23 de outubro de 2007

Mogli e as Chacretes

Independente da realização da Mostra de São Paulo (veja post anterior), andar pela Avenida Paulista, especialmente aos domingos, é um verdadeiro tratado de zoologia. A cada quarteirão, você descobre uma espécie biológica ainda não catalogada pela ciência, bem como umas quatro opções sexuais totalmente inéditas no planeta. Nada contra as opções de cada um, mas eu não me espantaria se um dia, andando por ali, eu desse de cara com uma hiena-verde-polar andando de mãos dadas com uma jaca albina.

Justamente por isso que toda vez que eu vou para a Paulista, de domingo, já vou consciente de que verei algo estranho até o final do dia.

Mas nada poderia ter me preparado para o que eu vi neste domingo.

Quem já foi à Paulista sabe que há um Bob’s, ali, perto do Center 3. E quem já entrou neste Bob’s sabe que existe uma área aberta, uma espécie de pátio, atrás da lanchonete. Acredito que aquilo seja um dos campos de teste de Deus, pois eu já havia encontrado ali, em outros domingos, alguns experimentos divinos frustrados, como uma menina que dormia praticamente dentro de uma mochila enquanto sua amiga lia poesia russa aos berros.

Neste domingo, estava com a sra. Gordon e, armado de um milk shake de Ovomaltine (bem batido, sempre, e foda-se a dentista que disse que eu não posso tomar gelado) fui para o pátio, ver as novas brincadeiras de Deus. Ao colocar os pés no local, uma surpresa: cerca de 20 jovens de aparência (vagamente) humana, mantidos em cativeiro no lugar, caminhavam pelo espaço, conversando, dando risada e dançando.

Sim. Dançando.

Uma meia dúzia deles estava numa espécie de escada que tem ali, fazendo coreografias. Não estou falando de meninas de 12 anos, ou de uma equipe de aeróbica, mas de homens e mulheres com idades em torno de 18 ou 20 anos fazendo coreografias no melhor estilo chacrete de ser, ao som de uma música ruim que saía de um aparelho (provavelmente CCE) tosco colocado ali do lado. Assim, como se fosse a coisa mais normal do mundo; como se estivessem na sala da casa (com as cortinas fechadas, óbvio), todos eles faziam os mesmos passos, liderados por uma menina de cabelos presos – que, depois de uns 10 minutos, apareceu do nada com um leque e o incorporou aos seus movimentos.

Todos, menos um cabeludinho magrelo, que era a cara do Mogli (a hora que eu percebi isso não conseguia nem respirar mais direito de tanto que ria; sem sacanagem, ele era mais parecido com o Mogli que o próprio Mogli) que conseguia a proeza de errar tudo. Enquanto as pessoas levantam o braço direito, ele chutava o ar com a perna esquerda; os dançarinos pulavam para frente, ele batia palmas. Tratava-se claramente de uma pessoa que não conseguiria andar e falar ao mesmo tempo, mas tinha o sonho de vencer na vida através da dança. Pobre Mogli.

A idéia era ele dar um pulo para a direita,
bater palmas e virar a cabeça para a esquerda.
Como a imagem acima deixa claro, não deu certo.

Mas eu disse dezenas de pessoas. Sim, dezenas. Enquanto essa meia dúzia fazia a coreografia ao som de algo tosco que eu não identifiquei, e o Mogli tentava acompanhá-los, o resto da manada reuniu-se em grupos distintos ao redor de algumas mesas e começaram a jogar RPG. Inclusive, alguns deles ostentavam – orgulhosos – uma camiseta escrita “narrador”. Comecei a ver as caras e me lembrei de que já havia visto alguns deles por ali, como um japonês que tinha um cabelo que ia mais ou menos até a Ana Rosa e uma gordinha que, no mesmo domingo da poeta russa, estava ali no pedaço vestida de Robin (não, não imaginem).

Mas o melhor de todos – fora o Mogli porque este é hours concours ao posto de atração bizarra do meu domingo – caminhava aquele que provavelmente seria o líder de tudo aquilo: um sujeito com mais ou menos 8 metros de altura, 720 kg, trajando camiseta, calça social, suspensórios, e a cara do Pingüim do Batman. E ele caminhava calmamente, em meio às mesas de RPG, com aquele ar de tranqüilidade que apenas os líderes naturais têm, observando as pessoas jogarem Vampire, Lobisomem, Dungeons & Dragons ou qualquer outro RPG que estivessem jogando.

