30 de outubro de 2006

Longa Jornada Noite Adentro - 9

Apocalypse Now
(Apocalypse Now, EUA, 1979)
Direção: Francis Ford Coppola
Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Dennis Hopper


“Nos 30 anos em que a Itália viveu sob o domínio dos Borgia ocorreram guerras, terror, assassinatos e derramamento de sangue, mas também surgiram Michelangelo, Leonardo da Vinci e todo o Renascimento. Já na Suíça eles viveram somente sob o amor fraternal. Foram 500 anos de democracia e paz. E o que eles criaram? O relógio-cuco”.

A frase disparada por Orson Welles em O Terceiro Homem poderia ser aplicada também a Hollywood dos anos 70. Na época que os Estados Unidos viveram o fim do sonho americano devido a fatos como Watergate, Guerra do Vietnã, corrupção policial e explosão da violência e do tráfico nas grandes cidades, surgiu uma nova geração de cineastas que revolucionou não apenas o modo de se fazer filmes, mas sobre o que esses filmes abordariam. Nada mais de musicais inocentes, romances açucarados e westerns colonizadores. O cinema americano ganhou tons realistas e levou a realidade do país para as telas dos cinemas, criticando toda e qualquer instituição. Surgia, assim, um dos períodos mais criativos de toda a história de Hollywood.

Um dos maiores expoentes dessa geração, Francis Ford Coppola já havia dado provas de seu talento no (injustamente pouco lembrado) A Conversação e principalmente nos dois O Poderoso Chefão (onde coloca a máfia como um dos alicerces sociais dos Estados Unidos). Sua saga sobre o crime organizado o colocou no panteão dos deuses em Hollywood. Com 35 anos de idade e um Oscar de Melhor Diretor em casa, Coppola poderia ter escolhido qualquer projeto que quisesse. Porém, ao anunciar que iria para as Filipinas dirigir uma adaptação do romance Coração das Trevas de Joseph Conrad – transpondo a ação para a Guerra do Vietnã – sequer imaginava que se envolveria com um dos projetos mais complicados da história, que quase acabaria com sua carreira (e com sua sanidade). Mas também não imaginava que iria criar uma das maiores obras-primas da história.

“Meu filme não é sobre a Guerra do Vietnã. Meu filme é a Guerra do Vietnã”, declarou o diretor quando Apocalypse Now foi exibido, pela primeira vez, no Festival de Cannes. Não era exagero. As filmagens duraram aproximadamente 16 meses e quase levaram o cineasta à loucura, com problemas atrás de problemas. Martin Sheen, que passou 90% do tempo bêbado, sofreu um enfarto fulminante (e chegou a ser declarado clinicamente morto num hospital local); Dennis Hopper, provavelmente drogado durante toda a filmagem, recusava-se a tomar banho para melhor interpretar seu personagem, um fotógrafo que estava na selva há meses; Marlon Brando – que não havia lido o livro ou o roteiro – estava acima do peso e assumiu uma postura totalmente incomunicável nas filmagens. Havia, também, as questões “ambientais”: o governo das Filipinas emprestou helicópteros para as filmagens, mas regularmente requisitava as aeronaves para bombardear focos de guerrilha detectados a poucos quilômetros de onde estava a equipe; e a produção quase foi cancelada quando, após poucas semanas de filmagens, um tufão destruiu todos os sets.

Tudo convergia para um dos maiores fracassos da história – isso, claro, se o filme realmente chegasse a ficar pronto, algo que muita gente duvidava. Porém, o caos das filmagens acabou sendo o grande trunfo do filme. A jornada do Capitão Willard (Sheen), que recebe a missão de exterminar certo Coronel Kurtz (Brando), herói de guerra que aparentemente enlouqueceu e fugiu para o Camboja, onde vive em meio a nativos que o adoram como um deus, é um mergulho no coração do inferno que foi a guerra do Vietnã, e a produção conturbada apenas contribuiu para a obra ganhar ares de pesadelo, com pitadas de loucura em praticamente todas suas passagens.

A insanidade da trama e do universo em que ela se situa está presente em várias camadas do filme, que, curiosamente, segue uma narrativa totalmente linear, acompanhando o barco no qual Willard navega (ao lado de um grupo de soldados) rio acima, ao encontro de Kurtz. Há, antes de mais nada, a loucura do ambiente. As florestas são formadas por vegetação espessa e impenetrável, repleta de árvores com dezenas de metros de altura, numa espécie de desafio darwiniano para os personagens, sempre mostrados de forma indefesa e desprotegida dentro desse cenário. Há a loucura individual, visível tanto no comportamento dos soldados que viajam ao lado de Willard, que não compreendem qual papel desempenham ali (e não se importam muito com isso), quanto no comportamento de diversos personagens que cruzam o caminho do capitão, como o coronel surfista interpretado por Robert Duvall ou o fotógrafo vivido por Dennis Hopper. E, por fim, há a loucura do conflito em si, que rende algumas das cenas mais impactantes da obra, como a emblemática seqüência do ataque de helicópteros a uma vila, ao som de A Cavalgada das Valquírias, de Wagner; as cenas de combate ambientadas na ponte Du-Long, que lembram mais um misto de ópera com pesadelo que um mero filme de guerra, ou mesmo o show das coelhinhas da Playboy numa base militar próxima ao front, que deixa clara a frágil imbecilidade americana em relação ao conflito.





















