23 de junho de 2009

Sunday Morning Fever

O corpo humano é um negócio engraçado. Especialmente o meu. Lembro de uma professora de ciências, no ginásio, que afirmava que o corpo humano era uma máquina aparentemente perfeita, e tinha solução para quase qualquer problema que ele encontrasse.

Isso, claro, quem dizia era ela. Eu discordo. Não vou tirar o mérito do corpo humano em resolver seus próprios problemas, e talvez ele faça isso até melhor que eu. Por outro lado, ele não precisa lidar com problemas como os meus (como o aluguel e o Speedy que não conecta).

Mas, para efeito de discussão, vamos partir do princípio que o corpo humano é eficaz em resolver seus problemas.

Agora, porque então o meu corpo precisa ser tão radical assim?

Sábado, a região do meu rosto ao redor do meu nariz começou a doer. Horas depois, comecei a espirrar. Ou seja: gripe à vista. Claro que meu corpo – como a máquina perfeita que é – começou a trabalhar.

Imagine a cena. Um dos funcionários do meu organismo entra na sala do Herr Direktor de Saúde.

Vale citar que Herr Direktor é um gordinho bigodudo com a cara do Gert Fröbe (vocês já assistiram 007 contra Goldfinger, certo?) e fica o dia inteiro trancado no escritório, ouvindo Wagner. Passa a maior parte do tempo estudando um mapa geopolítico do meu corpo e praguejando baixinho em alemão, e anda sempre marchando em passo de ganso.

– Bom dia, senhor.

– Guten tag!

– Acabei de receber um relatório, e tenho más notícias. O organismo está todo tomado por vírus.

– Vírrus? Mein Got! Elas non desistir nunca?

– Aparentemente, eles voltaram, senhor. É gripe. Das brabas.

– Gripe? Na meu corpo? Elas saber que isso ser verboten! Nós torrar esses desgrazadas! Febre, agorra!

– Febre? Já? Não é uma medida radical demais?

– Achtung! Non discutir comigo! Ligar o febre e todas as vírrus kaput em queston de horras! Jogar carvón no caldeirra, agorra!

– Sim, senhor.

– Se alguma das vírrus sobreviver, eu faz queston de colocar uma prezo pelo seu cabeza! Elas non ficarron impunes!

Assim, foi-se resolvido o curso a seguir. E as febres começaram a alimentar “o caldeirra”.

Febre. Intensa. Ardida. Descomunal. Mortal.

Domingo, passei o dia inteiro na casa dos 38,5; ontem, cheguei aos 39,1 – o que é uma excelente marca, especialmente para alguém cujo recorde é 40, atingido com uns 10 anos de idade.

E, cá entre nós, quando você está na casa dos 38, você ainda é humano. Doente, mas humano. Mas, quando você passa dos 39, é óbvio que você está sofrendo uma espécie de metamorfose, e está prestes a se transformar num habitante de algum Círculo do Inferno. Falta só começar a arrotar enxofre.

Claro que não discuto a eficácia da estratégia. Os vírus devem ter morrido (e um pedaço do meu estômago deve ter chamuscado um pouco), já que nem um beduíno teria sobrevivido lá dentro.

O problema é que eu quase morri junto.

Comparativamente, o que meu corpo fez foi o seguinte: imagine que eu sou uma cidade que vive uma onda de crimes. Ao invés de prender os criminosos, o prefeito decide simplesmente abrir a represa e inundar a cidade. Claro que isso vai acabar com o crime, já que vai acabar com a cidade inteira.

Ou seja, é eficiente. Mas não é muito brilhante.

Meu medo é se um dia eu tiver uma doença séria. Capaz de eu estar deitado na cama, com dores, e, ouvir baixinho, dentro do meu cérebro o Herr Direktor esbravejando com algum dos seus funcionários: “Nós non vamos permitir isso! Pegar o dinamite! Nós ir até a zérebro agorra, explodir tudo!”.

Aí, é sair correndo para o hospital, rezando para chegar lá antes que o louco acenda o pavio.

Antes que isso aconteça, porém, deixo o Top 5 diretores do organismo que mais dão trabalho para mim (sem contar o Herr Direktor):

1. Mister Director de Práticas Culinárias – Britânico; sonha em aprender a cozinhar. Às vezes, tenta inovar na cozinha, mas seus pratos acabam tendo sempre o mesmo gosto: horrível. Especialmente porque, como não encontra hortelã, usa halls preto como tempero.

2. Signore Diretore de Finanças – Italiano. É bem intencionado, mas seria muito mais eficiente se não perdesse o aluguel e o extrato bancário com uma freqüência assustadora.

3. Señora Diretora de Brigas, Discussões e Entreveros – Espanhola. É quem rege as discussões que me envolvo. Teimosa feito uma mula e vingativa. Nunca esqueceu uma ofensa.

4. Г-н директор do Depto. Etílico – Russo. Durante a minha adolescência, assumiu como cruzada pessoal provar, de qualquer maneira, que ressaca poderia ser curada com vodka.

5. Senhor diretor-geral – Brasileiro. É quem coordena tudo. Alguns anos atrás, foi investigado como pivô de um esquema de corrupção dentro do meu corpo, acusado de desviar parte da energia ingerida pelo meu organismo. Existem teorias que afirmam que tenho apenas 1.60 por causa disso.