E ele certamente era o líder, pois sempre que se aproximava de uma mesa, as pessoas fingiam estar se esforçando, rolando dados e fazendo anotações em suas fichas. Cada vez que ele chegava perto de uma mesa, era visível o medo no olhar das pessoas, sejam elas o japonês cujo cabelo era maior que meu salário ou a Gordinha-Robin. A sorte do Mogli é que o sujeito estava interessado no RPG, pois, se qualidade da coreografia fosse investigada, o pobre Menino das Selvas provavelmente seria devorado pelo líder da gangue.

E eu ali, tomando meu milk shake tentando compreender o que acontecia à minha volta. Acho bonito demais a nossa juventude consciente, que não bebe, não toma drogas, não pratica sexo sem segurança – especialmente porque metade deles tinha cara de quem não praticava sexo de jeito nenhum – e que escolhe passatempos mais saudáveis, como jogar RPG e fazer coreografia na Avenida Paulista em pleno domingo.

Mas aquilo era informação demais. Já joguei muito RPG na vida, mas nunca nada parecido. Me senti num filme do Fellini. Terminei meu milk shake, e fui embora, deixando o Mogli atrapalhado ali com a coreografia. Mas antes, fiz uma promessa para mim mesmo.

Eu nunca mais vou até a Avenida Paulista sem uma máquina fotográfica.

E, para finalizar, deixo vocês com o Top 5 desenhos da Disney que mais gosto (os da Pixar não entram):

1. O Cão e a Raposa – as aventuras de Tobi e Dodó é o MEU desenho da Disney. Foi o primeiro que assisti no cinema e sim, chorei feito um idiota.
2. Robin Hood – um dos desenhos mais subestimados da história. Apesar da versão do Kevin Costner ser muito legal, a raposa da Disney é muito mais ator.
3. Fantasia – provavelmente o desenho que eu mais gosto de todos da Disney. Acho aquilo de uma genialidade absurda.
4. Aladdin – sem dúvida, o mais legal desta nova geração. E o Robin Williams arrebenta dublando o gênio.
5. Branca de Neve e os Sete Anões – é o primeiro desenho animado em longa-metragem, e só por isso, já merece entrar aqui.

17 comentários:

Moacir disse...

Belo post, também achei o Robin dublando o gênio demais.

Aliás, todos trabalhos de dublagem dele são espetaculares.

http://capinaremos.blogspot.com/

Adal disse...

Você descreveu a visão do inferno com o tipo de humor que eu gosto.

uahauhahauh

Se em domingos ditos comuns você já vê essas coisas horrendas eu imagino o que roda por lá nos dia de parada gay. Deve se o inferno elevado ao enésima potência.

Parabéns

http://pensamentosdoadal.blogspot.com/

Marcelo Gavini, não-pensante e insistente disse...

Rapaz, vou dizer uma coisa.
Estudei vários anos ali na Paulista e sempre que posso, passo por lá.
Uma coisa é mais do que certa: em qualquer dia da semana que você passe por lá, sempre vai ver uma biodiversidade de bichos estranhos assombrosa.
Aos finais de semana então...

Se alguma pessoa acha que no fundo as pessoas são todas iguais, dá uma passadinha na Paulista que essa opinião vai mudar com certeza. E com cerveja! O que mais tem lá, além de tudo, é bar, cinema e McDonald's.

Bruno disse...

Eu já joguei RPG e fui chutado do grupo porque não gostava de interpretar. Se bem que suspeito que a gota d´água foi matar o personagem de um cara da minha equipe. O pessoal leva tudo muito a sério...

Bernardo Lima disse...

mt bom post, o melhor q li essa semana...
e assim como o cara aqui de cima tenho sérios problemas de interpretação no rpg...
rsrs
não consigo falar diretamente as coisas...

ao invés de dizer:

"vc é o cara"

eu digo:

"meu boneco olha pra ele e diz: vc é o cara"

rsrs
mais ou menos isso...

como sou da nova geração, colocaria aladin em primeiro...rs
abraço

Monalisa Marques disse...

