(leia a parte I aqui)
O supervisor, esbanjando autoridade, explicou que eu ficaria em silêncio apenas por alguns instantes, o que deixaria a bola no campo do taxista e, assim, poderiam observar que rumo a conversa tomaria. Com um pouco de sorte, o assunto cairia em política ou – melhor ainda – na chuva que não pára. Os outros neurônios, apesar de ainda desconfiados, acionaram o modo silêncio. O encarregado pegou um pequeno microfone, que era ligado a todas as partes do corpo e disse, calmamente: “Aqui é do cérebro. Quando eu terminar essa mensagem, o corpo inteiro deve ficar em silêncio por alguns segundos. Eu não quero ouvir o barulho de nada, nem de uma risada, nem de um copo caindo no chão” e desligou satisfeito. Ele queria fazer isso desde que tinha assistido a um filme de submarino, anos atrás. Recolocou o microfone sobre a mesa e instruiu ô neurônio ao seu lado: “Acione a cara de paisagem”.
–..., eu respondi.
O taxista permaneceu em silêncio. A tensão no meu cérebro era quase palpável. Todos os neurônios aguardavam ansiosamente pela resposta – menos o ruivinho espinhudo, que havia encontrado uma página com fotos pornográficas dos bailes no Rio. Uma descarga cavalar de endorfina estava pronta para ser liberada, dependendo do rumo que a conversa tomasse. “Esquece a Mocidade, esquece a Mocidade”, balbuciava o supervisor, temendo que a conversa ficasse insustentável. O taxista parecia concentrado no trânsito. Eu olhava fixamente para a frente e permanecia em silêncio.
– E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50.
Os neurônios respiravam aliviados. A Mocidade havia sido deixada para trás. Alguns mais jovens – que ainda não lidavam bem com as emoções em crises – aplaudiram, mas o encarregado gritou que a crise ainda não passava. A frase “E a Vai-Vai, você viu? Perdeu por 50” apareceu num telão à frente de todos e em todas as outras telas da sala, fazendo o ruivinho resmungar um palavrão no canto. Felizmente para ele, ninguém ouviu. “Como respondemos isso? O que isso quer dizer?”, perguntou o supervisor. Um dos neurônios soltou a hipótese de que “talvez o taxista seja gago”, que foi logo refutada pelos outros. A questão não era identificar o que era Vai-Vai, já que tudo indicava que era outra escola de samba. A questão era saber se 50 era muito ou pouco. Afinal, ela ter perdido por 50 podia significar tanto que ela havia sido vice-campeã como a última colocada. Um dos neurônios que controlava meus batimentos cardíacos levantou-se e timidamente, sugeriu que usássemos a expressão neutra de espanto. Os outros neurônios permaneceram em silêncio, ainda em dúvida se a idéia teria algum efeito, mas foram convencidos quando ele lembrou que isso sempre funciona em filas de banco, quando velhinhas vêm conversar comigo. O encarregado não precisou ouvir mais nada. Apertou um botão vermelho no painel.
– Nossa!, eu disse, sem saber direito o porquê.
– 50 pontos é sacanagem, né?, respondeu o taxista.
Os neurônios aplaudiram e o autor da idéia sentou-se novamente, sem conseguir disfarçar o orgulho. O neurônio encarregado, porém, parecia preocupado. Estavam dançando num campo minado. O bate-papo sobre o carnaval ainda estava no raso, mas, a qualquer momento, o assunto mergulharia em águas profundas e nem eu nem meus neurônios saberíamos nadar. Em seu íntimo, o supervisor sabia que o desastre ainda era uma questão de tempo. Hora de mudar de assunto. Pegou o telefone e perguntou qual assunto tínhamos prontos para colocar na conversa. Aparentemente, a resposta não foi animadora, mas o neurônio não desanimou. “Não faz diferença se ele não lê o caderno de esportes desde domingo, futebol vai funcionar. Sempre funciona!”. Desligou o telefone e instruiu a todos que se sentassem e amarrassem seus cintos, pois tentaríamos uma mudança brusca de assunto. Vendo o medo nos olhos dos seus comandados, ele os acalmou, com segurança na voz, afirmando que já havíamos feito aquilo antes em situações piores. “Nós já fizemos isso uma vez numa briga com a namorada e conseguimos. Perto disso, o que vamos fazer hoje será como escorregar traquéia abaixo”. Ninguém entendeu direito o que ele quis dizer, mas a segurança que ele irradiava contagiou a todos. A sala, subitamente, passou a ser iluminada por luzes vermelhas e uma sirene começou a tocar. Na tela principal, apareceu o número 5, logo trocado por um 4. Os neurônios, apreensivos, observavam a contagem regressiva chegar até 1, quando o encarregado gritou “Acionar!”.
– Tem jogo hoje?, perguntei.
– Hoje, não, mas amanhã deve ter, é quarta-feira*. O que você está achando desse Paulistão?
As luzes voltaram ao normal e os neurônios, aliviados, começaram a aplaudir. Alguns se levantaram e começaram a se abraçar e dois deles foram até o encarregado. Faziam questão de apertar sua mão e lhe dar os parabéns. O telefone vermelho tocou e ele atendeu. Visivelmente embaraçado, não conseguiu disfarçar o sorriso e disse “obrigado, senhor, fiz o melhor que pude”.
Aos poucos, os neurônios foram guardando suas coisas e desligando as máquinas para ir embora. Mais uma crise havia sido superada. Alguns combinaram de continuar a comemoração no fígado (“é carnaval, deve ter bebida lá”) e o supervisor fez questão de acompanhá-los. Quando estava indo embora, reparou que um dos neurônios mais jovens, um ruivinho espinhudo, ainda estava sentado em sua estação de trabalho, mexendo no computador. Perguntou se o jovem não ia para casa e o rapaz, assustado com o fato de que haviam reparado nele ali, respondeu que “não, não, eu vou... hum... é... continuar uma pesquisa que estou fazendo aqui”.
“Que equipe maravilhosa”, pensou o supervisor, antes de ir embora.
* Apenas a título de ambientação, aviso que todo o post foi escrito na terça-feira de carnaval.
27 de fevereiro de 2009
25 de fevereiro de 2009
Crise na Sala de Guerra - Parte I
Como eu deixei claro no post anterior, eu não entendo absolutamente nada de carnaval. E isso pode me colocar em situações difíceis nessa época do ano, já que todo brasileiro acha que todo brasileiro entende de carnaval – o que, se for verdade, me coloca na posição de “australiano passando férias no Brasil”. E, não, não é fácil manter uma conversa sobre esse assunto, como pretendo ilustrar no post abaixo.
Ontem eu fui até a Paulista e peguei um táxi para voltar para casa, por causa da chuva. Entrei no carro e expliquei que ia para Pinheiros. O taxista andou meio quarteirão em silêncio, até que soltou:
– E a Mocidade, hein?
Meu impulso foi responder que a mocidade não tem mais jeito, que essa geração é totalmente perdida, mas me contive. Alguns neurônios começaram a defender a idéia de que ele estava falando de carnaval. Fizeram uma reunião-relâmpago no meu cérebro e um dos neurônios conseguiu convencer os demais de que realmente o assunto era carnaval. A teoria foi provada quando mandaram o estagiário fuçar no arquivo morto do meu cérebro, onde ele descobriu indícios de que existe uma escola de samba com esse nome. Fizeram outro debate-relâmpago e chegaram a conclusão de que, na verdade, existem várias escolas de samba com esse nome, todas ligadas a palavras como Alegre, Feliz e Independente. Um dos neurônios mais idosos levantou a questão de que a expressão “Padre Miguel” estava ligada a uma dessas escolas. Mas não havia mais tempo para debate, o que deixou o neurônio enfurecido. Uma nova reunião foi marcada para esclarecer o assunto, mas foi decidido de que sim, o taxista estava falando sobre carnaval. Meus neurônios decidiram que o melhor seria ganhar tempo na conversa, e montar uma equipe de emergência que operaria diretamente da Sala de Guerra, até que a crise passasse.
– O que que tem?, respondi.
– Ganhou o carnaval.
