31 de maio de 2009

10.000 a.C.

Um dos maiores mistérios da humanidade é precisar qual teria sido o primeiro blog da história, mas isso está prestes a mudar. Recentes descobertas arqueológicas forneceram um grande avanço na resposta desta questão, mas o ponto chave desta discussão aconteceu apenas meses atrás, quando foram descobertos vestígios daquele que pode ter sido o primeiro (ou um dos primeiros) blogs da história.

Numa caverna na região onde hoje se localiza a cidade de São Paulo, arqueólogos e historiadores estão trabalhando para decifrar diversas inscrições e desenhos sobre assuntos diversos, feitas pela mesma pessoa. Apesar do material encontrado ser riquíssimo, porém, seu estado de conservação é péssimo. Assim, restauradores e linguistas já estão trabalhando incansavelmente para recuperar este verdadeiro patrimônio da blogosfera.

De acordo com os pesquisadores, estes textos e desenhos certamente pertencem a um dos primeiros habitantes do continente americano, e servirá como vasto material de pesquisa para que se saiba mais sobre a vida dos homens e mulheres daquela época. Afinal, mesmo tendo analisado somente trechos do material encontrado, os cientistas já foram capazes de coletar e interpretar diversas informações contidas nas inscrições.

O primeiro passo nos trabalhos foi estudar os hábitos do autor das inscrições. Aparentemente, trata-se de um sujeito de cerca de 30 anos, que reside sozinho numa pequena caverna no local (onde hoje se localiza o bairro de Pinheiros). Não foi possível determinar qual ocupação profissional ele exercia dentro da sua tribo, mas acredita-se que era uma espécie de explorador, pois diversos textos mencionam o fato de ele ter trabalhado fora de casa por cerca de 30 horas seguidas.

A única imagem liberada pelos cientistas é justamente o que eles consideram um retrato do autor dos escritos, e que é reproduzida abaixo.


Diferentemente do que se esperava de um homem adulto desta época, o autor das inscrições parece ser impossibilitado de caçar ou preparar seu próprio alimento. Isso porque alguns textos citam o fato de ele se alimentar apenas de carne congelada, que, aparentemente comprava de outras pessoas. Pequenos momentos do seu cotidiano são encontrados, como um texto que menciona um grave acidente que quase lhe custou uma das mãos, quando estaria aquecendo alimentos numa fogueira.

Diversas passagens também apontam uma criatura conhecida como Besta-Fera, mas os pesquisadores ainda não conseguiram concluir se elas se referem a um animal de estimação, ou uma criatura selvagem que caça nas imediações. Os arqueólogos estão mais inclinados pela segunda hipótese, pois os textos que citam este animal (talvez uma espécie de lobo ou tigre) são sempre carregados de violência e destruição. Curiosamente, o animal não parece se alimentar de organismos vivos, mas sim de pedaços de roupa e utensílios caseiros do escritor.

O que mais chama a atenção dos envolvidos na pesquisa, entretanto, é que o autor dos textos aparentemente tem consciência de que, em sua época, o homem estava dando seus primeiros passos na corrida da evolução. Aliás, ele mesmo coloca a evolução em xeque em diversos momentos. A expressão “a humanidade não vai dar certo” é vista em diversas inscrições, como se fosse uma espécie de lema.

Em um dos casos, comentando sobre a música que os membros de sua tribo executam com paus e pedras, afirma que “o planeta deveria dar uma chance aos mamutes, já que eles são claramente mais evoluídos que nós” (outra inscrição encontrada diversas vezes no material é a expressão “ô fase” – a teoria mais usada pelos cientistas seria de que isso estaria ligado diretamente às fases da Lua, o que comprovaria conhecimentos básicos de astronomia).

A análise social contida nos textos e nos desenhos é, segundo os envolvidos na pesquisa, a grande riqueza do material e serve como grande fonte de pesquisa para os hábitos sociais da época. Diversas inscrições, por exemplo, criticam ferozmente os membros de uma casta formada por pessoas que percorriam as cavernas vendendo insistentemente produtos e serviços de todos os tipos. Alguns dos arqueólogos estão convencidos de que este pode ser o primeiro passo do que hoje conhecemos como telemarketing, mas estudos posteriores ainda são necessários para confirmar isso de forma mais acurada.

Outro tema que parece ser um dos preferidos deste que é um dos primeiros cronistas da história é a pessoa encarregada de zelar pela conservação das cavernas. Os cientistas estão entusiasmados com o fato, pois isso provaria que, desde sua aurora, a humanidade teria escolhido síndicos e zeladores para cuidarem da manutenção de grupos de residências.

Mas, aparentemente, o autor dos textos e ilustrações parecia não se dar bem com o síndico de sua tribo. Aliás, o desenho reproduzido neste artigo estava ligado diretamente a um texto que se referia a uma espécie de conselho tribal no qual eram discutidos impostos e limpeza das cavernas. Os historiadores estão convencidos de que a ilustração reproduz o momento exato em que o autor é flagrado pelo síndico tentando escapar do encontro. Referências a “porcos selvagens numa caverna” foram encontradas na mesma parede, mas os pesquisadores ainda não descobriram qual a ligação entre os dois assuntos.

Mas o grande motivo de comemoração dos cientistas é que esta descoberta pode levar à identificação de outros diários da época. Em muitas inscrições são encontrados nomes como A Primeira Parede da Maria, Estimulapedra, Caverna de Impropriedades, Blabla, Adorável, Caverna de Acepipes, Parede do Tyler e Apenas Paredes Rabiscadas.

Outras, por sua vez, identificam o nome de outros escritores da época, como Buchecha, Davis e Negão Escritor. Entretanto, alguns nomes (como Gomex, Dragus e Maximus) vêm gerando debates acalorados entre os pesquisadores, devido às suas claras influências do latim – o que pode mudar, radicalmente, tudo o que sabemos sobre a história ocidental.

Mas em uma coisa, todos concordam: estes nomes podem ser o primeiro passo para provar a teoria de que uma rede de diários pessoais e sociais, mesmo de forma rudimentar, ligava diversas tribos diferentes. Conforme novos diários forem aparecendo, será possível compreender de forma cada vez mais clara como nossos antepassados viviam, seja no aspecto social ou tecnológico.

E estas são apenas as primeiras conclusões que os arqueólogos e cientistas tiraram a partir das análises do material. Certamente, com o passar do tempo, outras conclusões serão feitas e apresentadas ao grande público, que poderá finalmente, conhecer um pouco mais sobre nossos antepassados, pelas palavras dos próprios.

(OK. Caso queira ver a história REAL da ilustração, clique aqui)

27 de maio de 2009

Coisas da Vida - VIII

(você encontra o post anterior dessa série aqui)


Um dia desses, quando eu estava saindo para trabalhar, entrei no elevador e dei de cara com uma mulher de cerca de 50 anos, cujas dimensões esféricas ocupavam 2/3 do elevador. Seu rosto me lembrava o Jabba the Hutt (não pelo peso dela, mas pela cara mesmo, era igualzinha), mas com quilos de maquiagem. Como se isso já não bastasse para chamar a atenção, ela usava um vestido indiano todo colorido, que a deixava parecida não com um personagem da novela das oito, mas sim com um capítulo inteiro.

Entrei no elevador, apertei o botão do térreo e me espremi num canto. Ela olhou para mim e, como se fosse a coisa mais casual do mundo, comentou:

– Eu estou descalça.

Olhei discretamente para os pés dela e confirmei: era verdade. Estava descalça. Pensei em sorrir e ignorar, mas ela ficou olhando para mim, claramente esperando por uma resposta. E eu, obviamente, não sabia o que dizer. Afinal, como responder a uma declaração dessas?

– Hã... Ok.

Foi tudo que consegui.

O elevador desceu mais dois andares, e ela se virou para mim novamente:

– Você vai embora?

– Oi?

– Você vai embora?

Ou seja, ela é daquelas pessoas que, quando fala algo sem nenhum sentido, acredita que se repetir a mesma bobagem apenas falando mais alto, será compreendida. Desisti de tentar entender e fui em frente.

– Bem... A hora que o elevador parar, eu pretendo sair dele, sim.

– Ah é?

