31 de dezembro de 2008

Top 5 2008 - Séries
















5 - Desperate Housewives
Muitas outras séries (Dexter, Californication) poderiam entrar aqui, mas Desperate Housewives conta com um diferencial: Felicity Huffman. A intérprete de Lynette é, de longe, a melhor atriz da televisão atual. Seja nas cenas em que atua ao lado das outras atrizes principais ou (especialmente) naquelas em que está sozinha, como no episódio em que é feita refém, na terceira temporada, Felicity mostra que ela é o verdadeiro pilar do seriado, sempre caminhando sobre a fronteira entre a comédia e o drama sem exagerar em nenhum deles – ao contrário do que normalmente acontece com suas companheiras de cena. É por isso que seu personagem é o mais humano da série – e uma das melhores coisas da TV.



















4 - O Exterminador do Futuro – As Crônicas de Sarah Connor
Comecei a assistir com um pé atrás, temendo que fosse apenas um caça-níqueis aproveitando a marca da franquia. Felizmente, eu estava enganado. A série arquiteta um plano brilhante para ignorar o terceiro filme e narra a luta de Sarah Connor para sobreviver ao lado de seu filho com uma trama elegante e que dá o mesmo valor para os personagens como para as cenas de ação. E, de quebra, mostra muito mais sobre o futuro e a guerra contra a Skynet que qualquer um dos filmes já tenha feito.


















3 - The Big Bang Theory
Nem Friends, nem Two and a Half Men. A primeira grande sitcom desde Seinfeld é The Big Bang Theory, que mostra o relacionamento entre quatro nerds (todos eles absurdamente geniais) e uma loira maravilhosa que se muda para o apartamento da frente. As (óbvias) referências a ficção científica e quadrinhos são de rolar de rir, os diálogos são afiados e os atores estão muito à vontade, mas o grande destaque acaba ficando com Sheldon, uma mistura de Cosmo Kramer (na loucura) e George Costanza (nas manias), com 187 de QI e com a mesmo talento que um saco de pão em relações humanas.



















2 - The Shield
O que toda série policial quer ser quando crescer. Com câmera na mão e um protagonista com moral duvidosa (Jack Bauer é um coroinha perto de Vic Mackey), a série mostra o cotidiano de um grupo de policiais que atuam numa delegacia enfiada no meio de uma Los Angeles dominada por gangues de negros e latinos, que passam a maior parte do tempo se drogando, se matando, ou ambos. E a única coisa que impede esse barril de pólvora explodir é Mackey e seu grupo de policiais de elite, que passam a maior parte do tempo sendo investigados pela corregedoria e agindo por baixo do pano.
















1 - Monty Python’s Flying Circus
Eu sei que é antiga, mas mão é culpa minha que a série só foi lançada em DVD no Brasil este ano. Eu já assistia a alguns episódios no MultiShow anos atrás, mas é assistindo um disco atrás do outro que você descobre realmente a qualidade dos Python, que atiram para todos os lados – e normalmente acertam. Sinceramente, não existe um episódio ruim, e, por mais que você não esteja acostumado com o humor anárquico deles (se você nunca assistiu a nada deles, comece pelos longa-metragens, que são mais acessíveis), desafio você a não gargalhar pelo menos uma vez por episódio. Compre três packs de cada temporada: um para assistir, um para emprestar e outro para guardar.

Top 5 2008 - Livros





















5 - Chegando Juntos

Um livro praticamente desconhecido que encontrei por acaso na Fnac e cuja forma narrativa me chamou a atenção. Trata-se da história de um casal (como se conhecem, se apaixonam e por aí vai), mas cada capítulo é narrado por um deles, o que faz você ter os dois pontos de vista. O interessante é que o que poderia cair numa pieguice sem tamanho acaba passando longe das fórmulas de comédia romântica e mergulha no humor britânico, numa deliciosa mistura de Um Grande Garoto e Bridget Jones.

























4 - The Beatles - A Biografia
Estaria certamente melhor colocado na lista se eu tivesse lido mais, o que a falta de tempo não permitiu. Mas a biografia assinada por Bob Spitz, é, de longe, o melhor trabalho sobre o quarteto, desmentindo todas (ou quase todas) as mentiras e boatos que cercaram a história do grupo. Altamente indicado para os fãs de Dream Theater – afinal, não sei porque todos eles insistem em comparar Dream Theater com os Beatles, numa atitude que beira a esquizofrenia e para os caras do Oasis, que ainda vão (tentar) copiar tudo o que está no livro.



















3 - Slam
Nick Hornby é Nick Hornby. Sempre. Mesmo não sendo um novo Alta Fidelidade (algo que dificilmente ele irá fazer), Slam conquistou uma marca impressionante na minha vida: foi o único livro que eu consegui ler em apenas um dia, sem conseguir largar antes de terminar. Girando com um tema parecido com Juno (mas trocando a menina por um skatista de 16 anos), o livro mostra o talento do inglês na construção de personagens complexos, humanos e extremamente divertidos – afinal, é a primeira vez que ele escreve sobre adolescentes.
























2 - Discworld

Num ano com pouco tempo para ler, quem me salvou foi Terry Pratchett e seu Discworld, que já figuraram no Top 5 do ano passado. Li cerca de quatro volumes da série, que consegue manter o mesmo (altíssimo) padrão de qualidade em todos eles – especialmente quando o Morte, o melhor personagem do universo criado pelo inglês (e que serve como leve inspiração para meus posts sobre minha síndica) surge em cena. Se você gosta de Guia do Mochileiro das Galáxias, Discworld será sua nova mania.





















1 - As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stone

Como todo livro de entrevistas, é irregular – mas tem, a seu favor, o fato de que a maioria das matérias é do tempo em que a Rolling Stone era uma revista sobre música e não... Bem, não o que é hoje. Alguns dos grandes momentos são Pete Townshend afirmando que o próximo disco do The Who seria “sobre um garoto cego, surdo e mudo” (um projeto que resultaria “somente” em Tommy) e John Lennon, pouco após o final dos Beatles, disparando farpas contra tudo e contra todos – nem os engenheiros de som escapam.

Top 5 2008 - Música



















5 - Along Came a Spider
Qual a probabilidade de algo dar errado num projeto que envolve Alice Cooper fazendo um disco conceitual sobre um assassino serial? Zero. Along Came a Spider mostra que a década atual tem sido excelente para o cantor, que vem lançando bons álbuns com uma regularidade impressionante. E este mais recente trabalho deixa claro que seu hard rock, feito com honestidade e sem frescuras, continua servindo como modelo para qualquer banda nova que deseje se aventurar pelo estilo.
























4 - Black Ice
Sem gravar desde o começo da década, muita gente jurava que o AC/DC já estava aposentado. Black Ice, porém, caiu como um petardo, reunindo os melhores elementos da sonoridade do grupo, com os vocais rasgados de Brian Johnson e a guitarra __________ de Angus Young (ainda não inventaram um adjetivo apropriado para isso). Só o primeiro single de trabalho, Rock N Roll Train, já mostra que o AC/DC tem muita lenha para queimar. Dedos cruzados para eles passarem por aqui este ano.
























3 - Death Magnetic
É um CD perfeito? Não, está longe de ser. Mas é um ótimo CD e – apesar disso já ter sido falado tantas vezes – é o melhor CD deles, desde o Black Album, do longínquo 1991. Não é um Master of Puppets ou um ...And Justice for All, mas é um ótimo disco, pesado e com o Metallica (finalmente) soando como Metallica. Sinal de que, quando os caras querem, eles conseguem fazer um som de qualidade. O próximo disco, porém, será definitivo: ou colocará a banda de volta ao topo, ou encerrará a carreira dos caras, mostrando que Death Magnetic foi apenas a “melhora-antes-da-morte”.


















2 - Show do Ozzy
Semanas antes do show, diziam que ele não se agüentaria de pé no palco. Estavam errados. Em sua passagem pelo Brasil, Ozzy fez um show irretocável, cantando (excelentes) músicas novas e clássicos obrigatórios. Desde o vídeo de abertura, com o Madman satirizando diversos filmes e séries de sucesso até o encerramento com Paranoid (passando, claro, por No More Tears), foi tudo praticamente perfeito. A voz dele falha, às vezes? Sim. Não importa. Paranoid, Iron Man e War Pigs significam mais para a história do heavy metal tudo o que o Linkin’ Park fez na vida.
















1 - Show do Iron Maiden
Sim, foi a terceira vez que eu assisti aos ingleses tocando em São Paulo, mas, foi, de longe, o melhor show da minha vida. Não apenas pelo desempenho – sempre irrepreensível deles – mas pelo setlist escolhido a dedo, com sucessos dos anos 80 - ou seja, todas as músicas que me ensinaram a gostar da banda e que eu apenas sonhava em assistir ao vivo, já que não eram mais executadas em turnês: Aces High, Rime of the Ancient Mariner, Powerslave, Wasted Years. Acredito que será difícil – ao menos por um bom tempo – outro show mexer tanto comigo.

Top 5 2008 - Quadrinhos




















5 - Batman – O Longo Dia das Bruxas

Com a estréia de Batman – O Cavaleiro das Trevas nos cinemas, diversas edições especiais e definitivas do Homem Morcego chegaram às lojas. Esta é, de longe, uma das melhores, com uma trama que dá seqüência direta (apesar de ainda inferior) aos eventos de Batman – Ano Um e que serviu como uma das grandes fontes de inspiração para os eventos do novo filme. O preço da edição em capa dura é salgado, mas vale cada centavo.