Oito metros? Ooooito metros? Não era um pingüim, era um filhotinho de baleia!!!

Hahaha!

Seu blog é o máximo.
Quer trocar banners?

Luna disse...

Super captei o espírito do lugar. Aqui no Rio deve equivaler a área de fumantes do Rio Sul, frequentemente utilizada para uma gritaria geral pós-evento de anime (ou seja, festival de gordinhas vestidas de Sailor Moon)

MaxReinert disse...

Ai, ai.. eu tenho que parar de vir aqui no seu blog... me sinto muito ridículo dando gargalhadas na frente do computador sozinho......... nerd deeeeeeeeeeemais pro meu gosto!!!!

Mas, fazer o quê, né....a gente é o que a gente é..... não tem jeito!!!

Mingá. disse...

Nem posso imaginar como deve ser os domingos na Paulista, sou de Minas e estive em São Paulo apenas uma vez, mas pretendo ir ver se é verdade todas as anomalias de domingos... é que o vestibular tá aí.
Dá pra ter uma idéia vendo aquele programa do Gugu.
Que espanto! AEHIHIEUHE.

Acompanho seu blog faz tempo, é a primeira vez que comento, sempre tive vontande mas venho adiando há tempos.

Minha sobrinha assiste sempre o Cão e a Raposa. Ela tem 3 anos e não se cansa. Muito bom!

Varotto disse...

Rapaz! Eu não sei o que colocaram no seu milk-shake para você ver esse quadro surreal, mas acho que seria uma boa mandar um pouco para análise. Dependendo do resultado você pode ficar rico vendendo isso!

Felipe disse...

Rob vc tem que parar de escrever assim, se não vou acabar sendo demitido aqui no trabalho por rir incontrolavelmente.
Muito bom este post,um dos seus mais hilários. Aguardo ansiosamente as fotos dessas suas investidas neste mundo desconhecido da Paulista, acho que vc deve se sentir como um bandeirante, ou coisa parecida, né?

Otavio Cohen disse...

Se o seu texto não fosse tão bom, eu diria que era meu ehheeh..

mas então, o Cão e a Raposa era o MEU desenho. eu aluguei 13 vezes e chorei todas. Eu tinha 9 anos de idade.

Esses dias, meu sobrinho comprou o dvd (naquelas dvds com 29 filmes em 1) e assiste também repetidas vezes. mas ele não chora. o que será que há de errado??

Thyago disse...

HUIHaiuhiuahs
q domingo inusitado você teve, e tudo isso tomando um milk shake e desobedecendo o dentista, q MASSA!! :D


fiquei muito curioso..
espero um novo post com fotos dessas bizarrices :D

abraços.. Thyago.

Tati disse...

Valha, esse povo é triste... ou feliz demais, sei lá.
Só não entendi porque não entram os desenhos da Pixar, mas ok, boa seleção! =)

Tyler Bazz disse...

A Paulista é um habitat que ainda merece muuuuuuito estudo...


o/

Karin Kolln disse...

Hahahahah... Estou chorando de tanto rir!
Que coisa mais bizarra - geralmente quem joga RPG não gosta muito de dançar coreografiazinhas...

O Max disse nos comentários do outro post que eu às vezes fico brava com o que vocês escrevem, mas não é verdade, não estava brava (não quis passar a impressão de estar brava no meu comentário). Sou 100% diferente do estereótipo do comunistinha sujo que cursa sociais. Ao contrário da sua namorada, não tenho sequer um chinelo de couro ou saia havaiana.

Seus posts são muito engraçados!

Beijo!

o amnésico disse...

Vou ficar só nos desenhos hoje, "tribus mudernas" é demais pra minha cabeça. Mas a descrição da situação equivale a meia carreira do Fellini. Ops, Federico Fellini (depois post sobre a Mostra, é melhor tomar cuidado!).

Sempre tive vontade de assistir o Robin Hood da Disney (só tive o álbum de figurinhas). Droga, agora vou ficar com mais vontade ainda!

E Fantasia provavelmente é o desenho animado mais genial da história do cinema! E o Fantasia 2000 até que não faz feio não.