
Para mim, a Copa de 2002 começou de forma totalmente diferente do que havia acontecido nas edições anteriores do torneio. Em todas as minhas Copas, de 1982 em diante, o ritual era o mesmo: nas semanas que antecediam o início do campeonato, eu começava a sentir uma ansiedade digna de uma criança na semana antes do Natal, pensando apenas na Copa. Comprava todas as revistas possíveis sobre o assunto, estudava tabelas, fazia bolões e não conversava sobre nenhum outro assunto.
Em 2002, porém, foi diferente. Após a final da Copa de 1998, eu gradualmente me afastei do futebol, como deixei claro no texto anterior. Desde o final da Copa da França, eu havia me desinteressado totalmente pelo esporte que sempre foi minha grande paixão, e por apenas um único motivo: eu não havia conseguido lidar com a dor da derrota em uma final de Copa.
Assim, entre 1998 e 2002, eu mudei certos hábitos na minha vida. Passei a não me interessar mais pelos cadernos de esporte dos jornais, por exemplo. Se durante toda a minha vida eu não saía de casa pela manhã sem ler a principais notícias, nesses quatro anos não era difícil eu ficar dias sem colocar as mãos nele. Sim, eu continuava assistindo aos principais jogos na televisão, mas sempre com um distanciamento e uma frieza – mesmo quando se tratava do meu time – que eu jamais poderia imaginar que aconteceria comigo.
Na verdade, eu não estava fugindo do futebol. Eu apenas não me envolvia com ele de jeito algum. Assistia aos jogos de forma apática, tomando cuidado para que meu coração não começasse a bater no ritmo dos chutes e dos dribles. E, sim, ele queria bater nesse ritmo, eu que o impedia. Eu era quase um ex-alcoólatra observando as pessoas em um bar do outro lado da rua.
Assim, minha vida se tornou mais tranqüila em certos aspectos, mas, por outro lado, mais vazia. O futebol havia feito parte da minha vida desde que ela havia começado. Me arrisco a dizer aqui que, sem o futebol, eu e meu pai seríamos apenas isso: pai e filho; foi o futebol que, ao longo dos anos, nos tornou melhores amigos.
Mas eu não queria mais nada com o futebol. Ele havia deixado de ser uma paixão e se tornado menos que um jogo, mas apenas um esporte. Tudo porque eu morria de medo de me machucar novamente como havia acontecido em 1998. Covardia? Sim, muita. E, aos meus amigos que me questionavam sobre isso, eu apenas respondia:
– Quando ganharmos mais uma Copa, eu volto.
Sinceramente? Eu não sabia se ganhar uma Copa iria fazer com que eu voltasse. Eu achava que sim, mas não tinha certeza. Mas não descobri isso de verdade até que a Copa de 2002 começasse do outro lado do planeta.
Até então, eu havia acompanhado a seleção brasileira com certo interesse, especialmente durante as Eliminatórias – não sei se eu não conseguia ficar longe, mesmo observando aos jogos com frieza, ou se eu fazia questão de assistir aos jogos para me testar – mas simplesmente me recusava a olhar a Copa com otimismo ou com os olhos de menino que haviam me acompanhado em todas as edições do torneio.
Entretanto, a figura de Felipão, que assumiu o time num momento delicado das Eliminatórias, me inspirava respeito. Eu não gostava dele até uns poucos anos antes, já que, aos meus olhos, ele representava muito do que eu não gostava no futebol, mas seu trabalho no Grêmio e (especialmente) no Palmeiras conquistou meu respeito.
Mas o fato decisivo foi quando ele peitou a pressão nacional (incendiada pela Rede Globo) para a convocação de Romário – incluindo aí uma coletiva de imprensa armada pelo próprio jogador – e não o incluiu no grupo que disputaria a Copa. Naquele momento, ele me ganhou. Apesar de admirar o futebol de Romário, eu nunca fui admirador da pessoa Romário – e não estou falando de vida pessoal, mas de atitude dentro de campo.