Todas essas loucuras, em suas diversas formas e intensidades, infestam o Capitão Willard. Ao contrário do personagem central do livro de Joseph Conrad – um marinheiro que vive alheio à civilização e descobre o horror do mundo em que vive apenas quando encontra o Kurtz original –, o militar interpretado por Martin Sheen (acima), está em contato com a degradação da humanidade desde o início do filme, apesar de relutar em aceitar totalmente essa idéia. Impregnado pelo absurdo da guerra até a alma, vive em intenso conflito entre o que sempre acreditou e o que viu nas selvas do Vietnã, algo explicitado logo em sua primeira cena, quando totalmente bêbado, assume posição de combate e esmurra um espelho, cortando sua mão e caindo no chão numa espécie de catarse.

Em poucos minutos, Coppola definiu o personagem central: um soldado que provavelmente viajou para o Vietnã acreditando estar agindo corretamente e que se torna extremamente perturbado ao entrar em contato com a boçalidade de uma guerra protagonizada por meninos de 17 anos e regada a drogas e rock’n’roll. A guerra de Coppola não é banalizada. Ela é imbecilizada da forma mais violenta possível e Willard é totalmente afetado por isso. Ele sabe que os Estados Unidos perderão a guerra, e que ao fim da guerra, os soldados americanos não encontraram o lar que tanto sentem falta, pois ele já retornou para casa uma vez, e sabe que esse suposto lar “não existe mais”. Em seu exterior, Willard continua sendo um soldado, pois provavelmente não sabe agir de outra forma, chegando a assassinar friamente uma mulher ferida, pois ela poderia atrasar sua missão. Internamente, porém, é um homem afetado pelo ambiente em que está inserido, tentando ao menos compreendê-lo de alguma forma.

E, claro, há a loucura de Kurtz. Enquanto Willard tenta compreender a realidade que o cerca, Kurtz compreendeu. E “enlouqueceu” (pelo menos de acordo com os militares americanos). À primeira vista, Kurtz seria a própria Guerra do Vietnã: desprovida de sentido, violenta e ambígua. Numa análise mais cuidadosa, fica claro, porém, que ele é uma metáfora do idealismo americano. Herói de guerra e militar de carreira, o personagem de Brando mergulhou de tal forma na guerra que não consegue mais enxergá-lo por outro prisma que não a loucura.

Sua cena mais famosa, onde ele discursa para Willard sobre o horror da guerra (cuja iluminação ilumina apenas as faces dos dois personagens, mostrando que ambos estão prestes a serem engolidos pelas trevas) deixa claro que ele perdeu totalmente o contato com a civilização e está mergulhado na amoralidade até o pescoço. Kurtz coloca o “terror moral” e o “horror” como elementos essenciais para que a civilização seja preservada. Ele não está louco, mas entendeu a imbecilidade não apenas do conflito em si, mas da política externa norte-americana, pintada de cores hipócritas e amorais, resolvendo não fazer parte desse esquema, criando o seu próprio mundo. O pecado do coronel não foi enlouquecer, mas questionar o sistema no qual foi criado. Justamente por isso ele precisa ser eliminado.


O horror ao som de Wagner

Aos olhos dos militares, Kurtz é algo nocivo e embaraçoso, que precisa ser exterminado. Aos olhos de Willard, ele é a síntese do que pode ser visto ao seu redor: um cenário amoral, impregnado pelo horror da guerra, totalmente desprovido de esperança. Durante todo o filme, fica a dúvida se ele irá cumprir sua missão e eliminar o Coronel, ou se irá se juntar a ele, já que, conforme tenta entender as motivações da suposta insanidade de Kurtz (algo que o faz se aproximar cada vez mais da sua própria insanidade), ele acaba dando cada vez mais razão ao coronel. E, mesmo quando Willard acaba assassinando o personagem de Brando (mais por piedade que pela idéia de cumprir suas ordens, justificando para si próprio que “Ele, principalmente [quer que eu o mate]. Sinto que ele está lá em cima, esperando que eu acabe com sua dor. Ele quer apenas morrer como um soldado, e não como um pobre e desgraçado renegado. Até a floresta o quer morto.”) este problema continua sem solução.

O filme traz um final totalmente aberto. Willard não assume o lugar de Kurtz e vai embora, mas o filme nunca deixa claro se ele retorna ou não à civilização. A única conclusão que Apocalypse Now fornece é através da repetição das palavras “O horror... O horror...” na voz de Brando, ao mesmo tempo em que o barco do capitão lentamente abandona aquele inferno e inicia sua jornada de volta.

O Coronel Kurtz está morto. Mas tudo o que ele representa continua vivo. Não apenas no mundo mas, principalmente, em Willard.

Kurtz (Marlon Brando): Eles lhe disseram, Willard, porque querem exterminar com meu comando?
Willard: (Martin Sheen): Eu fui enviado numa missão confidencial, senhor.
Kurtz: Bem, ela não é mais confidencial, certo? Eles lhe disseram?
Willard: Disseram que o senhor havia se tornado totalmente insano e que seus métodos eram errados.
Kurtz: Meus métodos são errados?
Willard: Eu não vejo método algum, senhor.
Kurtz: Eu esperava alguém como você. O que você esperava? Você é um assassino?
Willard: Eu sou um soldado.
Kurtz: Você não é nenhum dos dois. Você é um garoto, enviado pelos donos da mercearia, para cobrar uma conta.


