28 de agosto de 2008
A Humanidade não 3-Deu Certo
Ok, pré-estréia para convidados, com direito a celebridades B como Paulo Ricardo e Kiko Zambianchi, entre uma ou outra modelo wanna be querendo ser vista no local. Eu, obviamente, estava mais interessado em conhecer o novo sistema 3D (porque não assisti Viagem ao Centro da Terra) e em assistir a um show de rock num cinema, coisa que sempre quis fazer. Justamente por isso – e porque eu estava trabalhando – me contive e não fui perguntar ao Kiko Zambianchi se o Paul McCartney ficou sabendo daquele crime que ele cometeu com Hey Jude, anos atrás.
Enfim, voltemos ao filme. O 3D é sensacional. Eu estava certo de que essa nova tecnologia de três dimensões seria uma tosquice igual ao que surgiu nos cinemas no início dos anos 90 (A Hora do Pesadelo 6, alguém?), mas, para a minha surpresa, a coisa funciona de verdade. O início da exibição, com um robô da animação A Família do Futuro demonstrando as três dimensões, é de deixar qualquer um de queixo caído. Muito legal mesmo. E os óculos são óculos de verdade, e não uma faixa de papelão com duas “lentes” de plástico, que dava um clima ainda mais mambembe às antigas sessões de três dimensões.
Quanto ao show... Bom, é U2. Não conheço uma pessoa que não goste da banda - o que provavelmente ajudou a escolherem justamente um show do grupo como um dos cartões de visita da tecnologia 3D. Francamente, alguém iria ao cinema assistir um show em três dimensões do Bruno e Marrone? Ou, melhor ainda, imagine a Fat Family em 3D (piada maldosa mode: on).
Sim, o U2 é uma escolha acertada. E o show é feito justamente para agradar ao espectador casual, já que a maior parte dos sucessos está ali, nos 84 minutos de projeção. Sim, são apenas 84 minutos, porque, graças a Deus, os discursos do Bono sobre fome, pobreza, miséria, igualdade de direitos, ecologia, natureza, golfinhos, Lula, crianças, AIDS, democracia, liberdade de expressão, proteção às morsas, e-mails de graça para todas as pessoas, transporte grátis para idosos, não-obrigatoriedade de pagar os 10% nos restaurantes, fim da II Guerra Mundial e DVDs com extras legendados em todos os idiomas não estão ali.
Ou seja: a escolha da banda é acertada; o setlist é ideal; o 3D funciona; o Kiko Zambianchi não cantou. O que poderia dar errado? O público, claro. Parece que o 3D funciona tão bem que algumas pessoas realmente se sentiram dentro do show – da pior maneira possível, claro. Em um momento, quando o Bono grita “Brazil!”, uma mulher na minha frente ergueu os braços e começou a dançar na cadeira. Como se não bastasse, ela ainda aplaudiu e socou o ar mais umas duas ou três vezes ao longo do show – quando começou Sunday Bloody Sunday, fiquei com medo de ela resolver se sentar no ombro do namorado “para ver melhor”. E claro que, num cinema com 400 lugares, a pessoa que faz isso tinha que estar exatamente na minha frente. Ô fase 3D.
Mas o pior foi quando tocou With or Without You. Eu estava bastante satisfeito comigo mesmo por ter descoberto que o baixista Adam Clayton parece o Lulu Santos, quando começou a música. Pouco antes do primeiro refrão, meu sentido de aranha disparou feito um alucinado. Olhei para trás e não deu outra: umas dez pessoas, espalhadas pela sala, estavam com os celulares acesos na mão e balançando os braços.
Ok, gente, o 3D aumenta a sensação de realidade, emprestando profundidade ao que se vê na tela, mas – e desculpem derrubar o castelinho de cartas de vocês – aquilo não é real. O Bono não pode ver vocês, por mais tridimensional que ele seja, e por mais que os óculos que ele usa sejam parecidos com os óculos 3D. Ele não vai cantar melhor porque a platéia está aplaudindo, ou porque você ergueu o celular. Aquilo não é uma via de mão dupla. Se não deu para entender, vou ser mais claro: aquele Bono que vocês estão vendo é apenas uma imagem. Se você for lá hoje, ele vai cantar e suar do mesmo jeito. O Bono de verdade está na Irlanda. Desculpem por jogar isso assim, tão friamente, mas é verdade.
Aliás, sorte do Bono, que, por não estar lá, não teve que aturar o casal que, sentado atrás de mim, passou as últimas quatro músicas conversando em alto e bom som. Irritante demais. Ok, é um show, mas ainda é um cinema, eu quero ouvir. Em determinado momento, eu me virei para trás, tirei os óculos e fiquei encarando os dois, para ver se ao menos eles se tocavam. O problema é que eles eram tão tapados que provavelmente acharam que eu estava na platéia do show e apenas parecia que eu estava ali, olhando para eles com cara feia, por causa do efeito 3D.
Aliás, está mais do que na hora de o cinema inventar o som 2D. Como o nome diz, seriam apenas duas dimensões: esquerda e direita. Você se senta e coloca um fone de ouvido para escutar o filme. Não sei como ainda não pensaram nisso.
Final da sessão. Fui embora rápido, pois estava com uma fome de mais ou menos oito dimensões, mas não fiquei para ver a reação das pessoas que “filmaram o show”. Sim. Metade da sala filmou trechos do show com o celular, provavelmente para mostrar aos amigos e falar “ontem eu fui a um show do U2”. Queria ver a cara dessas pessoas quando elas descobrirem que a imagem de um filme 3D não é muito bonita de se ver sem os óculos.