Na Copa de 1994, por exemplo – que Romário insiste em dizer que ganhou sozinho, o que não é verdade, pois isso pode ser dito apenas de Garrincha (em 1962) e de Maradona (em 1986) – Romário claramente jogava mais para ele que para o time, como eu já disse aqui. Romário jogava muita bola, sim, mas eu sempre venerei jogadores que se sacrifiquem pelo time, abominando aqueles que faziam o time se adaptar às suas vontades, como o atacante havia feito em todos os clubes pelos quais havia passado.
Ao ignorar os apelos de Romário, da mídia e do povo, Felipão mostrou ter culhões. E se existe algo que eu admiro, não apenas no futebol, mas na vida, é uma pessoa com culhões. E talvez tenha sido nesse momento que eu decidi dar uma chance ao Brasil durante a Copa. Eu iria assistir aos jogos de qualquer maneira, mas é possível que neste momento eu decidi que, sim, iria torcer.
Assim, quando a seleção entrou em campo para enfrentar a Turquia, pelo primeiro jogo do grupo C, eu e o resto do país não sabíamos o que esperar. No papel, o time era irregular, com alguns jogadores novos que tentavam cavar seu espaço no time e remanescentes da campanha de 1998. O destaque, novamente, era Ronaldo, que havia deixado de ser um trunfo para assumir o papel de incógnita, devido às seguidas lesões que quase acabaram com sua carreira.
Em pé: Lúcio, Cafu, Roque Jr. Edmílson, Émerson e Marcos.
Agachados: Roberto Carlos, Kléberson, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo.
A família Scolari ganhou o mundo.
Na verdade, acredito que uma das maiores sortes que o Brasil teve, em 2002, foi estrear justamente contra a Turquia, o adversário mais difícil de seu grupo. Caso o primeiro jogo fosse contra uma equipe mais fácil, o time poderia não ter se unido como aconteceu já a partir desta primeira partida. O que se via em campo era um Brasil coeso e sólido na defesa – bem ao estilo de Felipão – e com futebol rápido na frente, graças à habilidade de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo.
O placar (2x0), porém, dá a impressão de um jogo fácil, coisa que não podia estar mais longe da verdade. A Turquia endureceu a partida desde o primeiro minuto – e levou perigo muitas vezes – fazendo com que logo o jogo se tornasse uma verdadeira guerra, que culminou com a pseudo-confusão detonada quando Rivaldo levou uma bolada no joelho e fingiu ter sido atingido no rosto.
Deste lado da tela, eu assistindo aos jogos com meus pais, travava outra guerra, mais particular. Durante todo o primeiro tempo, eu me comportava como alguém que reencontra uma ex-namorada pela primeira vez após o final do namoro. Não me sentia à vontade e acreditava que o mundo inteiro estivesse me observando, apenas para ver quais seriam as minhas reações.
Mas era bobagem minha. Todos estavam de olho na TV, e continuaram assim até o início do segundo tempo, quando Ronaldo fez 1 x 0. A bola entrou e eu dei um soco no ar, exclamando um “gol!” seco e firme. De todas as pessoas que estavam na casa dos meus pais aquele dia, ninguém achou minha reação estranha – apenas eu. Porque fazia quatro anos que eu não vibrava com um gol.
Eu estava torcendo. Querendo ou não – e a esta altura eu ainda não estava certo se queria –, eu estava torcendo. Tanto que comemorei exatamente da mesma forma (seca, quase áspera – hoje eu sei que era raiva) o segundo gol, de Rivaldo, que definiu o jogo.
Para minha sorte, o resto da primeira fase foi extremamente mais tranqüilo, com vitórias fáceis sobre China (4x0) e Costa Rica (5x2). Na verdade, foram quase dois treinos, que me permitiram assistir às partidas de forma tranqüila, sem pressão, o que me ajudaram e muito. Assim, o Brasil já estava nas oitavas de final, mas eu ainda não havia entrado na Copa com os dois pés – mas nem isso me impediu de celebrar as quedas precoces de Argentina e França.
E foi aí que tudo começou a mudar. No primeiro jogo da segunda fase o Brasil ficou frente a frente com a Bélgica, num jogo que se mostrou mais difícil do que qualquer um imaginava. Ao menos no primeiro tempo, pois, na segunda etapa, o Brasil sobrou no jogo e, com um placar de 2 x 0, avançou para a próxima fase.