5 Curiosidades Sobre Apocalypse Now
1. Diversos atores foram sondados para o papel do Capitão Willard, como Steve McQueen, Al Pacino e Jack Nicholson. Harvey Keitel chegou a assinar contrato, mas, após duas semanas de filmagens, foi substituído por Martin Sheen

2. Durante as filmagens da seqüência do filme (que foi a última seqüência a ser filmada), Martin Sheen estava realmente bêbado e cortou a mão ao esmurrar o espelho. Na mesma filmagem, tentou agredir o diretor Francis Ford Coppola.

3. Orson Welles pensou em fazer uma adaptação do livro O Coração das Trevas como seu primeiro projeto no cinema, mas desistiu da idéia, acabando por realizar Cidadão Kane.

4. Coppola, que investiu seu próprio dinheiro para finalizar o filme e, perdeu 45kg e ameaçou cometer suicídio diversas vezes durante as filmagens.

5. Como Marlon Brando sequer havia lido o roteiro quando chegou aos sets, Coppola passou quatro dias lendo o romance O Coração das Trevas em voz alta para o ator, que acabou improvisando a maioria de suas cenas.

24 de outubro de 2006

Cartas dos Leitores

De volta à nossa programação normal, vamos esclarecer a dúvida de uma leitora.

Misteriosa Invisível, que escreveu de... Bem, não sei de onde ela escreve, afinal, ela é misteriosa E invisível, perguntou, em relação ao último post:

"O que você tem contra Paulo Coelho?"

Resposta: Nada, nem conheço o sujeito. Já contra os livros dele... Hum... Deixa pra lá.

Animal Planet

Eu sempre gostei de assistir documentários sobre animais. Quando eu estava no colegial, minha receita ideal para dormir a tarde era comer feito um débil-mental e sentar na frente da TV, ligar na Cultura e assistir aqueles documentários sobre pingüins, lhamas e outros bichos estranhos que passavam na estatal. Era tiro e queda. A mulher falava (com aquela voz didática, de quem também estava quase dormindo) algo como "As lhamas saem para tomar Sol pela manhã", e logo em seguida, tínhamos uns 15 minutos de lhama tomando Sol, sem música, nem nada. Só o barulho do vento. 3 minutos depois, a lhama ainda estava ali, tomando Sol, e eu babando no sofá.

Enfim, quando a TV a cabo chegou ao Brasil, eu praticamente dei a volta olímpica em volta do sofá de felicidade. Sim, Cartoon Networks, Telecines, SportTVs da vida (a ausência da MTV nessa lista não foi distração) e Discovery Channel! Animal Planet! National Geographic! No começo era uma festa, eu assistia a todos os programas de bichos, de aranhas a ursos polares, de lacraias (não, não é o do McSerginho e Lacraia... estou falando de outro bicho, um pouco mais racional) a coalas. Porém, algo começou a chamar a minha atenção: os leões e gazelas estão para esse tipo de programa como o Charles Bronson está para os filmes do Domingo Maior: dia sim, dia não, lá estava a (mesma) leoa atacando a porra da gazela. Quando muito, era variava o cardápio mandando ver num gnu.

Das duas, uma: ou mais da metade dos animais do planeta são leões e gazelas, ou esse pessoal anda meio sem criatividade. Porque não lançam logo um Best Of com os melhores momentos de Leoa X Gazela e partem para outros bichos? Porra, o Cara lá de cima passa seis dias criando bichos e mais bichos, não é possível que só a merda da leoa que dá IBOPE. Enfim, aos poucos, fui abandonando o hábito de fuçar nos canais de documentários atrás de animais estranhos. Deixei isso totalmente de lado.

Isso, claro, até me mudar para Pinheiros.

Meu novo bairro dá um baile em qualquer "Maratona Animais Exóticos" desses canais a cabo. Isso porque Deus, certamente, usou isso aqui como campo de testes enquanto criava as espécies que iriam habitar o planeta. Ou como um depósito para idéias não aproveitadas. Ao invés de amassar os projetos e jogar fora, ele guardava tudo aqui - vai saber se um dia alguma criatura dessas não teria uma utilidade? Imagino Ele discutindo o layout com o Anjo que cuidava da arte:

"Coloca um rastafari e uma camiseta do Che Guevara. Não, não ficou legal. Hum... E se colocarmos um... deixa eu ver... Uma águia tatuada no peito? Uma águia, a gente criou isso semana passada. Dá um copy-paste no peito dele, quero ver. Isso, pinta de laranja. Não... Ah, foda-se, esquece esse aí. Joga lá em Pinheiros, vamos começar outro do zero".

E, assim, Pinheiros foi servindo como depósito de diversas criaturas que derrubariam o dogma de que Deus escreve certo por linhas tortas. Basta andar por dois ou três quarteirões da Teodoro Sampaio para ter a certeza de que, sim, Deus também erra. Exemplares únicos de animais fadados ao esquecimento caminham pelo bairro, transformando aquele pedaço do planeta numa espécie de “Babel” ou “Terminal Tietê em dezembro” dos animais. Então, acredito, Deus achou melhor nem mexer mais naquilo, deixa como está mesmo.

Justamente por causa disso, Pinheiros manteve-se alheio à evolução das espécies. Diversos animais claramente oriundos de outras eras co-habitam o local com espécies mais recentes, cada um aguardando por um lugar ao Sol nos livros de zoologia.