Não consegui entender se ela aprovou ou não minha resposta. Mas resolvi não esmorecer, já que demonstrar medo na frente de uma pessoa que anda descalça de elevador – e faz questão de ressaltar isso – pode ser mortal.

– É.

Ela levantou um braço e colocou a mão a uns três centímetros do meu rosto. Ela tinha algo nas mãos, mas precisei ficar totalmente vesgo para colocar aquilo em foco – afinal, eu não tinha como dar um passo para trás, já que estava esmagado na parede – e identificar o que ela estava segurando.

Era dinheiro.

Aparentemente, uma nota de cinco reais e uma de dois reais, totalmente amassadas.

Duas coisas passaram pela minha cabeça. 1) será que ela acha que eu sou michê e faço ponto aqui no elevador? e 2) Ok, eu não sou grandes coisas, mas, porra, SETE reais? Fim de carreira demais.

Felizmente, minha carreira de garoto de programa terminou logo depois de começar, quando ela perguntou, instantes depois:

– Você pode entregar isso ao zelador?

– Hã... Sim.

– Porque eu estou descalça.

– Sim, eu entrego.

– É de um lanche que fiz.

– Não tem problema. Eu entrego, afirmei, rezando para ter ficado claro que eu não queria me envolver com a situação.

O elevador parou no térreo. Peguei os R$ 7,00, me despedi e, fazendo um exercício de contorcionismo, consegui ser cuspido fora, aterrissando no hall do prédio. Me afastei uns cinco metros e, quando estava quase na porta do hall, ouço um berro atrás de mim:

– É PARA ENTREGAR PARA O ZELADOR, HEIN?

Ou seja, além de tudo, ela achou que eu iria fugir com o dinheiro e comprar drogas ou gastar tudo no fliperama. Ignorei e fui até a guarita, encontrei o zelador e entreguei o dinheiro.

– É de um lanche. É tudo o que eu sei.

Ele agradeceu e pegou o dinheiro. Aparentemente, ele sabia do que eu estava falando.

Fui trabalhar e passei o resto do dia com a sensação de que as pessoas do meu prédio (moradores e funcionários) fazem parte de alguma seita secreta, da qual eu sou o único não-integrante. Sou um pária dentro daquele edifício. Sou uma espécie de Al Pacino em Serpico.

Estou correndo perigo. Vou trocar as fechaduras e colocar grade nas janelas. Não vou mais pedir comida, com medo de ser envenenado.

Se eu ficar muito tempo sem postar, podem mandar a polícia para o prédio. Meu corpo vai estar ali, em algum lugar.

25 de maio de 2009

A Varanda Sistina - Cena Excluída

Quando eu terminei de escrever o post A Varanda Sistina, vi que o texto estava enorme. Na verdade, eu havia percebido isso antes mesmo de terminar o texto. Ou seja, estava com um problema nas mãos, já que eu não estava com vontade de dividir o post em duas partes.

Assim, li, reli e tentei enxugar o texto o máximo possível, para evitar que ele ficasse quase do tamanho de um conto - cá entre nós, um sujeito com a bunda de fora na minha varanda não mereceria tanto assim. Não consegui. A saída, então, foi cortar um trecho inteiro do texto e acabei escolhendo o meu diálogo com o pintor, logo que ele entra no apartamento.

Fiz com dor no coração, já que foi um dos trechos que mais me fez rir enquanto escrevia – sim, eu dou risada sozinho em alguns posts. Mas admito que, mesmo tendo adorado escrever isso, não era tão importante assim para a história. Entretanto, alguns amigos leram o texto original e me ameaçaram de morte caso eu não publicasse isso - um deles chegou a me pedir o diálogo, alegando que transformaria isso num post inteiro.

Sendo assim, resolvi publicar esse trecho agora, como "material extra" aqui no blog. Apenas como referência, vale dizer que este trecho acontece no momento em que o pintor entra no apartamento. Além disso, os leitores mais atentos perceberão que alguns trechos (como o que cita o Jonas, entraram na edição final). Sem mais delongas, vamos ao trecho:

"Dia seguinte, o interfone toca e o porteiro balbucia algo que nem ele entenderia. Calculei que deveria ser o pintor – afinal, ele não interfonaria para dizer que um ladrão está subindo – e deixei a porta aberta. Minutos depois, toca a campainha. Atendo a porta e é um rapaz de cerca de vinte anos, com pincéis, latas de tintas e tudo aquilo que você pode imaginar na mão de um pintor.

– Bom dia, ele disse, em português claro e sem sotaque. Quase chorei de alívio.

– Bom dia.

– O serviço vai demorar cerca de duas horas, tudo bem?

– Tudo. Você quer um café?

Ele nem respondeu. Apenas olhou para a Besta-Fera, que corria ensandecido ao redor dele.

– Ela morde?

– Ele. Não, não morde.

– E qual o nome dela?

– Dele. Besta-fera.

Jonas, o fantasma que mora comigo e não gosta de muita agitação em casa, calçou um par de chinelos e, falando que ia tomar um pouco de Sol na rua, atravessou a parede e foi embora.

O pintor ficou brincando com a Besta-Fera alguns minutos e foi para a varanda. Cabe dizer aqui que, quando aluguei o apartamento, havia uma tela de arame esticada e amarrada na grade da varanda – provavelmente, o morador anterior tinha algum bicho também. Resolvi manter a tela porque 1) semanas depois que mudei, comprei a Besta-fera, e 2) para uma pessoa que quase se incinera com uma lasanha da Sadia, todo cuidado é pouco.

– Esta tela é para ela não cair?

– Ele! Sim, esta tela é para ele não cair.

– Mas eu vou ter que tirar, para pintar.

– Sim, eu já imaginava isso. Pode tirar, depois dou um jeito de colocar.

Óbvio que eu já sabia que teria que contratar uma empresa para colocar uma rede de nylon no lugar, porque, se eu tentasse esticar aquilo, as chances de eu de ter o fígado perfurado pelo arame ou cortar uma artéria seriam enormes.

– Nem precisa colocar mais, ela não passa pela grade.

– Ele! O cachorro é ele! O cachorro é ele e eu sou ele. Só a grade que você veio pintar é que é ela.

– Ah é, ele. Mas ele não cai.

– Será?

– Minha cunhada tem uma cadela igual a ela, ela não passa ali.

Então é isso. Como o único cachorro dessa raça que ele viu é uma cadela, ele deve achar que a Besta-fera também é fêmea. Aposto que ele está pensando que “é que eles são iguaizinhos, então essa deve ser mulher também”.

– Bom, Ok. Depois eu vejo isso. Você não quer um café mesmo?

– Não, obrigado."

22 de maio de 2009

A Varanda Sistina

Há algumas semanas, meu prédio andava meio alvoroçado devido a um comunicado afixado na parede do elevador, no qual a Síndica Mafiosa, como boa suserana do prédio, comunicou a todos vassalos que moram ali que as grades das varandas seriam pintadas.

Até aí, Ok. Sou a favor de morar num prédio que não pareça um cortiço, especialmente com a grana que eu pago de condomínio ali. Na verdade, o valor do condomínio é bastante injusto, já que o prédio não tem nada. Eu sei que tem uma sauna (justamente onde ela guarda seus porcos selvagens), mas eu não sei onde é. Um dia vou criar coragem e perguntar a ela se é possível eu pagar o condomínio sem a sauna.

Mas, voltando à pintura. Eu já tinha visto o aviso no elevador, mas não dei muito atenção. Dias depois, eu já havia me esquecido completamente disso. Até o meio da semana passada, quando eu, entrando no prédio, dei de cara com ela (e seu famigerado cigarro pendurado no canto da boca).

Tentei desviar o caminho, mas não consegui. Ela havia me visto.

– Oi, eu disse, timidamente.

– NÓS VAMOS PINTAR A GRADE DO SEU APARTAMENTO, ela afirmou, deixando claro que apenas os fracos usam expressões como “oi” e “boa noite”.

– Ah... É... Vamos?

– VAMOS.

– Mas... Agora?