Os neurônios se agitaram com a resposta. Um deles pegou um telefone vermelho, cuja linha é ligada diretamente ao escritório dos seus superiores, e balbuciou rapidamente um “o assunto realmente é carnaval, senhor!”. Os demais neurônios se dividiram, então, em três equipes: a primeira ficou encarregada de monitorar meus batimentos cardíacos e minha pressão arterial; a segunda teve como missão pesquisar tudo relacionado ao assunto, com prioridade para a apuração deste ano; o terceiro era formado pelo neurônio idoso, que ficou no meio da sala gritando que ele tinha razão, que ninguém ouvia ele e que a melhor saída era eu perguntar ao taxista se o nome Padre Miguel tem algo a ver com isso. O neurônio que havia falado no telefone chamou a segurança e pediu que o idoso fosse retirado da sala, e correu para o lado em que o grupo encarregado da pesquisa estava trabalhando, cada um em seu computador. Um dos neurônios mais jovens, com cabelos ruivos e o rosto coberto de espinhas, rapidamente fechou o site de pornografia que estava aberto em sua tela ao ver o supervisor se aproximando e abriu o Google, digitando “canarvl” de qualquer jeito, para fingir que estava procurando algo. Outro neurônio, aparentemente um pouco mais sério, levantou-se e explicou ao supervisor que não encontraram nada sobre o assunto, provavelmente porque ainda era muito recente. O máximo que haviam encontrado eram fotos do desfile e uma notícia sobre a dieta especial da Luma de Oliveira. O neurônio mais jovem fez uma anotação mental de procurar depois as fotos da Luma no desfile. Conversando rapidamente, os neurônios chegaram à conclusão de que a única saída seria usar o plano de contingência conhecido como “Nós apenas respondemos e deixamos a outra pessoa falar”. Foram correndo para o grupo que monitorava meus sinais vitais e, vendo que meus batimentos cardíacos estavam normais, decidiram seguir com o plano.
– Poxa, não estava sabendo.
– O resultado saiu agora, logo antes de você entrar no carro.
Senti um impulso enorme de perguntar se a expressão Padre Miguel tinha algo a ver com isso. Os neurônios perceberam isso e olharam ao redor. Aparentemente, o neurônio mais velho havia se livrado dos seguranças e voltado para a sala, onde estava em pé, mexendo em um dos computadores. Três neurônios pularam em sua direção e o jogaram no chão. Meus batimentos cardíacos aumentaram ligeiramente com a confusão. O neurônio cheio de espinhas, que continuava sentado em sua estação de trabalho, se assustou com o barulho e fechou a internet rapidamente, com medo de que alguém visse aquela mulata seminua na sua tela. O neurônio que comandava a operação exigiu que os seguranças encarcerassem o idoso em seu apartamento até que a crise passasse. Em seguida, pegou o telefone e pediu que liberassem um pouco de endorfina no meu cérebro, para trazer meus batimentos cardíacos de volta ao normal. Conforme minha pulsação abaixava, ele instruiu que a operação seguisse o plano anterior. “Deixem o taxista falar e não falem nada comprometedor!”, ele gritou.
– Mas foi merecido, certo?, eu disse.
O neurônio encarregado deu um soco na mesa e gritou um palavrão. Perguntar se foi merecido era um risco desnecessário, o taxista poderia acreditar que eu entendia do assunto. Este tipo de manobra só era aceitável em festas, quando a outra pessoa – que normalmente estava falando sobre esculturas ou bossa nova – estivesse bêbada o suficiente para não perceber o que eu havia dito. Mandou que todos ficassem em silêncio. O momento agora era decisivo. A conversa agora poderia mudar drasticamente, com o taxista entrando em assuntos como “ala das baianas”, “samba-enredo” e “desempenho da bateria”, o que levaria a situação para uma tragédia iminente e irreversível.
– Sim, o desfile deles foi sensacional. Gostei bastante, respondeu o taxista.
Todos os neurônios respiraram aliviados. Alguns aplaudiram, fazendo o neurônio espinhudo, que continuava do outro lado da sala, vendo algo na internet, e se virar para ver o que estava acontecendo. Foi quando o encarregado teve uma idéia. “Vamos deixar o Rob em silêncio. Liguem o modo de silêncio!”. Todos os neurônios olharam para ele. Um deles se levantou e disse que isso era mais arriscado ainda, pois o silêncio nunca funcionou direito. “O Rob sempre acaba falando algo, então é melhor que ele fale o que nós mandarmos”, gritou um deles.
(continua...)
Ontem eu fui até a Paulista e peguei um táxi para voltar para casa, por causa da chuva. Entrei no carro e expliquei que ia para Pinheiros. O taxista andou meio quarteirão em silêncio, até que soltou:
– E a Mocidade, hein?
Meu impulso foi responder que a mocidade não tem mais jeito, que essa geração é totalmente perdida, mas me contive. Alguns neurônios começaram a defender a idéia de que ele estava falando de carnaval. Fizeram uma reunião-relâmpago no meu cérebro e um dos neurônios conseguiu convencer os demais de que realmente o assunto era carnaval. A teoria foi provada quando mandaram o estagiário fuçar no arquivo morto do meu cérebro, onde ele descobriu indícios de que existe uma escola de samba com esse nome. Fizeram outro debate-relâmpago e chegaram a conclusão de que, na verdade, existem várias escolas de samba com esse nome, todas ligadas a palavras como Alegre, Feliz e Independente. Um dos neurônios mais idosos levantou a questão de que a expressão “Padre Miguel” estava ligada a uma dessas escolas. Mas não havia mais tempo para debate, o que deixou o neurônio enfurecido. Uma nova reunião foi marcada para esclarecer o assunto, mas foi decidido de que sim, o taxista estava falando sobre carnaval. Meus neurônios decidiram que o melhor seria ganhar tempo na conversa, e montar uma equipe de emergência que operaria diretamente da Sala de Guerra, até que a crise passasse.
– O que que tem?, respondi.
– Ganhou o carnaval.
Os neurônios se agitaram com a resposta. Um deles pegou um telefone vermelho, cuja linha é ligada diretamente ao escritório dos seus superiores, e balbuciou rapidamente um “o assunto realmente é carnaval, senhor!”. Os demais neurônios se dividiram, então, em três equipes: a primeira ficou encarregada de monitorar meus batimentos cardíacos e minha pressão arterial; a segunda teve como missão pesquisar tudo relacionado ao assunto, com prioridade para a apuração deste ano; o terceiro era formado pelo neurônio idoso, que ficou no meio da sala gritando que ele tinha razão, que ninguém ouvia ele e que a melhor saída era eu perguntar ao taxista se o nome Padre Miguel tem algo a ver com isso. O neurônio que havia falado no telefone chamou a segurança e pediu que o idoso fosse retirado da sala, e correu para o lado em que o grupo encarregado da pesquisa estava trabalhando, cada um em seu computador. Um dos neurônios mais jovens, com cabelos ruivos e o rosto coberto de espinhas, rapidamente fechou o site de pornografia que estava aberto em sua tela ao ver o supervisor se aproximando e abriu o Google, digitando “canarvl” de qualquer jeito, para fingir que estava procurando algo. Outro neurônio, aparentemente um pouco mais sério, levantou-se e explicou ao supervisor que não encontraram nada sobre o assunto, provavelmente porque ainda era muito recente. O máximo que haviam encontrado eram fotos do desfile e uma notícia sobre a dieta especial da Luma de Oliveira. O neurônio mais jovem fez uma anotação mental de procurar depois as fotos da Luma no desfile. Conversando rapidamente, os neurônios chegaram à conclusão de que a única saída seria usar o plano de contingência conhecido como “Nós apenas respondemos e deixamos a outra pessoa falar”. Foram correndo para o grupo que monitorava meus sinais vitais e, vendo que meus batimentos cardíacos estavam normais, decidiram seguir com o plano.
– Poxa, não estava sabendo.
– O resultado saiu agora, logo antes de você entrar no carro.
Senti um impulso enorme de perguntar se a expressão Padre Miguel tinha algo a ver com isso. Os neurônios perceberam isso e olharam ao redor. Aparentemente, o neurônio mais velho havia se livrado dos seguranças e voltado para a sala, onde estava em pé, mexendo em um dos computadores. Três neurônios pularam em sua direção e o jogaram no chão. Meus batimentos cardíacos aumentaram ligeiramente com a confusão. O neurônio cheio de espinhas, que continuava sentado em sua estação de trabalho, se assustou com o barulho e fechou a internet rapidamente, com medo de que alguém visse aquela mulata seminua na sua tela. O neurônio que comandava a operação exigiu que os seguranças encarcerassem o idoso em seu apartamento até que a crise passasse. Em seguida, pegou o telefone e pediu que liberassem um pouco de endorfina no meu cérebro, para trazer meus batimentos cardíacos de volta ao normal. Conforme minha pulsação abaixava, ele instruiu que a operação seguisse o plano anterior. “Deixem o taxista falar e não falem nada comprometedor!”, ele gritou.
– Mas foi merecido, certo?, eu disse.
O neurônio encarregado deu um soco na mesa e gritou um palavrão. Perguntar se foi merecido era um risco desnecessário, o taxista poderia acreditar que eu entendia do assunto. Este tipo de manobra só era aceitável em festas, quando a outra pessoa – que normalmente estava falando sobre esculturas ou bossa nova – estivesse bêbada o suficiente para não perceber o que eu havia dito. Mandou que todos ficassem em silêncio. O momento agora era decisivo. A conversa agora poderia mudar drasticamente, com o taxista entrando em assuntos como “ala das baianas”, “samba-enredo” e “desempenho da bateria”, o que levaria a situação para uma tragédia iminente e irreversível.