4 - Os Leões de Bagdá

Nunca tinha ouvido falar sobre essa graphic novel (mea culpa: mode on) até dar de cara com ela na Comix. Peguei – mais por curiosidade – e, de lá para cá, já reli duas vezes. Trata da história de um grupo de leões que, após um bombardeio em Bagdá, escapam do zoológico onde moram e tentam sobreviver nas ruínas da cidade ocupada por tropas americanas. Um primor de história.






















3 - Persépolis

Eu não havia lido, e, por isso, acabei pegando a edição única, que traz os quatro volumes encadernados (e até agora não entendo porque a Saraiva vendeu este volume a R$40,00 e manteve o preço dos quatro originais a R$30,00 cada). É uma história deliciosa que narra as desventuras da autora durante sua infância e adolescência no Irã (e, em alguns momentos, na Europa) dos anos 80 e 90. Merece lugar de honra na prateleira, logo ali entre Maus e Gen – Pés Descalços.






















2 - Bibliotecas Históricas Marvel

Após os primeiros lançamentos de 2007 (que entraram no Top 5 do ano passado), novos números das luxuosas edições que trazem as primeiras histórias dos personagens Marvel ganharam as prateleiras, com edições dedicadas a personagens importantes, como Thor, Homem de Ferro e Hulk (estes dois últimos em lançamentos claramente apoiados no marketing dedicado à estréias dos seus filmes). Com capa dura e papel luxuoso, continuam sendo um verdadeiro tesouro para fãs e colecionadores. Espero que lancem logo uma do Demolidor.





















1 - Surfista Prateado – Réquiem

Um dos melhores personagens da Marvel (e a menina dos olhos de Stan Lee) ganha uma minissérie triste e melancólica quando descobre que tem pouco tempo de vida, devido ao fato de que seu corpo está cedendo às agruras do tempo. Assim, ele parte numa última jornada para tentar compreender o porque de tanta violência existir no universo, e, mais importante que isso, se ele, em toda a sua bondade, fez alguma diferença em relação a este assunto. Uma pequena obra-prima, que não ganhou a mesma atenção da mídia que outros eventos como a morte do Capitão América, mas que merece lugar de honra em qualquer coleção.

Top 5 2008 - Cinema














5 - Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

A polêmica da lista. Não sei se os críticos esperavam por um novo Os Caçadores da Arca Perdida (algo que nem os dois filmes anteriores eram) ou se apenas se sentiram enciumados, já que Indiana Jones era um personagem de aventura praticamente desconhecido das novas gerações (e críticos precisam gostar de coisas desconhecidas para se manterem seguros - algo como “esse filme não é bom, bom é Indiana Jones, pena que você não conhece”). Bom, agora que a molecada conhece Indiana Jones, os críticos precisam meter o pau no filme, para tentar dizer que “isso aí não é Indiana Jones”. Falaram que o personagem envelheceu mal; eu discordo e acho que quem envelheceu mal foram os críticos. Assisti duas vezes e me diverti (muito) nas duas. E não era essa a proposta do filme?
















4 - Vicky Cristina Barcelona

Esqueçam Match Point e Scoop. Este é o Woody Allen que estávamos esperando há anos. Filmando pela primeira vez na Espanha – e sem atuar no filme – o diretor cria um dos melhores triângulos (ou pentágono, em alguns momentos) amorosos do cinema. De quebra, me fez finalmente ver o talento de Penélope Cruz e comprova o fato de que o espanhol Javier Bardem é o maior ator vivo, ao lado de Daniel Day-Lewis (não, eu ainda não assisti Sangue Negro, mas o DVD está aqui em casa, na fila).





















3 - Wall-E

A melhor animação da Pixar de todos os tempos. Sim, é melhor que Monstros S.A. e que Procurando Nemo. Isso porque Wall-E, em muitos momentos, esquece que é uma animação e torna-se um filme de ficção científica. Aliás, um dos melhores filmes de ficção científica em muitos e muitos anos. Sim, o visual é magnífico, mas este está longe de ser o grande trunfo do filme. Uma obra-prima.



















2 - Batman – O Cavaleiro das Trevas

O grande evento do ano. A maior adaptação de quadrinhos de todos os tempos – algo que quer dizer muito, especialmente hoje em dia. Apoiado totalmente no Coringa incômodo e doentio de Heath Ledger (que está mais para terrorista que vilão de quadrinhos), o filme é uma obra sufocante, que traça mais paralelos com o mundo de hoje do que os críticos intelectuais gostariam de admitir. Num mundo perfeito, levaria o Oscar de tudo.




















1 - O Poderoso Chefão

Não, eu não enlouqueci. Mas 2008 marcou o ano em que eu vi O Poderoso Chefão pela primeira vez dentro de um cinema – e ainda se tratava da versão restaurada. Sendo assim, era óbvio que ele entraria no Top 5 do ano, já que ele pertence ao Top 5 da minha vida. Se puder assistir no cinema, faça isso: trata-se de um filme totalmente diferente do que aquele que você viu em DVD. E trata-se de um filme muito melhor do que aquele que você viu em DVD.

29 de dezembro de 2008

Só um Minuto

Quando eu me mudei para Pinheiros, passei os primeiros dias estudando o comércio da região. E, por comércio, entenda-se banca de jornal e pizzaria. Afinal, como eu trabalho no bairro, todas as minhas outras necessidades estavam eram supridas, pois eu já era cliente do melhor hambúrguer (Oregon) e da melhor churrascaria (Bovinu’s) da região. As outras necessidades mais triviais (como farmácia ou banco) eu deixei para descobrir quando precisasse.

Com banca de jornal foi fácil: primeiro, passei a usar a banca na esquina da minha casa (na frente da padaria das Carolinas e do Bigode), que é 24 horas. Ou quase isso, já que como o velhinho que fica lá na parte da manhã não sabe usar a máquina do Visa, eu considero que ela está fechada nesse período. Mas, poucos metros adiante, há uma espécie de loja especializada em revistas, e é lá que costumo comprar meus jornais e quadrinhos.

Com pizzaria a coisa não foi tão fácil. Logo na primeira semana, experimentei uma pizzaria da Teodoro que tinha o melhor preço da América Latina. Não lembro os valores agora, mas podemos dizer que o refrigerante era mais caro que a pizza. Obviamente, o sabor não era dos melhores, lembrando, em alguns momentos, jornal velho (e não era um Estadão, estava mais para Primeira Mão). O atendimento também deixava bastante a desejar: a única vez que fui até lá, precisei repetir o que eu queria beber (Coca) três vezes, até o sujeito falar que não tinha mais Coca. Pedi, então, uma Fanta, apenas para assistir a ele entrar numa portinha e voltar com uma garrafa de Coca nas mãos, dizendo que “a Fanta acabou, pode ser Coca?”. Ô fase.

Pouco tempo depois, descobri uma pizzaria muito boa aqui na Artur de Azevedo, e virei cliente. A pizza deles é excelente, com a massa nem muito grossa nem muita fina e toneladas de recheio. Além disso, eles têm um entregador que gosta de heavy metal, o que garante uma saudável troca de informações sobre os futuros shows na cidade toda vez que desço para buscar a pizza.

Mas, como nada é perfeito, eles têm um problema: a miopia da mocinha que atende o telefone. Veja bem, o atendimento lá é ótimo, mas não quando é ela que atende o fone. O problema é que eles usam um identificador de chamadas para “adivinhar” o endereço do cliente. Isso deveria tornar o atendimento rápido e confortável, mas a coisa não funciona bem assim. Outro dia mesmo liguei lá e ela atendeu.

– Pizzaria tal, boa noite.

– Boa noite. Eu queria fazer um pedido.

– Seu telefone é 1234-56... 56.... 1234-56...

– Quer que eu fale o resto?

– Só um minuto, por favor. 1234-56... 7... 78?

– Isso.

– Seu telefone, então, é 1234-5678?

– Isso. Provavelmente, é o mesmo número que está aparecendo na tela do seu identificador de chamadas. Mas isso pode ser coincidência, claro.

– Qual seu pedido?

– Meia atum, meia calabresa. E uma Coca Zero.

– Meia atum...

– ...

– ... e meia calabresa.

– Isso.

– E para beber?

– [suspiro] Uma Coca Zero.

– Ok. O seu endereço é Rua Tal...

– Isso...

– Número... Número X...

– Não é mais fácil eu apenas falar meu endereço e você escrever?

– Só um minuto, senhor.

– Porque acho que eu posso te ajudar com isso. Eu sei onde moro.

– Só um minuto, estou puxando no sistema...

– Sem querer me gabar, acho que eu sou mais rápido que o seu sistema.

– Apartamento Y?

– Você está perguntando ou afirmando?

– É... Afirmando.

– Muito bem. Acertou. Rua Tal, Número X, apartamento Y.

– Ok, senhor. Em vinte minutos está aí.

– Ok.

Caso vocês estejam se perguntando porque eu não peço em outra pizzaria, é porque a pizza de lá é realmente boa, então vale o sacrifício. Mas confesso que no começo eu cheguei a considerar a hipótese de terceirizar o ato de pedir pizza. Por alguns dias, eu considerei a hipótese de emprestar meu celular para o porteiro e pedir para ele falar com a menina, mas desisti disso no dia em que pedi uma pizza, e, alguns minutos depois, ele interfonou para avisar que “chegou a entrega do restaurante pizzaria”. Assim, preferi me poupar do trabalho de explicar a ele que a palavra “pizzaria” não precisa estar acompanhada do termo “restaurante”.