22 de junho de 2009

Quatrocentão

Com este post, o Champ chega à marca de 400 posts publicados.

Talvez você que está lendo isso tenha o seu post preferido. Quem sabe você até mesmo consiga montar um Top 5 com seus posts prediletos daqui.

Eu não consigo. Gosto igualmente de todos os posts, desde o primeiro. E gosto da ideia de pensar que meu melhor texto será o próximo.

Claro que quando eu releio alguns dos post antigos, vejo situações que, hoje, teria abordado de outra forma, frases que teria escrito de forma completamente diferente.

Mas me recuso a alterá-las.

Meu blog é um blog pessoal, logo, ele tem como finalidade mostrar quem eu sou. Ou, no caso dos posts antigos, quem eu era.

E, para celebrar a ocasião, deixo aqui um trecho do (segundo comentário) do Rbns (que, para quem não sabe, é um dos meus irmãos que, acidentalmente, nasceu em outra casa) feito no post anterior (o comentário, na íntegra, está lá para quem quiser ler).

"As piadas do Champ tem um DNA muito especial (...) Esse DNA especial nasceu numa época mais simples (...) Tenho certeza que o Rob ainda vai contar a maioria dessas histórias aqui. Eu sempre leio esse Blog e me imagino com o Rob no balcão da padaria ou no fundo de um ônibus "entretendo os normais"... Quem imaginaria que ia passar tanto tempo hein Rob?""

Obrigado a todos os leitores por transformarem este blog numa verdadeira paixão.

Obrigado a todos os meus amigos por nunca terem deixado eu esquecer quem eu sou e, mais importante, de onde vim.

19 de junho de 2009

Um Contrato Com Deus... No Inferno

Ok, sei que vou mexer num vespeiro dessa vez. Paciência.

Sempre fui fã de quadrinhos, mas, pouco antes dos 15 anos, comecei a ler quadrinhos “de verdade”: Marvel, DC etc. Tive a sorte de isso acontecer ao mesmo tempo em que histórias como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen estavam sendo lançadas pela primeira vez no Brasil. O conceito de graphic novel começava a chegar ao Terceiro Mundo, em edições luxuosas, numa série especial lançada pela editora Abril. Li muita coisa boa nessa época, como Demolidor (Frank Miller e Bill Sienkiewicz) e a clássica A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland).

Mas lembro também de O Edifício, de um sujeito chamado Will Eisner. Quando peguei pela primeira vez, não me senti muito atraído. Não era de super-heróis, e, para piorar, era preto & branco. Mesmo assim, eu tinha comprado todas as anteriores, e se tem algo que eu odeio é uma coleção incompleta. Comprei e li.

Mudou minha vida. Totalmente.

Fiquei encantado com tudo: desde os desenhos repletos de detalhes até a narrativa e os diálogos, tão completos, tão banais, tão humanos. Foi a primeira vez que eu chorei lendo uma história em quadrinhos.

Will Eisner.

Aprendi a ler com meu pai, perguntando a ele o que o Asterix ou o Fantasma estavam dizendo naquele determinado quadrinho. E, de repente, eu percebi que havia aprendido a ler apenas para poder ler Will Eisner (infelizmente, já falecido). Parti em busca de tudo o que ele tinha feito, e fui de Spirit para New York – A Grande Cidade, passando por todas as suas outras graphic novels.

Aos poucos, fui percebendo que Will Eisner era uma espécie de Beatles dos quadrinhos: ele não conseguiria fazer algo ruim nem se tentasse. Muito do que li, dele, inspirou (talvez nem de forma consciente) algumas das minhas crônicas, especialmente as que abordam os anônimos, como O Homem que Jantava Sozinho, O Espectador, Norte-Sul.

Agora, Will Eisner, que hoje é nome de prêmio nos Estados Unidos e sempre abordou, em suas histórias, o fim do sonho americano, seja para os ricos ou para os pobres, seja em forma de sexo, corrupção, racismo, mas que conseguia iluminar trechos com raios de esperança e benevolência de forma tão sincera, tornou-se mais uma vítima da ignorância. Aliás, de duas ignorâncias.

Tudo por causa de um de seus trabalhos mais exemplares: Um Contrato com Deus.

Primeiro, professores de São Paulo e do Paraná pediram para que a obra fosse retirada das bibliotecas por estar ao alcance das crianças e mostrar cenas de sexo e violência. Nada mais justo. Will Eisner não é – e nunca foi – para crianças. A maior prova disso é que Um Contrato com Deus foi uma das primeiras publicações a utilizar a expressão “graphic novel” (algo como romance gráfico) e destinada exclusivamente ao público adulto.

Mas isso não é culpa da obra, e sim da biblioteca, que arquiva o livro na área infantil simplesmente por se tratar de quadrinhos – lembro de ir reclamar na extinta locadora Real Video que Akira não deveria estar em na prateleira de infantis, e o gerente me respondeu “mas é um desenho!”. Ignorância total.

Mas a segunda ignorância é pior ainda. Alguns blogs religiosos lançaram mais lenha na fogueira, e começaram a pintar a obra de Will Eisner de “coisa do demônio”. Um blog em especial publicou a frase: “a sociedade brasileira tem deixado o Poder das Trevas colocar em execução tudo o que foi planejado nas profundezas do inferno e simplesmente, diante de tudo isto, tem dormitado em berços esplêndidos”.