Enfim, recomendo a todos que assistam – ao menos, aqueles que têm cinemas com tecnologia 3D perto de casa. Mas rezem para pegar uma sessão vazia, porque, não importa o número de dimensões, a humanidade realmente não deu certo. E, como sonhar não custa nada, deixo vocês com o Top 5 shows que eu adoraria assistir em 3D:
1. Pulse, do Pink Floyd
2. Pulse, do Pink Floyd
3. Pulse, do Pink Floyd
4. Pulse, do Pink Floyd
5. Pulse, do Pink Floyd
25 de agosto de 2008
Receita para Ficar 1 Semana sem Postar
Ingredientes:
4 Revistas
2 Diagramadores
1 Assessor de imprensa
1 Departamento Comercial
1 Rótulo de Os Três Patetas – Vol. 2
1 Cafeteira
1 Tentativa de Parar de Fumar
1 Chuveiro Quebrado
Modo de Preparo:
Distribua as quatro revistas equitativamente entre os dois diagramadores. Enquanto os diagramadores trabalham, ligue para o assessor de imprensa e peça para ele mandar o rótulo do DVD Os Três Patetas – Vol. 2, que você precisa colocar em uma das revistas. Fale com ele até você ouvir a resposta “já estou mandando”. Desligue o telefone, vá até a cafeteira. Lembre-se que você está parando de fumar e que se beber café vai ter que fumar logo
Multiplique isso por sete dias e sirva com Coca Zero. E sem café.
19 de agosto de 2008
A Alegria de Jogar
Ok, eu nunca falei de futebol aqui no blog. Mesmo porque acho que isso é uma armadilha. Especialmente revelar o meu time – pelo qual sou apaixonado. Quem é amigo, sabe qual meu time e pronto. Já vi blogs recebendo comentários sobre futebol em textos sobre cinema, e tudo porque o time do blogueiro havia jogado na noite anterior. Acho que descaracteriza demais. Mas hoje não tem como fugir. Hoje eu quero falar de algo que me incomoda há anos, e que pouca gente concorda comigo – mas há quem concorde.
Antes de continuar, quero deixar claro que eu, por definição, sou uma pessoa que caga e anda para as Olimpíadas. Acho as cerimônias de abertura e encerramento bonitas, gosto de assistir a algumas provas – especialmente atletismo – mas só. E acho ridículo quando algum atleta brasileiro ganha alguma medalha. Eles não tem o menor menor incentivo no país, e quando ganham algo, a mídia, especialmente a Rede Globo, os trata como se fossem heróis. Daqui a 2 meses, o cara está novamente treinando em condições ridículas e ninguém mais se lembra dele.
E quanto ao futebol... Bem, é mais que provado que qualquer pessoa que goste de futebol torce mais para o próprio time que para a seleção. A não ser em Copa do Mundo, que, para mim, é o equivalente a pegar em armas e ir para a guerra. Em Copa do Mundo, não há espaço para dúvidas. Eu não assisto a jogos do Brasil em Copas em bares ou em grandes turmas, porque aquilo, para mim, não é diversão. Aquilo é sofrimento, é obrigação moral. Eu choro, grito, eu chuto os móveis. Quando o Brasil tomou o segundo gol da Holanda, em 1994, eu afundei a porta do quadro de luz da parede da sala com uma cabeçada.
Sim, eu gosto de futebol, mesmo sem ter falado sobre isso aqui. E o assunto que eu quero falar hoje é justamente esse: o futebol.
Dunga é um mal técnico? Sim. Ele não tem experiência. E isso é inadmissível para alguém que ocupe o cargo de técnico da seleção que mais ganhou títulos mundiais. É mais ou menos o equivalente a você se formar em administração e conseguir um emprego como Vice-Presidente Mundial da Sony. O jogo contra a Argentina acabou de terminar. 0 x 3. Para variar, não ganhamos o ouro. O Galvão Bueno, com sua mediocridade habitual – aliás, é impressão minha ou o nível de ufanismo dele está atingindo níveis histericamente insuportáveis? – está tentando nos convencer que a disputa pelo bronze é importante. Não é. Bronze é importante para o Diego Hipólito, não para um time que tem mais estrelas que muito filme nacional.
Enfim, Dunga tem, sim, sua parcela de culpa. É um técnico abaixo da média, e não tem a menor condição de montar (ou, principalmente, de alterar durante um jogo) o esquema tático do seu time. A imprensa vai cair matando em cima dele, a torcida também. Em momento algum, eu tiro a parcela de culpa dele. Talvez sobre para o Lucas e para o Thiago Neves, que foram expulsos de modo ridículo. Alguém mais? Talvez respingue um pouco na CBF.
E, como sempre, Ronaldinho Gaúcho vai sair ileso. Impune. Aliás, a mídia (leia-se Globo) vai falar que a Copa foi importante porque ele “recuperou a alegria de jogar”. Ah, então, ele não foi para a Olimpíada para disputar uma medalha, e sim para voltar a gostar de jogar futebol? Isso não é um pouco de desrespeito com os atletas dos outros times, que estão ali, teoricamente, defendendo seu país? Então, se eu não estiver feliz com o meu trabalho de jornalista, alguém vai me chamar para ser editor-chefe do Caderno 2 do Estadão para eu “recuperar a alegria em escrever”?