Ou seja, a única alternativa que sobrou seria encontrar uma maneira de ensinar a Besta-fera a falar no telefone. O problema (caso eu conseguisse isso) seria no primeiro dia que eu esquecesse o talão de cheques em casa e descobriria, à noite, que, minha conta está negativa e o peso do meu cachorro foi de pouco menos de 10kg para 80kg. Assim, eu continuo pedindo as minhas pizzas por conta própria, e tentando relevar o fato de que, em algumas noites, eu demoro mais tempo para pedir a pizza do que para comê-la.

28 de dezembro de 2008

Best Blogs Brazil - Champ Finalista!

É com muito orgulho que anuncio a vocês que o Champ Vinyl foi indicado como um dos 10 finalistas no concurso Best Blog Brasil nas categorias Melhor Blog e Pessoal / Cotidiano. Ou seja, de acordo com estes resultados, o Champ já se encontra entre os dez melhores blogs de 2008 nestas duas categorias. Nada mal para um modesto blog que começou como um hobby e que hoje, dois anos depois, permanece exatamente desse jeito: um hobby. Quando eu criei este blog, queria apenas um lugar para publicar meus textos e matar minha vontade de escrever. Jamais me passou pela cabeça que, dois anos depois, ele conquistaria esse tipo de honra.

Agora, o que mais me impressionou foi a participação dos leitores. Fiquei sabendo do concurso apenas na véspera do término das indicações, e mesmo assim, o Champ conseguiu ser finalista em duas categorias – sem campanha ou nada parecido, apenas com um post avisando sobre o concurso. Isso pode soar demagogo, mas, para mim, o reconhecimento de vocês que estão sempre por aqui é muito mais importante que prêmios, selos ou indicações.

E o reconhecimento de vocês é infinitamente mais importante que o número de acessos deste blog, algo que deixa muitos blogueiros totalmente obcecados e que, a meu ver, está longe de ser a força motriz da blogosfera. O Champ ultrapassou (na categoria Melhor Blog) alguns nomes hypados da blogosfera brasileira, como Pensar Enlouquece, Contraditorium e Bobagento. Isso mostra que o número de acessos talvez não seja tão importante como muitos blogueiros – especialmente novos blogueiros – pensam (acredito que não seja o caso dos três citados acima, que fazem blogs excelentes), e prova algo que eu sempre disse aqui: ocupar posições altas em rankings não necessariamente significa qualidade; mas ter leitores de verdade, sim.

Sendo assim, só o fato de ser indicado nas duas categorias, concorrendo inclusive com blogs de celebridades, como o Blog do Tas, já é motivo de muito, muito orgulho. E não apenas orgulho dos meus textos conquistarem isso, mas também orgulho do que vocês, leitores e amigos, fizeram nestes dois dias.

E, agora, nesta segunda etapa, a votação continua até dia 16 de janeiro – o resultado será anunciado durante a Campus Party, no dia 24. Quem quiser ajudar o Champ pode votar novamente nas enquetes de Melhor Blog e Pessoal / Cotidiano, usando o mesmo login e senha da primeira fase do concurso – se não for cadastrado no site do Best Blogs Brazil, basta clicar aqui.

E, como sempre, vamos ver no que dá – já que sempre considerei o Champ como zebra neste tipo de coisa. Conto com vocês, novamente!

Valeu!

E deixo um abraço especial ao Max, blogueiro de primeira linha e gente finíssima, que também está na disputa.

26 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte Final

(leia a parte II aqui)

Chegamos perto do Ibirapuera e o trânsito parou, por causa daquela porra daquela árvore de Natal cafona. O carro andando a 20km/h, todo mundo feliz, se abraçando, casais de mãos dadas sob a árvore, e eu ali, prestes a morrer. Eis que o esquecido por Deus do motorista, que estava em silêncio todo este tempo (sabe-se lá pensando em quê), vira e solta:

– É nos Estados Unidos ou em Paris que fica tudo iluminado no Natal?

– Oi?

– Onde eles enchem de luz no Natal? É em Paris? Ou nos Estados Unidos?

– Acho que é no mundo todo.

– Não, não é.

Ele me encarou novamente com aquele olhar que deixava claro que ele já havia decidido me matar, e estava apenas escolhendo como faria isso. Algo me disse que o termo “faca de pão” estava liderando as apostas, numa proporção de oito para um. Achei melhor fazer o jogo dele, pois, aparentemente, as luzinhas de natal o deixavam um pouco mais calmo.

– Ok. Tem razão. Acho que é Paris.

– Deve ser. Por causa da torre, né? Aquela torre é bem louca.

Ok. Como explicar que a torre não é louca, quem é louco é ele, mas sem ofendê-lo? Não, melhor ficar quieto e manter o foco na sobrevivência, e não na Torre Eiffel.

– É. Bem louca.

– É no Japão que eles não comemoram o Natal?

– Não sei.

– Acho que é lá. São os japoneses.

– Acho que sim.

– Japonês é tudo estranho.

Ah, sim, claro. E você é um exemplo de normalidade.

– Ou são os israelistas?, ele continuou.

– Os quem?

– Os israelistas.

– Ah, os israelit... Israelistas. Sim, sim. Podem ser eles também.

Ele ficou quieto novamente. Eu olhei para o céu, rezando para a Lua ter desaparecido atrás de uma nuvem, mas não: lá estava ela, altiva, brilhante, rindo da minha cara, afiando uma faca e com um guardanapo amarrado no pescoço. Passamos pela árvore de Natal, e ele em silêncio, alternando o olhar, agora, entre a Lua (45%), eu (45%), a árvore de Natal (9%) e os carros à frente dele (1%).

– É o ano novo!, ele gritou do nada, fazendo eu chegar perto de um infarto.

– Quê?

– É o ano novo dos israelistas que é diferente do nosso!

– Sim.

– Isso aí! Lembrei agora!

– É.

O fato de ter se lembrado disso, aparentemente, significou uma vitória pessoal para ele. Ele se debruçou na direção e deu uma gargalhada que parecia uma mistura de risada de vilão de desenho japonês e os guinchos de um porco sendo morto a pauladas. Desisti de pular do carro e correr para qualquer lado porque não sentia mais minhas pernas.

Entramos em Moema e começamos a nos aproximar da casa de espetinhos. Quando estávamos a algumas quadras, meu celular tocou novamente. Outra mensagem de texto. Para deixar claro a ele que eu não estava tentando me comunicar com a polícia, achei melhor explicar:

– É que eu estou atrasado, meus amigos estão preocupados comigo.

Jogada de mestre. Com isso, eu deixei claro que as pessoas saberiam onde eu estava, e que se algo acontecesse comigo, ele seria responsabilizado por isso. Na verdade, meus amigos estavam totalmente bêbados e mandando mensagens de texto associando o fato de eu estar atrasado com os hábitos sexuais da minha mãe, mas ele não precisava saber disso.

– Ah, você está atrasado?

– Sim.

– Então vamos chegar logo!

Eu não fazia idéia que um Gol 1000 conseguisse acelerar de 0 a 100 km/h em quatro segundos, mas foi isso que aconteceu. Ele parecia um cometa que havia chegado muito perto do planeta e se perdido dentro de Moema. Começou a costurar entre os carros, dar fechadas, buzinar, entrava derrapando nas curvas e ignorava todas as valetas possíveis – em uma delas, eu quase fui parar no banco de trás.

Pensei em pedir a ele para ir mais devagar, mas ele não me ouviria. Primeiro, porque ele estava sorrindo assustadoramente, e aparentemente, havia se esquecido de mim; segundo, porque ele o carro estava se movendo tão rápido que quando eu acabasse de falar “pode ir um pouco mais devagar?”, minha frase já teria ficado duas quadras para trás, correndo desesperadamente atrás do carro, e ele não ouviria nada.

Estávamos chegando perto da casa de espetinhos e ele mantinha a velocidade média de 80km/h (numa rua cujo limite é a metade disso). Timidamente, apontei para a frente e disse:

– É na próxima quadra.

Ele me ignorou e continuou na mesma velocidade. O sujeito parecia estar numa espécie de transe.

– Esse pedaço da cidade está bastante iluminado, você viu?, eu apontei para um prédio, na esperança de que as luzinhas de Natal fossem acalmá-lo novamente. Não deu certo.

Passamos pela última valeta – onde o carro quase decolou – e chegamos a poucos metros da casa de espetinhos.

– Chegamos. É logo ali.

E nada de diminuir a velocidade.

– Viu? É logo ali. Aquela casa à esquerda.

E nada de diminuir a velocidade.

– Eu vou aqui! Você está passando...

Ele deu um meio cavalo de pau e embicou na casa de espetinhos. Aliás, embicar é uma descrição educada do que aconteceu, já que ele quase entrou com carro e tudo no lugar. Tirei o cinto e me preparei para correr. O problema é que meu cérebro está acostumado a um certo padrão no final de uma corrida de táxi: o táxi pára, eu pago e vou embora. Como a corrida já estava paga desde a parte I desta saga, eu confesso que, agora que o carro estava parado, eu fiquei sem saber o que fazer.

