3 de agosto de 2006

Whole Lotta Love Me Do

Um amigo meu está engatando um namoro. Claro que isso não interessa para ninguém que acessa esse blog - a não ser para ele, mas, a não ser que ele sofra de perda de memória recente, o que eu disse acima não vai ser novidade nenhuma na vida dele. Enfim, outro dia, eu estava conversando sobre música com ele, quando ele disse:

– Na opinião dela, Led Zeppelin é mais importante que Beatles.

– Caralho.

– É.

– Assim, taxativa? Com ponto final e tudo? Não teve um "às vezes eu acho que..." abrindo a frase?

– Led Zeppelin é mais importante que Beatles. Palavras dela. Textuais.

Calma.

Esse é o tipo de declaração que você tem que pensar antes de responder. Olhar com calma, palavra por palavra, fonema por fonema, procurando a pegadinha. Porque não é o tipo de coisa que se fala levianamente. Ok, Led Zeppelin mudou tudo. Tinha um gênio na guitarra e - na minha opinião - o maior baterista do sistema solar. Mas, olha o outro lado: John, Paul, George e Ringo (Parreira, se você estiver lendo esse blog, ISSO é quadrado mágico). Os caras são tão fudidos que não precisam nem de sobrenome. Fiquei pensando nisso: Lucy in the Sky with Diamonds ou Whole Lotta Love? Physical Graffiti ou Sgt Pepper's?

Isso é diferente de Beatles X Rolling Stones. Beatles X Rolling Stones é fácil. Independente de qual você prefere (e todas as pessoas do mundo são Beatles OU Rolling Stones), o mundo inteiro compara os dois grupos desde os anos 60. É carne de vaca. Conheco pessoas que acham que a "atitude" dos Stones destrói os Beatles, e outro amigo meu já fala que "um best of dos Rolling Stones cabe tranquilamente num CD duplo, enquanto um dos Beatles precisa de um CD duplo, no mínimo, e mais o Revolver na íntegra". E há quem diga que "foda-se, se você somar os dois não chega aos pés de The Who". Beatles X Stones é a coisa mais Brasil X Argentina da história do rock. Todo mundo já pensou sobre isso. Todo mundo já discutiu sobre isso em algum boteco – talvez até mesmo ao som de Led Zeppelin.

Agora, jogar Beatles e Led Zeppelin na mesma balança e ver qual lado pende... Uau. Ousado. E fodíssimo de responder. Curiosamente, outro dia mesmo estava assistindo aos extras do DVD How the West Was Won, do Led (que todo vertebrado tem que ter em casa), e, numa das primeiras coletivas de imprensa da banda, algum jornalista, louco para arranjar uma declaração polêmica, pergunta se eles se comparavam aos Beatles. Não lembro se foi o Robert Plant ou o Jimmy Page quem respondeu, mas a resposta foi mais ou menos isso: "o que os Beatles fizeram, a quantidade de pessoas que eles atingiram e emocionaram com suas músicas é algo que nunca mais vai se repetir. Eles falavam com todas as pessoas do mundo. Mas o que nós fazemos soa completamente diferente do som deles".

Anyway, simplificando:

De um lado, Led Zeppelin. Starway to Heaven, a música mais tocada da história. O álbum mais corajoso da história, em termos comerciais, (aquele conhecido como Led Zeppelin IV), que não tem título nem nome de banda impresso na capa. Dois dois maiores gênios musicais de todos os tempos. Um vocalista que é (mal) imitado até hoje. Um dos grupos precursorses do hard rock, do heavy metal e que influencia todas as bandas de garagem que que sonham, um dia, em fazer algo ao menos próximo do rock pesado.

Do outro lado, Beatles. Se Elvis Presley, Chuck Berry e companhia bela inventaram o alfabeto do rock, os quatro moleques de Liverpool escreveram a gramática da coisa. Uma banda que se reinventava a cada disco - e consequentemente, reinventava o rock a cada disco. Dois dos maiores gênios musicais de todos os tempos – sendo que um deles foi alçado ao status de um dos maiores pensadores do século 20. Além disso, é o o grupo mais regravado da história*. Só o Ray Charles regravou duas: Yesterday e Eleanor Rigby – e se o Ray Charles gostava, é por que É (muito) bom.

Bottom Line: Pegando Kashmir, Let It Be, Moby Dick, With a Little Help from My Friends, The Song Remains the Same, Get it Back, Communication Breakdown, The Long and Winding Road, Dazed and Confused e A Hard Day's Night entre tantas outras, temos duas bandas que mudaram o mundo. Cada uma ao seu modo.