Bom, agora que o Brasil perdeu de 3 x 0 para o principal rival, ele vai ficar alegre? Porque se ele recuperar a alegria depois deste jogo, vai ficar claro que ele não se importa muito em jogar pela seleção. Afinal, se nenhum brasileiro gosta de perder da Argentina por 3 x 0 (independente de isso custar ou não a cabeça do Dunga), porque o maior astro do time ficaria? Ou seja, se ele foi lá para “recuperar a alegria de jogar”, os 3 x 0 para a Argentina, teoricamente, deveriam fazer ele se aposentar, certo?
Não. Porque nada, ou muito pouco da culpa sobre isso, vai recair sobre ele. Como sempre aconteceu. A imprensa esportiva brasileira, salvo dois ou três nomes, é chapa-branca demais para ter coragem de falar mal de Ronaldinho Gaúcho. Ele é o melhor do mundo. É o jogador de lances plásticos, que desafiam a lógica e a física. É o autor de dribles desconcertantes, de gols primorosos, de jogadas que nunca foram feitas e jamais serão repetidas.
Sim, talvez ele seja isso. Eu, ao menos já vi lances magistrais dele. No Youtube. O curioso é que esses lances acontecem sempre num jogo do campeonato espanhol, e normalmente quando o time dele está ganhando com folga. Não me lembro de nenhum lance inesquecível dele, que tenha virado – ou, ao menos, decidido – um jogo. Especialmente pela seleção. O mais perto que ele chegou disso foi o gol sem querer que ele marcou contra a Inglaterra, na Copa de 2002.
Quando eu era pequeno, eu adorava um termo que meu pai – o homem que mais entendia de futebol do mundo, aos olhos do menino que assistia aos jogos com ele – usava para descrever um jogador assim: “jogador de Maracanã” (ou de Morumbi, ou de Mineirão, ou de Beira-Rio, tanto faz). Ele usava isso para descrever aquele jogador que era craque jogando em casa, contra time pequeno. Mas, na hora da decisão, quando mais se esperava dele, ele fugia. Escondia-se em campo.
Ronaldinho Gaúcho é, e sempre foi, jogador de Youtube. Sempre. E a imprensa não tem coragem de falar isso para ele. E quem vier argumentar usando a Copa de 2002 para isso, lembro que, naquele torneio, a cobrança era quase toda em cima de Ronaldo, que voltava de uma contusão e mal andava
Depois disso, veio a fama no Barcelona. Ronaldinho Gaúcho estrelava 10 entre 10 campanhas publicitárias. A Globo o elegeu como um herói nacional e a molecada, que pertence a uma geração tão carente disso, foi na onda. Andavam na rua com a camisa 10 do Barcelona (sem levar em conta que, para quem gosta de futebol, vestir a camisa de um time que não seja o seu é algo impensável). Passavam o dia assistindo às jogadas dele – sempre no Youtube.
A consagração seria a copa de 2006. O palco estava armado para o melhor do mundo. A Copa de 2006 seria dele. Seria o ápice da sua carreira. A Copa da Alemanha faria com Ronaldinho Gaúcho o que a Copa de 70 fez com Pelé.
Caímos nas quartas de final. Vergonhosamente. Tudo porque Zidane – que sabe o que significa, em termos de responsabilidade, ser o “melhor do mundo” – pegou um time meia-boca da França e fez, com ele o que esperávamos que Ronaldinho Gaúcho fizesse com o nosso time meia-boca. E sobraram vaias. Vaias para Ronaldo Gordo, vaias para Parreira, vaias para os laterais – especialmente para aquele que deixou cair a máscara quando arrumou a meia.
Mas não existiram vaias para Ronaldinho Gaúcho, o melhor do mundo, que se escondeu em campo durante todos os cinco jogos. A imprensa criticava o peso de Ronaldo, a idade dos laterais, a autoridade de Parreira... Mas a imprensa esportiva brasileira nunca levantou um questionamento sobre o “melhor do mundo”. Pelo contrário, tentaram defendê-lo, alegando que ele estava escalado errado. Escalado errado? Melhor do mundo não precisa de posição. Melhor do mundo não precisa de nada. Melhor do mundo entra e faz. E é por isso que é o melhor do mundo.
De lá para cá, a carreira desandou. Sumiu das campanhas publicitárias. Sumiu da mídia. Não se vê mais camisas do Barcelona pelas ruas do Brasil. E continuou sumido dos campos. Escondeu-se em campo durante uma final de mundial interclubes contra um Internacional muito inferior. E os lances mágicos, onde estão? E os chapéus? Os toques de letra? Você desaprendeu? Ou eles não funcionam quando o jogo vale alguma coisa?
E agora, as Olimpíadas. Perdemos, claro. Como sempre iremos perder as Olimpíadas. Mas o que importa é que Ronaldinho Gaúcho – que foi a Pequim por imposição da CBF – sumiu novamente. Sim, porque é fácil jogar contra a China, mas, contra Argentina, o buraco é um pouco mais embaixo. Resultado: 3 x 0. Com sorte, uma medalha de bronze para o melhor do mundo.
Mas o que importa é que ele recuperou a alegria de jogar. Que bom. Em breve, podemos acessar ao Youtube e assistir aos lances mágicos dele, agora no campeonato italiano, e normalmente quando o adversário for um time fraco, que estiver perdendo de goleada. E ele será novamente o melhor do mundo. E a imprensa – especialmente a Globo – adorará e venerará todos os seus malabarismos e o colocará, novamente, como um deus infalível da bola. E, em 2010, se perdermos com o “melhor do mundo” em campo, Ronaldinho Gaúcho pode ficar tranqüilo: nós arranjaremos outro culpado, inventaremos outro motivo que deixará o nosso “melhor mundo” dormir em paz.