Antes que ela pudesse responder, a cinza do cigarro dela caiu, mas não bateu nas roupas que ela usava. Provavelmente, por medo. Se você é novo aqui no blog, acredite: por onde minha síndica anda, os cães começam a latir, os cavalos relincham e os gatos fogem em disparada. Ou seja, não sei ao certo se ela é o anti-Cristo, mas, caso ela se candidatasse ao cargo, conseguiria a vaga com uma entrevista de dez minutos–- o fato dela aparentemente não piscar muito certamente ajudaria também.

– NA PRÓXIMA SEMANA.

– Ah. Bom, sem problemas. É só me avisar antes.

– VOCÊ JÁ FOI AVISADO.

Uma gota de suor desceu pelas minhas costas.

Percebi que a conversa estava entrando perigosamente perto de algo como “VOCÊ NÃO VIU O AVISO NO ELEVADOR?”, o que levaria, mais cedo ou mais tarde, a algo como “EU NÃO VEJO VOCÊ NAS REUNIÕES DE CONDOMÍNIO” e ao meu conseqüente fuzilamento na garagem e o desaparecimento do meu corpo.

Murmurei algo próximo de um “sim, claro” e me despedi, o mais respeitosamente que consegui. Subi para o meu apartamento, tranquei a porta e evitei acender as luzes ou fazer qualquer tipo de barulho por cerca de dois dias.

Bem, dias desses, enquanto eu entrava no prédio, um dos porteiros me avisou, no mais puro idioma portês:

– Turadoseutamentoémanhã!

– Quê?

– Turadoseutamentoémanhã!

– A pintura do meu apartamento...

– Manhã!

– É amanhã. Ok. Escute, tem como o meu ser pintado primeiro? Assim, o cara pinta enquanto eu ainda estou aqui.

– Simsorróbi.

Dia seguinte, o interfone toca e o porteiro balbucia algo que nem ele deve ter entendido. Calculei que deveria ser o pintor – afinal, ele não interfonaria para dizer que um ladrão está subindo – e já deixei a porta aberta. Minutos depois, um rapaz de cerca de vinte anos, com pincéis, latas de tintas e tudo aquilo que você pode imaginar na mão de um pintor entra no apartamento.

– Bom dia, ele disse, em português claro e sem sotaque. Quase chorei de alívio.

– Bom dia.

– O serviço vai demorar cerca de duas horas, tudo bem?

– Tudo. Você quer um café?

– Não, obrigado.

Jonas, o fantasma que mora comigo e não gosta de muita agitação em casa, calçou um par de chinelos e, falando que ia tomar um pouco de Sol na rua, atravessou a parede e foi embora.

O pintor, por sua vez, foi até a varanda e fechou a porta de vidro, por causa da Besta-fera. Eu fui para o computador, tentando não olhar para o relógio. Toneladas de coisas para fazer no trabalho, mas entre enfrentar meu chefe e minha síndica, meu chefe é nível practice, enquanto a síndica é chefe de fase no nível hard.

Deixei ele trabalhando ali e fiquei conversando com Sra. Gordon pelo computador, enquanto a Besta-fera ficou rodando por ali. Quando percebi, já havia se passado meia hora. Foi aí que eu tomei a infeliz decisão de olhar para o lado e conferir o progresso do trabalho.

Tudo o que eu vi foi uma bunda. O pintor estava de costas para mim, abaixado, e com as calças uns 30 paralelos abaixo da linha do Equador. Minha varanda não possuía mais uma grade ou dois vasos de flor pertencentes à senhora Gordon. Minha varanda era apenas o palco para a bunda do pintor desfilar toda sua branquidão, e umas duas espinhas.

Olhei para a Besta-Fera. Besta-fera olhou para mim, com cara de náusea e um olhar que dizia “porque não podemos ter sucrilhos no café da manhã, como as outras famílias?”. Pedi desculpas silenciosamente e continuei falando com a Sra. Gordon, tentando ignorar... Aquilo.

Mas a minha fé na raça humana é idiota e persiste. Logo, eu comecei a pensar que tudo isso aconteceu apenas porque ele estava abaixado, e a calça escorregou. Coitado, o cara esqueceu o cinto hoje em casa, deve ter perdido a hora. Não é culpa dele. Poderia acontecer com qualquer um. Vou oferecer café novamente a ele. Talvez uma água.

Olhei para a varanda.

Ele estava em pé. Ele não estava abaixado, mexendo na tinta. Ele estava totalmente em pé, pintando o peitoral da varanda, aparentemente orgulhoso do fato de que alguns de seus antepassados eram conhecidos como homo erectus. Executava seu trabalho calmamente, com metade do bundão exposto e provavelmente aproveitando o ventinho do oitavo andar.

Engraçado como são as coisas. O papa tinha o Michelangelo, e eu tenho um cara com a bunda de fora dentro do meu apartamento.

Besta-fera levantou, olhou para mim desolado e, ainda com o olhar, sussurrou algo como “estou no quarto, me avise quando a varanda voltar a ser um lugar normal” e me deixou ali sozinho.

Abri as gavetas e procurei qualquer coisa que eu pudesse usar como cabresto, mas mudei de idéia. Se o pintor me visse tentando digitar com uma das mãos ao mesmo tempo em que tentava segurar um envelope da Tim ao lado do rosto com a outra, eu provavelmente viraria um dos assuntos preferidos do prédio pelas próximas semanas – afinal, ele vai pintar a grade de todos os apartamentos.

Sendo assim, fechei um dos olhos, cortando totalmente a minha visão periférica, e continuei conversando com Sra. Gordon. Com o olho fechado, comecei a me concentrar no rosto e no sorriso dela para manter minha sanidade, enquanto conversava com ela.

Vale dizer que desde o colegial eu tenho esta habilidade. Durante as aulas de química, eu apoiava o rosto nas mãos de forma a cobrir um dos olhos e, enquanto aparentemente eu estava prestando na aula, na verdade, eu estava dentro do olho fechado, secretamente organizando minhas coleções de quadrinhos ou de discos de vinil (velho mode: on).

Assim, aos poucos, eu me coloquei dentro de um universo que continha apenas a Sra. Gordon, e fiquei ali, naquele mundo quentinho, perfumado e confortável. Aos poucos, estava livre de qualquer resquício daquelas nádegas no meu cérebro. Eu vivia num mundo melhor e mais justo, sem síndicas assassinas e totalmente desprovido de pintores com a bunda de fora.

– VALDIR!

Dei um pulo, ao mesmo tempo em que ouvi a Besta-fera caindo da cama.

Olhei para a varanda assustado e o pintor estava debruçado na varanda, gritando com algum companheiro que, provavelmente, estava a três quadras do prédio.

Faça as contas: calças caindo + pintor debruçado = aula de anatomia.

– VALDIR, PRA QUAL APARTAMENTO EU VOU AGORA?

O Valdir (que certamente tinha uma vista mais agradável que a minha) respondeu alguma coisa e o pintor voltou à posição normal, onde mostrava apenas metade da bunda. Abriu a porta da varanda.

– Acabei.

Pensei em responder algo como “acabou com meu dia, também”, mas mudei de idéia. Afinal, ele está aqui por causa da síndica, melhor apenas aceitar os fatos e tentar continuar o dia. Fui até a porta, agradeci e ele foi embora.

Imediatamente, voltei para o computador, abri o Word e digitei uma carta sobre a qual tenho pensado nos últimos meses. No dia em que eu me mudar daqui, vou imprimir e deixar numa das gavetas do guarda-roupa. Mas vocês já podem ler com antecedência:

"Caro (a) locatário (a) deste apartamento, conheça o Top 5 Coisas Essenciais para Sobreviver neste Prédio:


1. A Síndica é Deus. Se ela falar, obedeça. Se ela ao menos sugerir com o olhar, obedeça.

2. Jamais, em hipótese alguma, deixe de comparecer nas reuniões de condomínio.

3. Caso você descubra onde a sauna do edifício fica, não entre lá sem acompanhamento policial.

4. O elevador está sempre no décimo quarto andar. Sempre. Se você descer para buscar uma pizza, quando voltar para o hall o elevador estará novamente no décimo quarto andar. Não existe motivo aparente para isso. Aceite o fato e suba de escadas.

5. Caso alguém venha pintar a grade da sua varanda, não observe o trabalho do pintor. Aliás, se possível, não esteja em casa na hora que isso acontecer."