– Sim, o desfile deles foi sensacional. Gostei bastante, respondeu o taxista.
Todos os neurônios respiraram aliviados. Alguns aplaudiram, fazendo o neurônio espinhudo, que continuava do outro lado da sala, vendo algo na internet, e se virar para ver o que estava acontecendo. Foi quando o encarregado teve uma idéia. “Vamos deixar o Rob em silêncio. Liguem o modo de silêncio!”. Todos os neurônios olharam para ele. Um deles se levantou e disse que isso era mais arriscado ainda, pois o silêncio nunca funcionou direito. “O Rob sempre acaba falando algo, então é melhor que ele fale o que nós mandarmos”, gritou um deles.
(continua...)
24 de fevereiro de 2009
Eskindô, Ziriguidum e o Guerreiro Asteca
Originalmente, a minha idéia seria ignorar completamente o carnaval neste blog, como aconteceu no ano passado. Por vários motivos. Na verdade, eu poderia fazer aqui todo um tratado sociológico provando que o carnaval é extremamente nocivo para o país, mas, como eu gosto de futebol, seria uma atitude um tanto quanto hipócrita da minha parte. Então, vamos permanecer nos motivos pessoais: o primeiro deles é que eu não gosto de carnaval a ponto de não entender nada sobre o assunto – sei que escolas de samba como Mangueira e Portela são do Rio de Janeiro e Gaviões da Fiel é de São Paulo, mas só. O segundo (e mais importante) é que, mais do que não gostar, eu detesto carnaval.
Aliás, minto. Eu não detesto o carnaval – dentro da minha vida, ele funciona como outro feriado qualquer –, mas sim a importância que se dá a ele.
E é graças a essa importância desmedida que esta festa tem que você não tem como ignorá-la. E nem como fugir dela. Desde a primeira semana de janeiro a Globo começa a exibir aquelas chamadinhas do carnaval, com a Globeleza vestindo seus tradicionais sete confetes ao longo do corpo, e os grandes portais do país – com destaque especial para o Terra – veiculam uma notícia sobre o carnaval, normalmente mostrando uma Luma de Oliveira da vida sambando no ensaio da escola X.
Interlúdio: do que a Luma de Oliveira vive? Até onde eu sei, ela não tem emprego, vive apenas do fato de ser uma celebridade. Mas ela é uma celebridade atípica, já que passa o ano inteiro totalmente desaparecida e longe dos holofotes. Eis que chega janeiro e, com ele, a onda de matérias sobre a Luma. Você entra na internet e dá de cara com as chamadas “Luma de Oliveira irá desfilar pela escola X este ano”, “Luma de Oliveira malha no calçadão para entrar em forma antes do carnaval” e “‘Como apenas uma maçã por dia’, diz Luma”. Passa o carnaval, e ela volta para o limbo, onde ficará pelos próximos dez meses. Do que ela vive durante o resto do ano? Alguém sabe?
Mas, voltando ao texto e às notícias sobre carnaval que empesteiam a mídia em janeiro e fevereiro. Sinceramente, o que tem de tão importante no ensaio de uma escola a ponto disso virar notícia? Se a escola vai desfilar na avenida, então o mínimo que se espera é que ela ensaie o samba-enredo, pelo menos até seus integrantes decorarem a letra – veja bem, decorarem, e não entenderem, porque a letra normalmente não faz sentido algum.
Interlúdio II: Vocês já repararam que não importa qual o assunto do samba-enredo, eles sempre conseguem dar um jeito de falar algo sobre o Quilombo dos Palmares em algum lugar? A escola pode homenagear a Guerra Civil Americana, a corrida espacial ou a Idade Média, mas eles sempre dão um jeito de encaixar o Quilombo dos Palmares (ou o Zumbi, no mínimo) em algum lugar.
E, como era de se esperar, conforme o feriado vai se aproximando, obviamente, tudo piora. Você abre o UOL ou o Terra e a seção do carnaval ocupa a parte nobre do site, largando as notícias mais importantes do site (“Milena passa hidratante nas costas de Priscila” e todo o resto que envolve o Big Brother) em segundo plano. Assim, as notícias realmente desimportantes – como a chuva que está destruindo Alagoas ou o premier de Israel pedir desculpas publicamente na TV – ficam lá em baixo, praticamente esquecidas. E todo ano é assim: as notícias sobre o carnaval (que são sempre iguais com as mesmas fotos mostrando as mesmas pessoas) dominam o mundo. Ainda não entrei no Terra hoje, mas tenho certeza de que tem um link mostrando fotos de celebridades que assistiram ao desfile.
Previsível demais.
É por isso que este ano decidi radicalizar. Semana passada eu mal entrei na internet, usava apenas para trabalho. Não atualizei o blog, entrei pouco no Twitter. Liguei a televisão umas duas ou três vezes ao longo da semana. Tudo para ignorar completamente o carnaval e os desfiles das escolas de samba na Globo, com os comentários de especialistas que ficam tentando vender uma profundidade que não existe nas fantasias e nos carros alegóricos.
E já tinha a minha “folia” programada: vou terminar meus livros; trabalhar durante o Oscar; e, assim como os carnavalescos, vou dar um jeito de encaixar Zumbi no meu feriado – assistindo a todos os filmes de mortos vivos do George Romero (a saber: A Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos, Dia dos Mortos, Terra dos Mortos e Diário dos Mortos), que é algo que revejo todo ano, assim como O Poderoso Chefão (que devo guardar para a Páscoa). Enfim, cada um tem o zumbi que prefere.
O problema é que não adianta fugir do carnaval. Ele te encontra. Ontem, estava terminado de assistir a O Inquilino, do Polanski (sim, eu estou numa fase terror, como vocês devem ter reparado), e no meio do filme, começo a ouvir ondas sonoras maciças de samba vindo da rua. Antes mesmo de eu levantar, já sabia do que era: aqui em Pinheiros tem um bloco que desfila pelas ruas. É legal, é tradicional, bem família mesmo, não tem baixaria. Mas, obviamente, é barulhento.
Então, estou assistindo ao Inquilino, ainda encantado (e apavorado) com o filme do Polanski, quando começo a ouvir o samba vindo da rua. Aviso para futuros produtores e diretores de cinema: horror psicológico e samba não combinam. Bem, me acomodei no sofá e esperei o som diminuir, porque sei que o bloco anda pelo bairro inteiro.
Passaram-se os minutos e nada.
Meus móveis continuavam a tremer com o som de cuícas, pandeiros, bumbos e o maldito apito. Fui até a varanda e, olhando entre os prédios da frente, percebi que eles estavam estacionados na rua de baixo da minha (exatamente em frente à padaria das Carolinas e do Bigode), talvez mostrando seu desempenho para jurados imaginários que residem nos prédios ao redor.
Sério, ficaram lá por meia hora. No começo, como eu disse acima, é legal, é tradicional, tem aquele charme todo, por ser carnaval de rua. Dez minutos depois, você não agüenta mais aquilo. Vinte minutos depois, eu já estava na internet procurando alguma loja que tivesse fuzis militares para venda com entrega imediata enquanto olhava pela varanda procurando o melhor ângulo para os tiros. Como não encontrei fuzil algum, fui jogar Wii, porque não tinha mais clima para continuar com o filme.
Horas depois, com algumas fases de Batman Lego e o resto do Inquilino devorado, fui dormir. Quando eu estava naquele momento mágico, que fica exatamente na fronteira entre o acordado e o dormindo, sou despertado por alguém gritando “Guto!” na rua. Tentei ignorar, mas no quarto ou quinto “Guto” me levantei emputecido e fui até a varanda.
Bem na frente do meu prédio, estava um ser aparentemente masculino (ao menos no genótipo) trajando uma saia repleta de lanteloujas azuis, uma sandália de espartano, um chapéu também azul e brilhante, com penas coloridas e segurando um escudo enorme colorido. Bêbado igual a um gambá e gritando pelo Guto – que, acredito, more no meu prédio. As luzes do prédio da frente começaram a se acender, mas isso não impediu o sujeito fantasiado de Esplendor e Glória do Império Asteca – Categoria Luxo continuar gritando até a porra do Guto sair correndo do prédio ao seu encontro.
Com o silêncio restabelecido, voltei para a cama. Antes de pegar no sono, porém, uma dúvida surgiu na minha mente: “então, chato é quem NÃO GOSTA de carnaval?”.
Meio injusto isso.
E pior que ano que vem tem mais.