Ronaldinho Gaúcho não é o melhor do mundo. E nunca foi. Ele é muito habilidoso, mas não é o melhor do mundo. Ser o melhor do mundo não é fazer malabarismo com a bola. Melhor do mundo é ir lá e ganhar, vestindo essa camisa amarela que já foi usada por gente muito honrada (mais que ele), e que não tiveram um décimo do reconhecimento que ele tem, ou dos mimos que recebe da mídia.
Aliás, ser o melhor do mundo não é ganhar sempre. Mas é não ter medo da responsabilidade. É honrar essa camisa. Jogador de futebol se faz com a bola no pé; craque se faz com a alma. Então, ele não é craque. Craque não foge da responsabilidade. E eu nunca o vi deixar de fugir quando os holofotes apontaram para ele, quando a expectativa do povo era em torno dele.
E isso é algo que ele nunca fez.
Eu nunca vi Ronaldinho Gaúcho chamar a responsabilidade para si quando o jogo efetivamente vale alguma coisa. Ronaldinho Gaúcho sempre foi um craque da bola. Mas não quando precisa. Ele sempre foi um jogador de Youtube.
E ganhar no Youtube não vale nada.
P.S. – E quem acha que este texto é um desabafo por causa das Olimpíadas, aviso que isso está engasgado na minha garganta desde 2006.
18 de agosto de 2008
Abstinência
Voltei.
Sinceramente, não me lembro se eu já havia ficado uma semana sem postar aqui antes. Provavelmente sim, nos primeiros meses do blog. Mas caso isso tenha acontecido naquela época, ninguém sentiu minha falta, já que ninguém– fora alguns amigos – lia isso aqui. Desta vez, porém, começaram a surgir alguns comentários no blog, nos últimos dias, questionando se ainda havia um Rob Gordon no mundo. Junte isso ao fato de eu ter saído do Orkut, e pronto: começam os comentários perguntando: “Rob Gordon morreu?”.
A resposta é: morreu. Morreu de vontade de fumar.
Sim. Após quase duas décadas tentando desesperadamente tapar a camada de ozônio soprando fumaça de cigarro, decidi que era hora de parar. Diversos motivos me levaram a isso, mas o principal é que não tenho mais 18 anos. E sim, porque a grande vantagem de você ter 18 anos é que, nesta época, você acredita piamente que terá 18 anos para sempre. Mas, com 32 – às vésperas dos 33 – as coisas não são bem assim. Você sabe que tem 32, 33 anos hoje; mas, na semana que vem, você já tem 40.
Junte isso ao fato de que meus horários e hábitos alimentares são se encaixam exatamente nos recomendados pela Organização Mundial de Saúde e pronto. Como a Sra. Gordon disse que era hora de parar, a dentista disse que era hora de parar, minha mãe – que fuma – disse que era hora de parar, todos os meus médicos disseram que era hora de parar, então resolvi que era hora de parar. Afinal, se todo mundo está andando na contramão, as chances de ser você quem está na contramão são bem grandes.
E não é fácil. Mesmo. E não vou plantar aqui aquele discurso falando sobre as dificuldades de vencer as dependências química e psicológica. O que torna tudo mais difícil é que eu sei – como qualquer outro fumante sabe – que fumar é um tesão. Peça a qualquer fumante, especialmente alguém que fuma compulsivamente como eu fumava, para descrever a sensação da primeira tragada no cigarro. É impossível descrever.
Isso sem falar nas ações que você condiciona ao cigarro: eu não sei, ou melhor, não sabia, colocar os pés na rua sem acender um cigarro; não conseguia entrar em casa sem acender um cigarro. Sexo? Comida? Cerveja? Chocolate? Tudo pede um cigarro depois. Sua vida inteira pede um cigarro depois. E isso torna tudo mais difícil. E, sim, o fato de as pessoas falarem que eu “fumo igual ao Al Pacino” torna tudo mais difícil ainda.
Mas, voltando ao meu “parar de fumar”: estou usando adesivos, o que torna as coisas (um pouco) mais fáceis. E não fui louco de simplesmente cortar o cigarro totalmente; então, estou fumando, hoje, algo entre quatro ou seis cigarros por dia, o que é um progresso razoável, comparado aos 30 por dia que eu fumava. Mesmo porque se eu decidisse cortar o cigarro totalmente, no segundo ou terceiro dia eu já teria me jogado embaixo de um caminhão para “acabar logo com tudo isso”.
Aliás, com isso eu descobri marcas de cigarros horrorosas, já que eu não posso mais ter um maço – acredite, se eu tiver um maço em meu poder, vou fumá-lo em três horas – então aderi ao conceito de “cigarro solto”: vou a qualquer boteco com 30 centavos e compro um cigarro. É quase um conceito de nicotina on demand, mas funciona. O problema é que o único boteco que faz isso com Marlboro é justamente este aqui na frente do trabalho; em qualquer outro lugar que eu esteja, consigo apenas cigarros de marca desconhecidas – o que é bom, já que são todos horrorosos.
Mas, agora, você deve estar se perguntando o que diabos você tem a ver com isso? Simples. Uma das coisas que eu mais tive condicionado a escrever é o blog. Dependendo do tamanho do post, eu chegava a fumar dois enquanto escrevia o texto; se eu reler alguns posts, consigo me lembrar exatamente em qual trecho eu acendi um cigarro; e, se o mundo fosse um lugar perfeito, eu estaria escrevendo esse post, aqui, agora, com um cigarro pendurado no canto da boca, como sempre fiquei.