No dia seguinte, comemorei a queda da Itália nas mãos da Coréia do Sul, anfitriã que ganhava todos os jogos com a ajuda da arbitragem, indo dormir feliz com o fato de que os três países que, a cada quatro anos, se tornam meus inimigos mortais, estavam voando de volta para casa.
Eu ainda não estava torcendo pelo Brasil, ao menos naquele sentido único de “torcer” que somente quem gosta de futebol entende. Uma pessoa comum torce pelo seu time porque quer que ele ganhe – um torcedor, pelo contrário, torce pelo seu time porque sabe que a derrota custará caro. Pessoas comuns esquecem as derrotas em poucas horas; um torcedor continua amargando lances da partida, revivendo jogadas decisivas (e se perguntando “e se?” a cada momento) durante semanas.
Eu não queria mais sentir isso. Eu estava há quatro anos fugindo disso.
Eis que veio o jogo com a Inglaterra.
E, com ele, veio o gol de Owen aos 23 minutos de jogo. Inglaterra 1 x 0 Brasil. Silêncio na sala. Mesmo contra a minha vontade, senti um gosto amargo na boca. E não pude evitar pensar na ironia de sermos desclassificados pelos ingleses, provavelmente a seleção que eu tenha menos respeito dentre todas as campeãs do mundo.
O pesadelo das quartas de final estava novamente no meu colo. E frases como “se o jogo acabasse agora, estaríamos fora” e “se tomarmos mais um gol, tudo acaba de vez” começaram a dançar na minha cabeça, até que Beckham, ao final do primeiro tempo (e na jogada que melhor resume seu comportamento em campo ao longo de toda a carreira), tirou o pé da dividida, gerando um contra-ataque que culminou no gol de empate.
E eu cerrei o punho mais uma vez, e gritei “gol!”, muito alto. Eu não conseguia mais disfarçar minha raiva. Estava com raiva da seleção por não estar ganhando da Inglaterra, mas estava com raiva de mim por estar com medo de ser desclassificado.
Não me recordo se conversei com as outras pessoas durante o intervalo, mas porque eu estava ocupado demais pensando em tudo isso, em como eu deveria agir e, especialmente, o que eu deveria estar sentindo. E, sejamos sinceros: quando você começa a pensar em como deve se sentir, é porque você já escolheu como se sentir, falta apenas admitir para você mesmo.
E eu finalmente admiti a forma que estava me sentindo aos cinco minutos do segundo tempo, quando Ronaldinho Gaúcho cobrou uma falta da intermediária, no ângulo, marcando o segundo “gol sem querer” mais importante da minha vida (o primeiro ainda é o de Müller, em 1993, no final de São Paulo X Milan). Desta vez, eu não soquei o ar. Seaman, o goleiro inglês, ainda não havia entendido a jogada e eu já estava fora do sofá, e fora do chão, com os pés no ar e gritando enlouquecido pela sala.
Seaman tenta entender o que aconteceu.
Pela primeira vez em quatro anos, eu gritava.
Naquele dia, eu voltei a gostar de futebol. Naquele dia, eu voltei a torcer. Mas isso não aconteceu não no gol de empate ou no gol da virada; eu havia voltado a torcer muito antes, no gol inglês. Quando a bola morreu no fundo do gol de Marcos, eliminando o Brasil – ao menos até o gol de empate – um dos meus maiores defeitos veio à tona: o orgulho.
Eu nunca consegui admitir que alguém fale (ou mostre) para mim que eu não posso ter determinada coisa. Eu levo este tipo de coisa para o lado pessoal e me torno praticamente obcecado em conseguir aquilo, apenas para provar para mim mesmo e para aquela pessoa que sim, eu podia. Infantil? Bastante. Mas, releia este parágrafo com atenção e veja que eu não me referi a isso como “uma de minhas características”, mas sim “como um dos meus maiores defeitos”. Eu tenho plena consciência de que isso é um defeito meu, da mesma forma que, hoje, eu tenho plena consciência de que não estava nem aí para a Copa – ou, ao menos, estava tentando permanecer assim – até o Brasil correr risco de ser eliminado. Aí a coisa mudou de figura.