P.S. - Enquanto logo no blogger para postar este texto, escuto alguém gritando na rua: "A apuração é agora à tarde, passa lá em casa". Ou seja, esqueçam o que eu disse a respeito de ano que vem ter mais. Ainda tem mais este ano mesmo. Ainda não acabou.
Aliás, minto. Eu não detesto o carnaval – dentro da minha vida, ele funciona como outro feriado qualquer –, mas sim a importância que se dá a ele.
E é graças a essa importância desmedida que esta festa tem que você não tem como ignorá-la. E nem como fugir dela. Desde a primeira semana de janeiro a Globo começa a exibir aquelas chamadinhas do carnaval, com a Globeleza vestindo seus tradicionais sete confetes ao longo do corpo, e os grandes portais do país – com destaque especial para o Terra – veiculam uma notícia sobre o carnaval, normalmente mostrando uma Luma de Oliveira da vida sambando no ensaio da escola X.
Interlúdio: do que a Luma de Oliveira vive? Até onde eu sei, ela não tem emprego, vive apenas do fato de ser uma celebridade. Mas ela é uma celebridade atípica, já que passa o ano inteiro totalmente desaparecida e longe dos holofotes. Eis que chega janeiro e, com ele, a onda de matérias sobre a Luma. Você entra na internet e dá de cara com as chamadas “Luma de Oliveira irá desfilar pela escola X este ano”, “Luma de Oliveira malha no calçadão para entrar em forma antes do carnaval” e “‘Como apenas uma maçã por dia’, diz Luma”. Passa o carnaval, e ela volta para o limbo, onde ficará pelos próximos dez meses. Do que ela vive durante o resto do ano? Alguém sabe?
Mas, voltando ao texto e às notícias sobre carnaval que empesteiam a mídia em janeiro e fevereiro. Sinceramente, o que tem de tão importante no ensaio de uma escola a ponto disso virar notícia? Se a escola vai desfilar na avenida, então o mínimo que se espera é que ela ensaie o samba-enredo, pelo menos até seus integrantes decorarem a letra – veja bem, decorarem, e não entenderem, porque a letra normalmente não faz sentido algum.
Interlúdio II: Vocês já repararam que não importa qual o assunto do samba-enredo, eles sempre conseguem dar um jeito de falar algo sobre o Quilombo dos Palmares em algum lugar? A escola pode homenagear a Guerra Civil Americana, a corrida espacial ou a Idade Média, mas eles sempre dão um jeito de encaixar o Quilombo dos Palmares (ou o Zumbi, no mínimo) em algum lugar.
E, como era de se esperar, conforme o feriado vai se aproximando, obviamente, tudo piora. Você abre o UOL ou o Terra e a seção do carnaval ocupa a parte nobre do site, largando as notícias mais importantes do site (“Milena passa hidratante nas costas de Priscila” e todo o resto que envolve o Big Brother) em segundo plano. Assim, as notícias realmente desimportantes – como a chuva que está destruindo Alagoas ou o premier de Israel pedir desculpas publicamente na TV – ficam lá em baixo, praticamente esquecidas. E todo ano é assim: as notícias sobre o carnaval (que são sempre iguais com as mesmas fotos mostrando as mesmas pessoas) dominam o mundo. Ainda não entrei no Terra hoje, mas tenho certeza de que tem um link mostrando fotos de celebridades que assistiram ao desfile.
Previsível demais.
É por isso que este ano decidi radicalizar. Semana passada eu mal entrei na internet, usava apenas para trabalho. Não atualizei o blog, entrei pouco no Twitter. Liguei a televisão umas duas ou três vezes ao longo da semana. Tudo para ignorar completamente o carnaval e os desfiles das escolas de samba na Globo, com os comentários de especialistas que ficam tentando vender uma profundidade que não existe nas fantasias e nos carros alegóricos.
E já tinha a minha “folia” programada: vou terminar meus livros; trabalhar durante o Oscar; e, assim como os carnavalescos, vou dar um jeito de encaixar Zumbi no meu feriado – assistindo a todos os filmes de mortos vivos do George Romero (a saber: A Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos, Dia dos Mortos, Terra dos Mortos e Diário dos Mortos), que é algo que revejo todo ano, assim como O Poderoso Chefão (que devo guardar para a Páscoa). Enfim, cada um tem o zumbi que prefere.
O problema é que não adianta fugir do carnaval. Ele te encontra. Ontem, estava terminado de assistir a O Inquilino, do Polanski (sim, eu estou numa fase terror, como vocês devem ter reparado), e no meio do filme, começo a ouvir ondas sonoras maciças de samba vindo da rua. Antes mesmo de eu levantar, já sabia do que era: aqui em Pinheiros tem um bloco que desfila pelas ruas. É legal, é tradicional, bem família mesmo, não tem baixaria. Mas, obviamente, é barulhento.
Então, estou assistindo ao Inquilino, ainda encantado (e apavorado) com o filme do Polanski, quando começo a ouvir o samba vindo da rua. Aviso para futuros produtores e diretores de cinema: horror psicológico e samba não combinam. Bem, me acomodei no sofá e esperei o som diminuir, porque sei que o bloco anda pelo bairro inteiro.
Passaram-se os minutos e nada.
Meus móveis continuavam a tremer com o som de cuícas, pandeiros, bumbos e o maldito apito. Fui até a varanda e, olhando entre os prédios da frente, percebi que eles estavam estacionados na rua de baixo da minha (exatamente em frente à padaria das Carolinas e do Bigode), talvez mostrando seu desempenho para jurados imaginários que residem nos prédios ao redor.
Sério, ficaram lá por meia hora. No começo, como eu disse acima, é legal, é tradicional, tem aquele charme todo, por ser carnaval de rua. Dez minutos depois, você não agüenta mais aquilo. Vinte minutos depois, eu já estava na internet procurando alguma loja que tivesse fuzis militares para venda com entrega imediata enquanto olhava pela varanda procurando o melhor ângulo para os tiros. Como não encontrei fuzil algum, fui jogar Wii, porque não tinha mais clima para continuar com o filme.
Horas depois, com algumas fases de Batman Lego e o resto do Inquilino devorado, fui dormir. Quando eu estava naquele momento mágico, que fica exatamente na fronteira entre o acordado e o dormindo, sou despertado por alguém gritando “Guto!” na rua. Tentei ignorar, mas no quarto ou quinto “Guto” me levantei emputecido e fui até a varanda.
Bem na frente do meu prédio, estava um ser aparentemente masculino (ao menos no genótipo) trajando uma saia repleta de lanteloujas azuis, uma sandália de espartano, um chapéu também azul e brilhante, com penas coloridas e segurando um escudo enorme colorido. Bêbado igual a um gambá e gritando pelo Guto – que, acredito, more no meu prédio. As luzes do prédio da frente começaram a se acender, mas isso não impediu o sujeito fantasiado de Esplendor e Glória do Império Asteca – Categoria Luxo continuar gritando até a porra do Guto sair correndo do prédio ao seu encontro.
Com o silêncio restabelecido, voltei para a cama. Antes de pegar no sono, porém, uma dúvida surgiu na minha mente: “então, chato é quem NÃO GOSTA de carnaval?”.
Meio injusto isso.
E pior que ano que vem tem mais.
P.S. - Enquanto logo no blogger para postar este texto, escuto alguém gritando na rua: "A apuração é agora à tarde, passa lá em casa". Ou seja, esqueçam o que eu disse a respeito de ano que vem ter mais. Ainda tem mais este ano mesmo. Ainda não acabou.
17 de fevereiro de 2009
A Saga de 2008
É impressionante a predileção que meus leitores têm pelos meus combates com assistentes de telemarketing. Quando eu estava fazendo a relação de textos que concorriam ao título de Melhor Post de 2008 e vi que um dos textos era sobre isso, tive o palpite, na mesma hora, de que ele iria ganhar a enquete. Dito e feito.
Mas nem tudo foram flores na vida de Rob Gordon X Santander, já que ele sofreu certo aperto do post E Na Boa? (especialmente nos últimos dias da enquete), o que mostra outra predileção das pessoas que freqüentam este blog: as minhas brigas com os débil-mentais que surgem aqui de tempos em tempos.
Quanto ao critério preliminar adotado para os posts entrarem na enquete (número de comentários) ter sido criticado por alguns leitores, concordo que ele não é justo, já que muitos outros posts ficam de fora. Entretanto, não vejo muita saída. Se eu colocar apenas os posts que gosto, a eleição seria “qual dos meus posts favoritos vocês gostam mais?”. E deixar em aberto para cada leitor escolher entre qualquer um post do ano seria desumano com vocês, já que estamos falando de mais de 100 textos – a maioria deles, grande.