Mas, na verdade, eu não fugi do blog para evitar a vontade de fumar. Eu apenas não vi graça nenhuma em nada durante a semana passada. Além disso, eu não vi nada semana passada, porque ou eu estava espumando de ódio, ou eu estava tendo pesadelos enquanto dormia. E cheguei, sim, a escrever uma carta de despedida para o cigarro e ia publicar aqui, mas, no terceiro parágrafo, nada tinha mais graça. Provavelmente o texto estava bom, o problema era comigo mesmo.
Mas isso já está começando a passar. Agora, este blog deve voltar a sua atividade normal, e com cada vez menos nicotina. Nicotina. Adoro esta palavra. Sempre adorei. Pronto, já estou divagando – e, sim, o cigarro também sempre ajudou a me concentrar. Paciência. É um grande amigo que se vai.
Meu sonho, hoje? É estar, daqui a uns anos, bebendo numa mesa de bar e roubar um cigarro de alguém para fumar junto com um chopp, para matar a saudade. Ficar tonto com a primeira tragada – algo que não sentia há anos – fumar o cigarro inteiro e continuar ali, bebendo, sabendo que vai demorar meses, por mais que aquilo seja delicioso. Mas isso vai demorar para acontecer.
E, antes disso, vocês terão toneladas de posts aqui, prometo.
E, para matar a saudade, deixo vocês com o Top 5 Marcas mais estranhas de cigarro que eu fumei ultimamente:
1. Lennon
2. Fortuna
3. Dallas
4. Derby Suave (sim, porque “Derby suave” é um erro de conceito)
5. Campeão
11 de agosto de 2008
Meeting Tyler Bazz - Parte Final
(você lê a parte II aqui, e a versão do Tyler aqui)
Gelei. A música de O Poderoso Chefão vinha do meu celular. Era a Sra. Gordon. E se tem algo que eu já aprendi a respeito da Sra. Gordon é que, dependendo da intensidade do toque do celular quando ela liga, aumentam as chances da minha mãe receber, no dia, um terno meu com um peixe dentro (rob gordon dorme com os peixes mode: on). E o celular, desta vez, estava tocando muito alto. E vibrando. Era uma mensagem de texto, mas, como ela não gosta de ser interrompida nem dessa forma, eu avisei aos dois do que se tratava. O pior é que a mensagem dizia "mas como vcs falam alto hein". Gelei mais ainda.
Olhei ao redor. Ela não estava lá. Bem, alguém ali naquele restaurante estava na folha de pagamento dela, com certeza. O primo do Tyler resolveu reclamar, dizendo que o pessoal da mesa ao lado estava falando mais alto ainda, mas eu o adverti que, em se tratando dela, o mais sábio é beijar a mão e pedir “Be my friend? Godfather?” Ele entendeu e mudou de assunto.
Continuamos a comer (a picanha já havia chegado no segundo post, o Tyler que não lembra mode: on) e pedimos mais uma rodada de Cocas. O problema é que a picanha estava saborosa demais para ser degustada ao lado daqueles imbecis que não paravam de gritar na mesa ao lado. O barulho realmente estava deixando minha picanha assustada e eu não gosto quando isso acontece. E, pelo jeito, nem meus companheiros, já que ambos – especialmente o primo dele – estavam olhando feio na direção do grupo. E eles, sem se importar com isso, gritaram ainda mais. Foi aí que o primo do Tyler levantou.
E foi até o banheiro. Ficamos eu e o Tyler na mesa, mas não conversávamos. Eu tentei puxar papo, mas ele estava encarando um ponto na direção oposta do restaurante. Olhei para o lado em que ele olhava e não vi nada. Foi aí que eu reparei em sua expressão de cachorro em cima de canoa: ele estava perdido dentro de algum pensamento qualquer, fitando o infinito. Fiquei assustado. Tentei falar com ele, mas ele certamente não me ouvia.
Foi aí que eu percebi o que estava acontecendo. Ele é esquizofrênico. No momento em que o primo dele se levantou para ir até o banheiro, ele entrou em alguma viagem qualquer e ficou lá dentro. Tive a impressão de que o ouvi resmungando alguma coisa como “Soca ele! Não deixe nenhum vivo!”, mas não tenho certeza, ele falou muito baixo. Na dúvida, como não entendo de psicologia, resolvi permanecer em terreno conhecido e voltei a me concentrar na minha picanha.
Enquanto eu comia, o primo do Tyler voltou para a mesa e ele pareceu despertar do transe em que estava. Bateu no ombro do rapaz e soltou um “gostei de ver”, mas o menino rapidamente me olhou e fez um sinal que entendi como “ignore”. Mas, até o fim do jantar, ele ainda voltou a ficar com o olhar perdido por alguns momentos, resmungando coisas como “disponha”, “foi um prazer” e algo que tenho certeza de que era “imagine, a justiça foi feita, e essa é a minha recompensa”.
Com isso, não tivemos oportunidade de conversar sobre alguns assuntos que dois blogueiros certamente abordariam, como a iminência de uma guerra na Geórgia, as expectativas sócio-econômicas com a proximidade dos pleitos municipais e, claro, a influência da literatura barroca nos blogs com fundo preto. Mesmo porque assuntos como esse deixariam o Tyler estressado, e sabe-se lá que tipo de crise isso poderia acarretar no rapaz. Justamente por isso, mantivemos o foco do jantar em banalidades como música, cinema e falar mal da vida.