– Bom... Já está pago, certo?

– Seus amigos estão putos com você por causa do atraso?

Na verdade, eu não sabia se nem eles estavam vivos, já que eu jurava ter visto alguém parecido com um deles ser atingido pelo carro antes dele parar. Mas, por um lado... Será que ele estava pensando em ir lá me defender dos meus amigos?

Interessante. Se eu conseguisse domesticar esse sujeito, eu teria o meu próprio psicopata. Qualquer pessoa que me contrariasse seria fatiada horas depois. Sim... Seria uma boa. Por outro lado, o que aconteceria comigo o dia em que eu me atrasasse para dar o almoço a ele? Porque se a Besta-fera faz represálias como rasgar o sofá ou destruir meu tênis, esse sujeito poderia resolver comer meu fígado. Literalmente. Não, melhor deixar para lá.

– Não, meus amigos estão tranqüilos, e já devem estar meio bêbados.

– É. Amigos são legais. Mas são foda também.

Não fiz idéia do que ele quis dizer com isso e achei melhor não ficar para descobrir. Saí do carro com as pernas tremendo e me despedi dele.

– Quando você quiser ir para a praia, já sabe, né?

– Sim.

– É só me procurar. 40 contos para ir, 40 contos para voltar.

– Dois casais.

– Isso aí!

Eu comecei a andar lentamente para trás, sem tirar os olhos dele. Claro que eu poderia entrar correndo na casa de espetinhos, mas algo me dizia que se eu fizesse isso, levaria uma flechada nas costas em questão de segundos.

– Bom... Eu vou entrar aqui. Tudo bem?

– Ok.

– Estão me esperando, sabe?

– Ok.

– É... Eu tenho mesmo que entrar. Tchau.

Ele deu ré, aumentou o volume do rádio e saiu cantando os pneus. Quer dizer, imagino que ele tenha cantado os pneus, mas não posso ter certeza, já que a única coisa que eu ouvi foi o Jim Morrison urrando “come on baby, light my fire”. Fiquei parado ali por alguns segundos, tentando me recompor e agradecendo a Deus por estar vivo.

Entrei na casa de espetinhos e, felizmente, meus amigos reconheceram minha cara de “não pergunte”. Apenas na metade do primeiro chopp que eu consegui me pronunciar, e fiz todos eles assinarem um guardanapo no qual estava escrito que, ano que vem, esse happy hour será feito numa noite sem Lua.

24 de dezembro de 2008

Natal?

Que neste Natal você consiga roubar aquela coxa do peru que seu irmão estava de olho.
Que neste Natal aquela sua tia que só dá presente babaca apareça com um vale-presente da Livraria Cultura.
Que neste Natal sua mãe faça sua sobremesa preferida.
Que neste Natal você ganhe toneladas e mais toneladas de presentes de criança (se você gostava de ganhar roupa quando era criança, aí o problema é seu).
Que neste Natal você veja o seu cunhado mala derrubar Coca-Cola na blusa nova.
Que neste Natal sua avó beba um pouco a mais de vinho e resolva lhe dar dinheiro junto com o presente.
Que neste Natal as crianças da sua família não torrem o saco de todo o mundo porque querem abrir os presentes antes dos outros.
E, claro, que neste Natal o maior presente sob a árvore (aquele cobiçado por todos desde o começo da noite) seja seu.

São os votos do Champ e todos os seus personagens para você! Feliz Natal!

(passada a ressaca natalina, voltaremos à programação normal, com o desfecho da saga do Maníaco do Táxi, Best Blogs Brasil e outros assuntos. Alemão, valeu pela imagem do Marvin!)

21 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte II

(leia a primeira parte aqui)


Ele ficou em silêncio, por alguns segundos. Eu percebi que isso me deixava mais assustado do que quando ele estava falando. Começou a tocar (Break on Through) To Oher Side e eu comecei a ficar realmente preocupado com a possibilidade do sujeito se empolgar com a música, puxar qualquer objeto de metal do bolso e dar um break on through to the other side no meu olho.

Ou não.

Quem sabe tudo que eu tinha que fazer era ficar quieto e não tocar no assunto “praia”, e tudo acabaria bem. Talvez, com sorte, esta conversa já tivesse se perdido em algum lugar no labirinto que existia dentro daquela mente desequilibrada. O problema é que os conceitos “sorte” e “Rob Gordon” não costumam caminhar juntos. Ou seja, logo em seguida ele trouxe o assunto à tona.

– Você não gosta de praia?, e me encarou fixamente, como se estivesse me questionando sobre eu ter espalhado boatos a respeito da irmã dele pela vizinhança.

Engoli em seco e tentei responder da forma mais diplomática possível.

– Olha... Gosto. Acho bem legal. É que estão me esperando lá em Moema, eu já tinha marcado, sabe? Mas eu gosto mesmo de praia, viu?

– Não, não é hoje que você vai para a praia!, ele deu uma gargalhada que fez meu sangue gelar. Agora era oficial: eu não sabia se tinha mais medo quando ele estava em silêncio ou falando.

– É que se você quiser ir para a praia, eu alugo uma casa ali, ele continuou, depois de parar de rir.

– Ah.

– 40 paus para ir, 40 paus para voltar. E a casa é de graça.

De graça? Imagina o cafofo que deve ser.

– Ah.

– Se você quiser, é só falar comigo.

– Ok.

– Puta idéia, né? O pessoal paga só 80 contos e passa um fim de semana na praia. E eu levo e busco.

– Sim. Baita idéia.

– Mas só pode ser dois casais.

Pensei em perguntar a razão dos dois casais – afinal, a corrida deve custar 40 paus, independente do número de passageiros, já que a distância é a mesma – mas achei melhor ficar quieto, temendo que tivesse algo a ver com swing. Era só o que faltava: ele era um psicopata versátil, que, entre um ritual de magia negra aqui e mandar cartas escritas com sangue para a polícia ali, administrava uma casa de troca de casais na praia. E, para piorar, não seria das melhores, já que o preço era bem baixo e só admitia dois casais – o que, matematicamente, não permitia muitas combinações. Talvez fosse algo com um ambiente mais romântico e intimista, uma espécie de casinha de swing de sapê.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque do meu celular, avisando que mais uma mensagem dos meus amigos havia chegado. Fingi que estava respondendo e usei isso como desculpa para ficar quieto.

Aparentemente, ele ficou satisfeito. Ou, ao menos, em silêncio.

Isso até ele entrar na Avenida Brasil e colocar meio corpo para fora do carro (sem diminuir a velocidade do automóvel), olhando alguma coisa no céu. Eu comecei a rezar baixinho. Quando ele entrou novamente no carro, estalou os olhos na minha direção e perguntou:

– Você viu a Lua hoje?

– Não.

– Olhe, ele respondeu. O tom de voz que ele usou condensava todas as ameaças de morte conhecidas em apenas quatro letras.

Eu olhei pela janela e vi que, realmente, a Lua estava linda. Mas óbvio que não dei muita atenção para isso, estava mais preocupado procurando uma viatura da polícia na rua. Ele continuou:

– A Lua, quando está cheia assim, me deixa louco.

(Neste momento, o pedaço do meu cérebro que ainda insistia em acreditar que nada demais aconteceria comigo e que essa história iria parar no meu blog alguns dias depois, percebeu a gravidade da situação, gritou “Meu Deus! Nós vamos morrer!” e saiu correndo para se esconder dentro de um armário.)

Bom, é isso, pensei. Eu vou ser morto em questão de minutos. Não há muito o que fazer. Merda de Lua. Logo, vai começar a tocar The End, ele vai puxar uma furadeira e enfiar no meu ouvido, e depois vai sair dirigindo pela cidade, todo sujo de sangue e com o meu cadáver ao lado, ouvindo People Are Strange no máximo.

– A Lua me deixa louco, ele repetiu.

– ...

– Adoro a Lua. Me deixa louco.

– Ah.

Comecei a elaborar um plano de fuga. Como eu estava a 3 quadras da igreja Nossa Senhora do Brasil, e o sinal ali está sempre fechado, eu teria tempo para abrir a porta do carro e sair correndo, procurando abrigo na igreja – talvez sob o altar ou na sacristia. Respirei fundo e me preparei. Coloquei a mão no bolso, me certifiquei de que a carteira estava firme, a chave de casa também, e comecei a me preparar psicologicamente para o sprint da salvação. O carro foi avançando, e ele alternando o olhar entre a Lua (45%), eu (45%) e os carros à frente dele (10%).

Mais alguns segundos, e eu estaria livre disso.

Ou não, já que como eu sou eu, o semáforo à frente da Igreja estava verde pela primeira vez na história do município. Aposto que os jornais noticiaram isso no dia seguinte. Todo meu plano de fuga foi por água abaixo. Jim Morrison começou a cantar Love me Two Times e ele aumentou o som do carro. Minha única alternativa, agora, esperar alguns minutos, sair correndo do carro e pular para dentro do Parque Ibirapuera. Mas descartei a idéia na mesma hora, porque se eu pulasse para dentro do parque depois das 8 da noite, o máximo que eu conseguiria seria sair dali sem carteira, sem relógio, sem celular e grávido.

Resignado, respirei fundo e resolvi aceitar meu destino.

(continua...)