É o caso do Rei da Teodoro Sampaio, bípede que tive a sorte de observar algumas vezes. Trata-se de um organismo de pelos menos 60 anos de idade, cabelos brancos abaixo dos ombros e que apresenta, como exoesqueleto, uma camiseta do Judas Priest com a letra de Victim of Changes escrita nas costas. Um dia, ele estava discutindo com um sujeito que tem uma barraca de frutas do lado de casa e peguei apenas uma frase da briga: “Qualquer coisa, fala comigo! Eu sou o Rei da Teodoro, o que eu falo aqui, é ordem”. Na boa, fiquei até com medo.

Atravessei a rua no pau, com cuidado para não ser visto, mas satisfeito por ter identificado o (auto-proclamado) rei dos animais de Pinheiros. Então, é ele quem manda no pedaço, ditando ordens para todos os outros bichos, como os hippies de cabelos brancos e sandálias de couro compradas em 1968; as velhas de mais de 50 anos com tatuagens gigantescas (e desbotadas) no ombro que vagam pelos corredores do Pão de Açúcar pela madrugada; os organismos de idade incalculável devido aos dreadlocks (que, certamente, servem como lar para dezenas de outros organismos) caídos pelo rosto e que se arrastam, sempre na direção da feira da Benedito Calixto. Todos eles obedecem ao Rei de Pinheiros, que mantém a ordem local com sua vasta cabeleira branca e a camiseta do Judas.

Outro digno de destaque é o Curandeiro. Também bípede, tem sua toca no Largo da Batata, onde aproveita para comercializar ervas que colhe ao lado da sua caverna para os outros animais. Outro dia, passei em frente ao seu esconderijo, e ele havia colocado um aviso novo (sim, alguns dos animais são alfabetizados): “Curamos todas doenças (sic!!!). Espirituais ou Carnais”! Carnais! Um bicho desses tem que ser aproveitado de alguma forma, não pode ficar esquecido assim. Um animal desses tem que ser estudado, o mundo precisa conhecer essa espécie.

Claro que há os animais que aproveitam a ausência de Deus (e provavelmente o fato de que o Rei da Teodoro não deve ser uma das criaturas mais difíceis de ser enganadas) para burlar as leis do mundo exterior. É o caso dos dois paquidermes lésbicos que estavam se beijando na praça aqui em frente, outro dia, no meio da tarde. Nada contra serem lésbicas – afinal, não sei como essa espécie se reproduz. O que chamou a atenção foi a bizarrice da cena. Se bem que, pela envergadura delas, deviam pertencer, no mínimo, ao mesmo filo.

Não vou citar todos. Se eu começasse a discorrer sobre todos eles isso aqui viraria um compêndio de criaturas bizarras. Alguns eu até já mencionei, como os seres do boteco aqui ao lado. Há, nesse mesmo boteco, uma criatura levemente corcunda, cujo organismo é formado em sua maioria por álcool e que, por não ter a sorte de possuir um blog, se comunica com o mundo de outra forma: gritando suas idéias sobre música, cinema, economia e política para os freqüentadores do local, certo de que todos estão interessados. De volta às ruas, há a criatura hermafrodita que tem sandálias de plástico no lugar das patas e vende incenso para os outros animais, numa banquinha improvisada, provavelmente com restos de outros animais; há a vendedora de jogo-do-bicho, que, apesar de suas feições de orc, caminha seminua, fazendo os motoristas do ponto de táxi aqui ao lado entrarem no cio toda terça e quinta.

E há o “carregador de mandioca”. É um organismo de três pernas, levemente parecido com uma combinação humano X carrinho de mão, que passeia pela Pedroso de Moraes quase todos os dias, na hora do almoço, com kilos de mandioca na parte metálica (a que lembra o carrinho). Sempre em silêncio, sempre de cabeça baixa, ele sempre vai com as mandiocas no sentido Cardeal Arcoverde – Inácio Pereira da Rocha. Ele sempre vai, nunca volta. A razão de ele transportar essas mandiocas (Subsistência? Karma? Perdeu alguma aposta com outro animal? Ordens do “Rei da Teodoro”?) permanece um mistério. Talvez seja o motivo dele estar jogado aqui: Deus criou, achou legal, mas, quando percebeu que ele não tinha utilidade nenhuma, o abandonou em Pinheiros.

Isso tudo, claro, sem falar nas sextas e sábados, quando todos os bares de Pinheiros estão abertos. Aí, como diria Robert De Niro em Taxi Driver: “all the animals came out at night”. Azar do pessoal da National Geographic, não sabem o que estão perdendo. Em todo o caso, se houver interesse em produzir um documentário, basta procurar o Rei da Teodoro, porque é só ele quem pode autorizar uma filmagem aqui dentro. Ele é quem manda em Pinheiros. Porque Deus, é claro, já esqueceu isso aqui faz tempo.

5 Melhores Filmes de Charles Bronson (sim, eu citei o Bronson lá em cima, você que não prestou atenção):
1. Era Uma Vez no Oeste
– o melhor western de todos os tempos. Obrigatório.
2. Fugindo do Inferno – ainda é o melhor filme de fugas de todos os tempos
3. Sete Homens e um Destino – do mesmo diretor de Fugindo do Inferno e inspirado em Os Sete Samurais. Já tá bom, né?
4. Desejo de Matar – esqueça as dezenove continuações. O primeiro continua do mesmo nível de Perseguidor Implacável (Dirty Harry, para os leigos)
5. Assassino a Preço Fixo – só a primeira morte, na qual ele coloca um explosivo dentro de um livro, vai para um apartamento do outro lado da rua e atira no livro já valeria o lançamento em DVD.