Após uma picanha, uma porção de batatas-fritas, e 37 latas de Coca-Cola (nas versões "normal", "zero" e "geli-limão"), nos despedimos e fomos embora. Eu e o primo do Tyler certo de que estamos prontos para mais uma picanha no Degas, e isso precisa ser repetido. O Tyler.. Bem, não tenho certeza exata do que o Tyler achava que havia acontecido aquela noite, mas ele parecia ter gostado bastante.
Tanto, que, antes de ir embora, ainda pude observar ele batendo no ombro do primo e soltando um “gostei de ver!”.
Eu, hein?
8 de agosto de 2008
Meeting Tyler Bazz - Parte II
(Você lê a parte I aqui; e a versão do Tyler aqui)
Olhei a morena e pensei: “Será que o Tyler é ela? Gozado, ele parecia ser homem nas fotos do messenger.” Obviamente não era. A morena passou por mim e, atrás dela, vinham dois sujeitos. Reconheci imediatamente o da esquerda como o Tyler. Mas fiquei com medo dele ser veado, porque ele não parava de olhar um alemão que estava ali perto, encostado numa moto. Ele me cumprimentou e apresentou a outra pessoa, seu primo.
Fomos em direção ao restaurante escolhido. Andamos dez metros e eu já estava derretendo – o encontro aconteceu numa das noites mais quente do ano. Contei ao Tyler, porém, que eu havia morado em Manaus quando criança, e que calor daquele dia era fichinha perto daquilo. Ele, provavelmente para não ficar atrás, disse que na cidade dele é comum a temperatura chegar a 42 graus. Ridículo. Aí eu emendei que Manaus é pior porque é úmido. Ele disse que a cidade dele é pior porque é seca.
Andamos duas quadras protagonizando esse debate maduro e aprofundado quando chegamos ao restaurante. Entrei e fui direto para a mesa que eu sempre uso. Eles entraram atrás de mim. O restaurante estava mais cheio que de costume, com casais, uma mesa ocupada por uma família e outra com um grupo de amigos reunidos em volta de algumas garrafas de cerveja vazias. Já estavam naquele estágio onde todos falam ao mesmo tempo e nenhum escuta nada o que o outro diz – mesmo com os tons de voz elevados. “Esses vão dar trabalho”, pensei.
Sentamos e o garçom veio nos atender. Coca para todo mundo, e com o máximo de educação e carinho permitidos num restaurante cujo slogan é “a casa do filet a parmegiana”, pedimos a entrada:
– Pão.
O garçom entendeu a ausência de expressões como “boa noite” e “por favor” como sinal de muita fome e atendeu prontamente o pedido. Com o pão na mesa, o clima ficou melhor e começamos a bater papo sobre assuntos importantes como blogs e campeonato brasileiro e os idiotas da mesa ao lado que não calavam a boca.
Resolvemos pedir. Olhei ao redor, procurando um garçom, e me deparei com um cabelo loiro, cacheado. Conhecia aquilo de algum lugar, mas não dei muita atenção. Chamei o garçom e, após algumas tentativas, consegui convencê-lo de que queríamos uma picanha gorda e mal-passada acompanhada de fritas. Sim, é só a picanha que é mal-passada, as fritas não. Sim, a picanha já deve vir fatiada. Não, nós queremos que a picanha e as batatas sejam tratadas como indivíduos diferentes, e que cada um venha numa travessa separada. Sim, nós queremos que a carne e as batatas cheguem à mesa simultaneamente.
Enquanto esperávamos a comida, hora dos desafios que haviam sido lançados em algum post aqui no Champ. Tyler soltou todos os países-sede e campeões de todas as Copas. Eu soltei todos os filmes de James Bond em ordem cronológica. Mas nenhum de nós dois foi perfeito: ele engasgou na Copa 1998, o que não é culpa dele, já que é uma Copa deprimente; e eu esqueci de 007 – O Amanhã Nunca Morre, o que não é culpa minha, já que meu cérebro, por sobrevivência, apaga qualquer informação referente às palavras “atuação” e “Denise Richards”. Curioso que, em ambos os casos, fomos socorridos pelo primo dele, que é uma criatura deveras peculiar. Imagine uma pessoa que tem 17 anos, vota conscientemente, e ouve Frank Zappa e Pink Floyd. É como se a humanidade tivesse dado um salto evolutivo, mas só com o primo do Tyler. Enfim, como eu ainda estava engasgado com aquela história de que São José é tão quente como Manaus, apelei para a minha arma secreta e despejei todos os discos de estúdio do Iron na mesa. Pronto, eu estava no controle da situação novamente.
A picanha chegou, e no ponto certo (quase viva mode: on). Enquanto comíamos, eu olhava ao redor, pelo restaurante, procurando pessoas parecidas. Na verdade, procurando uma pessoa parecida. O mini-mim do Russel Crowe
Posto isso, dei uma relaxada e continuamos a conversar. Mas, claro que eu continuava praticando meu hobby favorito, o de encontrar pessoas parecidas. E o local estava fértil aquela noite, já que encontrei até mesmo um Capitão Haddock, do Tintin, no local. Mas algo ainda me incomodava. Aqueles cabelos loiros e cacheados. E, enquanto o primo do Tyler discorria sobre a semiótica dos solos do David Gilmour em Umagumma, me veio a luz: Carolina Villenflusser! É ela! A moça desaparecida está, na verdade, num restaurante em Pinheiros mandando ver num parmegiana!