18 de dezembro de 2008

Interlúdio - Best Blogs Brasil

Fiquei sabendo hoje que está rolando a nova edição do Best Blogs Brasil, que aponta os melhores blogs brasileiros de 2008. O concurso será dividido em duas fases: a primeira é aberta ao público, que indica até cinco blogs de categorias diferentes. A segunda consiste na análise dos finalistas de cada categoria.

Eu nem sabia que isso estava rolando, mas, dando uma espiada na lista de indicados, vi que o Champ colecionava duas indicações até o dia 15 (uma delas como Melhor Blog, outra como Melhor Blog de Humor - apesar de eu não achar que este blog seja de humor, agradeço assim mesmo).

Sendo assim, gostei da brincadeira - é uma pena que o prazo de indicações vale só até amanhã.

Por isso, peço aos leitores que entrem no site do Best Blogs Brasil, façam um pequeno cadastro (é pequeno mesmo, eu fui testar), ativem sua conta com o e-mail recebido (que provavelmente vai parar na caixa de spam) e indiquem o Champ a Melhor Blog e Blog na categoria Pessoal/Cotidiano (e apenas a essas duas, já que cada blog pode ser indicado, a, no máximo, duas categorias. Basta apenas dar o nome e o endereço do blog e indicar a categoria.

Valeu!

17 de dezembro de 2008

Jim Morrison e o Maníaco do Táxi - Parte I

Na sexta-feira passada, aconteceu o happy hour de final de ano com meus amigos da faculdade. Isso é algo que certamente seria uma tradição anual, se não fosse tão difícil reunir todos nós. E olhe que não estou falando de 35 pessoas, mas sim de meia dúzia. Mas também não é de se espantar, já que era difícil conseguirmos nos reunir até mesmo na faculdade, pois estabelecemos um sistema de rodízio de faltas que permitia a todos do grupo “cabular assiduamente”.

Mas todos ano nós tentamos, e quando tentamos reunir pelo menos 50% do grupo (ou seja, três pessoas), nos damos por satisfeitos. E, na sexta-feira passada, após uma extensa troca de e-mails, fechamos o local: uma casa de espetinhos em Moema, as 22:00. O problema é que devido aos meus horários de travesti (quem mandou não estudar e ser jornalista mode: on), consegui sair do trabalho só à meia-noite, e fui correndo para o ponto de táxi ao lado da redação.

Vazio.

Fiquei parado ali feito um imbecil, esperando algum táxi aparecer, enquanto recebia demonstrações de carinho e apoio dos meus amigos por sms (coisas como “cadê você, caralho?”). Felizmente, menos de cinco minutos depois, um táxi passou na rua. Fiz sinal, ele parou e entrei.

Eu deveria ter desconfiado que não tinha sido uma boa idéia quando percebi que o sujeito não era apenas parecido, mas exatamente igual ao louquinho do Prison Break. E nem tanto por causa da barba ou do cabelo, mas sim por causa do olhar estalado e homicida. Bom, paciência, não é culpa dele, pensei. O cara nasceu assim. Vamos em frente.

Disse a ele que iria para Moema, mas ele não ouviu. Na verdade, nem eu ouvi o que havia dito, porque o rádio dele estava no volume máximo, tocando The Doors. Como ele percebeu que eu e o Jim Morrison estávamos falando ao mesmo tempo, ele abaixou o volume (mas não muito, foi do 30 para o 27) e eu disse novamente que ia para Moema.

O carro começou a andar.

Aproveitando que a música estava num momento mais calmo, só com baixo e bateria, avisei que não tinha dinheiro e perguntei se poderia pagar em cheque.

A estranheza da noite começou ali mesmo.

Você tem cartão?, ele gritou

Tenho. Mas você aceita cartão?, berrei de volta.

Não, eu aceito gasolina.

Quê?

Gasolina!

Abaixa o rádio!

Você não gosta de Doors? É bem louco!

Abaixa o rádio!

Ele abaixou (para o 22). Achei melhor recomeçar tudo de novo. Perguntei se podia pagar em cheque, e ele respondeu:

– Eu aceito gasolina. Coloca gasolina no meu carro e eu te levo para Moema.

Bom, Ok. Faz sentido.

Encostamos num posto, ele colocou 30 reais de gasolina, eu paguei e fomos. Assim que saímos de Pinheiros, ele começou a se vangloriar do seu modelo revolucionário de negócio.

– Muito bom, isso, né? Eu coloco gasolina no carro e você chega onde quiser.

A idéia não era tão genial assim, mas, como ele ficava me encarando com aquele olhar vidrado e levemente homicida, achei melhor não discordar.

– É. É uma boa idéia sim.

– Só eu faço isso.

– Ok.

– E é uma puta idéia, não é?

– É. É uma puta idéia. Você vai pela Brasil?, tentei desconversar.

– Você gosta de The Doors?

– Sim. Você vai pela Brasil?

– Eu acho muito louco. O jeito que os caras tocam a guitarra.... Não parece que eles estão dando uma com a guitarra?

– Sim. Você vai pela Brasil?

– Acho que sim. Você quer ir para a praia?

– Sim. Você vai pela... Espera, eu quero ir para onde?

– Para a praia.

Não tive como permanecer impassível. Olhei para ele e ele estava me encarando fixamente. Comecei a perceber que eu estava correndo risco de vida dentro do carro – e não porque ele estava dirigindo pelo corredor de ônibus da Rebouças sem olhar para a frente, mas porque se existisse uma escola de psicopatas, ele certamente seria o primeiro da classe. Olhei ao redor, procurando por um machado, um facão, uma foice, ou qualquer coisa que ele poderia usar como arma caso eu respondesse algo que ele não gostasse. Não vi nada, então fiquei um pouco mais tranqüilo e fui sincero.

– Não, eu quero ir para Moema.

– Ah, tá.

Espera, como assim, “ah tá?” Ele estava indo para a praia?

(Continua...)

16 de dezembro de 2008

Atendendo a pedidos...

Ela clicou.

(leia o post anterior se você não sabe do que estou falando)

14 de dezembro de 2008

Spam, Só de Mãe

– Alô?

– Rob?

– Oi mãe.

– Tudo bom?

– Tudo e você?

– Tudo. Rob, você comprou uma máquina fotográfica no nome do seu pai?

– Mãe, você tem consciência do quanto essa pergunta é estranha? Máquinas fotográficas não como casas ou carros, as pessoas não registram máquinas fotográficas.

– Comprou ou não?

– Não, por quê?

– Porque o seu pai recebeu um aviso, dizendo que alguém comprou uma máquina fotográfica, no Mercado Livre, usando o nome dele.

– Como assim?

– Sim. Uma máquina de R$ 1.200. Foi você?

– Claro que não.

– Olha lá, porque se foi você...

– Mãe?

– Oi?

– Eu fico honrado em encabeçar a sua lista de suspeitos. Agradeço a preferência. Mas não fui eu.

– Tem certeza?

– Não, mãe, eu estou em dúvida. Na verdade, eu posso ter comprado uma máquina que custa mais de R$ 1.000 no nome do meu pai, e agora eu nem me lembro disso, porque eu faço essas coisas o tempo todo, sabe? Aliás, semana que vem eu vou comprar uma tábua de passar roupa no seu nome, também.

– É o que e-mail diz que a compra já foi aprovada...

– Espera, mãe. E-mail? Vocês receberam isso por e-mail?

– Sim. Chegou no e-mail do seu pai. Diz que a compra já foi aprovada e que, caso ele queira cancelar o pagamento, é para clicar num link que tem...

– Não clica! Não clica nisso!

– Mas é para cancelar o pagamento.

– Mãe, isso é um spam. Não clica nisso!

– Isso é um o quê?

– Um spam.

– O que é spam?

– Spam é um... Olhe, mãe. Deixa. Depois eu te explico. Mas pode ficar tranqüila. Ninguém comprou nada no nome do meu pai. Simplesmente apaga o e-mail e pronto.

– Mas a câmera...

– Mãe, não existe câmera nenhuma.

– Aqui diz que existe, que custou R$ 1.200. E seu pai terá que pagar por isso.

– Mãe, isso é mentira. Lembra daquele filme, Matrix? É a mesma coisa. A única diferença é que lá era a colher que não existia, e aqui é a máquina fotográfica.

– Não é o que diz o e-mail. Aqui diz até que a compra já foi aprovada.

– Mãe, é mentira! Eu recebo toneladas de e-mails como esse por dia. Outro dia recebi quatro e-mails informando que meu saldo no Unibanco estava negativo.

– Mas você não tem conta no Unibanco.

– É isso que estou tentando dizer! É tudo mentira. Não clica em nada e apaga o e-mail!

– Mas e se este aqui for verdade? Aí seria bom eu cancelar a compra...

– Mãe...

– Além disso, como você sabe se é mentira, se você não viu o e-mail?

– Chega, mãe! É hora de você tomar uma decisão. Ou você acredita em mim ou nesse e-mail. E você terá que decidir isso agora.

– É porque são R$ 1.200...

– Não, mãe, não é nem R$ 1. Não é nada. Não é porque está escrito neste e-mail que é verdade. Mãe, apaga o e-mail, por favor. Confia em mim.

– Mas tem até o nome do seu pai.

– Mãe, se você receber um mail com alguma oferta para aumentar o tamanho do pinto, isso não quer dizer que você se tornou um homem. Apague o e-mail e esqueça isso.

– E se essa máquina for cobrada?

– Apaga o e-mail!

– São R$ 1.200!

– Mãe?

– Oi.