20 de maio de 2009

Diga-me o que Procuras... E Eu te Direi Quem És - Parte VIII

(leia o post anterior desta série aqui)

Após quase um semestre de ausência, hora de um post da série mais famosa do blog. Para quem é novo aqui, tratam-se das pesquisas mais... Digamos... Inusitadas feitas no Google, e que, sabe-se lá Deus porque, fazem as pessoas caírem aqui.

Assim, seleciono as melhores (leia-se: piores) e publico aqui, com os devidos comentários. Vale lembrar que todas as pesquisas sobre o maldito Kleber bambam pelado (sim, elas ainda existem) são sumariamente ignoradas. Ah, e nunca é demais lembrar que mantenho todos os erros de português nas buscas.

Sendo assim, vamos às pérolas:



videos com orientais virgens perdendo a virgindade
Amigão, se você encontrar um vídeo de uma mulher (de qualquer raça) que não seja virgem e perdendo a virgindade, eu escrevo um post sobre sua genialidade.

video grátis de alguem torresmo crocante
Sinceramente, eu ainda não entendi se você quer ver um vídeo de culinária ou está pesquisando alguma prática sexual totalmente bizarra. Espero, sinceramente, que seja o primeiro. Caso contrário, o dia em que eu publicar um livro sobre o fato da humanidade não dar certo, vou pedir para você escrever o prefácio.

diga me seu nome e eu direi quem vc eh
Ah, assim até eu.

super heroi shaspion
O Shaspion, por acaso, seria aquele cujas aventuras passavam no Shou da Shusha? Ou na TV Manshete?

rei leão satanas
Sim, os filmes da Disney sempre tiveram relação com o satanismo. Sempre, desde Branca de Neve e os Sete Anões. Ou você acha que a bruxa escolheu uma maçã para envenenar a Branca de Neve por acaso? Tanto que o nome original do filme era Branca de Neve e o Pecado Original, mas decidiram mudar de última hora, trocando a cobra pelo Dunga. Já O Rei Leão é um caso à parte, que deixa claro todo o relacionamento entre a Disney e Satanás. Para conferir, pegue um antigo VHS do filme, e gire o rolo da fita no sentido contrário (durante cerca de vinte minutos e com o ouvido colado nela), para ouvir um coral de demônios interpretando Hakuna Matata.

ranking dos melhores empresas de celulares+abril 2009
1 -) Vivo, Claro, Oi; 2) Ninguém; 3) Ninguém; 4) Ninguém; 5) Tim.

quero relançar um produto decada de 80 o pirulito pirocoptero
É fácil. Primeiro, você precisa adquirir os direitos do produto. Feito isso, é hora de trabalhar o marketing. Comece a usar um capacete com uma hélice o dia inteiro – na escola, no trabalho, na rua – e uma camiseta com a inscrição: “Aprenda a voar. Pergunte-me como.” Logo, você estará nadando em dinheiro e na capa da Exame.

programa que faz imagens de naruto com cartolina
Posso dar uma outra dica? Entre em www.catho.com.br. Sua vida vai mudar totalmente – e, com certeza, vai te fazer bem.

feitiços para avançar no tempo
Faça um balde de café e tome a noite inteira, sem dormir. No dia seguinte, saia de casa ainda de madrugada, vá para sua empresa antes de todos seus colegas e mexa no computador de todos eles – incluindo o seu -, deixando indicado o dia, mês e ano que você deseja visitar. Quando o expediente começar, todos vocês serão magicamente transportados para a época indicada – basta sair na rua e vislumbre o futuro. Caso isso não funcione, é porque você com certeza se esqueceu de algum dos computadores. Repita o procedimento na manha seguinte com mais atenção.

olha, é só passar por mim um camburão duas velhinhas qualquer um já grita logo
Hã... Ok.

menino de onze anos na europa
Devem existir uns 30 milhões. Você não poderia ser mais específico, tipo “garoto de 11 anos ruivo chamado Hans Kelmutt em Berlim”?

quero encontrar minha mae quais providenciasdevo tomar
Isso é muito mais complicado que parece, e o Google não vai poder te ajudar. Ao menos, não desta forma. Pegue um cartaz e escreva nele, com canetinha: “OI! Você é minha mãe?”, pendure no pescoço e passe os dias andando pela rua mais movimentada da sua cidade. Faça isso por uma semana – estatisticamente, toda pessoa que faz isso localiza a própria mãe em no máximo quatro dias. Caso não funcione, talvez meus leitores possam ajudar. Mande uma foto sua – andando pela avenida com o cartaz pendurado – e tentaremos localizar sua mãe (para desgosto dela).

diga-me tres artistas que usam a forma geometrica nas suas obras
Fácil. O Pink Floyd usa triângulos, o King Crimson usa círculos. Já os Sex Pistols preferem retângulos, mas como são punks, desenham a mão mesmo, sem usar as réguas, aqueles instrumentos feitos por um sistema capitalista porco e opressor.

fotos dos astecas como vivem hoje
Olhe, acredito que não haja mais astecas hoje em dia. Agora, se você puder ampliar sua pesquisa para outros povos pré-colombianos, existem três incas que ficam nas imediações do Masp, todo sábado, vendendo aqueles malditos CDs tocados com flautas de Pan.

que nomes receberiam as organelas presentes nos departamentos
Depende do departamento e da organela, claro. O retículo endoplasmático rugoso costuma ficar na portaria, controlando a entrada e saída das proteínas da empresa – às vezes, quando a coisa aperta, ele faz os serviços de banco e entregas também. O complexo de Golgi, ao contrário do que o nome indica, tem uma tarefa simples (colocar o lixo para fora), ocupando a posição mais baixa na hierarquia das empresas eucariontes. Quando a empresa pensa em se expandir e contratar novos funcionários, é ativado o departamento de RH, ocupado pelos centríolos. Vale lembrar que nas células vegetais, sempre que decidiam pintar os escritórios, convocavam os cloroplastos, mas mudaram de idéia na terceira vez que ele pintou tudo de verde. Mas o grande problema destas empresas é nas festas de final de ano, quando todos bebem demais e ficam tentando praticar mitose com a gostosa da mitocôndria, cuja única função é pagar a conta de luz e, assim, garantir a energia da empresa.

os motivos que fizeram plutão deixar de ser considerado um paneta
Na verdade, ele não deixou de ser um planeta, ele apenas abandonou o Sistema Solar por diferenças musicais com os outros corpos celestes e decidiu seguir carreira solo. Já lançou três álbuns (um deles, ao vivo, gravado em Andrômeda). Mas há rumores de que os nove planetas voltarão a tocar juntos, fazendo uma reunion tour. Vamos torcer para o show passar pelo Brasil.

propaganda de cerveja com mulheres dando cantada em homens
Qualquer uma. E na verdade, não são propagandas, são documentários. Tudo – absolutamente tudo – que você vê na TV é verdade. Então, se você sentar num bar e começar a tomar cerveja, logo a Juliana Paes vai aparecer de minissaia e começar a cantar você. Pode acreditar. E, uma dica: se a Juliana Paes estiver pesando uns 90 kilos, ter a cara cheia de espinhas e não ter todos os dentes na boca, é porque você bebeu pouco. Continue bebendo que logo, logo ela se transforma na Juliana Paes de verdade.

baixa jogos garatis de plei3
Não, não. Você não vai encontrar nada “garatis” de plei3 assim. Você tem que digitar o nome completo do videogame. Tente usar pleistechion, ui e équisbóquis. Ou, se quiser jogos específicos, tente algo como rêilou, uinin elévem ou fainau fântasi.

ter filhos é padecer no paraiso sim ou nao
Depende do filho, claro. Acredito que, no caso de uma mulher que gere uma pessoa que conversa com o Google como você, a resposta seria não.

preciso conferir o numero da minha carteira de identidade
Fácil. Pegue seu RG e uma lata de spray. Vá até a delegacia mais próxima e piche no muro seu nome completo, endereço (com telefone para contato) e o número do seu RG. Lembre-se que muros são criaturas extremamente burocratas, então um pouco de agressividade pode agilizar o processo (escreva a frase “aqui só trabalha filho da puta”). Faça isso, vá para casa e espere. Em poucas horas, alguns gentis policiais irão tocar sua campainha, se oferecendo para lhe a conferir o número da sua carteira de identidade.