Então, estou aberto a sugestões para o próximo ano. A propósito, algumas pessoas me perguntaram em qual texto eu votei. Bem, eu não votei. Mas, para ilustrar, se eu fosse votar, escolheria entre este pela profundidade, este pelo humor, este pela participação dos leitores e este pelo trabalho filho da puta que eu tive. Ou seja, eu não teria como votar.
Agora, é hora de escolher a saga de 2008. E aqui não tem briga, já que, como não são muitas, entram todas. Mas fiquei em dúvida se colocaria os posts da série Diga-me o que Procuras e Eu te Direi quem És, Notícia Extraordinária e Coisas da Vida. Afinal, eles são posts vitalícios aqui no Champ, fica meio injusto, já que entram todo ano, mais ou menos como o Boca na Libertadores. Por outro lado, a série Diga-me o que Procuras e Eu te Direi quem És ganhou a enquete no ano passado e agora ela tem que estar em campo para defender o título e conquistar o bicampeonato.
E já aviso que não, O Estranho Caso de Adam Pacitti não entra, pois ele é deste ano. Só na enquete que vem. Sem mais delongas, vamos aos indicados. A enquete está aqui ao lado direito.
Votem com consciência. Aliás, atendendo a pedidos, mudei a enquete e cada pessoa pode votar agora em mais de uma opção. Mas deixo aqui um pedido: se puderem, coloquem nos comentários em qual(is) vocês votaram, para eu conhecer um pouco mais o gosto de alguns de vocês.
Posto isso, obrigado pelo ano maravilhoso que este blog teve.
Para quem deseja conhecer (ou lembrar) os posts concorrentes, seguem os links abaixo, por ordem de postagem:
Diga-me o que Procuras e Eu Te Direi quem És (Parte V, Parte VI, Parte VII)
Championship - Live at Rio (Parte I e Parte II)
O Ataque dos Clones (Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV)
Pague para Entrar, Reze para Sair (Parte I, Parte II, Final Alternativo)
A Pequena Loja dos Horrores (Parte I, Parte II, Final)
No Capricho (Parte I, Parte II, Final)
Notícia Extraordinária (Parte II)
Por um Punhado de Dólares (Parte I, Parte II, Final)
Rob Gordon X TVA (Round 1, Round 2, Round 3)
Meeting Tyler Bazz (Parte I, Parte II, Final)
Coisas da Vida (Parte VI, Parte VII)
Um Dia de Cão (Parte I, Final)
Jim Morrison e o Maníaco do Táxi (Parte I, Parte II, Final)
Mas nem tudo foram flores na vida de Rob Gordon X Santander, já que ele sofreu certo aperto do post E Na Boa? (especialmente nos últimos dias da enquete), o que mostra outra predileção das pessoas que freqüentam este blog: as minhas brigas com os débil-mentais que surgem aqui de tempos em tempos.
Quanto ao critério preliminar adotado para os posts entrarem na enquete (número de comentários) ter sido criticado por alguns leitores, concordo que ele não é justo, já que muitos outros posts ficam de fora. Entretanto, não vejo muita saída. Se eu colocar apenas os posts que gosto, a eleição seria “qual dos meus posts favoritos vocês gostam mais?”. E deixar em aberto para cada leitor escolher entre qualquer um post do ano seria desumano com vocês, já que estamos falando de mais de 100 textos – a maioria deles, grande.
Então, estou aberto a sugestões para o próximo ano. A propósito, algumas pessoas me perguntaram em qual texto eu votei. Bem, eu não votei. Mas, para ilustrar, se eu fosse votar, escolheria entre este pela profundidade, este pelo humor, este pela participação dos leitores e este pelo trabalho filho da puta que eu tive. Ou seja, eu não teria como votar.
Agora, é hora de escolher a saga de 2008. E aqui não tem briga, já que, como não são muitas, entram todas. Mas fiquei em dúvida se colocaria os posts da série Diga-me o que Procuras e Eu te Direi quem És, Notícia Extraordinária e Coisas da Vida. Afinal, eles são posts vitalícios aqui no Champ, fica meio injusto, já que entram todo ano, mais ou menos como o Boca na Libertadores. Por outro lado, a série Diga-me o que Procuras e Eu te Direi quem És ganhou a enquete no ano passado e agora ela tem que estar em campo para defender o título e conquistar o bicampeonato.
E já aviso que não, O Estranho Caso de Adam Pacitti não entra, pois ele é deste ano. Só na enquete que vem. Sem mais delongas, vamos aos indicados. A enquete está aqui ao lado direito.
Votem com consciência. Aliás, atendendo a pedidos, mudei a enquete e cada pessoa pode votar agora em mais de uma opção. Mas deixo aqui um pedido: se puderem, coloquem nos comentários em qual(is) vocês votaram, para eu conhecer um pouco mais o gosto de alguns de vocês.
Posto isso, obrigado pelo ano maravilhoso que este blog teve.
Para quem deseja conhecer (ou lembrar) os posts concorrentes, seguem os links abaixo, por ordem de postagem:
Diga-me o que Procuras e Eu Te Direi quem És (Parte V, Parte VI, Parte VII)
Championship - Live at Rio (Parte I e Parte II)
O Ataque dos Clones (Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV)
Pague para Entrar, Reze para Sair (Parte I, Parte II, Final Alternativo)
A Pequena Loja dos Horrores (Parte I, Parte II, Final)
No Capricho (Parte I, Parte II, Final)
Notícia Extraordinária (Parte II)
Por um Punhado de Dólares (Parte I, Parte II, Final)
Rob Gordon X TVA (Round 1, Round 2, Round 3)
Meeting Tyler Bazz (Parte I, Parte II, Final)
Coisas da Vida (Parte VI, Parte VII)
Um Dia de Cão (Parte I, Final)
Jim Morrison e o Maníaco do Táxi (Parte I, Parte II, Final)
10 de fevereiro de 2009
O Estranho Caso de Adam Pacitti - Conclusão
Finalmente, podemos continuar com a resolução de um dos maiores mistérios da atualidade: a descoberta da identidade da mulher da vida de Adam Pacitti (se você não sabe do que estou falando, é altamente aconselhável que leia o post anterior antes de continuar). Após um intenso trabalho de reconstrução e projeção de imagens, vamos descobrir a identidade da futura Sra. Pacitti.
Adam, o que eu disse no post anterior é verdade: eu conheço a garota com quem você sonhou.
Antes de apresentá-la a você, entretanto, deixe-me dizer como a reconheci, para que você não ache que isso seja um trote. Afinal, acredito que você deve receber milhões de pistas falsas que as pessoas devem estar mandando de sacanagem para você. Sim, eu mesmo fiquei tentado a mandar algumas para você.
Mas a coisa aqui é séria. Disposto a ajudá-lo, entrei em seu site e olhei atentamente o desenho. Confesso que não foi de grande ajuda, já que o “retrato sonhado” da menina é bem porco mesmo. Mas, infelizmente, essa é a melhor pista que temos na investigação.

Após estudar a ilustração, li e reli atentamente o sonho e a descrição (não muito acurada) que Adam forneceu sobre a garota. Segundo ele, seus parcos talentos como desenhista não fazem jus à beleza da menina, já que, em suas próprias palavras: “o nariz dela não é tão pontudo; seus lábios não são como os de um peixe; seu queixo não igual ao de um lenhador; seus olhos não são tão pequenos e lustrosos; o cabelo dela é parecido com o de Kate Nash”.
Então, vamos ajustar todas essas informações ao desenho, e ver o que temos. Mexendo em nariz, boca, olhos e cabelo (ou seja, praticamente tudo), acrescentando um par de sobrancelhas (para torná-la mais humana e evitar que o nosso amigo Adam acabe se casando com o Esperidião Amin) temos um novo retrato falado:
Então, esta é realmente a mulher da vida de Adam. Finalmente, temos uma pista um pouco mais precisa sobre a identidade da futura mãe dos filhos do pobre e solitário jovem britânico. É com esta ilustração que temos que trabalhar. Assim, observando atentamente ao novo retrato falado, a busca fica muito mais fácil.
Adam, a mulher da sua vida, aquela garota que compartilhou uma grandiosa aventura com zumbis ao seu lado, e que irá amá-lo e respeitá-lo até que a morte os separe é brasileira, mora em São Paulo e tem 16 anos.
Sim, caro Adam. Sua busca terminou.
Abram as portas da esperança:
Adam, o que eu disse no post anterior é verdade: eu conheço a garota com quem você sonhou.
Antes de apresentá-la a você, entretanto, deixe-me dizer como a reconheci, para que você não ache que isso seja um trote. Afinal, acredito que você deve receber milhões de pistas falsas que as pessoas devem estar mandando de sacanagem para você. Sim, eu mesmo fiquei tentado a mandar algumas para você.