Então, Will Eisner é o antiCristo e suas graphic novels são roteirizadas “nas profundezas do inferno”. Tudo, claro, com o objetivo de corromper o homem, estimulando nossas crianças ao pecado. Valor artístico (e não falo dos desenhos, mas sim do retrato de uma sociedade algo que toda obra de arte deveria almejar) é algo que não existe e nem é levado em consideração.

Sempre deixei claro que não tenho nada contra nenhuma religião. As pessoas que acreditem no que ou em quem elas quiserem, desde que faça bem para elas e que não ofendam os outros. Não vou entrar aqui em discussões sobre dízimos e outras práticas que não concordo, pois é apenas a minha opinião particular.

Mas, infelizmente, a ignorância nesse caso é gigantesca.

Aliás, a ignorância parece ser mais evoluída que muita gente que a pratica, já que ela não faz distinção de cor, raça ou credo. Ou seja, a ignorância é menos ignorante que os ignorantes.

Sou totalmente a favor de que a leitura das crianças seja vistoriada – e a editora responsável pelo livro deveria colocar um aviso na capa, que a leitura não é indicada para menores, já que, aparentemente, a bibliotecária não vai se dar ao trabalho de ler a obra para arquivá-la de forma correta – mas sou absolutamente a favor, também, da liberdade de expressão, em qualquer caso.

Mas, da mesma forma que os sites religiosos cobram uma suposta responsabilidade (do autor, já falecido), eles também deveriam ter responsabilidade ao postar certas informações. Afinal, Will Eisner, por mais que alguns fanáticos religiosos queiram provar o contrário, não propaga a violência infantil, o sexo adúltero e o alcoolismo pelo mundo. Ele apenas retrata o mundo como o enxerga – e é algo que ele entende, já que cresceu nas ruas e cortiços repletos de imigrantes. Sua obra raramente faz julgamento de caráter, mas, escolhe um caminho mais sábio e mostra a nós que certas coisas apenas existem.

E, sim, ele também mostra que pessoas boas existem.

E, desculpe derrubar o castelinho de cartas de vocês, mas a violência infantil é uma realidade, o sexo adúltero é real e pessoas amorais andam livremente pelas ruas, da mesma forma que as pessoas supostamente boas. Isso tudo sempre existiu e continuará existindo, independente do que seus filhos irão ler.

Não adianta esconder um livro que fala sobre o mal para o mal deixar de existir. O mal não existe por causa daquele livro, ele é apenas o tema da obra. Queime-se o livro, e o mal continuará. Aliás, queime-se o livro e o mal aumentará, por causa da intransigência e radicalismo de quem o queimou.

Sorte nossa que temos um punhado de artistas que dedicaram as vidas para nos lembrar que o mal é mais presente no nosso dia a dia do que acreditamos. E sorte nossa que temos um artista como Will Eisner para deixar claro que cabe a cada um de nós escolher ser bom ou ser mau, e pouco tem a ver com as condições em que vivemos – a desculpa preferida dos “maus”.

Afinal, não sei se “só Deus salva”. Mas, aqueles que Deus não salva – e que não são poucos – existem, sim. E não apenas nas páginas escritas e desenhadas por Will Eisner, mas no mundo real. Eisner apenas mostra que isso existe. Era a sua obrigação como artista.

Se vocês não gostam do mundo que enxergam nas suas páginas de Will Eisner, que mudem o mundo – de preferência, para melhor. Mas já aviso aqui que queimar livros (Alemanha, década de 30, alguém?) não é um bom começo.

17 de junho de 2009

Cem Nomes, Sem Palavras

E, assim, num dia como outro qualquer, o Champ chega aos seus 100 seguidores.

São pessoas de todos os tipos. Algumas eu conheço pessoalmente, outras estão apenas no meu msn, muitas eu nunca conversei diretamente, algumas me seguem aqui e no Twitter.

Mas o curioso é que a grande maioria delas – mesmo as que eu nunca conversei pessoalmente – não apenas leitores, são amigos.

Com certeza, existem muitos blogs com muito mais seguidores que o meu. Mas existe algo do qual me orgulho demais. O Champ está longe de ser o melhor blog da internet. Por outro lado, não existe um blog com leitores tão sensacionais como o meu. Tenho certeza disso.

Caros Lucas, Indíviduo Sem Nome, Sarge, Alexandre Rigotti, Malu, Que Nem Chiclete, Lady Dari, Bia, Marina Rotta, Rogério Rayol, Otavio Cohen, Luciana Toledo, Luiz!, Tyler Bazz, Pandora Yuuko, Dragus, , Barbarella, Ando, Maa, Luh Frozinha, Leticia, Assuntos Variados, PJ, Larissa, Banana, Tatianna Babadobulos, Henrique Miné, Lucas L., Dalleck, Kleverson Neves, xBrunox, Crisolda, Pequena, Luis Filipe, Layla Barlavento, Barretão, Tina, Sir Lucas, Mariliza Silva, George Marques, Bell, O Lerdo, 7Seven7, Marcus Batalha, Djamar, Ana, Kazzak Dunkel, , Rafinha, Julio Moraes, JJBTJ, Chaverinho, Natalia Nelli, Danny, Perci Carvalho, Varotto, Pedro, Janaína Souza, Mary, Cal, Hally, Lidiana de Moraes, Sr. Sem Sono, Fabi B., Pat Rabbit, Luciano W, Taillard_ch, Leia Kenobi, Garota Marota, Thais Vidal, Wagner, Redd, Raphael Rocha, Sandro Trentinni, Ademar Jorge Jr., Benito, Gilgomex, Revés, Denilson D´'Almeida, Ninah, Kaulitz, Luíza, Karoline, Fagner Franco, Thiago, Paulo, Bruno, Carol Scifi, Gabriel, Márcio, Luandgueto, Persiolino, Nicole Dias, Isabella Tacito, Deyvid., Nerdesigner, Luh, Cami Pires e Renata:

Muito obrigado! Este post é todo de vocês!