eu me chamo dirço Hernandes e sou herdeiro do deputado Clodovil Hernandes
Prazer. Próximo.

ferventar o torresmo bicarbonato
Amigão, qual o seu problema com torresmos?

porque é mais difícil ser um cidadão comum do que um super-herói?
Ah, está pensando em mudar de carreira, certo? Não poderia estar mais correto, já que a vida de super-herói é muito mais fácil. Pense comigo: quantas vezes você viu o Thor na fila do banco, o Homem-Aranha comprando pão ou o Batman andando de metrô? Mas justamente por isso que a carreira de super-herói é extremamente disputada. Agora, se você acha que possui algum poder ou habilidade fantástica, mande seu currículo para empresas como rh@ligadajustica.org e trabalheconosco@xmen.org e boa sorte!

carta autorização de compra em supermercado
Segue um modelo, imprima e utilize como desejar: “Caro caixa do supermercado: Eu (nome da sua mãe), portadora do RG XX.XXX.XXX-XX, peço desculpas em nome de toda a minha família, por ter um filho boçalizado a ponto de ter me pedido esta carta. Já iniciamos seu tratamento, mas os remédios ainda não fizeram efeito. Favor fingir que leu a carta e passar as compras dele normalmente.”

perdi meu cartão de crédito e não bloqueei e agora?
Chame seus amigos e organize um bolão sobre qual será o valor da sua fatura. Aquele que chegar mais perto, ganha um jantar, que obviamente será pago por você. Para continuar a brincadeira, pague a fatura como se nada tivesse acontecido e não bloqueie o cartão, assim vocês poderão brincar novamente no mês seguinte.

passa pela sua mocidade, balbucia
Por um instante, achei que você estava tentando travar o Google. Mas, olhando com mais calma, isso pode ser o trecho de um samba-enredo. Caso eu esteja certo, tente refinar sua busca, procurando +“passa pela sua mocidade, balbucia” +“zulu” ou + “passa pela sua mocidade, balbucia” + “palmares”. Se for samba-enredo, vai funcionar.

o q cai na prova de telemarketing
Nada, é apenas uma redação onde você tem que, em trinta linhas, não estar concluindo pensamento nenhum, estando usando o maior número de gerúndios que estiver conseguindo. Algumas escolas estão optando por chamada oral, mas basta estar decorando frases como “vou estar verificando”, “o sistema esta fora do ar”, “não vou poder estar te ajudando” e “o senhor pode estar confirmando uns dados” e pronto. Não precisa nem estar estudando, é só estar indo fazer a prova e, depois disso, estar correndo para o abraço.

mallu magalhães mora em pinheiros
Eu não duvido. Aliás, é provável que ele more embaixo do meu apartamento, e fique ensaiando suas novas composições na varanda.

Onde encontrar alimentos flordesíaco
Em www.floresonline.com.br Particularmente, recomendo os crisântemos, são muito bem temperados e combinam perfeitamente com arroz. Agora, se você quiser algo mais pesado, minha sugestão são as orquídeas com molho branco ou os sanduíches de rosas com atum.

15 de maio de 2009

Por Amor

Quando eu pensei em montar este blog, anos atrás, minha idéia era “vamos ver no que dá”. Se não desse certo – leia-se: se eu me desencantasse pela coisa algumas semanas depois – provavelmente ele ficaria abandonado em algum canto do mundo virtual, pois eu não teria coragem de apagá-lo. Se desse certo... Bem, dois anos e quase quatrocentos posts depois, acho que é seguro falar que deu certo.

Agora, é engraçado como este blog se tornou parte importante da minha vida. Todo dia de manhã, quando tomo café, abro o Uol, o Terra, o Ig e a Globo.com. E, no meio desse processo, eu abro meu blog, apenas para ver se está tudo em ordem. Tenha post novo ou não, tenha alguma mudança recente ou não, eu faço isso todos os dias. Hábito mesmo.

É um namoro.

Por mais que a sede do início de namoro, de ir para casa correndo escrever algo no blog ou para ver se o texto postado algumas horas antes tinha recebido comentários tenha passado, eu ainda penso no meu blog durante o meu dia. Muito. Não é uma obsessão – pelo contrário, é saudável – mas penso muito.

Continuo andando pela rua olhando as pessoas e procurando assuntos para posts e, quando descubro algo que “vai pro blog”, tenho o mesmo comichão de escrever que sentia em 2007. Aliás, às vezes eu penso tanto sobre o assunto que, quando consigo abrir o Word, o post já está totalmente escrito na minha cabeça, é apenas o trabalho de digitar.

Mas, às vezes, não. Tem post que é mais difícil. Eu já disse isso a algumas pessoas, tem posts meus de quase 5000 toques que nasceram por causa de uma frase, uma piada que rende, no máximo, duas linhas. É o que chamo de post-twiiter.

E aí, entra o meu trabalho de tentar criar um começo e um final (ou mesmo um formato) para aquela situação, que seja minimamente interessante / divertido para vocês. Um exemplo é o post da lasanha. Ele poderia ser apenas: “Caí com uma lasanha da Sadia ontem, e me queimei em vários lugares. Ô fase”. Mas isso não teria graça para vocês, então resolvi brincar em cima do fato – porque acho que é o que vocês, que entram aqui sempre, esperam de mim.

Enfim, meu ponto é: tenho posts que escrevi em 10 minutos, tenho posts que escrevi em uma tarde. E adoro todos eles. Da mesma forma que adoro cada comentário que recebo, ou quando algum amigo entra no Messenger ou me liga dizendo “adorei seu texto sobre tal coisa”. Mas nada me deixa mais orgulhoso quando meu pai vem comentar um dos textos comigo, ou quando minha mãe solta uma gargalhada lendo.

Adoro esse blog. Sim, tem coisas nele que não gosto e que estou arrumando – aliás, aguardem mudanças no blog – mas eu nunca quis que este blog fosse perfeito. Eu sempre quis que ele fosse meu.

Adoro esse blog a ponto de sentir saudade dele. Sim, saudade. Quase todo mundo sabe que trabalho (muito) escrevendo, mas, às vezes, eu PRECISO escrever no blog, para descansar. E não é porque tenho um assunto que estou louco para dizer, é simplesmente para ficar de mãos dadas um pouco com o blog. Da mesma forma que às vezes eu preciso apenas sair de casa para ficar de mãos dadas com minha namorada (vejam bem, não é “sair para ir ao cinema”, “sair para jantar” ou qualquer outra coisa específica, é apenas “sair para ficar de mãos dadas”) às vezes, eu preciso vir aqui, pegar o blog pela mão e sair para passear com ele um pouco.

Que é exatamente o que estou fazendo agora, enquanto escrevo este texto.

Mesmo sem assunto, mesmo sem muito tempo, eu precisava entrar aqui hoje e escrever algo – não para manter o blog atualizado, mas por necessidade mesmo. Eu sei, é estranho: eu descanso do meu trabalho, que consiste em escrever, escrevendo.

Isso aqui é importante demais para mim. É higiene mental. É terapia.

Ou, sim, é “apenas” saudade. É amor.

Sei que estou chovendo no molhado – afinal, todo blogueiro provavelmente ama seu blog – mas, como qualquer outra pessoa, tenho a mania de achar que os meus amores são mais importantes que os das outras pessoas.

E sei também que este texto, diferente da grande maioria dos outros que vocês lêem aqui, não tem começo e fim. Eu precisava tanto escrever no blog hoje que não consegui pensar no texto antes de escrever, apenas abri o Word e comecei a digitar – sendo assim, desculpem se ficou ruim, mas este texto não é para ser bom, este texto é para “ser texto”. Não é escrever para dizer algo, é escrever para escrever. Escrever por escrever.

Este texto é passear de mãos dadas.

E, da mesma forma que um simples passeio de mãos dadas com a minha namorada numa tarde de domingo pode ser uma das coisas mais importantes da minha vida, escrever este texto também é. E não vou nem revisar o texto, porque, se eu fizer isso, vou começar a apagar trechos, reescrever outros, e não quero isso.

Quero que esse post seja apenas isso: um texto puro.