Tanto que na semifinal eu já estava vendido. O segundo jogo com a Turquia, para mim, foi extremamente diferente que o primeiro. Eu já estava totalmente envolvido; e não porque era um semifinal, mas sim porque eu estava voltando a ser eu mesmo, ainda sem muita consciência disso.
E o fato do jogo já começar em clima de guerra – ainda reflexo do polêmico lance de Rivaldo na partida de estréia – acirrou ainda mais meus ânimos, que explodiram quando Ronaldo fez um gol feio, de bico, no início do segundo tempo.
Galvão Bueno enlouqueceu totalmente
com "o exército de turcos atrás de Denílson".Soltei meia dúzia de berros e estas foram as únicas palavras que falei durante o resto da partida – me lembro claramente de ficar todo o segundo tempo em silêncio, com um olho na bola e outro no relógio no canto da tela, ansioso, esperando a partida acabar.
Estávamos na final. De novo.
E, pela primeira vez na história das Copas, iríamos jogar contra a Alemanha, do temível goleiro Kahn, que, assim como o Brasil, havia chegado totalmente desacreditada à Copa e, atropelando um adversário atrás do outro (inclusive a surpreendente Coréia do Sul, que chegou à semifinal), disputaria o título contra nós.
E eu comecei a sofrer logo depois do jogo contra a Turquia. Como o Brasil nunca havia enfrentado a Alemanha em Copas, eu não tinha nem um histórico de resultados para tentar buscar um pouco de calma.
Além disso, era uma final de Copa. A expressão “final de Copa” ainda me dava arrepios. Quando eu era menino, sonhava com a frase “final de Copa”, sem adivinhar que, no futuro, teria uma das maiores alegrias da minha vida em 1994, numa “final de Copa”, e uma das grandes decepções, quatro anos depois, numa “final de Copa”.
Ao longo dos dias que antecederam a partida, imagens da final de 1998 apareciam na minha mente a todo instante. Eu tentava empurrá-las para o lado substituindo-as pelas minhas memórias da final de 1994, mas descobri que isso não dava resultado algum. Pelo contrário, piorava tudo, porque, até hoje, quando me recordo da decisão por pênaltis de 1994, sinto todo o nervosismo que senti daquele dia, chegando a fazer com que meu estômago embrulhe.
E, quando me deitei, na madrugada de 30 de junho, poucas horas antes do jogo, pela primeira vez na minha vida como torcedor de futebol, eu senti medo. Eu não estava preocupado, eu estava com medo. Estava com medo de poder passar por tudo aquilo que havia me derrubado em 1998, estava apavorado com a idéia de saber que somente vencer uma Copa faria com que eu voltasse a ser o que era, e ter chegado tão perto disso, apenas para perder novamente.
Dormi apenas alguns minutos aquela noite. Cochilava e sonhava com o jogo, com resultados, com gols do Brasil, com gols da Alemanha, até que, assim que o dia nasceu, decidi descer para a sala e esperar a partida começar. Logo, toda minha família estava ali, ao meu lado, e a bola começou a rolar.
Eu juro que adoraria descrever aqui jogadas eletrizantes e tudo o que senti no primeiro tempo da partida, mas não consigo. Eu não me lembro de nada. Quando assisto aos lances do jogo hoje, me recordo da maioria deles, mas eles escapam da minha memória assim que volto minha atenção para outra coisa. Se você me perguntar onde eu estava no primeiro tempo de Brasil X Alemanha, eu vou responder que “acho que na casa dos meus pais, mas não tenho certeza.”
Mas eu me lembro de ver Kahn deixando a bola escapar e Ronaldo aproveitando o rebote, já quase na metade do segundo tempo. O país, que esteve tenso por 67 minutos, explodiu num grito; eu, que havia decidido me tornar adulto quatro anos antes, explodi e voltei a ser menino definitivamente. Mesmo porque, mesmo sendo campeão do mundo, eu nunca havia experimentado a sensação de comemorar um gol do Brasil numa final de Copa.