(caso alguma das pessoas citadas sem link tenha um blog, me avise nos comentários)

15 de junho de 2009

R$ 0,25 - The Number of the Beast

Acabei de voltar daquele boteco habitado por criaturas interdimensionais que fica aqui embaixo da redação. Comprei algo para beliscar – durante o fechamento da revista, almoço é algo raro – e fui pagar. Quem estava no caixa era a nova aquisição do grupo, uma baixinha de cerca de 40 anos.

Vale dizer aqui que minha primeira experiência com ela já não havia sido boa. Uns dias atrás, eu desci para comer um sanduíche. Encostei-me no balcão e, depois de longos minutos – isso é padrão neste boteco –, ela veio me atender.

– Eu queria um X-Salada, por favor.

– E o que você quer?

– Hã?

– Você disse que queria um X-Salada. Então você não quer mais. O que você quer?

Aquilo me deixou paralisado. Minha primeira reação foi fazer minha careta de mongolóide e dar meu grito retardado de felicidade – sim, eu faço isso às vezes – mas a tentativa de humor dela travou minha mente (uma janela apareceu no meu cérebro informando que “este programa executou uma operação ilegal e será fechado”). De lá para cá, eu não tive outro contato direto com ela. Até hoje.

Fui ao caixa pagar - minha conta havia dado R$ 4,25. Entreguei uma nota de R$ 5,00. Ela me devolveu uma moeda de R$ 0,25.

Fiquei olhando para ela, esperando alguma piadinha. Mas ela não disse nada: aparentemente, ela havia se refugiado dentro de algum mundo próprio, onde R$ 4,25 + R$ 0,25 = R$ 5,00.

Olhei para ela e disse:

– Você me deu troco a menos.

– Não. Você me deu uma nota de 5 reais.

– Sim. E isso apenas confirma o que eu disse: você me deu troco ao menos, eu respondi, mostrando a moeda.

Ela olhou a moeda na minha mão e pareceu considerar as hipóteses do que poderia ter acontecido. Mas, algo me diz que, enquanto ela executava aquela intricada operação matemática, seus poucos neurônios começaram a brigar entre si e, aparentemente, deixaram de se falar, magoados. Assim, ela voltou ao argumento anterior.

– Você me deu uma nota de 5 reais.

Suspirei. Nós já havíamos passado por isso.

– Sim, e você me deu 25 centavos de troco.

Foi neste momento que ela teve uma idéia brilhante, que iria revolucionar toda a matemática moderna. Com tom de voz decidido, ela pediu a moeda de R$ 0,25. Eu entreguei e ela me devolveu uma moeda de R$ 1,00.

– Pronto.

– Pronto o quê?

– Seu troco.

– Mas agora você me deu troco a mais. Não tem como acharmos um meio termo?

– Não, com essa moeda de 25 centavos, você me deu R$ 5,25. Eu devolvo um real e fica tudo certo.

A genialidade daquilo me comoveu. Como uma pessoa sozinha poderia caminhar por essa linha de raciocínio, e com tanta agilidade assim? Fiz uma nota mental para não me esquecer de mandar um e-mail para os organizadores do prêmio Nobel sobre ela, assim que voltasse para a redação.

Segurei a moeda de R$ 1,00 e, pacientemente, disse:

– O seu raciocínio é impecável, a não ser pelo fato de que eu não dei a moeda de 25 centavos. Você me deu. Eu apenas devolvi.

– Você acabou de me entregar a moeda!

– Sim, porque você havia me dado como troco errado!

– Olhe, você me deu 5 reais. Sua conta era R$ 4,25. Aí, você me deu os 25 centavos...

– Vamos começar de novo?

– Oi?

– Vamos começar de novo. Me devolve os 5 reais, por favor.

Ela abriu o caixa, pegou a nota de R$ 5,00 e me entregou, desconfiada. Eu perguntei:

– Quanto é minha conta?

– R$ 4,25.

– Isso. E estou pagando 5 reais. Logo, você me devolve, de troco, 75 centavos. Mais nada.

– Mas os 25 centavos...

– Deixe os 25 centavos de lado. Mantenha seu foco na nota de 5 reais que está na minha mão.

– Ok.

Entreguei a nota. Ela abriu o caixa e me deu R$ 0,75. Eu agradeci e comecei a guardar na carteira. Olhei para ela, e percebi que ela analisava a nota de R$ 5,00 que tinha nas mãos. Ela tinha o olhar aguçado de um perito em arte que analisa dois quadros iguais para tentar identificar qual deles era a réplica. Guardei meu troco na carteira e comecei a ir embora.