Qual a melhor? A mais importante?

Não tenho nenhuma resposta para isso - se você colocar uma arma na minha cabeça e mandar eu responder, eu fico com Beatles porque não é muito sábio ousar quanto se tem uma arma na cabeça.

Mas a única conclusão sensata e certeira que tenho é que viver messa época, nos poucos anos onde Beatles, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Cream, The Who e Black Sabbath co-existiram no mesmo ecossistema seria infinitamente melhor que viver hoje, onde garotas de 12 anos andam com camiseta do "cara do Nirvana que se matou e era bem lôco", onde "o disco novo do Green Day é bem lôco" e onde toda semana surge uma banda inglesa "bem lôca" que irá salvar o rock, independente de mal conseguir chegar ao segundo disco.

Ou seja, olhando apenas duas bandas do passado fica claro que, hoje em dia, o rock pasteurizado e Mtvvizado padece (em estado terminal, infelizmente) da falta de carisma, da falta de talento, da falta de culhão.

Isso falando do rock, claro. Já a namorada do meu amigo, que joga uma declaração dessas na mesa, tem culhão de sobra. Essa menina devia é montar uma banda.

*Eu sei que Kiko Zambianchi assassinou Hey Jude, mas aposto que isso foi escolha dele. Duvido que o McCartney tenha ligado para ele um dia e falado "Kiko? Paul, tudo bem? Estava pensando aqui... Você tem idéia de como eu gostaria de ouvir Hey Jude com a sua voz?"

5 Discos de Rock Essenciais (sem contar Beatles ou Led Zeppelin) para Qualquer Pessoa que não Queira Passar Vergonha numa Conversa sobre Rock.
1. Black Sabbath - Black Sabbath
2. Machine Head - Deep Purple
3. The Dark Side of the Moon - Pink Floyd
4. Back in Black - AC/DC
5. Who's Next - The Who

11 comentários:

Otavio Moulin disse...

Confesso que sou um cara Stones, ou The Who, ou Led bem mais do que Beatles...mas prefiro ser até ser um cara Bee-Geez que aturar Pink Floyd -- mesmo que eu não saiba exatamente o pq.

barry disse...

caríssimo rob, cultura inútil.
música mais tocada da história... yesterday, do the beatles.
segunda música mais tocada... garota de ipanema, de tom jobim.

os beatles eram mais populares que jesus cristo.
e jesus cristo, mais popular que led zeppelin.

acabou a polêmica.

saludos.
hasta.
B.

Rob Gordon disse...

Caríssimo Barry,

pelo contrário, seu argumento só aumenta a polêmica. Você pegou apenas vendagens e popularidade e isso é apenas um dos lados do prisma. Afinal, se você pegar apenas por esse aspecto (vendagem, popularidade e execução nas rádios),a música brasileira teria, como nomes de maior importância, Calcinha Preta e Babado Novo.

PS - toda cultura inútil é útul por definição.

Tks, anyway
Rob

Anônimo disse...

Puxavidapípous, rob, vc tem razão.

pense global e não regional.

estatisticamente, yesterday é a música mais tocada no MUNDO e não na 89 fm.

popularidade gera demanda, que faz a vendagem.
se não fosse por isso, vc não ouviria led zeppelin.

tá cheio de banda por aí MUITO MELHOR que beatles e led zeppelin, mas que não estouraram por falta de propaganda e marketing.

seu argumento não convenceu.

Luciana Toledo disse...

Rob, eu tenho uma visão muito particular sobre Beatles, recentemente adquirida.
Eu me apaixonei pelo Ale ao som de Beatles. É claro que eu já conhecia e gostava, mas não era como é hoje. E é claro que também ouvi muito Led na minha aborrecência e até ouço nos dias de hoje de quando em vez, mas também fiquei com uma impressão de que Led é bom pra se ouvir quando a vida é louca e quando a juventude é só um nome pra definir tanta incerteza.
Portanto, a minha visão muito particular sobre Beatles é que esses quatro caras fizeram um som inigualável, marcante e único e que ainda vai marcar muita gente.

Rob Gordon disse...

"popularidade gera demanda, que faz a vendagem. se não fosse por isso, vc não ouviria led zeppelin."

Sim.

Popularidade gera demanda, que faz a vendagem.se não fosse por isso, eu também não ouviria Beatles.