Mas ainda faltavam 20 minutos para o jogo acabar. Eu não conseguia mais ficar quieto e comecei a fazer algo que sempre fiz em momentos assim, na casa da minha mãe: eu ficava andando por trás de duas poltronas (que separavam a sala de estar da sala de jantar), feito um bicho numa jaula, mudo e sem tirar os olhos da TV. Havia percorrido quilômetros naquele pequeno espaço de três ou quatro metros durante inúmeros jogos da Libertadores, em diversos jogos de campeonatos brasileiros – e, pela primeira vez na vida, eu fazia isso numa final de Copa do Mundo. Justamente na Copa em que jurei que nunca mais faria algo assim.
E andei para lá e para cá durante pouco mais de dez minutos, até Rivaldo abrir as pernas, enganando a defesa alemã e deixando a bola passar para Ronaldo que, de fora da área, bateu no canto. 2 x 0.
Nada mais mudaria isso. Éramos campeões. As pessoas começaram a gritar na sala. Eu devo ter gritado também, mas por pouco tempo. Assim que o jogo recomeçou, eu me encostei em um móvel e fiquei olhando fixamente a televisão. Todos na sala estavam mais relaxados, mas eu não.
Eu comecei a chorar.
Não estou falando que senti um nó na garganta ou que meus olhos começaram a marejar de emoção. Foi pior. Eu desatei a chorar incontrolavelmente, soluçando em pé na sala, sem conseguir falar direito, sem conseguir ver mais jogo nenhum. Minha mãe veio me abraçar para tentar me consolar, mas eu não via mais nada.
Ronaldo comemora o segundo gol contra a Alemanha.
Na minha vida, a Copa de 2002 terminou neste minuto.A única coisa que eu conseguia enxergar eram os últimos quatro anos da minha vida, nos quais eu havia me afastado da maior paixão da minha vida. Aquele segundo gol do Brasil me fez perceber que estes anos haviam sido os mais vazios da minha vida – não porque o futebol fez falta (fez, e muita), mas porque eu havia ficado meses e meses tentando negar o que eu era.
Comecei a me lembrar de tudo o que eu havia vivido durante todas as minhas Copas do Mundo, todos os meus gritos, os socos nas paredes, os abraços enlouquecidos no meu pai e (um pouco mais cuidadosos, mas não muito) na minha mãe. Comecei a me lembrar de jogos, de lances, de gols, de sorrisos e lágrimas e percebi que sim, boa parte da minha vida poderia ser escrita por meio dessas sensações, e que muito do que sou se formou em meio às Copas do Mundo.
E percebia também que, durante anos, eu estive disposto a abandonar tudo isso por medo, e chorava mais ainda. Eu não estava chorando por um título, ou por uma partida de futebol. Eu estava chorando quatro anos da minha vida.
Naquele momento eu descobri que nunca vou deixar de ser um menino no que diz respeito ao futebol – e, consequentemente no que diz respeito a todas as minhas paixões e a todos os meus amores – por mais que eu queira, por mais que a derrota seja dolorida.
Eu não me recordo de absolutamente nada da partida depois do segundo gol. Eu não tenho, na minha memória, imagem nenhuma dos últimos onze minutos da partida. Tudo o que eu consigo me lembrar é do meu choro incontrolável, e da dor que eu havia carregado sozinho e em silêncio durante quatro anos e que eu colocava para fora a cada segundo.
No meu coração, a Copa da Coréia e do Japão se encerrou aos 34 minutos do segundo tempo da final. Assim, a Copa de 2002 foi a Copa mais curta da minha história. A Copa de 2002 foi a Copa que me salvou.
Cafu levanta a taça que eu,
por quatro anos, fingi que não existia.A prova disso é que quando Cafu, usando uma camiseta que homenageava o bairro em que cresceu, levantou a taça, eu não estava mais na sala. Eu já havia corrido para o outro lado do portão e ganhado o mundo da rua. Eu era campeão do mundo e estava comemorando nas ruas, pulando e gritando. Porque eu havia voltado a ser um menino.
E, mais que em qualquer outro momento da minha vida, mais até em que em 1994, desta vez eu sabia que era para sempre.