Infelizmente, não pudemos aproveitar a situação, porque, entre os berros insuportáveis dos bêbados da mesa ao lado, começamos a ouvir a música tema de O Poderoso Chefão, vindo da cadeira ao meu lado. Tyler me olhou curioso; o primo do Tyler, alheio ao som, olhava uma mulher na mesa ao lado. Eu, por outro lado, não conseguia ver mais nada. Sim, porque eu sabia o que aquela música significava: problemas.
(continua...)
6 de agosto de 2008
Meeting Tyler Bazz - Parte I
(post "reflexo no espelho" deste texto aqui)
Sexta-feira, 25 de julho de 2008. Por volta das duas da tarde comecei a considerar a hipótese de desligar meu computador e ir pra casa. Cansado demais. Totalmente pregado. O motivo do cansaço? Somente fechar mais ou menos quatro revistas em duas semanas – e sem computador em casa, o que me fazia ficar na redação até altas horas. E este seria o primeiro fim-de-semana que eu não teria nada para fazer desde março. Seria um bom descanso.
Olhei para o celular. Nada da porra do Tyler. Tyler, para quem não sabe, é o autor deste blog aqui, gente finíssima, que, tinha me avisado que viria para São Paulo naquela sexta. Já havíamos combinado que, como bons blogueiros primatas, precisaríamos devorar uma picanha juntos. Ele ficou de me ligar na sexta-feira à tarde, quando chegasse. 14:00. 16:00. 18:00. Nada do Tyler. Bom, foda-se, eu não sou fácil assim. Saí da redação, encarei uma picanha sozinho mesmo, e fui para casa devorar um pack de CSI.
Sábado, 26 de julho de 2008. Eu e Sra. Gordon nos preparamos para entrar no cinema e assistir a Batman – O Cavaleiro das Trevas. Eu, já devidamente armado com um saco de pipoca do tamanho do poster do filme (com manteiga extra) e um balde de Coca. No meio da fila, senti algo vibrando no meu bolso. Olhei a pipoca. Olhei o poster do filme. O celular vibrou de novo. Olhei a Coca. Olhei a minha namorada linda. O celular vibrou. Tyler, maldito. Dito e feito. Saquei o aparelho do bolso e tinha uma mensagem dele. Respondi “Vai se fuder, tô vendo Batman”. Mas pensei melhor e lembrei que o cara era visita. Apaguei tudo e digitei: “"Cinema. Te ligo a noite.”
Assistimos ao filme, morri de medo do Coringa (a resenha você lê aqui), saímos do cinema, sorvete com a namorada, beijo e tchau. Pego o telefone e ligo para ele. Caixa postal. Sem contar que como ele veio do interior, o telefone dele tinha 349 dígitos, o que tornava tudo mais difícil. Enfim, mensagem vai, mensagem volta, consigo falar com ele (de dentro de uma estação do metrô, o que deve ser um novo recorde mundial para uso de celulares em regiões urbanas):
– Alô, ele disse.
– Viado...
– ...
– Desculpe.
– Então, onde você está?
– Na terra da Banana.
– Certo. Quando chega aqui?
– Daqui a uns 40 minutos.
– Complicou. Façamos assim: semana que vem nós saímos em busca dessa carne. Que amanhã preciso sair da cidade por dois ou três dias.
– Você volta? Então tá ok. Pensei que estaria aqui até hoje só.
– Não, não. Nos encontraremos
– Abraço.
Desliguei, mas algo daquela conversa não saía da minha cabeça. Entrei no metrô, fui até a Ana Rosa, baldeação até as Clínicas. Durante todo o trajeto eu me perguntava: "Por que ele riu quando disse que eu estava na terra da Banana?" Assisti a mais uns dois CSI e dormi.
Os dias passaram e, após minuciosas análises em nossas agendas, marcamos o encontro para a noite de quinta. Estaríamos os dois, às nove e meia da noite, na saída da Estação Clínicas. Pensei em ligar para um amigo meu nos acompanhar, mas o celular dele só dava caixa postal.
Fiquei esperando ali na porta da estação. Diversas pessoas entravam e saíam da estação, quando vejo, se aproximando na minha direção, uma morena de 1.70, trajando minissaia, blusa decotada, salto alto. Seus cabelos balançavam com o vento e ela sorria na minha direção, como se me conhecesse de algum lugar.
(continua)
4 de agosto de 2008
Aerotrem
Eu adoro ir para o centro de São Paulo aos sábados de manhã. Sim, porque a fauna que sou obrigado a conviver em Pinheiros e na Paulista não é nada se comparada às criaturas que habitam o centro de São Paulo. Especialmente aos sábados de manhã, quando você não consegue andar dez metros ali sem dar de cara com algum desvio evolutivo, como os aleijados que fazem embaixadas se equilibrando em muletas, os arremessadores de faca ou os dementes que sobem num caixote e começam a querer espalhar a palavra de Cristo aos berros.
Enfim, se você não é de São Paulo, a melhor maneira de ilustrar isso é: imagine um filme dirigido pelo Kubrick, com roteiro do Fellini, baseado numa história do Zé do Caixão com personagens criados pelo Bergman e trilha sonora do Frank Zappa. Coloque alguns extras como camelôs que vendem DVDs piratas, capas de celulares, carrinhos de controle remoto – eu quase fui atropelado duas vezes – e os malditos CDs com peruanos tocando flauta de Pan e pronto.
Neste sábado eu fui com meu primo até a Santa Ifigênia para comprar peças para o computador. Sim, porque na blitzkrieg que o meu inferno astral está colocando em prática, meu computador foi uma das primeiras vítimas. E meu primo, que é uma espécie de para-médico de PCs, decretou que o micro não ligava porque o cooler havia pifado. Assim, sábado, lá fomos nós atrás de um modelo igual que funcionasse. Eu, claro, com o pé atrás, pois a última vez que saí com meu primo para comprar peças de computador fez com que eu tivesse que comprar um computador novo algumas horas depois, como narrado nesta série de posts aqui.