E, sim, temos n bandas melhores que Beatles e Led Zeppelin (se você citar qualquer coisa dos anos 90 como exemplo, a discussão se encerrará automaticamente) que não estouraram por falta de marketing. Mas, será que, exatamente por não terem estourado, elas acabaram influenciado menos bandas.

Não estamos discutindo qualidade musical - estamos discutindo importância. E, para ser importante, você obrigatoriamente tem que ser reconhecido, em algum momento.

Ser importante somente no seu próprio quarteirão é o cúmulo da desimportância, por melhor que você seja.

(algo me diz que isso ainda vai render outros posts...hehehe)

Você REALMENTE citou a 89? Isso é rádio de Saraiva, não de Championship Vinyl! :-)


Abração!

barry disse...

ilustre, utilizei o exemplo da 89 para efeitos didáticos, para quem ouve rádio.

eu não ouço rádio, porque acho que rádio estraga música, como já fez com várias boas bandas.

acho ridículo um zé-mané qualquer dizer que AMAAA o jim morrison só porque ouviu light my fire na rádio.

vc sabe, internet hoje é uma fonte de informações muito melhor do que qualquer KISS FM da vida, que fica focada no passado.

prazer em conhecer.

barry disse...

ROB, meu velho, do blog do Marcelo Costa, enciclopédia musical viva....
(http://revoluttion.blig.ig.com.br)
sobre os beatles....


"E eles fizeram tudo primeiro. Os Beatles foram a primeira banda a ter um álbum dentro da parada de singles britânica ("With The Beatles", 7º lugar em 1963); foram os primeiros artistas a terem mais de um milhão de discos encomendados antes do lançamento oficial do single ("I Want To Hold Your Hand", 1963); foram os primeiros artistas a "tomarem" de si mesmos o número 1 do chart britânico ("I Want To Hold Your Hand" e "She Love You"); foram os primeiros a ocuparem os cinco primeiros lugares no chart norte-americano com "Twist And Shout", "Can’t Buy Me Love", "She Loves You", "I Want To Hold Your Hand" e "Please Please Me" (março de 1964); foram o primeiro grupo de rock a tocar em um estádio (Shea Stadium, Nova Iorque, 15/08/1965) inaugurando a era dos mega-shows; foram a primeira banda a ter um selo próprio (Apple); e também cravaram nas paradas o primeiro single com mais de 7 minutos de duração ("Hey Jude", 1968). A lista de "primeiros" dos Beatles é enorme e triplicaria este parágrafo. O que importa, aqui, é dizer mais uma vez o que todo mundo disse, mas alguns poucos insistem em contrariar: os Beatles são a maior expressão musical artística do século XX. Ponto."

Rob Gordon disse...

Barry, chapa....

Eu adoro Beatles e acho a banda mais importante do universo, em todos os termos. Seus posts mostram que você concorda comigo. Ótimo, adoro gente que concorda comigo (quem não gosta?). Então, você está tentando me provar um ponto de vista que é igual ao meu.

E, na verdade, o post nem foi sobre isso. O post foi sobre a menina ter culhão. E tem. Disso, não dá para abrir mão. A minha explicação de colocar Led Zeppelin como uma das bandas mais importantes do mundo é apenas para mostrar isso, ela tem culhão, diferente de quem fala isso dos Rolling Stones, que sempre foram apenas os "rivais dos Beatles", para a grande maioria das pessoas - e me incluo nisso.

Abração

lucascf disse...

Eu sou bem novo, e ainda não descobri a musica boa em sua totalidade. Já teve época que eu ouvia rap, teve época que eu ouvia funk. Mas talvez pela minha idade. Até sertanejo já fez parte de uma fase minha. Eu me envergonho de tudo isso que ouvi, estou aprendendo. Hoje, curto bastante blues. Beatles, Pink Floyd... Bastante coisa, que considero bem melhor do que o que eu ouvia.

Agora, falar qual das duas bandas citadas é melhor. Eu não consigo falar. Não tenho um conhecimento profundo e apurado em nenhuma delas. hehe.

Igor Veríssimo disse...

Muitas pessoas podem falar mal dos Beatles, mas eles mudaram a história da arte e no futuro serão lembrados e até estudados em história da música universal, assim como os grandes compositores como Bach, Mozart e Beethoven
Falando bem ou mal, eles conquistaram pessoas de todas as gerações e ainda consquistam. Fizeram o simples bem feito. Criavam a música da alma e do coração. São músicos eternos e sua arte é atemporal. Sempre soará bem independente da época.
Abraços