17 de outubro de 2006

"... Nos teus pés, ao pé da cama"

Não é segredo para ninguém que o mundo está se esfacelando. E, não, não estou falando de Plutão ou do Limbo, estou falando de cultura. O cinema de ontem era melhor que o de hoje, os quadrinhos de ontem eram melhores que os de hoje. Quanto à música... Essa semana, a Veja publicou uma matéria informando que o rock morreu. Bom, isso é matéria de gaveta, né? Porque o rock morreu faz uns 20, 25 anos, isso é notícia velha.

Se vocês acham que sou implicante ou nostálgico, e só colocar no papel. Antigamente, tínhamos Deep Purple, hoje temos The Killers. Antigamente, tínhamos Conan Doyle, hoje temos Tony Belloto. Antigamente, tínhamos Scorsese e De Niro, hoje temos Scorsese e Leonardo Di Caprio.

Antigamente, tínhamos Jack, o Estripador. Hoje, temos o Maníaco do Dedo.

Sim, um dos últimos bastiões da cultura ocidental, o psicopata, aquele que expõe o lado mais negro da alma humana e que serve como base para os roteiros de 8 entre 10 filmes exibidos no Supercine ganha seu novo representante: o indíviduo acima citado, que agora faz companhia a Jack, Jeffrey Dahmer, Charles Manson, Sam, ao brazuca Bandido da Luz Vermelha e a tantos outros.

Caso você teve preguiça de clicar no link acima, explico: o sujeito invade a casa de moças desavisadas, no silêncio da madrugada, para... chupar os dedos dos pés das vítimas. A pessoa está lá, dormindo, e, de repente acorda com o figura ao pé da cama, lambendo seus pés. Ou, aqueles que têm sono mais pesado, acordam de manhã e dão de cara com a frase "çeu pé é uma dilíssa!" (por mais que eu tente, eu não consigo imaginar uma pessoa dessas escrevendo corretamente) na parede e os dedos todos melados de baba. Ah sim. Ele ainda rouba alguns objetos da casa (meias sujas, acredito) antes de ir embora. Afinal, ele já está lá mesmo e ninguém é de ferro, né?

Tudo bem, Jack tinha mais classe. Charles Manson era mais ousado. Mas não nego que nosso amigo inventou uma estratégia criativa. Para que eliminar as pessoas com 39 facadas se você pode matá-los de nojo e/ou cócegas? Faz menos sujeira e não precisa gastar dinheiro com facas, bisturis e afins. O problema é que não deu muito certo, pelo menos em termos de mídia. Enquanto Jack, Manson, Dahmer, Sam ganham livros, teses e versões cinematográficas de suas histórias, o Maníaco do Dedo ganhou uma nota no Terra. Ele é o indie dos serial-killers.















Ele não é má pessoa. Apenas quer ser
deixado em paz com suas paixões.

Porém, o Maníaco do Dedo não mede esforços para entrar nos anais do crime. O mais novo astro da criminologia já contabiliza 22 vítimas. Isso até onde se sabe, pois, de acordo com um investigador, "muitas vítimas sentem vergonha de relatar o crime". Vergonha de relatar o crime porra nenhuma, aposto que devem ter chulé. Ou isso, ou gostaram da coisa. Nunca saberemos ao certo.

Enfim, só o esforço do coitado (afinal, 22 vítimas equivalem a 44 pés, contendo 352 dedos normais e 88 dedões - uma marca considerável) já justificaria um pouco mais de reconhecimento da mídia. Já tem tanta bobagem sendo feita mesmo, um Supercine ou um Domingo Maior não iria machucar ninguém.

O problema é que nem a polícia ajuda a aumentar a popularidade do cara. Para enjaular a besta, as forças policiais cariocas adotaram a tática do desprezo. ""Estivemos na casa dele duas vezes, mas ele não estava. Um pedreiro informou que ele havia saído muito cedo, por volta das 5h", informou o investigador. Pelo visto, nem recado deixaram. Em outras palavras: "Porra, fomos lá duas vezes e ele não estava. Sacanagem. Se ele quiser ser preso, ele que venha aqui, agora. Não vamos mais ficar correndo atrás".

Ou seja, nem a polícia está aí com esse cara. Isso, claro, até ele lembrar que a Cicarelli tem seis dedos, como foi amplamente noticiado pela mídia.

Aí, quero ver alguém manter esse maluco longe da ex-Sra. Gordo. Posted by Picasa

5 Psicopatas que realmente colocariam medo na população (e suas alcunhas, claro)

1. O Alquimista Mortal- Invade a casa das suas vítimas, de madrugada, e após amarrá-las na cama, lê as obras completas de Paulo Coelho em voz alta.
2. O Endiabrado do Forró- Espera os donos da casa viajarem e, invade o recinto. Liga um disco do Frank Aguiar no máximo, coloca no repeat e vai embora. Normalmente, suas vítimas são obrigadas a se mudarem após o crime.
3. O Maníaco da Tela Quente - Amarra suas vítimas e as leva para sua casa, colocando-as de frente a uma parede repleta de televisões exibindo programas do Gugu e do Faustão ininterruptamente. Se a pessoa não cometer suicídio, ele apela para Raul Gil e João Kléber.
4. O Bandido do Volume Máximo- Captura suas vítimas na rua e, após levá-las para o porão de sua casa, tenta estabelecer uma conversa com elas usando expressões como "só", "si pá" e "mó loco". Cada vez que elas não respondem, ele sai xingando, bate a porta do quarto e liga o som no máximo, deixando-as sozinhas por horas, ao som de Evanescence.
5. O Fofoqueiro de Plantão- passa semanas investigando a rotina e os nomes dos moradores de um quarteirão. Quando está municiado de informações, começa a pichar pelos muros do lugar mensagens como "O Antônio da farmácia acha que a esposa do Roberto é um tesão" e "A Zelda do número 314 reclama que o marido não dá no couro".