Afinal, quando não se tem nada melhor para dizer, às vezes um “amo você” é a melhor coisa que você pode dizer. E eu amo muito este blog. Ele está longe de ser a coisa mais importante da minha vida, mas é um pedaço meu. Um pedaço que gosto muito.

Obrigado a todos vocês que passam por aqui, mesmo num mundo onde o dia a dia é cada vez mais corrido e apertado.

11 de maio de 2009

Virada... Cultural? - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Conformados em não poder assistir aos filmes, ficamos na porta do cinema, decidindo o que fazer (sempre é bom lembrar: tudo isso, ao som do Ovelha, que continuava seu maior espetáculo da Terra em cima do seu carro). Nossas opções eram: 1) voltar para casa, ou 2) arriscar dar uma volta pelas imediações para, ao menos, tomar um café e não perder a viagem.

Enquanto pesávamos os prós e os contras de cada um, vi, com o canto do olho (sim, quando isso aconteceu, eu ainda tinha dois olhos) alguém se aproximando de mim pela minha direita. Olho para o lado e vejo, encostado num pilar e a cerca de meio metro deste que vos escreve, aquele mesmo sujeito de cerca de 50 anos que ameaçou falar conosco dentro do saguão (você leu a parte 2 do post, certo?), desta vez acompanhado de um amigo.

Em sua confortável cadeira com forro de veludo vinho, o Destino inclinou-se para frente, com o objetivo de prestar mais atenção no que iria acontecer. Seus olhos faiscavam de ansiedade.

– Temcadolatrodocinequefissada!, disse o sujeito diretamente para mim, com uma voz que, numa prova de masculinidade, tiraria no máximo 2.

Como não entendi absolutamente nada – e achei que poderia ser algo importante, o sujeito poderia estar perdido – fiz a cagada homérica de perguntar “o quê?”.

Ele repetiu, desta vez mais alto e pausadamente, o que fez a nota de masculinidade cair de 2 para 0,5.

– Tem cada rola dentro do cinema que eu fiquei PAS-SA-DA!!!!

Falou isso e ficou parado ali, me olhando e sorrindo.

Ok. Quem me conhece sabe que eu tenho o péssimo hábito de ter resposta para tudo, mas desta vez confesso que fiquei sem ação. Mas admito que diversos pensamentos passaram pela minha cabeça. Sendo assim, abrirei uma exceção e colocarei, no meio do post, o Top 5 respostas Que eu Quase Dei:

1. “Só por curiosidade, o que fez com que eu, careca, gordinho, baixinho e mal barbeado, me tornasse alvo de todo esse desejo e volúpia?”- Mas mudei de idéia, porque ele poderia achar que eu estivesse apenas bancando o difícil.

2. “Por que você não aproveita a Virada Cultural para virar homem?” - Mas mudei de idéia, porque ia dar pau (no sentido de briga, bem entendido)

3. “Você sabe que, nos filmes de zumbi que estão passando aí dentro, quando os mortos vivos comem suas vítimas, isso não tem conotação sexual, certo?” - Mas mudei de idéia, era complexo demais

4. “Você realmente consegue copular com alguém como resultado de uma abordagem dessas?” – Mas mudei de idéia, porque ele poderia achar que eu estava disposto a lhe dar a chance de uma nova abordagem.

5. “Isso é uma brincadeira sua, certo? Você, na verdade, faz parte do show do Ovelha, certo”? – Mas mudei de idéia, porque seria perda de tempo. Era óbvio que ele não estava brincando.

Na verdade, alguns destes pensamentos não chegaram nem a se concretizar no meu cérebro. Eles apenas colocaram a cabeça para fora das janelas para ver o que estava acontecendo e, assim que perceberam que eu estava na Virada Cultural, voltaram rapidamente para casa, trancaram as portas e não atenderam mais o telefone pelo resto da noite.

Mas, sendo sincero, pensei mesmo em arrumar confusão. É a mesma questão do banheiro da Fnac: você é gay e quer me cantar? Me cante de forma limpa, e não dessa forma. Eu vou falar “não” de forma educada e pronto: você segue o seu caminho e eu sigo o meu. As pessoas podem ter educação independente da sua opção sexual. Eu nunca me aproximei de alguma garota na fila do cinema soltando pérolas como “tem cada peitão nessa fila que eu to ficando louco!”.

Mas mudei de idéia sobre partir para a confusão porque se existe algo que passa longe de ser prudente é brigar com alguém no centro de São Paulo em plena madrugada – é o tipo de situação que será resolvida segundos após alguém no meio da multidão gritar “olha a faca!”. E, como não sou que estaria com a faca, achei melhor ficar quieto.

Respirei fundo, me acalmei e, olhei para o alto, pensando: “Porque é sempre comigo?” – aliás, esta frase tem se tornado uma espécie de slogan da minha vida. Assim (sentindo um pouco de medo, admito) a única coisa que consegui elaborar como resposta foi:

– Meu Deus do céu.

E me afastei um pouco, tomando cuidado para não tropeçar no meu irmão e no meu amigo, que estavam deitados na porta do cinema gargalhando. Fiquei totalmente sem ação. Tudo o que consegui fazer foi ligar o 5 anos de idade mode: on e virar a cabeça para o lado contrário, fechando os olhos com força e rezando para que aquela criatura desaparecesse.

Deu certo.

Neste momento, o Destino, claramente satisfeito, desligou a TV e foi dormir, com a sensação de trabalho cumprido estampada na sua cara. Foi para o quarto, colocou um CD do Frank Sinatra – algo que só fazia quando estava particularmente feliz – e adormeceu.

Quando olhei de volta, ele (a) não estava mais lá. Sendo assim, me encolhi num canto – obviamente, de costas para a parede – e acabei sentando ao lado de duas namoradas lésbicas de aproximadamente doze anos, certo de que elas não ofereciam perigo para mim – já que, a primeira vista, nós três gostávamos da mesma coisa. Elas continuaram se beijando e eu fique ali, sentado, esperando pacientemente meu irmão e meu amigo acabarem de gargalhar. Quando eles se recuperaram (coisa de cinco minutos depois) decidimos ir embora para procurar um café.

Não encontramos.

Na verdade, nós mal conseguíamos andar no centro. Tudo bem, são shows de graça e a população tem que aproveitar. Mas isso não justifica certas coisas que presenciei na minha jornada em busca de um simples café, por aquelas terras estranhas. Aparentemente, entre os momentos que chegamos e saimos do cinema, o centro de São Paulo havia se tornado uma terra sem lei. Desviávamos de poças de vômito e de casais sentados no meio da rua e já em estágios avançados de preliminares. Como efeito de ilustação, imagine Sodoma e Gomorra, mas sem os anjos com espada de fogo punindo as pessoas.

E, em determinado momento, caímos num local tão lotado, onde era não conseguíamos andar para frente nem dar meia-volta. Como já disse antes, tenho trauma disso desde o fatídico show do Metallica, em 1994, e comecei a entrar em pânico. Logo, descobrimos o motivo da algazarra: uma vinte pessoas – cada uma delas, aparentemente, com o mesmo teor alcoólico de uma garrafa de tequila – estavam em cima de alguns ônibus estacionados, dançando & destruindo os ônibus. Foi neste momento que meu irmão falou uma frase que nunca mais esquecerei:

– Para dar cultura à população, é preciso, antes de mais nada, ter uma população que queira receber cultura.

Triste. Bastante triste. Demoramos uns 15 minutos para sair dali, devido aos alpinistas de transportes coletivos – mas claro que no meio disso, começou um empurra-empurra porque alguém gritou que a polícia estava chegando. Saímos dali e conseguimos escapar para o show do Reginaldo Rossi, que contava com uma platéia bem mais civilizada. Mas, como eu e Reginaldo Rossi não formamos par (silvio santos mode: on), fomos embora dali rapidinho.

Sem filmes de zumbi, sem café, fomos para casa. Mas isso se tornou uma outra odisséia que por si só já renderia outro post. Como a estação República estava fechada, tivemos que pegar um ônibus do centro de São Paulo para o centro de São Paulo; um metrô do centro de São Paulo para o centro de São Paulo; e finalmente, um metrô do centro de São Paulo para Pinheiros.