– Obrigado. Até logo.

– Mas este 25 centavos aqui...

– Tchau!

Virei as costas e deixei ela e a moeda se entenderem ali. Mas algo me diz que isso ainda não acabou. Deixo, então, o Top 5 Alternativas que a Mulher do Boteco Estará Fazendo na Próxima vez que Eu Passar Ali:

1. Em pé, em frente ao caixa, observando atentamente a moeda e a nota, tentando descobrir o que deu errado.

2. Jogando a moeda para o alto e gritando como uma primata, ao som de Assim Falou Zaratustra (2001: mode on)

3. Resolvendo uma enorme equação envolvendo os valores R$ 5,00, R$ 0,25, R$ 1,00 e R$ 0,75 na lousa que eles usam como cardápio.

4. Me esperando na porta do prédio onde trabalho, para me entregar a moeda de R$ 0,25. Afinal, ela é brasileira e não desiste nunca.

5. Pendurando uma placa com a inscrição “Não aceitamos moedas de R$ 0,25” ao lado do caixa.

12 de junho de 2009

A Moça na Janela

Hoje é Dia dos Namorados.

Enquanto eu baixava meu e-mail hoje de manhã, olhei pela porta de vidro da varanda. Num prédio razoavelmente velho, que fica bem em frente ao meu, mas na rua de baixo, vi uma moça na janela, observando a rua. Ela estava apoiada no parapeito da janela de um apartamento igual a todos os outros, olhando o mundo.

Na verdade, ela ainda está lá. Mesmo tendo construído todo o primeiro parágrafo no passado, estou escrevendo praticamente em tempo real, digitando e olhando para ela. Ela continua ali, na janela, braços cruzados, sem saber que estou aqui, a poucos metros, escrevendo sobre ela neste minuto. E provavelmente ela nunca vai saber isso, assim como nunca saberá quem sou eu, muito menos que tenho um blog.

Estou olhando na direção dela já há alguns minutos, tentando descobrir o que ela está observando. Confesso que não há nada de especial no que ela está fazendo. Já cansei de ver pessoas na janela nos prédios à frente do meu, mas fiquei intrigado com ela na janela. Afinal, o dia está horrível, nublado, e, pelo que posso ouvir do meu apartamento, nada de especial está acontecendo lá fora. Ouço o motor dos ônibus e carros que sobem a Teodoro Sampaio.

Ou seja, não há o que olhar lá fora. E ela continua ali, na janela. E eu continuo aqui, observando e tentando entender (ou melhor, tentando adivinhar) o que ela está fazendo. Porque, para mim, uma pessoa que fica parada na janela quando nada de especial está acontecendo na rua não é uma pessoa que está olhando a paisagem, mas sim olhando para si própria. Ou, talvez, aguardando alguma coisa.

Hoje é Dia dos Namorados.

Será que ela está na janela esperando pelo seu namorado, que irá levá-la para almoçar naquele restaurante que tem o seu prato predileto? Assim, ela acordou cedo, tomou banho e se arrumou (ela escolheu o que iria usar ontem à noite) e está ansiosa para descobrir se ele gostará do presente que ela comprou.

E, claro, ela também estaria tentando adivinhar o que irá ganhar. Uma roupa nova? Uma jóia? Uma caixinha de música? Ou um poema, que ela irá dobrar e guardar como um tesouro, naquela caixinha que fica sobre o criado-mudo, ao lado da cama? Será que o namorado dela é romântico a ponto disso?

Talvez o namorado dela não seja romântico a esse ponto, e lhe dê apenas um CD e a leve para almoçar no mesmo restaurante que eles sempre vão. Mas ela não se importa. Só o fato de estarem juntos já a deixa feliz. O CD e o restaurante são apenas detalhes.

Se bem que, olhando daqui, ela não parece estar esperando por ninguém. Ela já está na janela há uns bons minutos, e está quieta demais para estar ansiosa pela chegada de alguém ou pelo telefone tocar. O que me leva a pensar que ela não está observando nada, mas sim pensando. Porque ela continua na janela, totalmente alheia ao fato de que estou aqui, escrevendo sobre ela.

Hoje é Dia dos Namorados.

Será que ela tem alguém que irá levá-la para almoçar fora? Ou será que ela está na janela pensando justamente sobre o motivo de não ter ninguém, e tentando entender o que há de errado com ela. Afinal, ela não é feia, não é uma pessoa má, mas não tem ninguém – e não suporta quando sua melhor amiga tenta confortá-la, dizendo que “você ainda não achou a pessoa certa”.

Assim, este ano, ela decidiu que não irá se deixar abalar pelo fato de que irá passar mais um Dia dos Namorados sozinha. Como estamos num feriado, ela vai tirar o dia para ela. E somente para ela. Este será o seu presente.

Vai colocar uma roupa bonita, almoçar fora e depois irá ao cinema, abraçada com a idéia de que, como está sozinha, pode ver exatamente o filme que quiser, a hora que quiser. E, depois, vai gastar tempo numa livraria, escolhendo um livro que irá comprar, – e começar a folheá-lo na praça de alimentação de um shopping qualquer, enquanto toma um sorvete, alheia às pessoas que passam ao seu redor.