– Presta atenção. Nós vamos nos despedir agora. Você vai desligar o telefone e, logo em seguida, você vai apagar o e-mail. Ok?

– Rob, eu...

– Ok?

– Ok.

– Um beijo, mãe. É sempre bom falar com você.

– Mas se isso for verdade...

– Mãe, diga "tchau".

– Beijo, meu filho. Tchau.

– Beijo.

(clic)

10 de dezembro de 2008

Pequeno Interlúdio Encharcado

Você percebe que é uma pessoa azarada quando as luzes da Fnac acabam no momento exato em que você coloca os pés dentro da loja.

Você percebe que é uma pessoa muito azarada quando a luz da Fnac se acende no exato momento em que você (sem ter olhado nada lá dentro por causa da falta de energia) sai da loja e se afasta cinco metros da porta.

Você percebe que é um Rob Gordon quando uma nova versão do dilúvio começa exatamente neste momento.

É. Espero que vocês, leitores, achem isso divertido, porque, às vezes, não é fácil.

8 de dezembro de 2008

O Menino de Onze Anos

Eu me lembro do meu primeiro jogo no estádio. Era um domingo à tarde, no dia cinco de outubro de 1986. O São Paulo iria jogar contra o Sport de Recife. Eu tinha feito onze anos há menos de um mês, e nunca havia colocado os pés no estádio do meu time. E eu já era são-paulino, por causa do meu avô, são-paulino fanático, que havia até mesmo doado dinheiro para a construção do Morumbi, nos anos 50.

Eu já acompanhava os cadernos de esportes e já havia me recuperado da Copa de 1982, tanto que eu vibrei muito com o título paulista de 1985. Curioso que eu me lembro mais da Copa de 1982 que deste título paulista, mesmo tendo sido três anos depois. Lembro apenas que foi contra a Portuguesa, e estávamos indo visitar um tio-avô, e eu fui ouvindo o jogo no carro.

De volta a outubro de 1986. Pedi para meu pai – palmeirense – me levar ao jogo, e ele atendeu. Deste jogo também lembro pouco, apenas que o Sport saiu na frente (meu pai me conta hoje que ficou com medo do time perder na minha primeira vez no estádio), mas o São Paulo virou. 3 x 2. E o primeiro gol que comemorei num estádio foi marcado pelo Careca, de pênalti. E lembro exatamente o que senti na hora deste gol, mas não consigo colocar em palavras.

Mas algo daquela tarde nunca mais saiu da minha cabeça. Quando entramos no estádio (na numerada inferior, pois meu pai jamais me levou na arquibancada quando eu era criança) e eu olhei aquele campo enorme, na minha frente, antes do jogo começar, ele simplesmente abaixou do meu lado e disse:

– Esta aqui é a sua casa.

Nunca me esqueci disso. Toda vez que entro no Morumbi, ouço meu pai falando isso ao meu lado. Os meses se passaram e eu fui ficando cada vez mais apaixonado. Não saia de casa pela manhã sem ler o caderno de esportes e tentava imitar os meus ídolos nas peladas na rua.

Alguns meses depois, meu time ganhou o campeonato brasileiro, batendo, nos pênaltis, o Guarani, numa decisão que marcou não apenas toda uma geração de são-paulinos, mas o futebol brasileiro como um todo. Lembro que aquela noite eu senti muito orgulho de torcer para o meu time. Me senti como se tivesse recebido a confirmação de que a primeira escolha que eu fiz na vida tinha sido acertada.

Aquela noite foi muito especial para mim. Não apenas pelo título em si, mas pela forma que ele foi conquistado. E, como todo são-paulino, até hoje, em algumas noites, antes de dormir, eu fecho os olhos e vejo o gol daquele mesmo Careca, no final da prorrogação, acontecendo novamente na minha frente. E volto a ter onze anos de idade.

O tempo foi passando. Meu amor pelo meu time foi crescendo. E, com o passar dos anos, vieram outros títulos. Mas também vieram derrotas. Muito do que eu sei sobre ganhar e a perder na vida aprendi nos anos 80, com o radinho de pilha da minha mãe colado na orelha. E com o José Silvério. Mais da metade do que eu sei sobre futebol passa pelo meu pai e pela voz do José Silvério. Eram noites de quarta-feira que eu ficava até tarde vendo (escondido da minha mãe) os jogos na TV sem som, com o radinho colado na orelha, e tardes de domingo que eu ficava no quarto, com o mesmo radinho na mesma orelha, sofrendo a cada minuto. Se amar é sofrer, a voz do José Silvério eleva isso à máxima potência – para meu desespero, todo lance adversário era narrado pelo José Silvério como se estivesse acontecendo na pequena área do São Paulo.

Mas, na voz do José Silvério, meu time me ensinou a ganhar e a perder. Me ensinou que às vezes a derrota é amarga demais, é doída demais, mas sempre haverá outro campeonato no ano seguinte. E que, por mais que doa, vai passar, mesmo que você tenha que enfrentar todos os seus amigos no dia seguinte, na escola ou no trabalho – o que pode ser um tormento para um garoto de onze anos.

Mas, mais importante ainda, me ensinou que, as vitórias são momentos que você vai guardar para sempre e que você não precisa humilhar o adversário para elas serem inesquecíveis. Eu guardo todas as minhas vitórias e todas as conquistas do meu time muito bem guardadas. E se você é torcedor de algum time de futebol, qualquer que seja ele, você sabe do que estou falando.

Entramos na década de 90, com Telê Santana no banco. A única coisa que eu lembrava do Telê – porque, quando eu era criança, eu não acompanhava futebol pelos jornais, eu acompanhava o São Paulo – dizia respeito àquela maldita Copa do Mundo, que meu pai até hoje diz que perdemos porque o tal do Telê tinha mandado o Serginho se comportar em campo. Ou seja, as referências não eram muito boas.

A história todo mundo conhece. Fomos campeões brasileiros, ganhamos uma Libertadores – nos tempos em que a Libertadores ainda era um torneio sem regras ou leis – e fomos para o Mundial. Com quinze anos, eu apenas imaginava o tamanho daquele título (um título mundial é sempre algo digno de respeito), mas somente anos depois eu entenderia realmente a importância daquele jogo para o time. E, quando Raí virou o jogo para cima do Barcelona, e o juiz apitou o final da partida, lembro de sair com meus amigos na rua, comemorando madrugada adentro. E soube que eu havia ganhado um novo amigo: Telê Santana. E nem imaginava que este mesmo Telê Santana estaria ali um ano depois, quando eu desmaiei na sala com o gol do Müller sobre o Milan, e acordei somente depois do final do jogo, acudido pelo meu pai e por meus amigos.

Mas eu soube, naquele momento logo depois do jogo contra o Barcelona, que meu avô estava sorrindo para mim, de algum lugar.

Daquele jogo contra o Sport de Recife para hoje, fui muito ao estádio. Talvez menos do que gostaria e mais do que deveria. Vi finais de libertadores, finais de campeonatos paulistas e brasileiros. Mas até hoje, toda vez que eu olho o exterior do Morumbi antes de entrar no estádio, minha barriga ainda esfria, e ainda ouço meu pai cochichando que ali é a minha casa. Já tomei chuva, já escapei de briga, já comemorei gols, já comemorei títulos... E lá continua sendo a minha casa. E se você é torcedor de futebol, independente do seu time, sabe que a chuva que você tomou naquela decisão era muito mais gelada e incômoda que a mesma chuva que caiu sobre a torcida adversária.

Mas, o mais importante, é que depois daquele jogo contra o Sport, meu amor pelo meu time apenas aumentou. Jamais fiz apostas para colocar a camisa de outro time caso o São Paulo perdesse, porque eu jamais vou colocar a camisa de outro time. É traição. Da mesma forma que eu não tenho times no Rio, em Minas, ou na Europa. No campeonato carioca eu sou São Paulo, no italiano e espanhol também. Aliás, eu nunca fiz aposta nenhuma em relação a meu time – seria o mesmo que fazer uma aposta sobre seu filho entrar ou não no vestibular.

Por outro lado, eu não sou fanático a ponto de dizer que meu time jogou bem quando não jogou. Isso eu herdei do meu pai: para amar o seu time, é preciso amar o esporte. Não sou fanático, mas amo meu time. E é amor puro, de chorar em derrotas. E, principalmente, de chorar em vitórias.

Exatamente como eu chorei hoje, sozinho na sala, durante cinco minutos, quando o jogo acabou. Chorei. E não vou entrar em méritos de dificuldade de decisão, de superação do elenco, porque este não é um texto sobre futebol. Chorei porque a cada título que o São Paulo conquista, toda essa história que eu contei acima passa pela minha cabeça. Todas as vezes que eu chorei, todos os gols que eu vi, todas as dores que enfrentei por causa deste time, voltam à tona, como num filme.

E o curioso é que – e percebi isso agora, escrevendo aqui – é que todos os títulos do São Paulo que eu vejo me atingem como se fosse o primeiro. Eu posso discutir a tática do jogo ou o desempenho de um jogador com frieza jornalística – ou quase isso – mas, quando o São Paulo é campeão, eu me dou o direito de passar o resto do dia com onze anos de idade, sentindo exatamente a mesma coisa que eu senti quando o Careca fez aquele gol de pênalti.

Pai, obrigado por aquela tarde de cinco de outubro de 1986. Vô, esteja onde você estiver... É nosso!