Mas claro que, como sou eu, a noite ainda teria que ter um desfecho interessante, graças a uma hippiezinha de uns 16 anos que, no mesmo vagão que eu e meu irmão (meu amigo mora perto do centro e foi a pé para casa), enchia o saco das pessoas por dois motivos: 1) tentava (em vão) tocar uma flauta de bambu – provavelmente, feita por ela mesma, pois hippies adoram essas coisas; e 2), sua aparência, já que ela claramente não tomava banho desde o carnaval.

Quatro da manhã, descemos nas Clínicas e fomos embora para casa. A hippiezinha, claro, desceu ali também e foi enchendo o saco com a flauta (e com o cheiro) até a saída da estação.

Não vejo a hora de chegar ano que vem e, com ele, a próxima Virada Cultural: vou alugar todos os filmes do Romero e ficar em casa assistindo.


Epílogo: No dia seguinte, por volta das 14:00, saí de casa em direção as Clínicas para encontrar a Sra. Gordon. Quando chego à estação, dou de cara com a hippiezinha suja, que estava ali também, esperando pelo metrô. Detalhe: ela estava com outra flauta – maior e mais barulhenta – mas com a mesma roupa, o mesmo cabelo desgrenhado e os mesmos pés sujos (fiz questão de reparar nisso). Ou seja, ela PASSOU em casa para pegar a outra flauta. Não tomou banho porque não quis.

8 de maio de 2009

Um Rob Gordon Andaluz

Há cerca de quatro anos, eu fui parar no hospital porque, ao virar uma página de jornal enquanto almoçava, estupidamente fiz a folha do jornal raspar no meu olho. Achei que fosse dar para agüentar a dor e que algumas horas depois, meu olho estaria novo em folha. Claro que não aconteceu nada disso. Algumas horas depois, meu olho jorrava lágrimas, e no meio da noite, a sensação era de que alguém estava desenhando na minha pupila com um alfinete quente (não, não estou exagerando).

Pois bem, ontem aconteceu a mesma coisa, mas com o outro olho. Eu e Sra,. Gordon estávamos brincando no sofá de cócegas & imobilizar o outro (e se você tem a mente suja, vá ler outro blog e respeite minha mulher) até que ela – talvez incentivada pela visita do Hugh Jackman ao Brasil – entrou em wolverine mode: on e SNIKT! no meu olho direito.

Ou seja, deixei de ser Rob Gordon e me tornei Willie Caolho (goonies mode: on)

Obviamente, não foi culpa dela, já que estávamos brincando, mas de cara ela viu que a coisa era séria. Pegou um pouco de papel higiênico, molhou e fiz uma espécie de compressa instantânea, o que tornou a coisa mais suportável.

Hoje de manhã, quando acordei... Surpresa! Um rio São Francisco de lágrimas descia pelo meu rosto. Na mesma hora fui pro hospital, antes que o lance do alfinete quente começasse.

Nada como ter experiência. Peguei o táxi e já sabia exatamente aonde ir – o providencial Hospital dos Olhos, perto do Parque Ibirapuera – e, também já sabia que não adiantava ficar com o olho fechado, o segredo para evitar a dor é a posição da cabeça (e mexer o mínimo possível da pupila). O taxista falava comigo e eu tinha que lentamente virar a cabeça para observá-lo, sem mexer os olhos.

Ou seja, deixei de ser Willlie Caolho e me tornei Willie Caolho & RoboCop.

Durante o percurso, fui fazendo um levantamento da minha vida: olhos arrebentados em quatro anos, queimadura de segundo grau com lasanha... Eu sou um perigo para mim mesmo. Se vocês me trancarem numa sala sem mobília, com apenas um pé de alface no chão, e abrirem a porta oito horas depois, é capaz de me encontrarem com uma fratura exposta e traumatismo craniano.

Se você não for minha namorada, pode pular para o próximo parágrafo. Você tem até o final do ano para se casar comigo. Caso contrário, eu VOU contratar uma enfermeira, porque (em termos de integridade física), não tenho maturidade para morar sozinho.

Chegando ao hospital, fui atendido por um recepcionista que, antes de me encaminhar para a sala de espera, ainda desejou “melhoras”, o que me deixou assustado. Corrijam-me se estou errado, mas soou meio conformista demais da parte dele, algo como “não vamos poder fazer nada, mas estamos torcendo pelo senhor não perder totalmente a visão”.

Felizmente, fui atendido cerca de dez minutos depois. O problema é que para identificar o que aconteceu no meu olho, o oculista precisou pingar um colírio-corante. E sim, aquilo que a gente aprendeu nas aulas de biologia, que tudo dentro do corpo é interligado, é verdade. O corante entrou pelo meu olho, caiu em alguma espécie de Rio Amazonas dentro do meu corpo e pronto, se espalhou em todas as minhas células.

Descobri isso quando sai do consultório e assoei o nariz – como eu não paro de chorar, eu faço isso o dia todo – e meu lenço ficou verde na tonalidade caneta-marca-texto.

Ou seja, deixei de ser Willie Caolho & RoboCop e me tornei Willie Caolho & RoboCop & Dr. Manhattan.

Sério, é uma pena que o SBT não exibe mais aquele programa Gente que Brilha, pois eu poderia levar o título do show ao pé da letra e me inscrever como o Homem Radioativo de Pinheiros.

Mas, voltando ao olho... Resultado: lente de contato com alguma coisa cicatrizante, óculos escuros e colírios o dia todo, durante o resto da minha existência sobre a Terra (mentira, por uma semana).

Mas, bem antes disso, voltarei com o final da saga da Virada Cultural. Prometo. Isso, claro, se eu não morrer devido a um acidente com um Sonho de Valsa ou coisa parecida.

PS – O título do post é para mostrar que Championship Vinyl também é cultura. Se você não entendeu, fuce a internet (dicas: “andaluz”, “Buñuel” e “Salvador Dali” são palavras que poderão te ajudar), mas aviso que se você tiver estômago fraco, é melhor ficar sem saber do que se trata, especialmente se o link levar ao Youtube.

Update – Nota Mental: Durante os próximos dias, jamais acender a luz de um quarto escuro sem antes tapar o olho com a mão.

5 de maio de 2009

Virada... Cultural? - Parte II

(leia a primeira parte aqui)


Assim que colocamos o pé dentro do cinema, descobrimos que as sessões – obviamente – eram gratuitas.

No exato momento em que fizemos esta descoberta, o Destino, sentado numa cadeira confortável e assistindo a tudo de uma TV de plasma, deu uma gargalhada, pausou o vídeo e foi buscar pipoca.

Meu sentido de Aranha começou a disparar. Eu respondi a ele que “porra, são os filmes do Romero!” e ele resolveu esperar mais um pouco antes de começar a reclamar novamente.

Como era de esperar, o saguão estava lotado de pessoas de todos os tipos, numa proporção que ficava próxima a essa: 5% de nerds que sabiam exatamente o que estava sendo exibido ali (incluindo um grupo de seis pessoas que, maquiados como zumbis, tentavam reproduzir a coreografia do Thriller); 5% de roqueiros cosplay (coturnos, sobretudo de vinil, meia arrastão, maquiagem borrada), que, atraídos pelo tema, resolveram dar uma passada por ali; 3% de jovens bem-criados nos Jardins que estavam ali apenas para poder dizer, na escola, que estiveram ali; e 0,2% correspondente ao dono do cinema e os seguranças.

Os outros 86,8% eram de pessoas que não faziam a menor idéia do que estava acontecendo, mas resolveram aproveitar a pausa entre um show do Wando e outro do Calcinha Preta para descobrir o que acontecia lá dentro.

Em poucas palavras, estava lotado.

Atravessei o saguão e fui até a sala de projeção, para sentir o ambiente. Se a capacidade do cinema era de 200 pessoas, pelo menos o dobro disso se amontoava lá dentro. Na verdade, tratava-se uma massa humana de pessoas (em pé, sentadas, sentadas no colo, sentadas no ombro dos namorados, transando, bebendo, tocando violão ao redor de uma fogueira) que tornava impossível colocar o pé lá dentro.