Mas, mais importante que isso, ela deixará o celular desligado. O verdadeiro presente que ela se dará hoje será abandonar a esperança de que alguém irá ligar para ela. Porque não é a solidão que a machuca, mas sim a esperança de que a solidão irá acabar um dia. E ela nunca acaba.

Ela acabou de sair da janela. Não sei o motivo. Talvez seu namorado tenha chegado. Talvez ela tenha decidido qual filme irá assistir sozinha. Não importa. Por bem ou por mal, hoje o dia será dela. E, tendo alguém especial ou não, nada é mais reconfortante de do que a idéia de saber que você pode ter um dia somente para você. Espero que ela consiga.

Sim, admito que talvez ela tenha quase cinqüenta anos e estava esperando o arroz ficar pronto, enquanto seu marido lê jornal na sala – mas hoje é Dia dos Namorados, e um pedaço meu se recusa a acreditar que até mesmo algo simples como uma mulher na janela tenha uma explicação banal.

Hoje é Dia dos Namorados.

Se você tem alguém especial, saia e faça essa pessoa feliz. You have found her, go out and get her, já diria Paul McCartney (e, sejamos sinceros, ninguém entende mais de amor que os Beatles).

Esqueça, por um momento, todas as brigas que vocês já tiveram, e deixe de lado, por algumas horas, tudo aquilo que vocês não conseguem concordar.

Apenas saia e faça esta pessoa feliz.

E não estou falando em coisas grandiosas, jantares em restaurantes caríssimos, jóias, nada disso. Apenas passeie de mãos dadas com essa pessoa, mas segure sua mão como se fosse a primeira vez que você faz isso na vida. Não é preciso muito mais que isso, acredite.

E, se você não tem uma pessoa assim na sua vida, não se preocupe. Não é o fim do mundo. Aliás, está longe de ser. Antes de tudo, você tem a você – e isso inclui ter seus filmes, discos e livros preferidos. E tenho certeza de que os seus filmes, discos e livros ensinaram você a reconhecer esta pessoa quando ela aparecer, e também a dar valor a ela, quando isso acontecer.

Porque, acredite em mim, isso vai acontecer.


Este texto é dedicado à moça na janela, que talvez precise muito mais dele do que minha namorada. Afinal, enquanto ela tem este texto (e eu não sei se ela tem muito mais que isso), minha namorada tem a mim – e gosto da idéia de pensar que isso é mais importante e valioso que um texto qualquer escrito num blog qualquer. E, claro, aos meus pais: afinal, se não fossem os mais de 40 Dias dos Namorados que eles passaram juntos, eu não estaria aqui e este texto não existiria.

7 de junho de 2009

Mundo Cão

Nada me incomoda mais que passear com a Besta-Fera. E não por causa do comportamento dele – que insiste em parar e cheirar todos os cantos de todas as calçadas (algo que qualquer cachorro faz) e depois sai correndo me arrastando pela rua (algo que só o meu cachorro faz). Mas sim por causa das outras pessoas, especialmente aquelas que estão passeando com seus respectivos cães.

Não vou nem abordar aqui as pessoas que andam com seu cachorro solto, sem coleira. Você está passeando com o seu e vem aquele cachorro com o dobro do tamanho do seu rosnando e latindo – e invariavelmente seguido pelo dono, que sempre fala algo como “ele só quer brincar”. Sei. Brincar. Aí, se eu dou um chute na cara do cachorro dele para proteger o meu, sou eu que estou errado.

Mas, enfim, existe uma espécie de maçonaria formada pelas pessoas que passeiam com cachorros. Qualquer pessoa que está passeando com um cão acredita que isso é motivo suficiente para poder puxar papo com as outras pessoas que estão na mesma situação. Funciona mais ou menos como “eu e você temos muito em comum (leia-se: um cachorro) então nós obrigatoriamente devemos ser amigos”. E não adianta eu olhar com aquela cara de “não quero conversar”, porque não adianta.

E isso é uma verdadeira praga entre os donos de cachorros.

Outro dia, indo para o trabalho, vi duas mulheres conversando na porta do meu prédio. Cada uma segurava seu cachorro (um era lhasa-apso, o outro não lembro) e conversavam animadamente justamente sobre... Cães. O detalhe é que os dois cachorros não pareciam muito felizes com o encontro, e estavam latindo um para o outro, cada um deles visivelmente querendo pegar o outro na porrada. E as mulheres ali, rindo, e achando lindo o fato de “eles terem virado amiguinhos”.

Mas o pior mesmo é o nível de deficiência mental dessas pessoas. Veja bem: não é porque você trata seu cachorro como uma criança que as outras pessoas fazem isso.

Ontem, eu estava passeando com a Besta-Fera e, na metade do passeio, vejo, do outro lado da rua, uma mulher de uns 60 anos passeando com um poodle. Assim que ela me viu, atravessou a rua para vir falar comigo. Eu respirei fundo e considerei a hipótese de dizer algo como “não deixe o seu cachorro chegar perto do meu, porque o meu está infectado com lepra”, mas não tive tempo. Assim que ela chegou perto de mim, já soltou um:

– Oi!

Assim mesmo, com uma exclamação totalmente audível.

– Oi.

Fiz questão de deixar o meu ponto final (e minha falta de empolgação) bem claro. O poodle começou a cheirar a Besta-Fera (que, refletindo o comportamento do dono, não sabia direito o que fazer, mas mostrando claramente que não estava confortável). Aí, ela começou com aquele papo-clichê-repleto-de-termos-boçalizados:

– É menino ou menina?

