexem em tudo. Os vendedores são tão atenciosos e carinhosos quanto um porco-espinho assustado. Enquanto Gordon desaparece no meio da multidão, a câmera, ainda da calçada, sobe um pouco e focaliza o logo do estabelecimento.

As palavras Americanas Express surgem à sua frente. Em vermelho. Vermelho-sangue. Vermelho-inferno

Isto, evidentemente, é realidade.

(Continua aqui)



17 comentários:

Otavio Oliveira disse...

Não vai aparecer a Fernanda Lima ou a Daniele Suzuki ne? droga.

Ana disse...

Mano, vai no Pão de açúcar e compra uma havaiana do seu número.
É fácil.

Aiai, esses homens...

Mari Hauer disse...

Mano, como assim a Sra. Gordon não te deu uma Havaiana de Natal? Certeza que ela não fez isso pra vc sofrer um pouco e sanar seu trauma! HAHA... Nem é tão ruim assim comprar Havaianas, vai... vc escolheu o pior lugar do mundo só pra ter o que contar, vai dizer!

Pedro disse...

Rob, recomendo que dê uma passadinha no Rio de Janeiro e compre uma Hawaiana numa loja. Aqui vende em qualquer esquina.

Boa sorte.

Renata Santos disse...

Ainda bem que vc, apesar de não ser usuário de chinelos, sabe que Rider é o fim do mundo. Equivale a celular pendurado no cinto. Cafona pra caramba!

Natalia Máximo disse...

"vermelho-inferno". Essa é a expressão que busquei por toda minha vida

bruna disse...

americanas express? dá para comprar um ps3... só uma sugestão de diversão para o feriado, caso você não compre as havaianas e tenha que passar o reveillon sozinho na cidade. e o olha só, você poderá ficar de tenis.

M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. disse...

E vc iria de tênis no trajeto 'lugar que você esta hospedado' - 'praia' ??
Ou descalço pelas ruas de pedrinhas?
(nao sei se acho bom a Sra. Gordon ter mandado vc ter comprado o chinelo, ou se gostaria de saber como seria sem eles...)

Dani disse...

Aqui no Rio andamos de havaianas pra tudo quanto é lado: shopping, faculdade, cinema... E olha que sou paulista, hein!

.a que congemina disse...

ahahaha!
Tadinho!

Eu só ando de tênis, porque 1) tenho horror a pés sujos, 2)meus pezinhos são a frescura personificada e se machucam à toa e 3)eu quero.
Mas, de fato, praia pede chinelo.
Em Brasília, onde morei por alguns anos, me espantava com as havaianas na universidade, no shopping, nas festas. Acho muito estranho.

Aora, Rob, pense nos seus tênis pretos, perfeitos pra andar na cidade. Eles ficariam úmidos e se encheriam de areia e aí, brother, seria o caos!

Hydrachan disse...

Ai, sou viciada em chinelo! rsrsrs
Sério... Eu chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o sapato e calçar o chinelo.
Mas entendo seu problema. É o mesmo que sinto com relação ao salto alto. E as lojas de sapato não são muito diferentes disso aí... =P

Fabi disse...

Sou team Havaianas, apesar da paranóia com limpeza.

Mas morro um pouquinho toda vez que preciso comprar roupa, então me solidarizo. (Por "preciso" leia-se quando-o-último-par-de-meias-ficou-inutilizável).

cinemafranco.com disse...

Rapaz, pra praia não tem jeito, tem que ser havaiana. Você se esqueceu de mencionar o assobio que as Riders fazem quando molham. Cada pisada que eu dava quando tinha uma era uma olhada pra trás, indignado, crente que algum espírito me estorvava. Ia te sugerir uma Kenner, chinelo gostoso de calçar, mas é mais caro que essas havaianas, que ainda não compreendo o porque de tão alto valor.
Não vou falar que gostei do seu texto, porque gosto de todos. Desculpa.

Eric Franco disse...

As vezes eu acho que você faz de propósito só pra ter assunto nos posts :P

Eles vendem Havaianas no Pão de Açúcar, inclusive naquele da Teodoro. :P

Lilian disse...

dramático.

=P

Varotto disse...

Deixa de ser exagerado, porra!

Primeiro: você pode até não estar acostumado e nem achar tão confortável assim, mas dizer que não entende como uma pessoa pode achar havaianas confortável, é coisa de criança que está sendo obrigada a fazer o que não quer e fica inventando um monte de defeitos.

Segundo: Dizer que um pedreiro não pode comprar havaianas porque é cara é coisa de criança que está sendo obrigada a fazer o que não quer e fica inventando um monte de defeitos [2]. Obviamente isso aqui no Brasil, porque lá fora neguinho mete a mão mesmo (porque está na muóda), e também excluíndo-se aqueles modelos cheios de frescuras com filigranas em ouro, para a mocinha rica poder se sentir diferente do povão.

Enfim, toma jeito e para de reclamar!

P.S.: Rider é muito escroto mesmo...