Este texto é dedicado a vocês dois.


P.S. – Este não é um texto sobre futebol. É uma carta de amor. Pela primeira (e, se Deus quiser, última) vez neste blog, comentários ofensivos serão apagados e ignorados.
P.S. 2 – Eu não faço apostas sobre meu time, mas faço promessas. E as cumpro. A barba está devidamente raspada.

3 de dezembro de 2008

Rob Gordon X Cartão Aura

Com a nova lei sobre atendimento em call center, que entrou em vigor essa semana, muita coisa vai mudar na minha vida. Isso, claro, desde que a lei seja cumprida – o que eu duvido totalmente.

Mas, fazendo de conta que aqui é um país de primeiro mundo, a partir de agora as empresas precisam adotar medidas como resolver o problema em até cinco dias úteis; disponibilizar uma opção “fale com um de nossos atendentes” em todos os menus; e transferir a ligação de um setor para o outro apenas uma vez por ligação. O mais legal de tudo é que se o cliente solicitar uma transcrição da conversa – que é gravada – eles são obrigados a enviar o arquivo. Ou seja, o próximo barraco entre eu e um atendente de telemarketing que entrar no blog vai ser digitado por ele e não por mim. Nada mais justo. Chupa call center.

Enfim, aposto que a TIM e a Visa já estão entrando com liminares na justiça, afirmando que essa legislação não se aplica às minhas ligações. Devem estar passando o link do meu blog para algum promotor de justiça averiguar o caso. Mais dia, menos dia, vão baixar uma Medida Provisória dizendo que as empresas que possuem o Rob Gordon, de São Paulo, em sua carta de clientes, estão isentas da nova legislação. Quero só ver.

Mas quem já está esperto é o pessoal do Cartão Aura. Faz alguns meses que eu comprei um terno (quem é leitor, lembra, foi neste post aqui) e, para ter desconto, fiz o tal Cartão Aura, que permitia parcelar em algumas vezes, com o primeiro pagamento para não sei quantos dias.

Ok. No primeiro mês, foi tudo perfeito. A fatura chegou em casa e eu paguei. Ou seja, cada um fez sua parte. No segundo mês, a coisa começou a degringolar. A fatura não chegou. Liguei lá no dia do vencimento, e eles me forneceram o número do código de barras, para eu pagar pela Internet. Anotei o código e paguei.

No terceiro mês, a fatura não chegou novamente. Não paguei. Afinal, se não me cobraram, é porque não precisam do meu dinheiro. A crise financeira ainda não chegou ao Cartão Aura. Uns dez dias depois da data de vencimento, recebi uma ligação.

– Alô?

– Sr. Rob Gordon?

– Sim.

– Aqui é fulana do Cartão Aura. Estou ligando para avisar que a fatura do senhor está atrasada mais de 10 dias.

– Ah, é?

– Sim.

– Puxa. Eu não sabia disso.

– O vencimento de cada fatura é no dia 25 de cada mês.

– Eu também não sabia disso.

– O senhor pode consultar a data de vencimento disponível na fatura.

– É, eu sei. O problema é que eu não tenho fatura. Vocês não são capazes de me mandar a fatura. Logo, eu não sou capaz de pagar. Agora, eu não me incomodo muito com esse esquema no qual vocês não mandam e eu não pago. Se vocês quiserem continuar assim, tudo bem. Aliás, para mim, está ótimo.

– A fatura foi enviada para o senhor.

– Ah, foi? Vamos ver. Olha, eu tenho aqui várias faturas. Uma do Visa, outra da Tim. É algumas dessas? Espera que tem mais. Tenho uma da NET, uma da TVA. Algumas dessas é a sua? Ou posso escolher qualquer uma? Se eu puder, vou escolher a da Tim, porque já está paga, ok?

– A fatura foi enviada para o endereço que o senhor forneceu.

– Fulana, eu estou no endereço que forneci. Na verdade, eu venho com bastante freqüência a este endereço. Isso porque eu moro no endereço que forneci. E não há uma fatura do Cartão Aura nesta residência.

– Se o senhor quiser, posso fornecer uma nova via para o senhor.

– Se a primeira via não chegou no dia do venc... Aliás, se a primeira via não chegou nos últimos meses, porque a segunda via iria chegar? A não ser que seu número de sorte seja dois, não muda nada. É tudo igual. Eu continuo morando aqui, e vocês continuam sendo vocês. Nada vai mudar.

– Eu posso gerar o código de barras de outra fatura para o senhor.

– Eu posso pagar pela Internet?

– Sim, senhor.

– E eu não vou pagar multa.

– Mas a fatura do senhor está vencida.

– Está? Eu não sei. Eu não tenho fatura. Você diz que ela está vencida, mas eu não acredito. E, como vocês não enviaram a fatura, eu não pude pagar, por culpa de vocês, e nem posso checar se ela está vencida, por culpa de vocês. Logo, eu vou pagar pela internet e sem multa. Por culpa de vocês.

– Senhor Rob...

– É pegar ou largar. Mas, se você quiser pegar outra fatura, minha oferta ainda está de pé. Pode ser a da Tim, mesmo? Eu paguei faz uns dez dias, mas ela ainda está fresquinha.

– Senhor, como a fatura já está vencida...

– Olhe, aqui na minha casa, a gente tem o costume de receber as contas antes do vencimento. Sempre fizemos isso aqui: a fatura vence sempre depois que ela é entregue. Se eu não recebi, ela ainda não venceu. Faz sentido, não faz? Ninguém recebe uma conta que já deveria ter sido paga. Concorda?

– Sim.

– Ótimo.

– Vou liberar o pagamento da multa este mês, então, porque o senhor não recebeu a fatura.

– Ok, ok. O motivo não é bem esse, mas não tem problema.

– O senhor quer anotar o número do código de barras?

– Não.

– Como assim?

– São 498 mil algarismos no código de barras. Se você me passar por telefone e não der certo, vocês vão falar que a culpa é minha. Então, você vai gerar o número e enviar para o meu e-mail. Aí eu pago.

– Ok.

– Sério?

– Sim, senhor.

– Hum... Mais fácil do que eu pensei. Enfim, você tem meu e-mail no seu cadastro?

– Sim, senhor.

– Ok. Estou esperando o código.

– O Cartão Aura agradece e lhe deseja um bom dia.

– Ok.

O e-mail chegou com o código. Dois dias depois.

Ou seja, quando paguei, já estava certo de que a próxima fatura não iria chegar novamente.

Dito e feito. Não chegou nada. E ela venceu faz uma semana. Mas, com a nova lei que regula o atendimento de Call Center, o pessoal do Cartão Aura está um pouco perdido. Como eles podem entrar em contato comigo sem se sujeitarem a esta nova lei? Afinal, eles estão num paradoxo: se a conversa for por telefone, eles terão que obedecer a nova legislação; mas só o fato da conversa já existir pode colocar a empresa em maus lençóis com o Procon, pois ela prova que eu não recebi a fatura. De novo.

Ou seja, se eles ligarem e não cumprirem a lei, estão ferrados; se ligarem e cumprirem a lei, podem se ferrar também; e, se não ligarem, eu não pago.

Que dia maravilhoso.

Tenho certeza de que ligaram para o Ministério da justiça perguntando se poderiam entrar em contato comigo, sem a ligação estar vinculada à nova lei. A resposta, claro, foi “não”.

– Não podemos mesmo? Vai ser apenas desta vez.

– Não. A lei é clara.

– Mas não é ele que está ligando para nós, somos nós que estamos ligando para ele.

– Não importa. A lei vale para qualquer contato entre o cliente e a empresa.

– E se a nossa atendente ligar do celular dela? Ou do orelhão ali da esquina? Aí não vale como empresa, certo?

– Não faz diferença. A lei continua valendo.

– Você diz porque nunca teve que entrar em contato com ele. Na última vez, ele fez a menina chorar!

– Não importa. O pessoal da Tim já ligou pedindo isso, e não pudemos fazer nada. A lei está ao lado dele desta vez.

– Isso é desumano demais!

– Sinto muito.

Ou seja, o pessoal do cartão Aura está há dias querendo falar comigo, mas não sabe como. E eu aqui, sem fatura, só esperando eles ligarem. E nada. Mas, aparentemente, agora a tarde eles conseguiram achar uma brecha na lei. Já que a legislação se aplica a contatos telefônicos verbais, eles decidiram entrar em contato comigo por escrito. Isso porque faz meia hora que eu recebi um sms no meu celular, com o seguinte texto:


“Prezado ROB, solicitamos a rápida
regularização da fatura
já vencida do seu cartão Aura”.



Fiquei uns 10 minutos gargalhando.

Depois disso, tomei banho, aparei a barba, coloquei minha melhor roupa. Sentei no sofá, respirei fundo e respondi (saboreando cada letra que eu digitava no celular):


“Ah é?
Que fatura?”



Deus, faça com que eles respondam, por favor.

1 de dezembro de 2008

Rob Gordon X Ursinho da Johnson's

É engraçado como o mundo dá voltas. Basta eu postar um texto sobre determinado assunto aqui no Champ, para que este mesmo assunto contra-ataque com força total. É a lei da ação e reação. E, desta vez, foram os supermercados. Como eu postei aqui minha saga no mercado O Dia, era óbvio que os supermercados iriam planejar uma vingança. Dito e feito.