Mas a coisa aqui é séria. Disposto a ajudá-lo, entrei em seu site e olhei atentamente o desenho. Confesso que não foi de grande ajuda, já que o “retrato sonhado” da menina é bem porco mesmo. Mas, infelizmente, essa é a melhor pista que temos na investigação.

Após estudar a ilustração, li e reli atentamente o sonho e a descrição (não muito acurada) que Adam forneceu sobre a garota. Segundo ele, seus parcos talentos como desenhista não fazem jus à beleza da menina, já que, em suas próprias palavras: “o nariz dela não é tão pontudo; seus lábios não são como os de um peixe; seu queixo não igual ao de um lenhador; seus olhos não são tão pequenos e lustrosos; o cabelo dela é parecido com o de Kate Nash”.
Então, vamos ajustar todas essas informações ao desenho, e ver o que temos. Mexendo em nariz, boca, olhos e cabelo (ou seja, praticamente tudo), acrescentando um par de sobrancelhas (para torná-la mais humana e evitar que o nosso amigo Adam acabe se casando com o Esperidião Amin) temos um novo retrato falado:
Então, esta é realmente a mulher da vida de Adam. Finalmente, temos uma pista um pouco mais precisa sobre a identidade da futura mãe dos filhos do pobre e solitário jovem britânico. É com esta ilustração que temos que trabalhar. Assim, observando atentamente ao novo retrato falado, a busca fica muito mais fácil.Adam, a mulher da sua vida, aquela garota que compartilhou uma grandiosa aventura com zumbis ao seu lado, e que irá amá-lo e respeitá-lo até que a morte os separe é brasileira, mora em São Paulo e tem 16 anos.
Sim, caro Adam. Sua busca terminou.
Abram as portas da esperança:
Tchubaruba!
Adam, eu lhe apresento... Mallu Magalhães.
A semelhança é indiscutível – como foi apontado pelas leitoras Renata e Barlavento, ao comentarem o post anterior. Tudo bem que a Mallu parece MUITA coisa, como, por exemplo, Ron Weasley, Jodie Foster e Bonga, O Vagabundo, mas isso não vem ao caso. Estou mais do que convencido que foi com ela que você sonhou. E se você ainda estiver em dúvida, basta olhar o quadro abaixo.

Adam, não há mais dúvidas. Mallu Magalhães é a tampa da sua panela, a sua metade da laranja. Se mesmo assim você ainda não estiver convencido, vou tirar a prova real aqui e seguir outro caminho. Vou demonstrar que você é o homem da vida dela, e inclusive já está presente em seus pensamentos – mesmo sem ela saber disso.
Veja, a Mallu, sua futura esposa, é cantora e lançou, recentemente, seu primeiro disco, cuja capa é esta aqui abaixo:

Ok, à primeira vista pode parecer um leãozinho. Talvez até mesmo a Mallu diga que é um leão, porque ela ainda não sabe da sua existência. Mas vamos tentar experimentar um pouco em cima dessa imagem (que, por sinal, atesta outro elemento que o casal tem em comum: talento zero como ilustradores) e ver aonde chegaremos. Já que Adam ainda é um jovem imberbe de vinte anos, que tal se tirarmos, da juba do animal, o pedaço equivalente a uma barba?

Agora, colocando esta imagem ao lado da sua foto , e prestando atenção ao seu “olhar de nada” e comparando o que sobrou da juba do leão com o seu elegante penteado, temos:

É isso. A conta fecha. É óbvio que a ilustração do CD da moça é uma representação gráfica do seu rosto. Você sonhou com a Mallu, mas também já estava presente na vida dela. Aliás, talvez você tenha sonhado com seu amor no mesmo dia em que a Mallu criou a capa do CD, o que tornaria tudo mais cósmico ainda.
Vocês sempre estiveram presentes um na vida do outro, num amor que desafia a lógica e a compreensão (se bem que, até aí, as entrevistas da Mallu também fazem isso).
A missão de vocês dois, no mundo, é se encontrarem. E vocês estão bem próximos disso.
Agora, Adam, eu não vou avisar a Mallu da sua existência. Afinal, é a mulher da sua vida, eu não vou fazer todo o trabalho sozinho. Você terá que encontrá-la.
Mas eu vou dar uma ajudinha.Proponho aos amigos blogueiros (alguém se habilita a fazer um banner?) que espalhem esta idéia em seus blogs. Uma hora isso vai chegar a Mallu, ou, com mais sorte ainda, ao Adam. Vamos espalhar aos quatro ventos do mundo virtual que ainda existe amor verdadeiro no mundo, e que a história de Adam e Mallu mostra que absolutamente todas as pessoas têm uma alma-gêmea nesse mundo frio e solitário.
Adam Pacitti e Mallu Magalhães: com os poderes investidos em mim como dono deste blog, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva e viver feliz para sempre.
É, Adam... O sonho acabou. Agora, começou o seu pesadelo.
A semelhança é indiscutível – como foi apontado pelas leitoras Renata e Barlavento, ao comentarem o post anterior. Tudo bem que a Mallu parece MUITA coisa, como, por exemplo, Ron Weasley, Jodie Foster e Bonga, O Vagabundo, mas isso não vem ao caso. Estou mais do que convencido que foi com ela que você sonhou. E se você ainda estiver em dúvida, basta olhar o quadro abaixo.

Adam, não há mais dúvidas. Mallu Magalhães é a tampa da sua panela, a sua metade da laranja. Se mesmo assim você ainda não estiver convencido, vou tirar a prova real aqui e seguir outro caminho. Vou demonstrar que você é o homem da vida dela, e inclusive já está presente em seus pensamentos – mesmo sem ela saber disso.
Veja, a Mallu, sua futura esposa, é cantora e lançou, recentemente, seu primeiro disco, cuja capa é esta aqui abaixo:

Ok, à primeira vista pode parecer um leãozinho. Talvez até mesmo a Mallu diga que é um leão, porque ela ainda não sabe da sua existência. Mas vamos tentar experimentar um pouco em cima dessa imagem (que, por sinal, atesta outro elemento que o casal tem em comum: talento zero como ilustradores) e ver aonde chegaremos. Já que Adam ainda é um jovem imberbe de vinte anos, que tal se tirarmos, da juba do animal, o pedaço equivalente a uma barba?

Agora, colocando esta imagem ao lado da sua foto , e prestando atenção ao seu “olhar de nada” e comparando o que sobrou da juba do leão com o seu elegante penteado, temos:

É isso. A conta fecha. É óbvio que a ilustração do CD da moça é uma representação gráfica do seu rosto. Você sonhou com a Mallu, mas também já estava presente na vida dela. Aliás, talvez você tenha sonhado com seu amor no mesmo dia em que a Mallu criou a capa do CD, o que tornaria tudo mais cósmico ainda.
Vocês sempre estiveram presentes um na vida do outro, num amor que desafia a lógica e a compreensão (se bem que, até aí, as entrevistas da Mallu também fazem isso).
A missão de vocês dois, no mundo, é se encontrarem. E vocês estão bem próximos disso.
Agora, Adam, eu não vou avisar a Mallu da sua existência. Afinal, é a mulher da sua vida, eu não vou fazer todo o trabalho sozinho. Você terá que encontrá-la.
Mas eu vou dar uma ajudinha.Proponho aos amigos blogueiros (alguém se habilita a fazer um banner?) que espalhem esta idéia em seus blogs. Uma hora isso vai chegar a Mallu, ou, com mais sorte ainda, ao Adam. Vamos espalhar aos quatro ventos do mundo virtual que ainda existe amor verdadeiro no mundo, e que a história de Adam e Mallu mostra que absolutamente todas as pessoas têm uma alma-gêmea nesse mundo frio e solitário.
Adam Pacitti e Mallu Magalhães: com os poderes investidos em mim como dono deste blog, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva e viver feliz para sempre.
É, Adam... O sonho acabou. Agora, começou o seu pesadelo.
9 de fevereiro de 2009
O Estranho Caso de Adam Pacitti
“Sonho que se sonha só
é só um sonho que se sonha só.
Mas sonho que se sonha junto
é realidade.”
(Raul Seixas)
Adam, claramente poucos minutos depois de acordar,
segurando o... Bem... "Retrato" de sua amada.
é só um sonho que se sonha só.
Mas sonho que se sonha junto
é realidade.”
(Raul Seixas)
Enquanto tomava café hoje pela manhã, comecei a fuçar na internet e dei de cara com a notícia de que a vida do jovem britânico Adam Pacitti mudou radicalmente nos últimos meses. Em algum momento do ano passado – mas não encontrei a data exata -, Adam, que tem 20 anos, sonhou que estava sendo atacado por uma horda de zumbis e, no meio do sonho, encontrou uma garota – que ele não conhece – e foi beijado por ela.