12 de outubro de 2006

Coisas da Vida II

Essa aconteceu faz tempo. Lembrei dela quando citei o Largo da Batata, no post anterior. Eu estava numa ruazinha que tem ali do lado, atrás do mercado de Pinheiros, esperando o ônibus. De repente, passa uma criatura vagamente semelhante a um humano, correndo pela rua. Nem dei atenção. Uns 2 minutos depois, ele volta e, meio aflito, vira-se pra mim e diz:

– Ele não está mais lá!, ele disse, como se eu não apenas tivesse alguma idéia do que ele estava falando, mas também pudesse fazer algo por ele.
– ... Oi?
– Ele não está mais lá!
– Não?
– Não! E ele disse que ia estar lá!
– Filho da puta, hein?
– Porra, e agora eu tô aqui!
– Isso não se faz. Sacanagem.
– Não sei o que faço, agora!
– Vai lá de novo. Vai ver ele está lá, escondido, só pra te sacanear!
– É, né?
– Corre lá!
– Filho da puta! Vou lá agora!

E saiu correndo de volta. Sabe-se lá pra onde.

Leia o próximo post dessa série aqui.

O Limbo... No Limbo

É impressão minha, ou estamos passando por uma faxina geral no Universo? Primeiro, foi Plutão. Agora, é o limbo. Nada me tira da cabeça que isso é politicagem. Desapropriam um planeta e agora, uma das opções para as pessoas irem após a morte. Tem cheiro de corte de gastos.

Em todo o caso, agora é oficial: não há mais limbo. Depois que você morrer, anote, aí, as opções são Paraíso, Inferno e Purgatório, que é mais ou menos como uma faculdade de administração. Quem não sabe direito o que quer da vida, vai para lá. O limbo, por sua vez, era apenas o destino de crianças e os fetos não batizados. Dá até para entender. Imagina a reunião onde foi decidido isso.

– Precisamos reduzir os custos, diz o Papa.

– Ou aumentar os lucros. Podemos começar uma nova cruzada.

– Não, nem pensar. Dá trabalho demais. Vamos cortar gastos.

– Porque não demitimos alguns santos? Ou terceirizamos os anjos. Todos tornam-se freelancers, e nos livramos dos encargos sociais.

– Você está louco? Se isso vazar para a imprensa, vai dar uma merda gigantesca. Deixa eu ver o orçamento de novo... Olha aqui. Olha o que gastamos de manutenção anual! O que é esse número aqui?

– É o limbo.

– Como assim, o limbo? Isso ainda existe?

– Sim, senhor.

– Olha isso. Zelador. Dois porteiros. Luz. Água. Eu não vou manter isso por causa de meia dúzia de crianças. Cancela essa merda.

– Mas, Eminência, e as crianças?

– Joga lá no Puragatório, ninguém vai nem perceber. Ou traz para o Paraíso mesmo. Aquilo está vazio demais, precisamos justificar os gastos com aquilo. Não esquece de colocar isso na ata. Não há mais limbo.

E, pronto. O limbo, lugar que servia de residência para crianças e cantores que não emplacaram mais de um sucesso, deixou de existir. As crianças vão para o Paraíso e "personalidades" como Sidney Magal, Odair José, Naim, Sandra de Sá, Araken, o Showmen! e Kléber Bam-Bam voltam para a Terra (ou seja, para variar, quem se fode somos nós). Só escapa o Oswaldo Montenegro, que vai para a Terra-Média onde tranquilamente vai arrumar um trampo de Gandalf. E, claro, os Capital Inicial e Titãs da vida, que já haviam deixado o limbo devido aos malditos Acústicos MTV.

Curioso que quem "criou" o limbo, de acordo com a notícia, foram santos. São Gregório e Santo Agostinho. E o Papa acha que sabe mais que os caras, que, teoricamente, são chefes dele. São Tomás de Aquino, então, dizia que o limbo "era um lugar de felicidade total, porém afastado da presença de Deus". Me cheira a putaria. E, foda-se o que o Papa pensa, putaria está longe de ser ruim. Ou seja, pra que cancelar? deve ser divertido, e não está incomodando ninguém ali!

Mas o mais interessante é o motivo alegado pelo Papa para acabar com o limbo. "O limbo sempre foi uma hipótese". Ah... Então o Paraíso, o Inferno e o Purgatório existem! Eles não são hpóteses, eles são de verdade. Aquele lance dos anjinhos tocando harpa, é verdade mesmo! O inferno também! É de verdade! Genial. É um lugar físico e existente, não é uma hipótese. Resta saber agora, onde fica o Inferno. Eu voto no Largo da Batata as 18:00.