Dia desses fui ao Pão de Açúcar comprar algo para jantar. Quando estava descendo a Teodoro, quase na esquina da rua da Pão de Açúcar (que eu nunca consigo me lembrar se é a Fradique ou a Mourato), vi que um mendigo estava na esquina ao lado de uma criança.

Até aí, nada demais. Aquela esquina sempre tem um mendigo parado. Tanto que eu uso aquilo como ponto de referência – mesmo sendo um mendigo diferente por dia –, já que eu não sei o nome da rua. Se me perguntam onde é o mercado, eu respondo algo como “desce a Teodoro, passa a padaria e o ponto de ônibus e, aí, vira à esquerda no mendigo”.

Porém, conforme me aproximei, algo naquele mendigo me chamou a atenção. Primeiro, ele estava razoavelmente bem vestido. Segundo, eu havia calculado que ele era o pai da criança, mas me enganei: em certo momento, a criança começou a correr pela calçada e ele gritou um “Páraaaaaa! Páraaaaaa!”, que nenhum homem soltaria. Como não posso reproduzir o som aqui, vou tentar ilustrar de outra forma: numa escala onde "zero" seria o Leão Lobo e "dez" seria o Conan, o “Páraaaaaa!” dele tiraria, no máximo, uns dois.

Até aí, ok. Cada um com seus problemas.

Mas claro que iria sobrar para mim. Quando me aproximei da esquina, o (a) mendigo (a) olhou para mim e soltou o discurso-padrão:

– Moço, quando você estiver no mercado, você pode comprar...

Já me preparei para dizer que não tinha dinheiro – o que não deixaria de ser verdade (jornalista: mode on). Mas, claro, esperei ele acabar a frase. Dá que ele pede apenas um chocolate, uma bala, algo assim? Dependendo do que fosse, até compraria. E ele terminou:

– ...um pacote de lenços umedecidos?

– Sinto muito, mas... Espera. Um pacote de quê?

– Lenços umedecidos.

– Mas isso vende aí dentro?

– Vende, sim.

Olhei para o céu e perguntei mentalmente a Deus se Ele tem algum problema pessoal comigo. Ele não respondeu, mas eu tenho certeza de que ouvi alguns anjos rindo baixinho.

Analisei as minhas alternativas. Eu poderia, claro, falar, que “não”. Ou, melhor ainda, eu poderia perguntar se “lenços umedecidos não são algo desnecessário para alguém que, teoricamente, mora na rua e não tem o que comer?”. Mas, por outro lado, pensei no blog e calculei: isso pode render um post.

– Hum... Ok.

Entrei no mercado e fui atrás do meu jantar. Afinal, primeiro a obrigação, depois a diversão. Peguei uma lasanha de calabresa (vício mode: on) e uma Coca Zero de dois litros. Pronto. Agora, hora de partir em busca do tal lenço umedecido. O problema é: onde encontrar isso? Calculei que esses lencinhos deveriam estar na parte de higiene, e fui direto para lá. O problema é que eu não sei como é a cara desse produto. Quer dizer, eu até consigo imaginar um lencinho umedecido, mas não faço idéia de como é uma embalagem disso. Aliás, parando para pensar melhor, nunca havia nem me ocorrido que os lencinhos umedecidos eram vendidos em algum lugar. Lencinhos umedecidos eram algo que eu simplesmente assumi que existiam apenas porque me disseram que existe, como acontece com oxigênio e o fundo do mar.

Parei na frente da prateleira e fiquei olhando com calma. Pasta de dente; escova de dente; absorvente; fralda. Nada da porra do lencinho. Na hora, me ocorreu que eu precisava de uma mulher prestando consultoria. Liguei para a Sra. Gordon. Ela saberia me guiar nesse momento difícil. Caixa postal. Comecei a discar o telefone da casa da minha mãe, mas mudei de idéia no meio do caminho, porque ela iria me obrigar a atravessar a rua e comprar os lencinhos no Dia, que é mais barato.

Olhei ao redor. Apenas duas pessoas estavam no mesmo corredor: um sujeito comprando pasta de dente, e cuja barba por fazer e camiseta furada no sovaco deixavam claro que entabular uma conversa sobre lencinhos umedecidos não era bem o que ele tinha em mente quando saiu de casa; e um atendente do Pão de Açúcar.

Na mesma hora, comecei a caminhar na direção deste último, mas parei abruptamente, porque um pensamento aterrador me ocorreu: eu estou sempre neste mercado. Se eu comprar uma caixa de lencinhos umedecidos hoje, amanhã eu vou entrar aqui e os atendentes vão começar a apontar para mim e rir baixinho. Aposto que ainda vão inventar apelidinhos, como “lá vem o Lencinho” ou “olha o Carequinha Umedecido”. Traduzindo: nunca mais poderia entrar ali, e teria que enfrentar os duendes do Dia para fazer minhas compras.

Esqueça, Rob. Você está sozinho nessa.

Voltei para frente da prateleira e continuei procurando. Mas, desta vez, ao invés de olhar os produtos, fiquei lendo as etiquetas de preço. Finalmente, encontrei uma etiqueta com a inscrição “Lenço Umed.” Olhei para cima dela e vi três pacotes com a imagem de ursinho meigo, feliz e limpinho – provavelmente por causa dos lenços umedecidos.

Olhei para os caixas e calculei mentalmente a distância que eu teria que percorrer com aquilo na mão. Cerca de 20 metros. Deus do céu. Dois pacotes eram de um rosa escandaloso e o terceiro, azul. Obviamente, peguei o azul e parti em direção ao caixa. No caminho, o sujeito da camiseta furada olhou para mim e eu desviei os olhos, fingindo que um homem andar com aquilo no supermercado era a coisa mais normal do mundo (aposto que a porra do ursinho ainda ficou dando tchauzinho para ele, só para me sacanear).

Quando passei por ele, olhei para baixo, para conferir se os lencinhos estavam muito visíveis e constato que o pacote de lencinhos não apenas estava mais visível que a lasanha, como era... Rosa! Pensei em olhar para trás e verificar se, na pressa, eu não havia pegado o pacote errado, mas isso iria diminuir muito minha velocidade. Tudo o que eu queria era chegar logo ao caixa, pagar e terminar com aquilo.

Caminhei depressa. Mas não foi fácil. Lá estava eu, andando no mercado vestindo uma camiseta do Ozzy e segurando uma lasanha de calabresa, uma Coca de dois litros... E um ursinho rosa e sorridente. Veja bem, não era um rosa qualquer, era um rosa estupidamente meiguinho e com uma tonalidade que fazia o pacote brilhar nas minhas mãos. Qualquer pessoa que estivesse no outro lado do mercado e olhasse para mim veria apenas “um cara segurando um saquinho rosa-meiguinho”.

Cheguei aos caixas. Óbvio que havia fila em todos. Entrei na menor delas e fiquei quieto, sem olhar ninguém nos olhos. E olhe que sou mestre em passar vergonha na fila do caixa, devido ao meu talento em fazer combinações esdrúxulas de compras e só perceber a cagada quando for tarde demais (como ir ao mercado na hora do jantar e comprar um saco de pão de forma e um frasco de desinfetante, ou uma Coca Zero e um saco de ração de cachorro). Mas desta vez a coisa estava feia demais. Escondi os malditos lencinhos o melhor que pude atrás da lasanha e fiquei olhando para o nada, com cara de paisagem.

Depois de mais ou menos nove séculos, chegou minha vez. Coloquei a Coca e a lasanha na esteira, e os lencinhos atrás dos dois. E foi aí que eu percebi que o saco não era rosa, era azul. Na verdade, todos os sacos eram rosa de um lado e azul do outro. Olhei para cima e cumprimentei mentalmente os anjos por este toque de mestre na pegadinha, ao mesmo tempo em que a mulher do caixa começou a passar as mercadorias.

– O senhor tem cartão...

– Não tenho cartão Mais. Não quero Nota Fiscal Paulista. Desculpe, é que estou com muita pressa.

– Tudo bem, senhor.

Ela passou a Coca. Ela passou a lasanha. Ela não passou o maldito saco de lenços umedecidos. Ao invés disso, ela pegou aquela coisa rosa e levantou levantou à altura dos olhos – provavelmente, de forma que todas as pessoas num raio de 3 quadras pudessem vê-lo – e perguntou, em alto e bom som:

– Os lenços umedecidos são do senhor?

Perfeito. Deus, lembre-me de aplaudi-Lo quando chegar em casa.

– Não. Sim. Quer dizer... Sim. Eu vou levar os lenços, mas não são para mim, sabe?

– Como, senhor?

– Nada. Sim, são meus. Aliás, posso colocá-los na sacola? Eu estou com muita pressa.

Paguei e saí. O mendigo, ao menos, ainda estava ali – e tinha dado cria, já que agora, além do menino, uma menininha estava com ele também. Entreguei os malditos lencinhos, ele agradeceu e fui embora. Nunca mais encontrei o sujeito ali na esquina, mas, na dúvida, agora eu ando com um pedaço de papel no bolso, que entregarei para qualquer mendigo que vier pedir algo para mim, e que reproduzo abaixo.

Top 5 Únicas Coisas que eu Dou / Compro para Mendigos:
1. Dinheiro
2. Cigarro (na verdade, eu não ando mais com cigarro, mas eles não precisam saber disso)
3. Coxinha ou algum outro salgado (em algum bar)
4. Pinga
5. Coca-Cola