Assim, resolvemos ficar num canto do saguão, próximo a entrada da sala. Assim, poderíamos ver a movimentação das pessoas dentro da sala, conforme o filme se aproximasse do final. Sim, até esse momento, nós três mentíamos o tempo todo para nós mesmos, dizendo uns para os outros que “esse filme é pop, quando começar A Noite dos Mortos Vivos, preto e branco, com produção tosca, esse povo todo vai fugir para o show do Reginaldo Rossi”.

Mas a espera não foi tão difícil. Quer dizer, foi, mas, ao menos, foi divertida.

Eu não sei se já disse isso antes, mas meu cérebro instintivamente fica procurando por pessoas parecidas com qualquer coisa (celebridades, personagens de filmes, objetos) em todos os lugares que eu vou. E, em poucos minutos, descobri que eu havia morrido e estava no paraíso das pessoas-parecidas-com-algo. O número de pessoas parecidas com algo era demais até mesmo para mim e meu cérebro não conseguia processar todas as informações. Em poucos minutos, vimos um klingon, um Barão de Munchausen, um Obelix e um Groo.

E, mesmo as pessoas que não se pareciam com nada chamavam a atenção, pois, ao parar do nosso lado e olhar para a tela, soltavam pérolas como “olha, ta passano (sic) filme de terrô! (sic!)”, e “é filme de gente possunhída (sic! sic! sic!). E, em algum momento entre essas amostras da sabedoria humana, um sujeito de cerca de 50 anos se aproximou, fez que ia perguntar alguma coisa para nós, mas mudou de idéia, virou as costas e foi embora.

E, no exato momento que este sujeito estava ao nosso lado, o Destino pausou novamente a televisão, ligou para um de seus assistentes e disse algo como “esse aí está ótimo”, antes de desligar o telefone e se acomodar melhor na poltrona.

O problema é que, mesmo num canto do saguão, o número de pessoas começou a crescer cada vez mais e resolvemos ir para a calçada do cinema – já que a entrada era gratuita, pelo menos podíamos entrar e sair a qualquer hora.

Assim, fomos para a rua, onde fomos brindados com a apresentação (altamente cultural) de um sujeito que se apresentava (cantando músicas ridículas em cima de um carro ridículo para meia dúzia de adolescentes ridículos e bêbados) e parecia um misto de ovelha com o Pennywise, adicionando pitadas de drag queen. Mesmo sentindo extrema vergonha de ser biologicamente reconhecido como pertencente à mesma espécie que aquilo, resolvi engolir o sapo e continuamos na porta do cinema olhando as pessoas na rua, num desfile que lembrava a escolha do elenco de uma refilmagem de Star Wars.

Neste momento, percebemos que uma fila se formava às portas do cinema. E não era uma fila, era A fila – sério, se existisse um faculdade de fila, aquela fila à nossa frente seria Trabalho de Conclusão de Curso -, que ia mais ou menos da porta do cinema, no centro, até a minha casa, em Pinheiros, fazendo todas as baldeações possíveis de metrô. Não demorou muito para descobrirmos que era a fila para o próximo filme (o primeiro do Romero).

E, poucos minutos depois, descobrimos também que quem estava no cinema era obrigado a sair após o término de cada filme, e, mesmo assim, quem estava na fila ainda tinha que contar com a sorte para conseguir entrar no cinema. Matematicamente falando, se nós entrássemos na fila naquele momento (cerca de 01:40 da manhã), talvez (e somente talvez) conseguiríamos entrar na sessão das quatro da manhã.

Não, nem Romero merece tanto assim.

Assim, nossa tão sonhada Madrugada dos Mortos acabou sendo enterrada antes mesmo de falecer.

Claro que o texto poderia terminar aqui. Mas, como eu sou uma pessoa que, quando está no fundo do poço, ainda consegue vasculhar lá embaixo até encontrar um alçapão e descer mais cinco metros, claro que a noite não estava nem na metade.

(continua...)

3 de maio de 2009

Virada... Cultural? - Parte I

Eu nunca havia ido a uma Virada Cultural e nem tinha planos de ir a alguma delas.

Primeiro: não tenho mais idade para virar a noite andando pelo centro de São Paulo lotado ao som de cantores que eu não gosto. Segundo, não gosto de nenhum evento gratuito.

Sim, sou totalmente a favor da realização de eventos culturais para a população, mas também sou totalmente a favor do meu direito de ficar em casa enquanto eles acontecem. Afinal, enquanto num evento pago você tem certeza de que (teoricamente) todas as pessoas presentes querem assistir ao artista, num show gratuito metade da lotação seja de perdidos e curiosos que estão ali apenas para a) ver do que se trata, b) cantar todas as mulheres possíveis, c) fazer graça e querer aparecer, e d) fazer graça e querer aparecer ainda mais que as pessoas que escolheram a alternativa “c’.

Ou seja, a meu ver, a Virada Cultural sempre foi algo que, ao invés de fazer você se divertir, faz com que você se irrite e perca uma noite de sono. E se você tem mais de 30 anos de idade, sabe o quanto é difícil repor uma noite de sono perdida.

Justamente por isso que, nas edições anteriores do evento, eu não me interessei nem em olhar a programação, pois sabia que se alguma coisa me interessasse realmente, eu ficaria sabendo de qualquer jeito. E isso aconteceu este ano, quando descobri que haveria uma mostra de filmes de mortos-vivos num cinema da República, incluindo os três filmes da trilogia original do George Romero (a saber: A Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos, Dia dos Mortos).

Imediatamente, acionei e consultei as únicas duas pessoas que conheço que gostam disso tanto quanto eu: meu irmão e um amigo de faculdade. Após rápida conferência (na qual todos os muitos pontos negativos eram compensados com o argumento “porra, são os filmes do Romero!”) decidimos ir.

Resultado: nos encontramos as 11 horas da noite, prontos para ficar entre as 2 e as 8 da manhã assistindo pessoas incautas serem devoradas por zumbis.

E, obviamente, fomos rezando para as sessões serem pagas.

O caminho até o cinema foi mais fácil do que imaginei. As ruas do centro estavam lotadas, mas isso era de esperar, afinal, você tinha um show em cada esquina. O único empecilho foi que precisávamos chegar de um ponto A até um ponto B, mas, se traçássemos uma linha reta entre estes dois pontos, havia uma área Vip no meio do caminho. Sim, uma área Vip. Ou, ao menos, um quarteirão inteiro totalmente vazio, com apenas dois policiais conversando atrás da grade que separava os Vips invisíveis de nós, mortais.

Ou seja, tivemos que fazer o caminho mais longo possível, nos enfiando no meio da multidão.

Na verdade, mais difícil que atravessar as multidões era evitar pisar em uma das milhares de garrafas de vinho barato jogadas pelas ruas. Aliás, me chamou a atenção que a quantidade de garrafas e latas de cerveja indicava que aquele povo havia consumido vinho suficiente para embriagar metade da Itália, mas a coisa mais próxima de um policial que eu vi em todo o percurso era meu irmão (isso porque ele tem cara e jeito de polícia civil, e só).

Ou seja, a probabilidade de dar merda era grande.

Felizmente, ter 1.60m vale mais a pena que ter 1.90m, desde que você saiba usar sua estatura ao seu favor. Eu acionei o hobbit mode: on e passei e abrir caminho no meio da multidão me enfiando em espaços minúsculos e passando por baixo das outras pessoas.

Entretanto, se chegar ao cinema foi mais fácil do que imaginei, o passeio não foi dos mais agradáveis. Especialmente porque durante boa parte do percurso éramos brindados com um aroma forte e ácido, que invadia as narinas provocando náuseas, e que é popularmente conhecido como “cheiro de mijo”. Insuportável. Mesmo. Às vezes nós conseguíamos caminhar alguns metros respirando normalmente, mas, subitamente, o vento mudava de direção (provavelmente porque ele não queria chegar perto do show do Wando) e aquele doce e bucólico perfume de canto de rodoviária voltava a surgir.

Entretanto, depois de cerca de meia hora desviando de bêbados tomando cuidado para não escorregar numa garrafa e com a respiração presa, chegamos ao cinema. Estava passando Planeta Terror. Olhamos no relógio, e ainda faltava pouco mais de uma hora para os filmes do Romero serem exibidos.

Missão cumprida.

Ou não.

(continua...)