Enfim, pelo menos temos uma boa notícia com essa história: "Segundo uma comissão de teólogos que estuda o caso, Deus deseja que todas as almas sejam salvas." Ou seja, a vantagem do empate é nossa. Ele quer salvar a gente, independente das cagadas que a gente faça". Beleza. De acordo com a própria Igreja, posso pecar à vontade agora, que Ele segura a onda lá na frente pra mim.

Aliás, essa é a grande vantagem de ser católico. Você se confessa no domingo, limpa sua barra com o povo lá de cima, e pode pecar a semana inteira novamente. Se bem que eu sempre achei que o Inferno deve ser um lugar onde todo mundo anda pelado, ouvindo Led Zeppelin e enchendo a cara. Pensando bem, Deus, relaxa. Vai se preocupar com outras coisas e deixa que eu resolvo onde vou.

Afinal, como o Pacino disse em Advogado do Diabo (e se foi o Pacino que falou, deve ser verdade): "livre-arbítrio é uma merda". Então, ok. Vou jogar pelas suas regras.

Galera, prepara a cerveja!

5 Lugares que deveriam ser erradicados, como o Limbo:

1. O Largo da Batata - passa lá qualquer dia que você vai entender.
2. As Lojas Americanas na semana do Natal - a maior concentração de pessoas por metro quadrado
3. O Estádio do Corinthians - ah, não...esse nem existe. Esquece.
4. O escritório do Paulo Coelho - sim, isso inclui o computador dele. e o Word. E os arquivos salvos. E o rascunho do próximo livro.
5. A Casa do Big Brother Brasil - já que não há mais limbo, não há razão para ter o principal fornecedor de futuros habitantes do limbo. Mas o Pedro Bial TEM que ir junto.

As Mulheres de Chico

Após um longo e tenebroso onde trabalhei feito um cão e ainda tive uma gripe que me fez comprar um pacote de expansão para o termômetro, estou de volta. Sem mais delongas, vamos colocando a vida em dia.

Ontem, fui ao show do Chico Buarque. Sim, sim, pode parecer difícil de me ver num show do Chico depois das bandas que eu já discuti aqui no blog, mas Chico é foda. Sempre fui fã do cara, desde que coloquei as mãos no K7 de Construção do meu pai. Inclusive, sou da opinião que a MPB se divide em dois grupos: 1 - Chico Buarque e 2 - O resto. Enfim, não vou macular um post sobre Chico Buarque citando os malas da MPB (especialmente aquele que se expressa num idioma próprio, sempre citando a porra da baianidade; e o mala do Coringa, que acha "tudo lindo").

Enfim, ontem eu fui ao show. Eu não estava com saco de ficar disputando ingressos no tapa para as primeiras datas da turnê e esperei. Dei sorte de ele fazer essa apresentação extra para a gravação do DVD. Ou seja, todo mundo que jogou na minha cara que tinha ido no show e eu nao, quando vocês comprarem o DVD, daqui a alguns meses, lembrem-se disso: sim, vocês estarão assistindo a um show igual ao que vocês foram. E estarão assistindo ao show que eu fui. Ou seja: chupa, todo mundo (menos as pessoas que me falaram "que legal, você vai adorar!")

Anyway, ao show em si. Chico Buarque tem dois problemas.

O primeiro é o mesmo problema que Ray Charles tinha: se ele fizer um show com todas as músicas fudidas, o show teria que durar uns dois dias e meio (isso sem falar no bis, que, sozinho, deveria ter o tamanho de um show do Caetano Veloso - ih... falei o nome. Merda). Então, não importa o que ele toque, sempre irá faltar algo. A vantagem é que, como ele é o Chico Buarque, não importa o que ele tocar, vai ser bom.

Claro que tocam várias músicas do disco novo, Carioca (que eu não comprei), mas os (poucos) classicões que entram no setlist, especialmente A Bela e a Fera e Na Carreira (do tesudíssimo O Grande Circo Místico) e Bye Bye Brasil (que meu irmão ouviu pelo menos metade, via celular) ajudam um bocado.

Agora, Chico, na boa... E Construção (tanto o disco como a música)?? Porra, Construção é o melhor disco dele e não entrou no show! Eu ainda vou encontrar esse cara na rua, colocar uma arma na cabeça dele e mandar "Ou canta Construção, ou já era! Inteira, com todas as mudanças de letra de uma parte para outra!" E, tenho certeza de que se ele começar a cantar, ninguém na rua vai me impedir ou chamar a polícia - pelo contrário, vão parar pra ouvir. Eu iria também. Enfim, fica aqui a sugestão: já que é moda artistas fazerem shows, agora, interpretando um disco clássico na íntegra, chico poderia muito fazer um Construction Live ou algo do gênero. Eu iria, e em Cotidiano, eu já estaria sem voz. Aliás, nada me tira da cabeça que ele não tocou porque o show (e o disco) chama Carioca. Se chamasse Paulista, aposto que rolaria Construção, Deus lhe Pague, Samba de Orly e até mesmo Roda Viva no bis.

Enfim, sem problemas. Teve muita música. Afinal, Chico Buarque é o cara mais eficiente do mundo. Graças à timidez dele, Chico simplesmente não fala no show ("não posso errar a letra e nem ficar suado, porque estou gravando", foi a única frase além de dois ou três "obrigado São Paulo" que ele soltou no show), emendando uma música com outra. Não é arrogância, é timidez. Isso fica claro toda vez que o público aplaude, e ele olha para baixo, sorrindo. E a platéia aplaude mais ainda. Ou seja, o cara escreve melhor que eu, joga futebol melhor que eu, e é tímido com mais classe que eu. E ainda tem olhos verdes. É foda, não dá competir. E, na boa... Quando ele entra no palco, tímido ou não, ele podia dar aula de carisma para qualquer atorzinho da Globo. Bom, é o Chico, né?