Adam, com aquela produção de hormônios em escala industrial característica da sua idade, acordou na mesma hora, suado, gemendo (talvez com o pijama um pouco melado) e completamente apaixonado. Não conseguia tirar a misteriosa garota da cabeça. A única explicação possível era que se tratava da mulher da sua vida.
Isso acontece com todo mundo – entre meus quinze e vinte e poucos anos, eu sonhei com umas dez “mulheres da minha vida” diferentes. Mas Adam não se fez de rogado e decidiu que a sua missão na vida é encontrar a fulana. Assim como Martin Luther King, Adam Pacitti tem um sonho. Fez um desenho bem tosco dela (mas bem tosco mesmo, a única coisa que conseguiria ser pior seria um boneco palito de vestidinho), montou um site e está fazendo uma campanha virtual, que pretende mobilizar o planeta em busca da futura Sra. Pacitti.
Adam, com aquela produção de hormônios em escala industrial característica da sua idade, acordou na mesma hora, suado, gemendo (talvez com o pijama um pouco melado) e completamente apaixonado. Não conseguia tirar a misteriosa garota da cabeça. A única explicação possível era que se tratava da mulher da sua vida.
Isso acontece com todo mundo – entre meus quinze e vinte e poucos anos, eu sonhei com umas dez “mulheres da minha vida” diferentes. Mas Adam não se fez de rogado e decidiu que a sua missão na vida é encontrar a fulana. Assim como Martin Luther King, Adam Pacitti tem um sonho. Fez um desenho bem tosco dela (mas bem tosco mesmo, a única coisa que conseguiria ser pior seria um boneco palito de vestidinho), montou um site e está fazendo uma campanha virtual, que pretende mobilizar o planeta em busca da futura Sra. Pacitti.
Adam, claramente poucos minutos depois de acordar,segurando o... Bem... "Retrato" de sua amada.
Minha primeira reação foi ficar puto com o moleque, porque eu estou escrevendo justamente uma crônica sobre um sujeito que sonha com a mulher da sua vida (mas, claro, sem a cretinice de montar um site para encontrá-la) para colocar no Chronicles. Mas, aos poucos, fiquei com dó do inglesinho e resolvi ajudá-lo. Afinal, qualquer pessoa que acredita ter conhecido a mulher da sua vida num cenário típico dos filmes do George Romero merece meu respeito e minha consideração.
Além disso, a tarefa dele é ingrata. Afinal, existem bilhões de pessoas no mundo – ele está disposto a encontrá-la nem que para isso tenha que rodar o planeta inteiro, tanto que ele já foi da Inglaterra para os Estados Unidos em busca da menina. Por isso, qualquer ajuda que ele receber, acredito, será útil em sua jornada.
Entretanto, eu não tenho apenas pistas ou palpites de quem ela pode ser. Adam, eu tenho um presente para você: eu conheço a mulher da sua vida. Não sei onde ela mora exatamente, mas eu a conheço e sei o que ela faz. E, mais importante ainda, vou provar que você já está presente na vida dela, da mesma forma que ela está na sua.
Ma segure um pouco seus hormônios, pois ainda não vou revelar a identidade dela. Mas não se preocupe que tão logo meu assessor para o tratamento de imagens me envie o material utilizado na investigação, eu postarei, aqui, a solução do caso.
Aí, amigão, é só partir para o abraço.
Além disso, a tarefa dele é ingrata. Afinal, existem bilhões de pessoas no mundo – ele está disposto a encontrá-la nem que para isso tenha que rodar o planeta inteiro, tanto que ele já foi da Inglaterra para os Estados Unidos em busca da menina. Por isso, qualquer ajuda que ele receber, acredito, será útil em sua jornada.
Entretanto, eu não tenho apenas pistas ou palpites de quem ela pode ser. Adam, eu tenho um presente para você: eu conheço a mulher da sua vida. Não sei onde ela mora exatamente, mas eu a conheço e sei o que ela faz. E, mais importante ainda, vou provar que você já está presente na vida dela, da mesma forma que ela está na sua.
Ma segure um pouco seus hormônios, pois ainda não vou revelar a identidade dela. Mas não se preocupe que tão logo meu assessor para o tratamento de imagens me envie o material utilizado na investigação, eu postarei, aqui, a solução do caso.
Aí, amigão, é só partir para o abraço.
5 de fevereiro de 2009
Apenas o Post de Hoje
Ontem pela manhã, recebi um e-mail sobre religião aqui no trabalho. Normalmente, eu teria apagado logo de cara – tenho bronca dos e-mails desse tipo desde os malditos power points de anjinho que entupiam minha antiga conexão discada anos atrás – mas acabei lendo. Ou, ao menos, passando os olhos.
Tratava-se de um texto sobre o fato de termos que ser claros naquilo que queremos na hora de rezar. O sujeito ainda fazia um comparativo com pizzarias, dizendo que quando ligamos para uma delas, especificamos o sabor da pizza que queremos. Ainda não sei se a analogia foi bem grosseira, ou eu que não entendi a sutileza da comparação.
Enfim, na segunda metade, o texto fica um pouco melhor, dizendo que às vezes não recebemos de Deus exatamente aquilo que queremos, mas sim, as ferramentas necessárias para construir o que queremos. E que muitas vezes estas ferramentas nos são apresentadas todos os dias, em forma de oportunidades, e nós não temos a capacidade de reconhecê-las.
Tudo isso para o cara apresentar o negócio dele, um produto que elimina riscos de DVDs (não estou brincando), logo depois de colocar a frase “a oportunidade a seguir pode ser uma resposta às suas preces, ou às minhas” (não estou brincando).
Não gosto muito de entrar nesse assunto de religião aqui. Tanto que, ao contrário do que o Hóstia pensou, este post aqui não é sobre religião, mas sim sobre uma paixão adolescente. Acho que cada um tem a sua, e respeito isso, desde que o culto da pessoa não ordene que ela pegue uma espada e saia por aí matando quem acredita em outra coisa. Agora, você mandar um e-mail que ensina as pessoas a rezar, apenas para vender um produto que vai tirar os riscos daquele DVD que você deixou fora da caixinha por semanas é demais. Isso estabelece um novo padrão para o mau gosto.
O pior é que pelo tom do e-mail, a pessoa não tentou ser ofensiva, mas realmente acha que está fazendo um favor a quem lê, dando dicas de como orar, pedir e agradecer a Deus. O que ele deve ter esquecido é que cada um se relaciona com Deus de formas diferentes, e, por mais bonito que o texto seja, não necessariamente o que ele diz fará sentido para todo mundo. E, mesmo se fizesse sentido para uma única pessoa, o merchandising vagabundo no final do e-mail estragaria com tudo.
Eu, por exemplo, tenho minha religião, minha fé e o meu Deus. Claro que, como a maioria das pessoas, eu rezo muito mais para pedir do que para agradecer – mas agradeço sim, muitas vezes –, mas isso é algo que interessa somente a mim e a Ele. Agora, se eu baseasse a minha vida em conceitos religiosos, ficaria muito, muito puto e ofendido com um e-mail como este.
Todo mundo sabe que existem muitas pessoas que usam o nome de Deus para ganhar dinheiro. Afinal, assim como sexo e violência, fé é algo que vende demais. Mas daí a você eleger o seu produto como a possível solução divina às preces de alguém é chutar o pau da barraca. Ou jogar pedra na cruz, se me permitem a piadinha. Seria o mesmo que escrever um texto sobre o Sermão da Montanha simplesmente para vender Caldo Knorr em cima da frase “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor?”. Mau gosto demais.
Aí, eu falo que o mundo está totalmente errado e as pessoas brigam comigo, falam que sou pessimista e tal. Se UMA pessoa comprar este limpador de DVDs por causa deste e-mail, ela vai apenas provar que estou matematicamente certo quando digo que a humanidade não deu certo.
Enfim, não sei se é o fato do dia estar totalmente cinzento ou de eu ter sonhado com a música Norwegian Wood (This Bird Has Flown), uma das mais amargas, sombrias e bobdylanianas dos Beatles, mas este é um dos poucos posts que escrevi neste blog sem a) planejar o texto ou sequer saber onde eu queria chegar com ele; b) saber onde queria chegar mas perceber que escrever sobre o assunto mudou minha opinião, ou c) chegar até aqui e ainda não ter certeza se vou publicar esse texto - e se eu publicar, prometo manter esta última frase.
Não tenho a intenção de crucificar o sujeito, mas, de repente, esse e-mail se tornou, para mim, uma forma de exemplificar como está tudo invertido hoje em dia, de como as coisas são vazias e descartáveis, e de como ninguém dá mais valor para absolutamente nada – e isso não apenas na internet, mas fora dela também. O e-mail que eu recebi não existe apenas porque ele é um e-mail (ou seja, algo rápido, fácil e indolor de ser mandado), mas sim porque o mundo está como está, com ou sem internet.