Armado com o talão de cheques e o cartão do banco (e repetindo em voz alta, a cada cinco metros, a frase “eu não vou entrar na galeria para procurar o CD novo do Alice Cooper”) eu e meu primo cruzamos a Santa Ifigênia, desviando tanto dos carrinhos de controle remoto como dos vendedores que te agarram pelo braço gritando “Plei 3! Nintendo Uí! Équis Bóquis! Melhor preço da região!” e pulando os tapetes com DVDs piratas e os mendigos dormindo no chão. O dia em que lançaram um Super Mario Brasil, a fase na Santa Ifigênia será uma das mais difíceis, com certeza. Para piorar tudo, estavam gravando um comercial de alguma operadora de celular ali, o que deixou os nativos totalmente alvoroçados
Bom, com quinze minutos de Santa Ifigênia, missão cumprida. Mas claro que falando assim parece que foi fácil, mas não foi. Em qualquer lojinha que você chega, você precisa se espremer no balcão e tentar agarrar um dos vendedores pelo braço para ser atendido (cantina de colégio mode: on). E o pior é quando você agarra um dos coreanos.
– Você tem cooler?
– Cúler? Si, nô.
– Sim ou não?
– Si! Nô!
– Cooler para computador? Tem?
– Prêi-isteixon 3!
– Cooler!
– Si! Nô!
– Deixa. Obrigado.
– Si! Nô!
Mas demos sorte e no segundo ou terceiro lugar que fomos pegamos um sujeito que não apenas falava nosso idioma como entendia do assunto. Podíamos ir embora. Mas, no caminho de volta para o metrô, eis que Sra. Gordon linha no celular do meu primo – eu havia esquecido o meu em casa – e pede para que a gente aproveite a visita ao templo dos eletrônicos
Mas, nos encaminhando para o metrô, começo a ouvir buzinas atrás de nós. Outra coisa importante da Santa Ifigênia é que o local é um dos poucos na cidade onde os carros – que estão sempre a uma velocidade de
No meio dos carros, vi umas bandeiras ao vento e ouvi rojões. Olhei com mais calma e vi que se tratava de alguma carreata política. Ou, ao menos, uma mini-carreata, já que era composta por uns dois ou três carros. Fui para a calçada e comecei a observar aqui com cuidado. Tentei ler o nome em uma das bandeiras, mas não consegui. Porém, conforme o carro se aproximava, comecei a entender as letras.
LEVY FIDELIX
Meu Deus do céu. Levy Fidelix. O sujeito do Aerotrem. Um dos candidatos mais toscos que a política brasileira já criou. Olhei aquilo de perto e eis que vejo, no banco do passageiro do primeiro carro, um sujeito gordinho, careca e de bigode (estou falando dele, não de mim, ok?). Ele estava ali, acenando para a população e divulgando sua candidatura a prefeito, enquanto o motorista (que, provavelmente, era o candidato a vice) disparava rojões para o alto ao mesmo tempo em que dirigia.
O homem. A lenda. O mito. Ali, na minha frente. E eu sem a merda do celular. Virei para meu primo e pedi para ele bater uma foto, mas ele se recusou a tirar o telefone (na verdade, um pocket PC) do bolso no meio do centro da cidade, o que é compreensível. Fiquei olhando o Sr. Aerotrem desfilar na minha frente e pensei: “o que eu faria se fosse o Steve Harris*, do Iron Maiden, e eu estivesse sem celular?”
A resposta foi imediata. Me enfiei no meio dos carros e corri para o lado do carro em que ele estava. Ele me olhou e eu, imediatamente, estendi a mão. Ele me cumprimentou, sorrindo e me entregou meia dúzia de santinhos. Mas não era suficiente. Devolvi um dos santinhos e pedi:
– Levy, autografa isso para mim, pelo amor de Deus!
– Claro, claro!
Ele assinou o santinho e ainda me perguntou:
– Qual seu nome?
– Rob.
Rabiscou um “para Rob” em cima da assinatura e me devolveu. Como não é bobo nem nada, entregou mais uma meia dúzia, dizendo: “espalhe entre seus amigos” e foi embora. Fiquei ali, parado, feito bobo, com o santinho na mão, vendo o carro se afastar lentamente e, emocionado, observando o motorista-vice colocar o braço para fora e soltar mais um rojão.
Que tesouro! Um autógrafo de uma das maiores provas da humanidade não ter dado certo. Vou mandar emoldurar e pendurar isso lá na sala.
Mas meu voto ele não tem, porque aí seria demais.
Aerotrem neles!!!
1. Marronzinho -candidato a presidente em 1989.
2. Havanir - e essa música? o que é isso? (update: aparentemente, o TRE já tirou do ar todos os vídeos da Havanir com o jingle do filme Rocky. Sobrou só esse aqui)
3. Frank Aguiar - eu e Sra. Gordon já estamos planejando um modo de conseguir.
4. Clodovil - mas alguém tem que pegar o autógrafo para mim, porque eu não tenho coragem de chegar perto dele(a).
5. Paulão do Polícia - mas tem que ser um chinelo autografado. Se não rolar, qualquer outro do vídeo serve.
* Peço desculpas ao leitor Varotto por colocar Steve Harris e Levy Fidelix no mesmo texto.