Agora, o segundo problema do Chico. A classe e o carisma dele são inversamente proporcionais aos de boa parte do seu público. Uma vez, uma amiga minha disse que existem dois tipos de mulheres no mundo: “as que já deram para o Chico, e as que querem dar para o Chico”. Ok. Mas, no show de ontem, eu identifiquei quatro tipos de mulheres:

1 – As que gostam (de verdade) de Chico. Ocupam pelo menos metade da platéia. Assistem ao show deslumbradas, não tiram o olho dele e cantam TODAS as músicas junto. Chegam a chorar de emoção por ele estar ali, na frente deles, cantando Eu te Amo ali, na frente deles. Podem não ter todos os discos, mas pagaram para ver AQUELE cara cantar. Se fosse um show do Djavan, não iriam. Não queriam ir a um show, queriam ir a um show do Chico.

2 – As que querem que o mundo saiba que gostam de Chico. Como Chico Buarque está na mídia, graças ao disco novo e ao show, elas vão usar isso como o seu grande diferencial na faculdade. “Eu fui no show do Chico. Vocês, não. Eu sou foda.”, ela vai dizer pras amigas, com ar de superioridade. Ou seja, se fosse Caetano Veloso (foda-se, já falei o nome dele mesmo), elas iriam. Não estão ali para ver Chico Buarque, estão ali para ver o show do momento. Claro que conhecem uma ou outra música, mas não sabem diferenciar A História de Lily Braun de Futuros Amantes. Para elas, foi apenas mais um show, que, independente dela ter gostado ou não, ela vai sair falando que “foi do caralho”, para humilhar ainda mais as amigas que não foram. Ah, sim, vão colocar uma foto do show no orkut, dizendo que realizaram um sonho antigo ao ver Chico ao vivo, e coisas assim.

3 – As mal-comidas. São aquelas que estão ali para pegar homem. Como vai ser bem difícil chegar perto daquele cara de olhos verdes cantando em cima do palco, qualquer outro serve. Normalmente, são aquelas peruas velhas, que passaram perfume com Vaporetto antes de ir ao show. Umas três ou quatro delas ainda passavam o ridículo de gritar “Gostooooso!!!” entre uma música e outra. Acho que não tinha como ser mais ridícula. Das duas, uma: ou a maior qualidade que ela vê nos 40 anos de carreira do Chico é a sua suposta gostosura, achando as letras da música apenas um detalhe; ou essa é a maneira que a espécie dela encontra para atrair os machos ao redor, para acasalamento. Enfim, a noite de uma delas deve ter passado em branco, quando ela gritou “Gostoooso!” no final de uma música e a única resposta que ela recebeu foi um “sssshhhh” de metade da platéia.

4 – A imbecil. Estava do meu lado. Era uma criatura que mesclava algumas características do grupo 2 (não sabia direito onde estava) e do grupo 3 (não aparentava ser uma das mulheres mais difíceis do mundo). Enfim, quando começou o show, ela se levantou – só ela, Chico Buarque e o cara do contrabaixo estavam em pé – e começou a sambar. A sambar! Provavelmente, estava tão maconhada que achou que estava num sambão da Ibirapuera. Detalhe que nenhuma das músicas era samba e ela ali, se sentindo “A” passista. Felizmente, na quinta música, ela viu que não estava fazendo muito sucesso, já que as pessoas continuavam olhando o Chico, e não para ela, e foi se sentar. Mas, pelo jeito, ela fez escola. Na segunda metade do show (não lembro em que música), um casal perto de onde eu estava levantou e começou a dançar, como se estivessem num show do Frank Aguiar. Pronto, virou gafieira. Ainda bem que o Chico não viu isso. O cara já é tímido, iria morrer de vergonha.

Ah, sim. Antes do show, o Tom Brasil fez o jabazinho habitual e passou, no telão, quais seriam os próximos shows. Entre eles, Lenine (que é igualzinho ao Gary Oldman em Drácula), Skank e Deep Purple. Eu sei que é até heresia colocar Skank e Deep Purple na mesma frase, mas, enfim: adivinhem qual será meu próximo show?

5 Melhores Músicas de Chico Buarque (sem contar nenhuma que esteja em Construção – mas já aviso que essa lista muda toda hora)
1. Geni e o Zeppelim
– tudo o que Faroeste Caboclo queria ser
2. O Que Será (A flor da Terra) – uma música que rima as palavras alcovas / trovas / tocas é motivo suficiente para o Humberto Gessinger desistir de tudo e montar um comércio qualquer.
3. Trocando em Miúdos – quem nunca passou por isso?
4. Beatriz – Como alguém pode ter percebido que a palavra "atriz" está dentro do nome do Beatriz?
5. Roda Viva – a versão com o MPB4 é uma das mais paudurecentes do universo.

5 de outubro de 2006

Pensamento do Dia

(levemente adaptado - o original foi proferido no msn)

"Os muçulmanos morrem por Alá. Os bascos morrem pela independência. No Brasil, as pessoas morrem num show do RBD."