Se eu disser que falta amor no mundo, vai soar piegas demais; se eu disser que falta respeito ou comprometimento, vai soar velho demais. Acho que tudo isso falta, sim, mas o que falta mesmo é um pouco mais de conteúdo. No mundo todo. Tudo se tornou barato demais, fácil demais, trivial demais.
E, de repente me vem à cabeça um diálogo entre Marlon Brando (que não é Deus, mas chega perto) e Martin Sheen em Apocalypse Now:
Kurtz (Brando): Você desaprova os meus métodos?
Willard (Sheen): Eu não consigo identificar método algum, senhor.
Acho que, na verdade, queria apenas escrever sobre o assunto ou “ouvir” as opiniões de vocês a respeito disso. Afinal, se eu aprendi algo nestes dois anos de blog, é que tenho a sorte de ter leitores que, na maioria das vezes, têm mais a falar sobre o assunto do que eu. E, em nome de vocês, prometo que vou colocar algo mais fácil de ser digerido no próximo post.
Sim, ele ateou fogo no apartamento dela.
Tratava-se de um texto sobre o fato de termos que ser claros naquilo que queremos na hora de rezar. O sujeito ainda fazia um comparativo com pizzarias, dizendo que quando ligamos para uma delas, especificamos o sabor da pizza que queremos. Ainda não sei se a analogia foi bem grosseira, ou eu que não entendi a sutileza da comparação.
Enfim, na segunda metade, o texto fica um pouco melhor, dizendo que às vezes não recebemos de Deus exatamente aquilo que queremos, mas sim, as ferramentas necessárias para construir o que queremos. E que muitas vezes estas ferramentas nos são apresentadas todos os dias, em forma de oportunidades, e nós não temos a capacidade de reconhecê-las.
Tudo isso para o cara apresentar o negócio dele, um produto que elimina riscos de DVDs (não estou brincando), logo depois de colocar a frase “a oportunidade a seguir pode ser uma resposta às suas preces, ou às minhas” (não estou brincando).
Não gosto muito de entrar nesse assunto de religião aqui. Tanto que, ao contrário do que o Hóstia pensou, este post aqui não é sobre religião, mas sim sobre uma paixão adolescente. Acho que cada um tem a sua, e respeito isso, desde que o culto da pessoa não ordene que ela pegue uma espada e saia por aí matando quem acredita em outra coisa. Agora, você mandar um e-mail que ensina as pessoas a rezar, apenas para vender um produto que vai tirar os riscos daquele DVD que você deixou fora da caixinha por semanas é demais. Isso estabelece um novo padrão para o mau gosto.
O pior é que pelo tom do e-mail, a pessoa não tentou ser ofensiva, mas realmente acha que está fazendo um favor a quem lê, dando dicas de como orar, pedir e agradecer a Deus. O que ele deve ter esquecido é que cada um se relaciona com Deus de formas diferentes, e, por mais bonito que o texto seja, não necessariamente o que ele diz fará sentido para todo mundo. E, mesmo se fizesse sentido para uma única pessoa, o merchandising vagabundo no final do e-mail estragaria com tudo.
Eu, por exemplo, tenho minha religião, minha fé e o meu Deus. Claro que, como a maioria das pessoas, eu rezo muito mais para pedir do que para agradecer – mas agradeço sim, muitas vezes –, mas isso é algo que interessa somente a mim e a Ele. Agora, se eu baseasse a minha vida em conceitos religiosos, ficaria muito, muito puto e ofendido com um e-mail como este.
Todo mundo sabe que existem muitas pessoas que usam o nome de Deus para ganhar dinheiro. Afinal, assim como sexo e violência, fé é algo que vende demais. Mas daí a você eleger o seu produto como a possível solução divina às preces de alguém é chutar o pau da barraca. Ou jogar pedra na cruz, se me permitem a piadinha. Seria o mesmo que escrever um texto sobre o Sermão da Montanha simplesmente para vender Caldo Knorr em cima da frase “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor?”. Mau gosto demais.
Aí, eu falo que o mundo está totalmente errado e as pessoas brigam comigo, falam que sou pessimista e tal. Se UMA pessoa comprar este limpador de DVDs por causa deste e-mail, ela vai apenas provar que estou matematicamente certo quando digo que a humanidade não deu certo.
Enfim, não sei se é o fato do dia estar totalmente cinzento ou de eu ter sonhado com a música Norwegian Wood (This Bird Has Flown), uma das mais amargas, sombrias e bobdylanianas dos Beatles, mas este é um dos poucos posts que escrevi neste blog sem a) planejar o texto ou sequer saber onde eu queria chegar com ele; b) saber onde queria chegar mas perceber que escrever sobre o assunto mudou minha opinião, ou c) chegar até aqui e ainda não ter certeza se vou publicar esse texto - e se eu publicar, prometo manter esta última frase.
Não tenho a intenção de crucificar o sujeito, mas, de repente, esse e-mail se tornou, para mim, uma forma de exemplificar como está tudo invertido hoje em dia, de como as coisas são vazias e descartáveis, e de como ninguém dá mais valor para absolutamente nada – e isso não apenas na internet, mas fora dela também. O e-mail que eu recebi não existe apenas porque ele é um e-mail (ou seja, algo rápido, fácil e indolor de ser mandado), mas sim porque o mundo está como está, com ou sem internet.
Se eu disser que falta amor no mundo, vai soar piegas demais; se eu disser que falta respeito ou comprometimento, vai soar velho demais. Acho que tudo isso falta, sim, mas o que falta mesmo é um pouco mais de conteúdo. No mundo todo. Tudo se tornou barato demais, fácil demais, trivial demais.
E, de repente me vem à cabeça um diálogo entre Marlon Brando (que não é Deus, mas chega perto) e Martin Sheen em Apocalypse Now:
Kurtz (Brando): Você desaprova os meus métodos?
Willard (Sheen): Eu não consigo identificar método algum, senhor.
Acho que, na verdade, queria apenas escrever sobre o assunto ou “ouvir” as opiniões de vocês a respeito disso. Afinal, se eu aprendi algo nestes dois anos de blog, é que tenho a sorte de ter leitores que, na maioria das vezes, têm mais a falar sobre o assunto do que eu. E, em nome de vocês, prometo que vou colocar algo mais fácil de ser digerido no próximo post.
Sim, ele ateou fogo no apartamento dela.
3 de fevereiro de 2009
O Post de 2008
Seguindo o exemplo do que aconteceu ano passado, é hora de ouvir a voz dos leitores e apontar qual o melhor post de 2008. Na verdade, esta enquete deveria ter sido feita no começo do ano, mas, como nada no Brasil funciona antes do carnaval, o atraso ainda é pequeno.
Apenas para constar, foram selecionados os 10 posts mais comentados de 2008 (que, na verdade, são 12, devido a alguns empates). O único post com número suficientes de comentários que foi desconsiderado é o Dúvida, já que (sem desmerecer o número de comentários recebido), eu nem o considero como um post. Já as sagas ganharão uma enquete própria, da mesma forma que no ano anterior.
A enquete está aí aqui à direita. Quem quiser reler – ou conhecer – os candidatos a Post 2008 antes de votar, seguem os links abaixo. Obviamente, você encontrará de tudo na relação abaixo, desde brigas com leitores cretinos (uma das preferências dos visitantes assíduos) até posts mais reflexivos, passando pelas já clássicas brigas com atendentes de telemarketing.
Divirtam-se e votem com consciência.
E na Boa?
33*
Crônica de uma Morte Estúpida
Adeus
Bodas de Papel
Aerotrem
A Alegria de Jogar
Blogs ou Livros? Livros ou Blogs?
Links
Rob Gordon X Santander - Round Único
A Nova Geração da Poesia Brasileira
There Was a Time...
Apenas para constar, foram selecionados os 10 posts mais comentados de 2008 (que, na verdade, são 12, devido a alguns empates). O único post com número suficientes de comentários que foi desconsiderado é o Dúvida, já que (sem desmerecer o número de comentários recebido), eu nem o considero como um post. Já as sagas ganharão uma enquete própria, da mesma forma que no ano anterior.
A enquete está aí aqui à direita. Quem quiser reler – ou conhecer – os candidatos a Post 2008 antes de votar, seguem os links abaixo. Obviamente, você encontrará de tudo na relação abaixo, desde brigas com leitores cretinos (uma das preferências dos visitantes assíduos) até posts mais reflexivos, passando pelas já clássicas brigas com atendentes de telemarketing.
Divirtam-se e votem com consciência.
E na Boa?
33*
Crônica de uma Morte Estúpida
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