Nem um, nem outro. É um cachorro. Eu ainda vou ter coragem de falar isso um dia. Mas não foi desta vez.

– É macho.

– Ah, o meu também é! É macho e adora passear!

Foda-se.

– Ah.

– E ele adora encontrar outros menininhos para brincar!

O que é isso? O poodle já não parecia ser muito homem, e a mulher ainda iria ficar cafetinando ela na rua? É um cachorro de programa? Um michê canino?

– Que ótimo. Deixe eu ir. Vai chover.

– Mas ele...

– Tchau!, eu disse, deixando claro que era a minha vez de usar exclamação.

Dez minutos depois, uma mulher, acompanhada do marido, apareceu com um Pug. O cachorro olhou desconsolado para nós, demonstrando um estado avançado de cansaço mental. Provavelmente, ele não agüentava mais seus donos ficarem tentando arrumar “amiguinhos” para ele. Tudo o que ele queria era dar uma volta em paz, mijar em uns dois ou três postes, voltar para casa e dormir no tapete. Eu e Besta-Fera reconhecemos um semelhante.

Sua dona, claro, não tomou conhecimento daquilo, tampouco do saco-cheio do seu cão. Besta-Fera e Pug começaram a se cheirar, sem muita empolgação, torcendo para aquilo acabar logo. A boçalidade começou logo:

– Ele morde?

Bom, ele é um cachorro. Seu único mecanismo de defesa são os dentes. O que você acha?

– Não. [suspiro].

Claro que eu poderia mentir, mas não ia mudar nada. A Besta-fera não é um cachorro que impõe muito respeito. Digamos que, num torneio de vale-tudo, ele estaria longe de ser considerado como favorito.

– O Lulu [não era esse o nome do coitado do Pug, mas lembro que era algo não particularmente masculino] também não!

E começou a rir de forma doentia, como se isso fosse suficiente para eles trocarem telefones, jantarem duas vezes por mês e trocarem cartões de Natal todo o ano. Besta-fera me olhou com cara de “podemos ir embora?” e o Pug me olhou com cara de “posso ir com vocês?”

Me despedi rapidamente e fui embora. Voltamos para casa, Besta-Fera bebeu água e deitou no sofá, com um olhar de “você tem razão, a sua espécie não deu certo mesmo”.

Então, quando você ver uma pessoa passeando com um cachorro na rua, observe atentamente as duas criaturas. Porque, na maioria das vezes, o verdadeiro animal é o que está sem a coleira no pescoço.

E, antes de ir embora, segue o Top 5 raças de cachorro que habitam Pinheiros, como um rápido passeio pode confirmar:

1. Lhasa-apso
2. Lhasa-apso
3. Lhasa-apso
4. Pug
5. Lhasa-apso

3 de junho de 2009

"Quero que Você me Aqueça neste Inverno..."

Há alguns meses atrás, meu lendário aquecedor morreu. Sim, aquele mesmo, que me fazia ter disputas territoriais com a Besta-Fera e que foi responsável pelo incêndio na calça da Sra. Gordon. E foi uma morte estranha, o botão de ligar simplesmente pipocou para fora do corpo do aquecedor, com ele desligado e guardado no quarto (Jonas, alguém?).

Enfim, como era verão, não dei muita importância ao fato. Soltei um “o aquecedor está morto, longa vida ao aquecedor”, lamentei sua morte por dez minutos e continuei tocando a vida.

Entretanto, o tempo passou e trouxe o inverno com ele. Um inverno particularmente frio. Se você mora em São Paulo, sabe que está fazendo um frio de gente grande na cidade. A meu ver, tinha duas escolhas: ou migrava para um lugar quente, ou comprava um aquecedor novo. Assim, na noite de segunda-feira, parti em direção ao Shopping Eldorado com a missão de comprar um novo aquecedor e ter um pouco mais de conforto em casa, sem precisar considerar a hipótese de ligar o forno e ficar sentado no chão da cozinha, como um menor abandonado.

Cerca de uma hora depois, estava entrando em casa com um aquecedor novinho. Já tinha tudo planejado: ia ligar o aquecedor na sala, e ficar assistindo TV sem sapatos, com os pés estendidos na direção do ar quente.

Tirei o aquecedor da caixa (após brigar com a Besta-Fera, que insistia em olhar dentro da caixa, pois não permite que nada entre em casa sem sua vistoria / aprovação) liguei e me sentei no sofá. Meus planos eram deixar a sala parecida com um forno para celebrar a chegada do novo eletrodoméstico da casa.

Passaram-se os minutos e nada. A sala continuava um iglu. Aproximei-me do aparelho e percebi que ele não aquecia, pois apenas o sistema de ventilação funcionava. Li e reli o manual vendo o que eu havia feito de errado e nada. Desliguei e religuei várias vezes, e nada. Tentei ligar em outras tomadas, e nada. Ele continuava apenas ventilando, o que tornava a casa mais fria ainda.

Ou seja, num dos dias mais frios do ano, eu consegui sair para comprar um aquecedor e voltei para casa com um ventilador disfarçado. Ô fase.

Pensei em arrancar a grade externa dele, colocar uns jornais lá dentro, tacar fogo e ficar sentado como um menor abandonado ao lado da minha nova lareira improvisada, mas isso seria humilhante demais. Assim, me enrolei num cobertor e fui dormir emputecido não apenas com o aquecedor e com meu azar, mas comigo. Afinal, onde eu poderia estar com a cabeça ao decidir comprar um aquecedor justamente numa loja chamada Ponto Frio?

Assim, ontem, fui à loja com meu aquecedor-ventilador-mutante embaixo do braço e a nota fiscal no bolso. Entrei na loja e falei com uma das vendedoras.

– Eu comprei este aquecedor ontem, mas ele não funciona. Vim trocar.

– O senhor tem que falar com a gerente.

– Qual o nome da gerente?

(peço licença aqui a todas as normas gramaticais conhecidas, mas colocarei alguns acentos no próximo trecho, para vocês entenderem melhor o diálogo que se seguiu).

– Êdna.

– Édna?

– Êdna.

– Ok. E onde ela está?

– Venha comigo.

Ela saiu andando pela loja em direção à seção de geladeiras, e apontou uma mulher de cerca de quarenta anos.

– Ela é a Êdna.

– Ok, obrigado.

Fui até a gerente, carregando o aquecedor e a cumprimentei.

– Boa noite. Você é a Êdna?

– Édna.

Ok. Começamos bem.

– Hã... Certo. Édna. Bem, eu comprei este aquecedor ontem, e ele não funciona.

Tirei o aquecedor da sacola e ela ficou olhando o aparelho, estudando a marca e o modelo com olhos de especialista.

– Não é possível.

– Oi?

– Esta marca nunca deu defeito. É a mesma que eu uso em casa.

– Bom, ele não aquece. Ele apenas ventila.

Ela pegou o aparelho e saiu andando pela loja. Eu não sabia se deveria ir atrás dela ou não, mas, como o aquecedor-ventilador-mutante ainda era meu, decidi segui-la. Ela parou próxima a uma tomada e ligou o aquecedor. Apertou o botão e o aparelho nem ligou. Ou seja, ele provavelmente estava doente mesmo. Na minha casa, apresentou os primeiros sintomas, e, 24 horas depois, faleceu. Ou, ao menos, entrou em coma.

Mas a Edna (não precisamos mais continuar com o jogo de acentos) não se deu por satisfeita. Pegou o aquecedor e saiu andando novamente pela loja, em busca de outra tomada. Eu, claro, atrás dela como um bobo.

Ela parou no meio da seção de televisões e estudou as prateleiras em busca de uma tomada. Após alguns segundos, encontrou uma e, com ar de quem iria tomar uma atitude arriscada, disse, mais para si própria do que para mim:

– Se queimar, não é problema meu.

Aquilo me assustou um pouco. Nem tanto a informação, mas sim o tom de voz. Dei um passo para trás e perguntei cauteloso:

– Só por curiosidade... Porque ele queimaria?

– Porque esta tomada pode ser 220.

Imediatamente, o pedaço defeituoso do meu cérebro começou a imaginar o aquecedor-ventilador-mutante explodindo, a Edna gritando “parada cardíaca!” e, as outras vendedoras correndo na nossa direção enquanto a gerente tentava ressuscitar o aparelho dando murros no seu peito. Quando eu estava quase começando a gargalhar, chacoalhei a cabeça e afastei a imagem do meu cérebro. Na dúvida, dei mais um passo para trás.

Ela ligou o aparelho e, felizmente, nada explodiu. Um pouco mais confiante, me aproximei e percebi que, desta vez, o aquecedor havia ligado e, assim como aconteceu em casa, apenas ventilava. Dei um suspiro aliviado, porque as chances de ele não funcionar em casa e funcionar corretamente na loja eram bem grandes – aparelhos elétricos e eletrônicos sempre adoraram me envergonhar dessa maneira.

A Edna estudou a ventilação por alguns segundos e, visivelmente inconformada, resmungou algo como:

– Não funciona. Não é possível.

Pensei em soltar algo como “eu disse isso assim que entrei” ou “é exatamente por isso que estou aqui”, mas a prudência recomendou que eu ficasse quieto. Aparentemente, ela estava levando aquilo para o lado pessoal. Olhou para mim, e, resignada, perguntou:

– Quer escolher outro modelo?

– Não, eu quero levar um modelo igual. Mas um que aqueça.

Ela saiu andando pela loja e voltou alguns minutos depois, com outro aquecedor igual. Ligou na tomada e me mostrou que funcionava corretamente. Socou o aparelho na caixa (não existe um modo gentil de descrever como ela fez isso), colocou a caixa na sacola e me entregou.

Eu coloquei a mão no bolso e puxei a nota fiscal.

– Você precisa da minha nota, certo?

– Não. Pode ir embora.

– Mas a nota fiscal...

– Não precisa. Obrigada e boa noite.

O tom de voz dela não abria espaço para novas perguntas. Peguei o aquecedor, agradeci e fui embora. Meia hora depois, entrei em casa e testei o aparelho. Estava funcionando. Caso encerrado.

Ao menos, para mim. Porque passei o resto da noite com a impressão de que a Edna irá ligar agora de manhã para a fábrica, querendo falar com o responsável pelo setor de aquecedores.

E algo me diz que a conversa não será nada amigável.